Por João Bernardo

Estou farto. Para ser sincero, estou muitíssimo farto. Não só de escrever em vão, isso seria de somenos importância, mas de que outros antes de mim tivessem escrito em vão e alguns partilhem hoje o mesmo destino.

1.

O fim dos regimes soviéticos trouxe-me duas grandes ilusões: a de que, liquidado o capitalismo de Estado, deixaria de se confundir socialismo com nacionalizações e centralismo económico; e a de que surgiria uma nova síntese programática, que superasse o marxismo e o anarquismo doutrinários.

Numerosos marxistas, apesar de todo o seu materialismo histórico, cuidam que podem retroceder noventa e cinco anos e regressar ao estatismo e ao centralismo. Continuam a promover o nacionalismo, como se não fosse sinónimo de estatismo, já que uma nação é — ou aspira a ser — a área de um Estado. Não obstante, é certo que tem existido entre os marxistas um esforço de autocrítica, que conseguirá talvez rejuvenescer a herança de Marx. Entre os anarquistas, porém, nem isto se passa, porque, sendo hostis ao pensamento dialéctico, julgam que se pode voltar atrás na história e, com as mesmas receitas, reconstruir de maneira certa aquilo que resultara errado.

2.

A esquerda do século XXI substituiu o sujeito histórico classe trabalhadora por uma multiplicidade de sujeitos: os dois sexos, para os quais curiosamente se abandonou a denominação biológica e se adoptou a denominação gramatical de géneros; as preferências sexuais; as etnias; as nações; as tradições culturais.

Paradoxalmente, esta substituição ocorre na época em que o capitalismo está globalizado e transnacionalizado. A esquerda contemporânea é um dos principais agentes da debilidade estrutural da classe trabalhadora, contribuindo para fragmentá-la perante um inimigo unificado.

3.

A adopção de uma multiplicidade de sujeitos históricos significa que a esquerda do século XXI abandonou a luta por um novo ser humano — um ser humano integral em quem deixem de ser pertinentes as divisões entre sexos e as diferenças entre as cores da pele e os formatos do nariz e dos olhos — e reforçou todo o tipo de particularismos. Superar os particularismos é uma coisa; outra coisa, muito diferente, é transformar a sociedade numa colecção de particularismos, ligados pelo mercado. Ressuscitaram-se assim as condições ideológicas para a biologização da cultura, que foi a operação distintiva do racismo e, mais especialmente, do nacional-socialismo germânico.

Ora, não há escritores e artistas homens nem escritores e artistas mulheres. Como não os há negros nem brancos nem amarelos, ou que procurem o prazer por um lado ou pelo outro. O que há é bons escritores e artistas ou maus escritores e artistas.

Nas páginas com que abriram, há cento e sessenta e quatro anos, um célebre Manifesto, os dois autores elogiaram a burguesia por ter aberto o caminho para a superação dos particularismos e tornado possível a aspiração a um ser humano integral. Previram acertadamente, pois foi esta a via que a cultura capitalista seguiu, e antecipando as demais transformações esteve, como sempre, a arte de vanguarda. Nas últimas décadas do século XIX os pintores e desenhadores europeus começaram a aprender a lição das artes plásticas japonesas e na primeira década do século XX a vanguarda artística europeia assimilou as lições da escultura africana e da escultura da América pré-colombiana. Mais tarde chegou o interesse pelo colorido da arte aborígene australiana. Não houve separação entre o vanguardismo e o chamado primitivismo, e mesmo as correntes construtivistas, que um olhar apressado tende a identificar exclusivamente com a civilização industrial, recolheram tanto o contributo das máquinas como das artes africanas e pré-colombianas.

Mas os autores daquele Manifesto não previram o que faria a esquerda do século XXI, que virou as costas a essa aspiração a um ser humano integral e a uma cultura universal.

A cultura europeia, hoje tão denegrida, desde há muito não existe. Foi superada pela cultura capitalista que, ao mesmo tempo que ultrapassou as tradições europeias e a sua área étnica, absorveu as culturas dos outros continentes e encetou um processo de unificação mundial. Quando a esquerda contemporânea recorre à acusação de eurocentrismo como arma polémica, não está a referir-se a uma Europa que acabou há muito. O que está realmente a fazer é a negar a aspiração a um ser humano integral e à universalização da cultura.

