Por Professor Juca [*]

Nesta semana passei por uma situação constrangedora na escola pública onde trabalho como professor eventual [que substitui professores que faltam; função de contrato precarizado e sem salário fixo]. Na última quarta-feira, ao chegar à porta da escola, um aluno me abordou e disse que havia sido impedido de entrar, pois esteve trabalhando até mais tarde e não conseguiu os documentos necessários para mostrar à secretária e poder entrar atrasado. Em solidariedade fui até à secretaria e falei sobre a situação, e a secretária disse que apenas obedece a ordens. Então, fui até à coordenadora pedagógica, que respondeu que quem cuida disso é a vice-diretora. Ao encontrar a vice-diretora e comunicar o fato, ela informou que o aluno não iria entrar até que um responsável fosse à escola. Eu afirmei que o rapaz havia demonstrado interesse em entrar e que ele tem o direito de acesso ao estudo, mas de nada adiantou, e ainda ela afirmou que é um assunto que não me compete. Essa é a democracia na qual vivemos. Esse é o tratamento que recebe um professor e cidadão da comunidade. Em seguida, me dirigi à sala dos professores.

escolaautoritarismo4Logo após, fui chamado para substituir uma professora que havia faltado. Dei a segunda e a terceira aula. Após o intervalo, fui até à secretaria perguntar se restavam aulas para eu entrar em substituição, e a vice-diretora, responsável pela distribuição das aulas entre os eventuais, informou que não havia aulas para mim. Em seguida, voltei à sala dos professores e estava me preparando para ir embora, quando alunos me informaram que estavam sem professor na sala. Na sequência voltei à secretaria e comuniquei o fato para a vice-diretora e complementei afirmando que ela estava me impedindo de exercer meu direito de trabalhar, pois ela estava dispensando o professor eventual sendo que havia sala sem professor. Ela respondeu que não havia visto a aula vaga no horário e pediu para eu ministrar a aula.

No dia seguinte, a vice-diretora me chamou à sua sala de direção, dizendo que gostaria de conversar comigo. Fui até à sala onde estavam a vice-diretora e a coordenadora pedagógica da escola me esperando para “dialogar”. A vice-diretora afirmou que eu não estava respeitando a ela e a hierarquia e que estava me intrometendo onde não me compete. Já a coordenadora pedagógica disse que eu deveria passar conteúdos referentes à disciplina do professor substituído, seguindo a apostila oferecida pelo governo estadual. Apostila que é em si uma infração a um direito garantido ao professor, que é a liberdade de cátedra, prevista no artigo 206 da Constituição Federal de 1988 e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996), isto sem comentar os erros que as apostilas possuem nas diversas disciplinas. A vice-diretora ainda afirmou que a partir daquele momento as aulas serão atribuídas por ela na secretaria e os professores eventuais não poderão ter acesso ao caderno onde são marcadas as aulas. Por que essa falta de transparência?

Eu disse a elas que nunca desrespeitei ninguém na escola, independente de posição hierárquica. Quando tentei seguir argumentando, a vice-diretora disse que a conversa havia terminado, me interrompendo, e assim saí da sala.

escolaautoritarismo2Será que estamos retrocedendo ao período sombrio da ditadura militar? A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e a Constituição Federal são desrespeitadas aberta e escandalosamente, tudo em nome da manutenção da ordem hierárquica e opressora, e o pior é que ninguém faz nada e todos seguem agindo tranquilamente, como se não fôssemos livres para pensar, opinar e reivindicar nossos direitos perante as autoridades públicas. Até quando vamos ficar levando “tapas na cara”, sem fazer nada?

Sempre pensei, ingenuamente, que a escola pública fosse do povo, e que as pessoas poderiam dar sugestões para melhorar as práticas do dia a dia. Infelizmente, vemos que isso não acontece e professores e funcionários, por falta de conhecimento das leis ou por concordar com essas práticas, não se movem para defender seus direitos e exigir a democratização das relações entre direção, corpo docente, funcionários e comunidade.

escolaautoritarismo3Quando os trabalhadores da educação irão perceber que o autoritarismo só distancia a comunidade da escola ao invés de aproximá-la? A relação entre alunos e escola acaba sendo de submissão, medo e raiva, podendo gerar violência e falta de interesse contra tudo que faz lembrar a escola.

A massa do professorado paulista tem tendências fascistóides. Muitos defendem a volta do regime militar no país. O apoio à polícia por parte dos professores, quando esta reprime protestos e “desce a borracha” nos pobres das periferias, é a constatação da mentalidade autoritária presente entre os docentes. E note-se que os mesmos pobres são os nossos alunos e suas famílias. Os mesmos professores externalizam o sentimento patriótico, quando comentam “o quanto era lindo cantar o hino nacional e hastear a bandeira”. Saudosismo ingênuo que é fruto de um período de opressão ideológica e física, e que eles não perceberam, porque a mídia era censurada, sendo impossibilitada de mostrar os problemas sociais do país e a violência por parte do governo contra quem ousava pensar e se manifestar.

escolaautoritarismo1A sala dos professores é um reduto onde a maioria dos docentes reclama dos alunos e conversa sobre novelas, as mesmas que começaram a ser produzidas durante o regime militar para transmitir ideologia e controle social em frente à “telinha”. Não seria melhor que os docentes lessem livros relacionados à prática educativa?

