O discurso ambiental tem servido para esconder outros conflitos que são, antes de tudo, sociais. Por Rede Extremo Sul e Pela Moradia

O loteamento da cidade

guarap_002E desse modo as cidades se constroem como um paraíso para aqueles que negociam com a vida de todos, nos sugando e nos descartando quando lhes é conveniente. Em São Paulo, debaixo do véu criado pelos aparentemente tão respeitáveis e necessários Programa Mananciais, Operação Defesa das Águas, Operação Córrego Limpo, Expresso Tiradentes, Parques Lineares, etc., sob esse véu, a cidade foi loteada pelos grandes grupos econômicos. Nada de novo sob o sol, pois. O que chama a atenção é a força, a abrangência e a falta de uma oposição efetiva a esse processo. Além disso, esses programas vêm com uma vantagem de início (para os grupos econômicos): quem seria contrário a proteger o meio-ambiente? O problema é que o discurso ambiental tem servido para esconder outros conflitos que são, antes de tudo, sociais. No Rio de Janeiro isso também fica claro: Se existem casas chiques e populares subindo os morros, por que somente as casas da população mais pobre são removidas “por segurança contra riscos ambientais”? Não existe dúvida de que os riscos são diferentes; afinal de contas, mesmo sendo muitas vezes construções ilegais, as grandes empresas conseguem financiamento para fazer obras de segurança (contenção de deslizamentos e fundações, por exemplo). Mas será que o gasto público de remover várias famílias e mandá-las para longe das áreas centrais é menor do que a construção de muros para segurar os deslizamentos?

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O empresário Eike Batista e o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral

Não há exagero nenhum em dizer que as Prefeituras, o Estado, a União e seus diferentes órgãos são balcões de negócios e que as grandes empresas mandam em tudo. Basta olhar de onde vem o atual prefeito de São Paulo e seus secretários, ou então as licitações por meio das quais bilhões foram entregues a meia dúzia de grandes construtoras, ou ainda como a quase totalidade dos partidos políticos está ligada como que por um pacto de sangue aos grandes grupos econômicos, dos quais faz parte ou de quem depende para eleger seus candidatos e alimentar todo esse lodaçal que é o jogo eleitoral e as burocracias partidárias. Sérgio Cabral, atual governador do Rio de Janeiro, durante seu governo já beneficiou com mais de R$ 1,3 bilhão [milhar de milhões] a empresa Delta Construções (de seu amigo pessoal Fernando Cavendish), em grande parte sem licitações. Eike Batista, empresário mais rico do país, doou R$ 750 mil para a última campanha de Cabral, além de prometer investir R$ 40 milhões no projeto das UPPs cariocas. E vejam que as fontes desses dados são conservadoras [1]. Além disso, os perversos impactos ambientais e sociais das atividades da siderúrgica alemã ThyssenKrupp CSA em Santa Cruz (bairro no extremo da Zona Oeste do Rio de Janeiro) e a ampliação do Porto de Sepetiba, bem como a construção do Porto do Açu pelo próprio empresário Eike Batista, são desconsiderados mesmo sob muitos protestos. Dá para perceber como, por trás da visibilidade que a Copa do Mundo e as Olimpíadas trazem ao Brasil, está também o grande interesse econômico de promover um tipo de “desenvolvimento” que só privilegia empresários e continua ferrando a imensa maioria da população pobre das cidades.