4.

Outro resultado imediato da adopção de uma multiplicidade de sujeitos históricos pela esquerda do século XXI foi a redução do conceito de classe trabalhadora à sua modalidade arcaica. Em vez de se entender a reestruturação da classe trabalhadora operada pelo sistema de produção toyotista, pela terceirização da mão-de-obra e pela transnacionalização do capital, a noção de classe trabalhadora manteve-se resumida ao fabrico industrial de artigos materiais.

Deste modo alimenta-se a proliferação de sujeitos históricos. Em vez de ser entendida como uma modalidade de assalariamento proletário, a terceirização é vista como um empreendedorismo. E o desenvolvimento dos mecanismos da mais-valia relativa através de um trabalho cada vez mais qualificado e complexo é apresentado como o surgimento de um cognitariado.

Esta fragmentação de conceitos tem como efeitos práticos a desarticulação da noção de exploração e a dissolução de uma consciência de classe trabalhadora.

5.

Com a redução da classe trabalhadora à modalidade arcaica fica escamoteada a sua enorme ampliação e a sua plasticidade social, que corresponde à ampliação espacial dos locais de trabalho e à plasticidade que adquiriram ao integrarem os lazeres no processo formativo da força de trabalho.

Os espaços de lazer estão hoje tão vigiados como as fábricas e os escritórios. E aqueles jovens, ou já não tão jovens, que agora investem as ruas como os operários tradicionais podem ocupar as fábricas sabem, intuitiva mas certeiramente, que ambos os espaços são locais de trabalho.

Por isso se ilude aquela porção da esquerda que defende as formas artísticas mais degradadas com o argumento de que o seu consumo pelas massas lhes confere um carácter proletário. A indústria cultural capitalista tem, sem dúvida, uma vocação proletária, mas na mesma acepção em que a tem o fast-food. Não se pode lutar contra a proletarização do trabalho se se aceita a proletarização dos lazeres.

Não é impossível fazer uma muito boa arte de massas, produzida industrialmente e em série. A Bauhaus e os Vkhutemas demonstraram o contrário. Mas a indústria cultural capitalista produz deliberadamente uma má arte de massas, ou péssima, e a porção da esquerda contemporânea que adopta essas formas artísticas está a criar mais um obstáculo à emancipação cultural da classe trabalhadora.

6.

A esquerda do século XXI tornou-se ecológica, e como a direita e o centro se tornaram ecológicos também, para nem falar daqueles que dizem não ter opiniões políticas mas se afirmam igualmente ecológicos, chegou-se a uma situação em que a ecologia serve para apagar as clivagens políticas e de classe. A ecologia veio substituir a moral cívica.

É essa esquerda ecológica e supraclassista quem mais propaga a substituição da classe trabalhadora por uma multiplicidade de sujeitos históricos.

Os ecológicos consideram a natureza como sujeito, quando na verdade ela é um objecto da acção humana. Não existe hoje, em nenhum lugar do planeta, uma natureza originária nem natural. Ela é o resultado directo das transformações operadas pelo ser humano ou o resultado das cadeias de efeitos suscitados por essas transformações. E nestes sucessivos processos de transformação a natureza tem sido ampliada. Nos dois últimos séculos, a sociedade urbana e industrial inaugurou uma nova fase na ampliação da natureza.

Nada pode deixar os patrões mais satisfeitos do que o facto de a esquerda ecológica pregar que a luta pela abundância é nociva e, afinal, ilusória, porque a própria natureza imporia as restrições. De opção económica, a mais-valia absoluta ficou convertida numa pretensa imposição natural.

Menininhos e menininhas acampando a sua indignação, plantando hortas e comendo cenoura orgânica, julgando que destroem o capitalismo fazendo o Produto Interno Bruto andar para trás e aumentando o número de desempregados! Desprezo os palhaços do circo ainda mais do que os domadores de leões.

Com uma esquerda que se rendeu à ecologia, o facto de os trabalhadores preferirem o capitalismo da abundância ao socialismo da miséria é a minha grande — neste momento a única — razão de esperança.

7.