Finalizo dizendo… “até quando você vai ficar levando porrada, e ficar sem fazer nada?”

[*] Professor numa escola estadual de São Paulo. Para evitar represálias por conta da Lei da Mordaça, o professor usa um pseudônimo.

13 COMENTÁRIOS

  1. Uma das grandes contribuições à ordem que o sindicato dos professores faz é não evidenciar esse papel vigilante e repressor das chefias locais. Focam seus discursos somente em cima da figura do governador e deste ou daquele partido justamente para manter intacta a figura dos gestores internos.

    No entanto, coordenadores, vice-diretores, diretores, supervisores de ensino, coordenadores de oficinas pedagógicas, dirigentes regionais e toda a burocracia que os auxilia constituem os cães de guarda responsáveis por implementar as políticas, modelos de gestão, desenvolvidos pelos tecnocratas que, gestados em grupos de pesquisa na USP e Unicamp, assumem um poder enorme, embora silencioso. Comandam a educação sem passarem por qualquer controle popular.

  2. Caro Prof. Juca,

    Acho que seu discurso está culpando “o sistema” pelo viés equivocado. A atitude autoritária da diretora, ao meu ver, não significa um retrocesso ao período da ditadura militar.

    Para mim, essa intolerância revela apenas o despreparo da profissional que dirige a instituição. O fato de os professores não aproveitarem seu tempo de forma produtiva enquanto reunidos na sala dos professores ressalta o mesmo argumento.

    É falta de preparo e pouco profissionalismo. De qualquer forma, sua iniciativa foi interessante. Parte do insucesso, provavelmente, foi a abordagem inadequada aos problemas, atribuindo argumentos de ordem que não fazem o menor efeito em pessoas que só querem fazer o pouco do serviço que lhe cabem e receber uns trocados no fim do mês.

    A culpa do “sistema”, neste caso, é permitir que pessoas despreparadas assumam posições tão essenciais para construir a sociedade. Mas esse é outro debate.

  3. Quando é que a classe dominada da sociedade em que vivemos irá quebrar a lógica incorporada na velha frase de Marx: “O pensamento dominante de uma sociedade é o pensamento da classe dominante da sociedade”?

  4. Caro Ulisses

    Acho que não tem nada de errado… o sistema está funcionando muito bem! Nesse sistema é de esperar que isso aconteça. E é até bom que uma diretora seja estúpida e mostre a cara, porque as coisas ficam mais transparentes… pior seria um diretor “moderno”, que domina com técnicas sutis de “gestão participativa”…

  5. Na verdade, este seu desabafo mostra exatamente como é uma Escola Pública. Cheia de Regras, geralmente umas desencontradas de outras.
    Um dia se aplica uma Norma, no dia seguinte a Norma sai e entra outra e assim sucessivamente.
    A Escola Publica do Governo de São Paulo, ao que parece, mostra somente professores interessados em saber quanto estão ganhando por mes ou por aula etc etc….cadernos de alunos e de professor, ficam jogados ao léu nas escolas. Livros e mais livros apodrecendo nos depósitos fechados à chave justamente para ninguém conseguir entrar e ter acesso a eles. Cheves somente com Diretora ou Vice que nem sempre estão na Escola, ou se estão, onde estão??
    Funcionários agressivos, descontentes com salários quase igual ao mínimo de hoje. Ninguém do Governo olha para os pequenos que mais trabalham e que ganham menos.
    Salas de aulas depredadas, sujas. Gente querendo cobrar APM e nunca diz onde vai o dinheiro que os pais dão à Escola.
    Escolas deterioradas, com alunos mal educados, sem perspectivas.
    Alunos completamente alienados como certos professores quando na sala de aula, sequer levantam a cabeça para dar a aula.
    Daí, os alunos podem sair da sala sem serem notados, correr pela Escola, depredar ou até mesmo fumar um cigarrinho junto com algum professor, que Lei anti fumo que não funciona??
    Dentro das Escolas, fuma-se até a maconha dentro das quasras esportivas que ficam abertas 24 horas para comunidade, sem qualquer regra para o seu uso. Caseiros e caseiras, bêbados cuidando de Escolas.
    Isto está um horro. São escolas Estaduais no Estado mais rico do País.
    Não tem fiscalização para nada. Bundas e bundas nas cadeiras das Diretorias Regionais. Ninguém para fiscalizar uma Escola sequer.
    Merendas escolares sendo desvidas de seu intuito.
    Tudo isto é verdade.
    Diretores que nunca cumprem seu horário ( aquele para o qual recebem salário). Mas exigem dos ” peõeszinhos” o cumprimento integral sim. Autoritarismo total.
    Escolas Estaduais. Ensino péssimo. Livros obsoletos porque nunca chegam nas mãos dos Estudantes. Livros a mais comprados com dinheiro publico.
    É isto aí.
    Desabafo de um funcionário anonimo porque senão perco meu emprego né…..

