Indagações de uma militante de base de um movimento por moradia do centro de São Paulo. Entrevista do Passa Palavra com ?

Esta conversa se deu na cozinha de sua casa, enquanto comíamos um pão com ovo, salame e queijo e tomávamos leite com chocolate.

Entrevistada (E): Estão para fazer a reintegração de posse, temos que fazer pressão, pois senão a polícia tira o pessoal fácil, que nem aconteceu da outra vez (em outro local).

Passa Palavra (PP): Mas chega a ter uma politização dos participantes, ou a luta se dá pela moradia somente?

E: Tem nada, é difícil, pois até as lideranças não são muito politizadas. Na verdade, boa parte tem emprego vinculado à prefeitura, ao governo, estão no Bom Prato, nas Tendas (que atendem moradores de rua e população carente), Albergues, em diversos projetos governamentais. Fazem oposição, porque a maioria é do PT, apoiam candidatos do PT (e nos dizem que estes irão nos auxiliar), mas o que vejo é que não há uma oposição de projetos, entende? Aí vejo as ONGs que apoiam o PSDB, o DEM, e não conseguem nada, e as que fazem oposição conseguem alguma coisa, estão controlando diversos setores de projetos sociais.

PP: Talvez seja esta uma forma do governo neutralizar a oposição, deixando-a debaixo de suas asas.

E: Os próprios líderes que estão no movimento há mais tempo dizem que o povo não luta, não tem garra para lutar, mas nem eles mesmos estão lutando. Olha, eu estou nessa hoje por causa das casas mesmo, porque se a gente não luta, esse povo não tem nem onde morar, mas é muito difícil, porque você vê que não tem alternativas de verdade, são dois lados da mesma moeda, as coisas não mudam. Então, o que eu posso fazer é continuar lutando, ao menos para garantir uma moradia para as pessoas.

PP: E em relação às drogas, existe algum problema?

E: Tivemos que expulsar umas 15 pessoas, pois não temos como dar resposta a isso. Além das drogas, o que mais me impressiona é a questão do álcool, que acabam se misturando, e quando os caras estão bêbados e/ou drogados não respeitam ninguém, xingam famílias, as pessoas, fazem ameaças se você tenta dar uma ajuda.

PP: Mas como se deu isto das expulsões? Foi decidido numa assembléia, foi a coordenação quem definiu?

E: Nós temos um estatuto, com regras, então fica mais fácil, né? Não aceitamos o uso de drogas. Teve um dia que uns dois rapazes chegaram de madrugada completamente bêbados e sei lá mais o quê, e no prédio tem muitas famílias com crianças, trabalhadores que têm que acordar cedo no outro dia.

Leia #ff0000;">aqui a 2ª Parte desta entrevista.

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5 COMENTÁRIOS

  1. É. Quem atua a área de ocupação urbana tem que enfrentar problemas relacionados com as drogas, a polícia, capangas, preconceitos mil, os reformistas etc.
    Mas a dinâmica do capital faz com que nem todos tenham acesso à mercadoria “moradia”. Desta forma, esta contradição estará colocada até a humanidade se destruir ou construir uma outra sociedade, comunista.
    Seguimos lutando e refletindo…

  2. Achei imatura as perguntas sobre se havia problemas com drogas ou despolitização. Não precisa ser nenhum cientista para saber do que se constiui a pobreza, que não é só falta de dinheiro mas é a alienação a muitos objetos valores que a sociedade ja construiu, ser pobre é muito mias complexo do que apenas nao ter dinheiro p pagar as contas vc é impossibilitado de se desenvolver como um ser humano, vc é decepado em suas possibilidades principalmente intelectuais, pelo menos da forma que a burguesia e intelectualidade considera da logica formal ou dialetica do caraleo a quatro, vc sendo pobre nao eh nada e tem que lutar pra nao morrer pq se morrer so tua familia vai chorar, como ja dizia algum rapper por ai. Então enche o saco as vezes algumas perguntas. O que o povo tem foi o povo que conquistou, a burguesia tenta mas nao consegue, a luta é do povo

  3. Leiga,
    E não é curioso que desses problemas nunca se fale? Por que razão será?
    Como superá-los por dentro dos próprios movimentos?
    Há interesses das direções em superá-los?
    Que experiências estão sendo construídas que podem servir para outras lutas?

  4. Essa questão das drogas é um problema sério pelo qual passam os movimentos sociais e as lutas que pretendem construir outras formas de sociabilidade. Não sendo mais uma questão específica dos movimentos urbanos, já constituindo realidade também no campo.
    Muito se romantiza a periferia, por exemplo, e ainda pouco conseguimos avançar na superação de certas relações que apenas reforçam o sistema e anulam as lutas. Enquanto isso as igrejas evangélicas vão se multiplicando, assim como os crediários a pagar.
    O que fazer em situações nas quais um viciado coloca em risco a vida de pessoas que estão na luta? Ou quando ele agride uma mulher? Recorremos ao Estado que criticamos? Chamamos a polícia?

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