A esquerda ecológica não é hostil a um modo de produção, neste caso o capitalismo, mas a uma civilização, o que é algo de muito diferente. A substituição do sujeito histórico classe trabalhadora por uma multiplicidade de sujeitos e a fusão da ecologia com o multiculturalismo fizeram com que o inimigo deixasse de ser o capitalismo considerado como sistema de exploração do trabalho e passasse a ser a sociedade urbana e industrial. Em vez dela, a esquerda ecológica pretende regressar às civilizações arcaicas ou, o que é o mesmo, apresenta essas civilizações arcaicas como inspiração do futuro.

A história consiste na destruição de fronteiras e limites — humanos ou naturais — que de cada vez eram tidos como invioláveis. E as técnicas — materiais e sociais — são os instrumentos dessa destruição. Mas a esquerda, que outrora invocava como razão de ser o ir além do capitalismo, propõe agora como programa ficar sempre aquém. Prefere o hoje ao amanhã e ainda mais prefere o anteontem ao ontem.

8.

Abandonando a luta entre classes travada no plano da exploração económica, a esquerda do século XXI adoptou uma forma ética, que mais não é do que um puritanismo transfigurado.

Trata-se de uma moral laica em que os prazeres sensuais são considerados ofensivos pelo feminismo, em que o desprezo pelos mitos e superstições paralisantes é considerado eurocentrista pelo multiculturalismo, em que as exigências de satisfação do consumo são consideradas atentatórias da natureza. Aqueles prazeres, aquele racionalismo científico e aquela aspiração à abundância são considerados como os principais inimigos pela esquerda contemporânea, que assume assim uma função ética.

Os Dez Mandamentos foram substituídos pelos mil mandamentos do politicamente correcto.

9.

Os capitalistas devem obrigatoriamente ser realistas para ter lucros. A esquerda do século XXI deve ser irrealista para manter as ilusões.

Como poderia a sociedade urbana e industrial ser organizada por qualquer um dos grupos esquerdistas, quer de filiação marxista quer anarquista? Basta observar-lhes o primarismo dos programas e o arcaísmo das ideias para concluir que só com um catastrófico declínio da complexidade social e da produtividade económica caberíamos naqueles moldes. Esta é a função necessariamente retrógrada das esquerdas doutrinárias, ainda mais explicitamente assumida pelos ecológicos.

Ao vermos as insistentes ilusões da esquerda contemporânea, os programas delirantes, os becos historicamente comprovados sem saída em que insiste em enfiar-se, só por hipocrisia não reconhecemos que devemos ao status quo capitalista a possibilidade de não sermos lançados num precipício de onde nos seria muito difícil emergir. Um novo projecto programático da classe trabalhadora pode ser mais satisfatoriamente desenvolvido a partir de uma democracia capitalista rotulada de direita do que a partir de um capitalismo de Estado rotulado de esquerda.

10.

Não são as derrotas que cansam, e o nosso destino por muito tempo é sermos derrotados. Nesta guerra dos mil anos a única vitória possível é a final, até lá havemos de acumular reveses. O que cansa é as derrotas não serem reconhecidas como tal, por vezes nem sequer as batalhas serem conhecidas. Destruir pelas armas e pela repressão é uma coisa, deixar destruir pelo desinteresse é bem pior. Não são as derrotas que cansam, mas as derrotas em vão. É disto que estou farto.

Desisto? Das esquerdas doutrinárias sim, totalmente. A tragédia é que hoje o pensamento revolucionário surge e extingue-se sem saber que é esse o adjectivo que o devia classificar. Do mesmo modo, a política, se não for reduzida aos escândalos e às rasteiras que os profissionais passam uns aos outros, localiza-se hoje sobretudo fora do âmbito considerado político.

Por isso não desisto da capacidade da classe trabalhadora para acabar com o existente. Uma revolução nos nossos dias só pode significar uma libertação das energias criativas dos trabalhadores nos processos de trabalho. Quanto ao que virá depois e ao que formos capazes de construir…

O desenho é de Roland Topor.

