Por Biko Agozino

Hollywood espera aplausos a personagens africanos estrelando como super-heróis, mesmo quando os papéis a que foram designados incluem o genocídio de seus pares africanos em meio à promoção sutil de interesses colonialistas.

Filmes hollywoodianos deveriam sempre ser acompanhados por um alerta do Ministério da Saúde voltado a pessoas de ascendência africana: “Cuidado com a Ideologia da Estética”, como diria Terry Eagleton. Com todo o sensacionalismo, Black Panther: Long Live the King [Pantera Negra: Vida Longa ao Rei] cai neste tipo manipulativo de guerra ideológica, e deveria ter o subtítulo Down With The King [Abaixo o Rei] por filiar-se àquilo que Wole Soyinka despreza como a pseudo-tradição do neotarzanismo.

O diretor e co-roteirista Ryan Coogler, fã de quadrinhos voltados para negros, impôs-se a tarefa de fazer de Pantera Negra um filme excitante o suficiente para a maioria (especialmente para os fãs na comunidade negra), pretendendo catapultar a pré-venda de ingressos a níveis sem precedentes nos filmes da Marvel. O filme presenteia crianças negras com heróis que parecem, falam e se vestem como elas, e tenta desafiar os estereótipos que mostram a África como um continente pobre. Esteticamente, o filme pode ter conseguido este objetivo graças à impressionante produção de Hannah Beachler, que também produziu o clipe Lemonade, de Beyoncé; além disto, a linha narrativa de africanos lutando em guerras genocidas em torno da disputa pelo trono estourou os recordes de bilheteria, provando que histórias africanas vendem; contudo, o filme é muito ruim.

O elenco tem uma guarda pretoriana feminina como a de Gadhafi, comandada pela general Okoye (Danai Gurira), louvada por revolucionar os papéis femininos e levá-los além daqueles de esposas, gostosonas, bruxas e prostitutas. Foram também inovadores: o uso do conhecimento herbal africano nativo para curar os feridos; o emprego de idiomas africanos com legendas; o engajamento de Nakia (Lupita Nyong’o) na libertação das garotas chibok na floresta de Sambisa; e as engenhocas de guerra e transporte construídas pela princesa Shuri (Letitia Wright) – que deu o dedo para seu irmão, T’Challa (Chadwick Boseman), provocando uma reprimenda imediata da Rainha (Angela Bassett). Não obstante, estas inovações parecem ter sido subordinadas às persistentes narrativas do privilégio branco na África. Nakia deveria ter recebido um broche da campanha #MeToo para protestar contra a aporrinhação de T’Challa (que quer que ela largue seu trabalho como espiã de alto escalão para casar-se com ele).

O aviltamento das lideranças africanas começa com a ida de T’Chaka (John Kani) a Oakland para assassinar seu irmão e potencial rival, por suspeitar que ele revelara os segredos tecnológicos das armas de vibranium a um caçador de tesouros boer. Nenhum chefe de estado europeu ou estadunidense aparece, pois a caça a espiões é uma tarefa de muito baixo nível para ser desempenhada por chefes de Estado. Se T’Chaka foi o único a ser esperto o suficiente, ou protegido o suficiente, para ir atrás de espiões, por que ir atrás de seu irmão e matá-lo, ao invés de perseguir os espiões que roubaram o segredo do vibranium?

Eric Killmonger (Michael B. Jordan), o filho do irmão assassinado, agora um mortífero veterano das forças armadas estadunidenses com notória folha corrida no Afeganistão, reaparece com um saco de corpos contendo o cadáver de Ulysses Klaue (Andy Serkis), a quem servira anteriormente no crime organizado. Killmonger matou Zuri, o fautor de reis (Forest Whitaker), quando ele confessou-lhe ter sido o alcaguete a dedurar seu pai a seu tio; depois Killmonger desafiou T’Challa pelo trono e venceu-o, numa narrativa bem ao estilo de Nollywood (ver Charles Okocha como Igwe 2Pac, com caracterização quase idêntica). Killmonger exigiu ser enterrado no fundo do mar como seus antepassados igbo que preferiram afogar-se a serem escravizados, numa referência adequada ao fato de que os igbo também sofreram, durante a guerra de Biafra, com os genocídios fundadores na África pós-colonial.