  6. Nunca é tarde lembrar da bandeira da gestão Democrática: – eleição para diretor, construção coletiva do PPP, importância para os espaços de interação dos pais, alunos e professores, etc. Não se trata de uma bandeira “revolucionária”… mas no atual estados das coisas é uma bandeira progressista, até porque cria um espaço de onde se possa conseguir mais conquistas de direitos…

  7. O professor tem que ser respeitado, sempre! Parabéns continue assim! Não vamos nos deixar bitolar por essas pessoas sem respeito, Deus não dorme tudo vê!

  8. TAMBEM JA PASSEI POR REPRESÁLIAS DESTE TIPO,AUTORITARISMO DE DIRETORES,FALTA DE RESPEIRO ,ESTRAR EM SALA DE AULA PARAR CHAMAR ATENÇÃO PERTO DE ALUNO,QUERO SABER SE EXISTE LEI PARAR ISSO…ME INFORMEM UMA LEI ,POIS PRETENDO ENTRAR COM RECURSO CONTRA ESTE ABSURDO,É UM CÚMULO.

  9. Além do autoritarismo de alguns diretores existem essas funções ( vice diretor, coordenador pedagógico) para muitos “professores” fugirem da sala de aula. Deveria haver concurso para ocupar essas funções.Deveriam ser EDUCADORES antes de mais nada. Me vi, na íntegra, na sua situação: vice diretor e coordenador me chamando na salinha, fechando a porta e descarregando psicologia barata apontando “falhas” do meu comportamento e personalidade, fazendo acusações etc.)Um abraço e não vamos deixar que calem nossas mentes mesmo que a voz não seja tão estridente e aguda.

  10. OLÁ ESSES DIAS PASSEI POR UMA SITUAÇÃO BEM CONSTRANGEDORA, ESTÁVAMOS NO ATPC E A MINHA COORDENADORA DISSE QUE TÍNHAMOS QUE FAZER UMA INDICAÇÃO LITERÁRIA AI PERGUNTEI SE SERIA OBRIGADA A LER, E NO MOMENTO ELA DISSE QUE SIM , LOGO ELA ME PERGUNTO VC NÃO LÊ PARA SEUS ALUNOS EU DISSE SIM ,MAS QUE LÊ EM PRA MUITA GENTE NÃO GOSTO MUITO, AI ELE ME INTERPRETOU MAU E LOGO FOI LEVAR PRA DIREÇÃO, E NO OUTRO ATPC ESSA DIRETORA JOGOU TANTA INDIRETA DIZENDO QUE TINHA PROFESSOR DIZENDO QUE NÃO GOSTA DE LER, COMO PODE GENTE NÃO GOSTAR DE LER, E FALOU UM MONTE, AINDA ME CHAMOU DE MAU EDUCADA POR ESTAR ESCREVENDO DIZ QUE ERA FALTA DE EDUCAÇÃO QUANDO ALGUÉM FALA E A PESSOA FICA FAZENDO OUTRA COISA ,COMO EU JÁ VI QUE ERA PRA MIM, ME SENTI SUPER CHATEADA ACHO QUE A MAU EDUCADA ERA ELA DE FALAR E JOGAR INDIRETA NAS PESSOAS , POIS EU AMO LER SÓ TENHO FOBIA DE LER EM PÚBLICO , E ESSA DIRETORA É AUTORITÁRIA VIVE REPRIMINDO PROFESSOR, FALANDO POR TRÁS , GENTE ESTOU A 1 MÊS NESSA ESCOLA E NÃO VEJO A HORA DE CHEGAR FINAL DE ANO PARA QUE EU SAIA DE LÁ .

  11. Quero falar aqui que sua matéria me foi de muita ajuda e informação valiosa por ser de muita qualidade e bom conhecimento. São poucos sites que tem esse apreço pelo leitor. OBG

  12. Amigo compartilho com você a mesma dor; de ser um profissional desvalorizado, oprimido por um sistema público que administra as escolas.
    Por não ter direito a fala, e se me manifestar sou perseguido. Me revolto ao ver colegas que oprimem os próprios colegas de profissão, e pior por nada. Lembrando que estes também sofrem, mas se acham no direito de estar sobre nossas cabeças. Infelizmente esta profissão esta a beira de precipício, prestes a cair. Se continuarmos em silêncio, cada vez mais seremos amassados pela sociedade, governo e por aqueles que julgam-se estar acima dos próprios colegas.

  13. Excelente relato professor Juca. Estou trabalhando na SME-SP prefeitura de São Paulo, entrei por meio de um concurso público, também estou chocada com o sistema educacional e os relatos e vivência em uma unidade na região do Campo Limpo. Literalmente é uma máfia, já Presenciei até agressões.
    Acredito que o comentário do Renato está perfeito, mas com certeza envolve muitos interesses particulares e também corrupção, gostaria de poder falar, denunciar, encontra outras pessoas que desejam mudar esse sistema educacional brasileiro.
    Parabéns pelo seu depoimento.

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