64 COMENTÁRIOS

  1. Feminismo, ecologia, amor aos animais… é o fim. Os trabalhadores estão ferrados se, das periferias sombrias onde sobrevivem, não forjarem uma nova frente. Nos trens, nos ônibus, nas praças, nas escolas, nos saraus…

    Faltou você complementar com um parágrafo sobre o fato de aquela parcela rústica da classe trabalhadora que é ferozmente anticapitalista, nos guetos, nas favelas, nas periferias, viver num mar de ondas sombrias. Num pessimismo catástrófico, vendo cada dia como a guerra nossa de cada dia, como a morte nossa de cada dia….

  2. Eu acho que ser contra o sofrimento dos animais não humanos não osbtrui emancipação dos trabalhadores. É questão de coerência. Se isso for amar os animais, eu amo os animais.

    Ou coisa é ser contra o sofrimento e exploração dos animais não-humanos e não ser contra o dos animais humanos. Isso é clara incoerência.

    Essas coisas eram egsatda dentro de movimentos operários do século passado.

    Hoje então a reação contra essa perda de identidade de classe acaba acaba misturando as coisas, como se levantar questões de gênero, raça etc fosse se colocar contra uma identidade de classe e um projeto de transformação da classe trabalhadora.

  3. Muito boa a análise, porém creio que houve uma generalização quanto as correntes anarquistas, e uma supervalorização das correntes marxistas.

    Seria interessante se vc desse alguns exemplos desse esforço de autocrítica por parte do marxismo (Qual corrente, qual contexto?) e uma suposta arrogância e anacronismo por parte dos anarquistas (todos?).

    Sei que isso existe e são comuns tanto no meio anarquista quanto no marxista, porém existem esforços, na minha opinião, dos dois lados, e não apenas de um, como vc leva a crer.

    Existe um processo de lutas dentro do anarquismo, principalmente na américa latina, que tem como objetivo a luta popular, em todos os meios das classes exploradas. Nas ocupações do MST, dos sem teto, em ações comunitárias, sindicais, estudantis, etc.

    Muitas correntes dentro do anarquismo, hoje e sempre, agem de modo anacrônico, como se pudessemos regatar a mesma conjuntura de 1917, do anarcossindicalismo, e outras concepções que são totalmente inadequadas como a propaganda pelo fato, que constroem uma noção de vanguarda que deve ser desconstruídas.

    Porém, hoje e sempre, por outro lado, existem organizações que primam pelo protagonismo popular, pela autogestão, pela horizontalidade em oposição ao Estado, ao centralismo, a burocracia, partidos, etc. Sem deixar de lado esse processo dialético e conjuntural.

  4. O sentimento de estar farto é compartilhado por muitos que pensam sobre como transformar a realidade em que vivemos. Creio que um dos caminhos para aqueles que assim se sentem seja se afastarem um pouco das intermináveis teorizações sobre a realidade, que muitas vezes trazem a sensação de impotência, e partirem para a busca de transformações um pouco mais paupáveis.

    Afirma-se que podemos perceber hoje uma fragmentação da classe trabalhadora, fruto da negação por parte da esquerda dos avanços do capitalismo no sentido da construção de um ser humano integral. Apegada a particularismos, a esquerda minou a possibilidade de que distinções de gênero, cor e etnia não fizessem mais diferença alguma. Não vejo as coisas dessa forma pois não consigo perceber em que época na sociedade capitalista tais diferenças foram irrelevantes. Não podemos ignorar que essas diferenças continuaram e continuam até hoje estruturando nossas vidas e nossas consciências, inclusive a consciência de classe.

    É claro que não se pode defender os particularismos estéreis, que se limitam a questionar opressões específicas e não consideram o contexto maior em que estão inseridos. Tampouco esperar que o desenrolar do capitalismo dê conta de construir o ser humano integral. Movimentos como o feminismo, movimento negro, LGBT, etc., deram visibilidade para questões que eram ignoradas e conquistaram diversas transformações para os seus. Não que isso baste, mas talvez isso justifique a migração de alguns que estão fartos para busca de uma transformação mais paupável.