A militarização da gestão

upp-e-criancasMas a venda da cidade e a sua produção como uma máquina de fazer dinheiro tem sido acompanhadas por outro processo. Cada vez mais as questões sociais são tratadas como caso de polícia; não só o discurso policialesco e do medo se fortalecem, mas algumas importantes “inovações” institucionais são feitas. Uma delas, bastante reveladora, é a colonização das Subprefeituras [2] por coronéis da Polícia Militar (dos 31 subprefeitos que existem na cidade de São Paulo, por exemplo, vinte e cinco são policiais militares). Outra inovação é o fortalecimento e a transformação dos Consegs (Conselhos de Segurança) em estruturas ativas de gestão descentralizada da cidade. Presididas também por quadros da Polícia Militar, hoje os Consegs organizam até mesmo reuniões “abertas”, nas quais se discutem questões relativas à saúde, à educação, à infra-estrutura, etc. É um controle social que, em grande parte, também faz a chamada “UPP Social” no Rio de Janeiro: “policializam” não só a gestão de conflitos internos às comunidades, mas também o oferecimento de serviços ligados à cultura e à educação. As tentativas anteriores de disciplinar a população através da repressão crua ficam assim mais sofisticadas: além do medo imposto pelas armas e pela violência típica das polícias contra a população mais pobre, os espaços de moradia popular começam a ser controlados de perto por uma educação cotidiana policialesca. Moradores e moradoras, que tinham aprendido a conviver com a autoridade violenta do tráfico (o que é bem diferente de ser “conivente” com ele), agora voltam a ser educados para conviver com outra autoridade violenta: o Estado, através da polícia.

Como resultado prático imediato, vemos a intensificação da criminalização da pobreza e da organização popular, a dura repressão aos vendedores ambulantes, os despejos em massa, os ataques aos movimentos populares combativos e às suas tão suadas conquistas.

A cidade-negócio e a militarização da gestão são dois lados da mesma moeda, e sua intensificação nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro está na ordem-do-dia para todos aqueles que não escolheram baixar a cabeça ou tapar os olhos. Contra essa onda repressiva, não conseguimos ver outro caminho senão o da organização autônoma do povo em luta.

Notas

Sobre os autores:

A Rede de Comunidades do Extremo Sul é um movimento popular recém-criado na zona sul de São Paulo, que tem como proposta a organização autônoma do povo da periferia, sem depender de politiqueiros nem de patrões nem da migalha de quem quer que seja. Propomos a união das quebradas e a luta direta como meio de melhorarmos a nossa condição de vida e combatermos as formas de opressão e de exploração que sofremos todos os dias. Junto com [email protected] [email protected], que ao longo da história se rebelaram, sabemos que nossas conquistas e nossa liberdade serão frutos de nossos próprios esforços! É por isso que caminhamos. Contatos: redeextremosul.wordpress.com e [email protected].

O Pela Moradia é um coletivo que surgiu para prestar apoio e solidariedade à luta popular pelo direito à moradia. Até agora, temos feito isso através do blog (http://pelamoradia.wordpress.com/), da colaboração direta com algumas das ocupações do movimento dos sem-teto do Centro do Rio de Janeiro e da busca pela formação de uma rede de comunicadores e comunicadoras populares que abordam e apóiam a luta por moradia. Queremos agregar, documentar e produzir informações sobre o ataque a esse direito fundamental sem nos sobrepor aos outros canais de comunicação alternativa. Pensamos, afinal, que a comunicação pode ir muito além da divulgação e ajudar diretamente a organização popular autogerida e horizontal na qual acreditamos.

[1] Jornal O Estado de São Paulo e jornal O Globo.

[2] Estrutura de gestão regionalizada da cidade de São Paulo.

1 COMENTÁRIO

  1. Bela análise, mas acredito que faltou tocar em um ponto fundamental, a reconfiguração do Cartel de drogas em toda a américa latina. É sabido que a primeira justificativa de ocupação das favelas, a tal pacificação, foi sugerida como um combate ao tráfico de drogas. La perguntita é, “não é mais possível comprar la cocaína e la gaja nas favelas ocupadas?”
    Quem controla o tráfico de drogas na bela cidade, o estado militar, a mídia fascista ou todws nós consumindo?
    Será que são tantos os envolvidos com a exploração desde recurso milagroso, el oro blanco, que vale a pena não mencionar?

    pois é….

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