«Frio, isto?», disse o mendigo a mim e a um amigo meu, sentados numa mesa da antiga taberna da Praça da Ribeira, em Lisboa, no Inverno de há 44 anos. «Frio era frente a Leninegrado, enterrados na neve, com as balas a zumbirem». «Leninegrado! Mas se você lá esteve é porque combateu na Legião Azul, e então pertenceu aos Viriatos, fez a guerra de Espanha no lado do Franco!». «Pois fiz», respondeu o mendigo, «e o meu pai era sindicalista e os meus irmãos também. Zangaram-se comigo, nunca mais me quiseram ver». «Patrão», gritou o meu amigo para o dono da taberna, «não pagamos mais nenhum copo de vinho a este homem!». «Têm razão», disse o mendigo, «sou um miserável». «Você está assim, a viver na rua, depois de os ter servido a eles», disse-lhe eu. «E até o soldo me roubaram», continuou o mendigo, «o Botelho Moniz ficou com o dinheiro dos Viriatos». «Fora!», dissemos o meu amigo e eu, «saia da nossa mesa». «Têm razão, sou um miserável», e foi-se embora. Compreendi então que a vida pode ser mais complicada do que a História. Passa Palavra

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