  5. Não se trata de gostar ou não dos animais, de ser contra ou a favor da opressão a grupos, etc. O que é problemático, me parece, é fazer disso a bandeira, posto que a liberdade (para atuar politicamente, e para gostar de quem quiser como quiser, inclusive) e a igualdade (entre os homens e mulheres, creio que daí os animais não humanos ainda sejam diferentes mesmo, apesar de gostar muito deles), poderiam ser pressupostos suficientes, e o foco das lutas ser o combate à causa da opressão (o que pressupõe compreender uma porção de coisa que a gente ainda não compreendeu, eu acho).
    Espero sinceramente que o título do artigo não se refira a algum término definitivo. Em estado terminal, acho que estamos quase todos… enquanto há vida, há esperança. Que dizer? Acho que aprendo bastante coisa com as discussões aqui.

  6. Compreendo o cansaço, a fadiga de João Bernardo; no plano individual (um pensador brilhante que, nesta altura da vida, tem o direito de não ter paciência com a maré montante de irrelevâncias e asneiras) e, também, no plano político mais abrangente (denúncia de certas mistificações simpáticas, muitas vezes compradas pelo seu valor de face).

    No entanto, e mesmo partilhando em larga medida a interpretação do autor, também creio que há uma ou outra simplificação um tantinho exagerada e, às vezes, uma certa injustiça.

    Também eu admito de bom grado que, em muitas das já tradicionais críticas de João aos ambientalistas, ao “multiculturalismo” etc., reside uma enorme (e raríssima, nos dias de hoje) dose de lucidez. Sem falar na coragem de dizer coisas que, para muitos bem-intencionados, soarão desagradáveis. (Quantos, hoje, têm essa lucidez e essa coragem?) Contudo, me permito levantar as seguintes ressalvas:

    1) Será que, interessantemente, não é o fato de certos tipos ou aspectos/momentos específicos da opressão (o racismo, para ficar em um exemplo) terem sido “diluídos” ou às vezes (quase) negados, ao mesmo tempo em que se ressaltavam com (quase) exclusividade a exploração e a identidade de classe, que, legitimamente, deu margem a que agendas e lutas específicas surgissem e se multiplicassem?

    2) É certo que, como mostra João (e como outros poucos também vêm argutamente mostrando), grande parte dos subprodutos do “multiculturalismo” etc. são, de variadas maneiras, até mesmo funcionais para o sistema. Porém, o abuso desautoriza o uso? Não seria produtivo apostar em uma difícil (talvez improvável, a não ser, quiçá, no longo prazo) articulação entre agendas e lutas, que garanta melhor tanto a eficácia política quanto uma certa “visão de conjunto”, em vez de sugerir (explícita ou implicitamente) um projeto de “homem integral”, de todo modo, também tinha as suas limitações?

    3) Ora, alguém como o anarquista E. Reclus, por exemplo, discutia, entre outros temas, o vegetarianismo, o amor livre, os problemas éticos envolvidos em nossa relação com os animais, o racismo – e isso sem perder sua fé no “progresso” (como bom homem do século XIX) e, sem dúvida, sem negligenciar a luta de classes e sem resvalar para a adoração de particularismos corporativistas (e estéreis, no fundo). Cito Reclus apenas como um exemplo, para concordar com Fernando: creio que, aqui como em outros lugares, a crítica de João contra grande parte do marxismo é singularmente profunda, mas seus reparos contra o anarquismo, ainda que em boa medida pertinentes, verdadeiro “dedo na ferida” (e, lembremos: mesmo libertários do século XX, como o neoanarquista Bookchin e o autonomista Castoriadis, fizeram críticas contundentes contra uma certa ortodoxia anarquista), poderiam ser mais equilibrados, balanceados. É claro que João argumenta a partir de uma perspectiva específica, que não é exatamente a minha (embora eu tenha aprendido enormemente com seus trabalhos). Aquilo de que sinto falta é, na realidade, um pouco mais de nuanças, de matizes.

    Assim como Talitha, porém, espero (e tenho certeza) que João, com este “ponto final”, solta um desabafo – não uma declaração de desistência. Lutadores como ele não desistem de pensar, de denunciar. No entanto, perder a paciência é, mais que um direito pessoal, quase uma obrigação política e intelectual. Que certas arestas não nos impeçam de apreciar o quanto de verdade se encontra em sua análise.

