Segunda parte da entrevista que traz indagações de uma militante de base de um movimento por moradia do centro de São Paulo. Entrevista do Passa Palavra com ?

Leia aqui a 1ª Parte desta entrevista.

Passa Palavra (PP): Como é que vocês se organizam?

Entrevistada (E): O movimento se organiza a partir de um estatuto, que foi criado na sua fundação, já há mais de uma década. Temos uma coordenação geral, que é composta majoritariamente por mulheres e é eleita de 4 em 4 anos, e todos os que participam do movimento podem votar na assembléia. Pode-se chamar uma reunião extraordinária caso se apresente alguma divergência em relação à atual coordenação.

PP: E por que existem mais mulheres nas coordenações?

moeda-girandoE: Olha, você fez uma pergunta para a qual eu não havia atentado ainda, eu acho que é pela própria necessidade das mulheres; muitas são separadas e têm filhos, então precisam se organizar, porque têm mais necessidade disso. Mas também tem famílias com pai, filho, mãe. A grande maioria das pessoas trabalha, os filhos estão nas escolas, o que precisam mesmo é de uma casa para morar. Mas também tem umas pessoas com uma experiência de vida muito interessante, como um coordenador, num outro prédio, que era morador de rua e conseguiu sair através de uma ONG do centro, e agora coordena uma ocupação.

PP: Existem outras instâncias de decisão, em âmbito local?

E: Em cada prédio há as coordenações das ocupações, que são compostas pelas próprias pessoas que lá estão, e aí depende do envolvimento pessoal, mas sempre há alguém da coordenação geral que fica responsável pelo grupo de base. Cada andar também tem uma coordenação, que fica responsável pela organização do andar, orientando as pessoas, tratando da questão da limpeza, de problemas de convívio. Com isso os problemas com drogas são mais facilmente resolvidos; mas, se são questões mais sérias e difíceis, elas são levadas para a coordenação geral do prédio, e aí esta fica responsável por chamar uma assembléia de moradores para tomar as decisões.

PP: As pessoas que estão no movimento, da base, participam das assembléias?

E: Participam sim, são poucos os que não descem quando há assembléia, e mesmo quando tem outras atividades, de outros tipos.

PP: Vocês se articulam com outras lutas?

E: Nos articulamos com outros movimentos por moradia e apoiamos outras lutas, como as passeatas do Passe Livre, contra a operação na Cracolândia; buscamos apoiar as lutas de outros movimentos sociais.

PP: E mobilizações de partidos políticos também?

E: Tem também algumas manifestações do PT, o que acho que não deveria se vincular, pois o movimento deveria ser apartidário, porque qualquer partido pode estar no governo e nós temos que estar é ao lado do povo. E eu acho que o PT não é mais um governo de esquerda; não há um governo de esquerda que poderia, eventualmente, nos auxiliar.

PP: Isto se vincula à questão de lideranças terem cargos nos governos também…

667804E: Claro, como havia te falado, isto é um problema. Mas também tem o fato de que em certos momentos isso ajuda; eu pensava que não, mas, por exemplo, ter pessoas do movimento no Conselho Tutelar, isso auxilia, pois tem uma representação maior com o próprio Conselho, como o Ministério Público. Também temos advogados que são orgânicos ao movimento. Tudo isso ajuda, mas é, como dizem, uma faca de dois gumes, né?

PP: Ocorrem eventos de formação política? A coordenação se preocupa com esta parte, de formação da base?

E: Não há uma preocupação efetiva. Mas o espaço é aberto para isso. Outro dia teve três pessoas (um professor de história e dois rapazes de um grupo de RAP), eles falaram sobre o capitalismo e a especulação imobiliária, mas também sobre a cultura, relacionando a questão do negro, da periferia, a tentativa de criminalização da pobreza e como tudo isto está diretamente ligado à nossa luta. Fica até o convite para que outros coletivos e grupos venham auxiliar neste sentido.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here