Sempre sentiu atração por mulheres, no entanto alguns homens, em particular, despertavam nele uma espécie de admiração e desejo. Queria ser e ter o outro. Por André Prado

Sentaram-se lado a lado naquela imensa cama. Ele sabia porque estava ali, mas ainda tinha dúvidas com relação ao desfecho desse encontro. Tentou relaxar, enquanto sentia mãos delicadas, porém firmes, percorrerem sua nuca e seus cabelos. Sentiu um leve arrepio quando a boca tocou-lhe o pescoço e depois a orelha. Os lábios quentes e molhados percorriam suavemente sua nuca e seu pescoço e isso fazia com que os arrepios ficassem mais intensos e prazerosos. Podia sentir o hálito quente em sua pele e isso o agradava. Os lábios vieram ao encontro de seus lábios. Não recusou. Sentiu a saliva, a língua, o intenso beijo. Gostou.

Não era a primeira vez que beijava outro homem, porém nunca havia chegado tão longe. Sempre sentiu atração por mulheres, no entanto alguns homens, em particular, despertavam nele uma espécie de admiração e desejo. Queria ser e ter o outro. Sempre fora tímido e de gestos e atitudes delicadas. Não se via como gay, já que havia tido diversas namoradas desde a adolescência e sentia prazer e tesão nas relações heterossexuais.

As mãos firmes e experientes erguiam sua camiseta e tocavam-lhe o peito. Os dedos circulavam suavemente ao redor de seus mamilos. Podia sentir os pêlos de seu peitoral ouriçarem-se. Em instantes estavam os dois de peitos nus, com os corpos e as bocas coladas. As mãos ávidas de desejo comprimiam fortemente o corpo de um contra o outro. Seus pêlos emaranhavam-se.

Gostava de poesia. Drummond e Bandeira, em especial. Gosto que lhe rendeu o apelido de maricas na época de colégio. Sua pouca aptidão para os esportes somente reforçou esta alcunha. Um de seus relacionamentos havia chegado ao fim devido a questionamentos de sua sexualidade. Não entendia como uma questão frívola destas podia se sobrepor ao sentimento que duas pessoas possuíam. Parecia que importava mais como os outros o viam, do que como eles próprios se enxergavam e se amavam. Choraram e se separaram.

Beijavam-se em pé. Estavam totalmente nus. Suas mãos inexperientes desciam pelas costas do outro até às nádegas. Passou suavemente as mãos sobre as penugens macias daquela bunda máscula. Apertou. O outro lhe retribuiu, puxando-lhe fortemente o corpo contra o seu. Seus pênis se encontraram. Sentiu o pinto teso do outro se encostar à sua virilha. O líquido seminal o incomodou.

Ele já havia se indagado quanto a seus desejos. Mas as indagações, em sua maioria, não eram suas. Até mesmo seu grupo de amigos mais próximo, vez ou outra, lhe incutia dilemas na mente. Dilemas que ele, por si só, talvez nunca pensasse a respeito. Havia uma preocupação daqueles que o rodeavam em descobrir se ele “era” ou “não era”. Não conseguia entender qual a importância disso. Não bastava aos outros simplesmente saber que ele existia e os amava, era preciso rótulos e definições. O amor, puro e simples, só tem valor se vem embalado, pensava consigo mesmo.

Aquele pau duro, com uma opulência de líquido seminal que lhe melava a virilha, estava cortando todo o tesão que existia até o momento. O seu pau estava flácido. O suor e a ofegância do parceiro começaram a irritá-lo. As carícias e beijos que até então estavam prazerosos haviam se acabado e a situação estava tomando proporções para as quais talvez ainda não estivesse pronto. Já havia ido muito além do que achara que conseguiria. Resolveu parar. Pediu desculpas. Conversaram. Beijaram-se. Enquanto saía do quarto ainda pôde ouvir o outro gozando em sua masturbação solitária. Parou no primeiro bar que encontrou. Pediu uma cachaça e uma cerveja. Tomou a cachaça em um gole só. Enquanto sorvia a cerveja vagarosamente, pensava porque havia feito aquilo. Por ele ou pelos outros.

Ilustrações: telas de Francis Bacon.

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