  7. Acho o teu discurso verdadeiramente ortodoxo! Sim, é a nova ortodoxia de esquerda que busca um reajuste discursivo, que se arroga como novo e refrescante mas que no fundo mais parece uma operação de re-branding! Um dos grandes defeitos da esquerda pós-moderna que agora esperneia e busca um novo discurso é precisamente o da esquerda revolucionária que acha que pensamento e política se fazem consoante momentos de acção oportunos/inoportunos. “Estou farto!” é uma frase de desespero, contudo, para o seu emissor, parece-lhe um grito de revolta, como se pelo facto de estar revoltado pudesse fazer algo. Juntar-se aos seus concidadãos também ele fartos e aqui vamos nós mudar a sociedade! O problema é que se esquece que enquanto insiste nessa tradição não toma em consideração o processo avassalador que o alterou a si bem como a uma civilização em massa. A grande vitória do capitalismo não foi a sua emergência como modelo mais consistente de gestão económica face ao comunismo, mas antes, a sua marcha de vitória! Na verdade, é como se o entrincheiramento ideológico e as décadas em que se opôs a um modelo que não sendo a sua antítese, se arrogava como tal, apenas serviam o seu verdadeiro desafio – marchar triunfante, convencendo jornalistas, intelectuais e operários de que realmente é a melhor opção político-económica! Marx fez o seu trabalho, quem não o fez foram os que se arrogaram à missão de dar forma ao seu imaterialismo teórico! Os discípulos de Marx falharam em assimilar algo que os seus oponentes aprenderam bem com o seu mestre. A força das palavras pode operar revoluções e evitá-las! Marx cumpriu quando decifrou a economia, a política e a moral, indicando-nos que era precisamente da transacção salarial que nascia o domínio. Marx desmascarou o capitalismo realçando a sua real natureza como um sistema de pressão mais do que um sistema de criação de valor. A extorsão e a violação – incluindo a violência não violenta dos contratos aceites – escrevem a verdadeira história da economia!
    Só que a economia mudou! O capitalismo operou uma tercearização e de repente a terminologia da esquerda revolucionária deixou de fazer sentido para milhares de milhões de pessoas. Alterando-se a natureza do trabalho, pode-se alterar a percepção do trabalhador sem se destruir o vínculo de domínio sobre este. Aqui está o capitalismo a perceber que não é só o domínio do capital e dos meios de produção que lhe interessam! A cultura de massas? Surge e muito bem como uma resposta muito bem apresentada à necessidade da massa se entreter! É fast food? A massa adora fast food. Porque não sabe mais? Sabe o que gosta e procura…
    Conclusão? A contrução de uma alternativa ao capitalismo e a sua derrota só é possível se de facto se verificar uma vitória discursiva e ideológica sobre este, não há revoltas nas ruas sem um discurso legítimo e neste momento o discurso dos que estão na frente da batalha não parece legítimo a ninguém. Porquê? Porque não há método! Ou se fazem acampadas infrutíferas ou se assume uma postura agressiva que acaba pulverizada por uma acção de forças de elite policial altamente treinadas para isto e para o que poderá vir a seguir! À esquerda faltam líderes ideológicos não ortodoxos nem neo-ortodoxos. Faltam os que pegam na esquerda e fazem dela uma não esquerda que é mais esquerda… assim como fizeram com o capitalismo!

  8. É um tanto irônico que, justamente eu, um libertário, saia em defesa – defesa relativa, como tentei deixar claro em meu comentário anterior – de João Bernardo e seu manifesto. Em se tratando de um marxista honesto (e brilhante) como João, a quem muitos de nós devemos não pouco intelectualmente (basta pensar em suas análises sobre a gênese e o papel da classe dos “gestores”), creio que isso é, no mínimo, uma questão de justiça.

    Por isso, mesmo não concordando com João quanto a toda uma série de pontos (seu julgamento muito pouco nuançado do anarquismo, para ficar em um único exemplo), acho que, para se ter um debate digno desse nome, é necessário, pelo menos:

    1) Que se conheça a obra (e, quem sabe, um pouquinho da trajetória) de João Bernardo, antes de se começar a vociferar tolices que, claramente, demonstram, além do precário domínio do vernáculo, uma notável ignorância em relação àquele a quem certas objeções são dirigidas. Caso contrário, só se confirmará, justamente, uma das tradicionais (e não totalmente infundadas) críticas de João, segundo a qual obscurantismo e desconhecimento não podem ser bons conselheiros – e muito menos fatores de emancipação. Testosterona não substitui neurônios.

