Não se lembrava como sua vida chegara naquele ponto, mas também não fazia questão de saber. Por André Prado

De sua cabeça lisa, sem um fio sequer, escorria um suor grosso e escuro. O calor era insuportável e há dias não tomava banho. Seu estômago doía e queimava. Apesar da fome, não era possível engolir nada. A garganta ardia até mesmo com água, como se existissem feridas imensas e abertas em seu interior. A sua boca estava seca e machucada. Muitas feridas, cortes e rachaduras em seus lábios ressecados.

Mirou seus olhos para baixo e viu a mancha de mijo e merda em sua calça. Não se lembrava como aquilo havia ocorrido, mas podia perceber que não era algo tão recente, já que estava seco e fétido. Não se lembrava há quantos dias estava na rua. Na verdade não se lembrava como sua vida chegara naquele ponto, mas também não fazia questão de saber.

Seu desejo era que sua vida acabasse ali, naquele momento, naquela calçada, naquela sarjeta. Sociedade, família, amigos. Nada disso importava mais. Nada fazia sentido.

Imerso em seus pensamentos desconexos, recostou-se na parede a suas costas. Queria um cigarro, mas isso era artigo de luxo naquele momento. Sentiu saudades do sabor dos Marlboros que fumava.

Suas mãos trêmulas levaram até a boca o cachimbo artesanal. Acendeu e tragou, tentando morrer mais um pouco naquele dia.

 Ilustrações: Clochard, do escultor Ralph Brown.

8 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo seu texto, muito crítico!
    As feridas internas que trazem o desejo do fim…
    beijos

  2. parabéns André pelo texto, eu já tinha gostado muito dele e as imagens casaram perfeitamente :)

  3. Simplesmente perfeito!! As entranhas das grandes metropoles amostra. Parabens!

  4. Gostei muito, vejo isso todo dia, mas e como estivesse do outro lado. Parabéns!

  5. André, parabéns pelo texto, que ficou ótimo! Aguardo ansiosa p/ ler mais coisas suas!

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