O príncipe afro-americano regressado foi tido ora como um intruso ou espião estrangeiro (talvez por pronunciar o “T” mudo em “T’Challa” e “T’Chaka”), enquanto um conhecido espião estrangeiro (Martin Freeman, no papel de Everett K. Ross) foi recrutado numa guerra fratricida pelo poder político. Teria sido melhor organizar uma eleição livre e justa e deixar que os africanos escolhessem seus líderes. A proposta de Killmonger, de armar a diáspora africana com armas de vibranium para que pudesse lutar por sua liberdade, foi corretamente rejeitada por T’Challa, que deveria ter observado que a diáspora africana já está armada e seus integrantes já estão matando-se uns aos outros ao invés de promover o ubuntu, a filosofia africana do amor comunitário.

Depois da morte de T’Chaka, T’Challa herdou a tarefa mundana de caçar os espiões sem sucesso até a Coreia do Sul. O resto do filme gira em torno da sua perda do trono para o primo Killmonger antes de ser ressuscitado para um duelo que venceu com a ajuda de Ross, um espião da CIA, posto na condução de um programa de drones que auxiliou no massacre de africanos. Okoye e as mulheres africanas que serviram como guardas lutaram bravamente por quem quer que fosse o rei entronado, mas poderiam ter travado tais batalhas contra os homens para por fim às monarquias e ao militarismo em toda a África e, enfim, institucionalizar democracias descolonizadas em grande escala.

A vasta maioria dos africanos anseia por sistemas democráticos de governo, e não por dinastias que usam a riqueza mineral comum a todos para comprar imóveis nos “guetos” estadunidenses, mesmo que para o honroso objetivo de estabelecer um programa de intercâmbio científico numa quadra de basquete sob a direção de um membro da família real. O filme começou e terminou com crianças afro-americanas jogando basquete em Oakland, Califórnia, e em seguida cortou rapidamente a cena para a África, mostrando crianças africanas pastoreando ovelhas como uma camuflagem a esconder a riqueza e o poder em Wakanda.

Deveria haver escolas e universidades numa África democrática, ao invés do feudo de uma monarquia absoluta, e as crianças da diáspora africana deveriam ser representadas em cenários escolares, onde passassem mais tempo que nas quadras de basquete. Ao invés de mostrar crianças africanas pastoreando ovelhas que podem não sobreviver na extrema claridade solar do continente, o filme poderia ter refletido a violência corrente entre criadores de gado e fazendeiros por toda a África, e tentado resolver tais contradições promovendo o estabelecimento de ranchos. Ao invés de ir à América para fundar um programa de intercâmbio científico no país que lidera a inovação científica no mundo, o filme deveria ter se concentrado no espraiamento das maravilhas tecnológicas e científicas de Wakanda ao resto da África.

Tanto a Disney quanto a Marvel deveriam ter creditado Nnedi Okoroafor, a romancista nígero-estadunidense vencedora de vários prêmios no gênero do futurismo africano, cuja obra aparece refletida por todo o filme. A Marvel deveria ter sido alertada para a possibilidade de a romancista processá-la com base em seus direitos autorais, pois contrataram-na para escrever a versão digital em quadrinhos da narrativa fílmica, publicada em seis partes entre 13 de dezembro de 2017 a 14 de fevereiro de 2018. Em seu Facebook, ela disse ter sido a primeira escritora a usar a frase Long Live the King [Vida Longa ao Rei] numa história em quadrinhos da Marvel; a questão, entretanto, é a seguinte: quem será a primeira pessoa a escrever Freak the King [“foda-se o rei”, em tradução livre] num filme com roteiro pró-democrático que promova a República Popular da África?

Biko Agozino é professor de sociologia e de estudos africanos na universidade Virginia Tech (Blacksburg). Produziu e dirigiu Shouters and the Control Freak Empire, vencedor do prêmio de Melhor Curta Documental Internacional no Festival de Cinema de Columbia Gorge (EUA, 2011). Este artigo, publicado originalmente no blog pessoal do autor, foi traduzido pelo Passa Palavra a partir da republicação pelo site Pambazuka News.

2 COMENTÁRIOS

  1. uma proposta para novos filmes, porque em pouco mais de uma hora e meia não se pode resgatar mil anos de história pouquíssimo contada com o olhar de quem está do outro lado e ainda escrever ficção e não-ficção numa mesma mídia e agradar a todos. Por fim, escrevam os roteiros, e produzam, queremos mais leituras, mais olhares , mais cinema de qualidade.

  2. O vilão da narrativa é o rebelde (de alto desempenho físico e intelectual)
    O herói é o que mantém deliberadamente camadas sociais pobres, para que a riqueza de Wakanda possa existir em paz.
    Quando decide socializar o saber do seu povo, aquele que o vilão queria para armar a luta no mundo inteiro, o faz via ONU.

    Mas é tudo muito empoderado!

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