    2) Que haja um esforço para se expressar com clareza e, na medida do possível, precisão. Pior que um diálogo de surdos é uma incontinência verbal em que uma abundância de adjetivos (não raro disparatados) pretende compensar a escassez de análise substantiva.

  9. pra entender um pouco o seu ponto de vista. Já que vc não estaria na Rio + 20, vc então estaria na Cúpula dos Povos ou escreve textos para quem estaria no evento ou criticando as pessoas que estariam no evento?

  10. Olá,

    Apenas gostaria de comentar que, ao contrário do que diz o Marcelo, é justamente pelas convergências existentes entre as preocupações políticas (e, porque não dizer, teóricas) na argumentação de ambos, que a tal “defesa” do Marcelo em relação ao João Bernardo se justifica, apesar da possível ironia da situação.

    Libertários, autonomistas e marxistas – que defendem as relações sociais de produção como fatores centrais para a análise e crítica do capitalismo – não deveriam estar tão distantes entre si, mas sim se alimentando recíproca e continuamente (mesmo, ou inclusive, com todas as suas diferenças de leitura, ênfases e atuação). Tenho certeza que o Marcelo compartilha essa mesma compreensão.

    Para além desse ponto, os debates desenvolvidos no âmbito da já clássica publicação “Socialismo ou Barbárie” retornam com força e se atualizam, diante de uma esquerda que – para manter, de fato, a sua inteligência – precisa não ter medo de começar de novo, e de novo, e de novo…

    Por esse motivo, acho que a reflexão que vem sendo empreendida aqui no Passa Palavra pelo João Bernardo, por outros lutadores sociais e pelo próprio Passa Palavra – principalmente no que diz respeito ao anticapitalismo não-nacionalista em relação ao Euro e também ao momento atual imperialista do capitalismo brasileiro –, contribuem em muito para a construção coletiva das lutas sociais. Esse é, na minha opinião, o pano de fundo em que se insere a expressão “estou farto” – já que é inacreditável, diante de tais fatos, que a esquerda hegemônica continua a tapar os olhos e ouvidos e a falar o mesmo de sempre, como se nada estivesse ocorrendo.

  11. interessante o último comentário do xavier, por isso gostaria muito que o joão bernardo nos desse um exemplo atual para quem vai dirigido o texto dele. A ´´esquerda hegemônica´´ para ele estaria na Cúpula dos Povos ou na Rio + 20 ou em ambas? E onde estaria a ´´esquerda não hegemônica´´? Agradeceria se aclarasse o aspecto para entender melhor o ´´anticapitalismo não-nacionalista´´ que comentou o xavier!

  12. Vou abordar uma questão talvez pontual do texto, criticando-a por achar que há uma contradição ou falta de coerência na abordagem, ou simplesmente mudanças de abordagem conforme a conveniência de modo a sustentar o ponto de vista ao qual o autor de identifica em cada caso.

    Nesse e em outros textos critica-se o “socialismo da miséria”, em parte, por se tratar de uma posição deslocada da subjetividade dos trabalhadores (da população em geral), uma vez que o que os trabalhadores sempre teriam busccado e buscariam seria a abundância e a ampliação do consumo. Crítica ao “socialismo da miséria” por demais pertinente, e que nos faz lembrar que um projeto de mudança tem que ter essa base material, concreta, da subjetividade de um grupo social. Pois de outra forma caímos num idealismo e numa projeção inviável de ser realizada.

    No entanto na crítica da indústria cultural, ou melhor, na crítica dos que não criticam os produtos da indústria cultural, o autor a meu ver cai exatamente nessa perspectiva que ele critica nos portadores do “socialismo da miséria”. Ele parte de uma idealização, de uma projeção do que deveria ser, e não da subjetividade dos trabalhadores. Basta ver programas de TVs educativas ou mesmo espetáculos gratuitos de “alta cultura” que acabam tendo público e audiência pífia comparados aos produtos da indústria cultural de grande massa. Pois bem, os trabalhadores assim como querem consumir e ter abundância, querem todas essas artes denominadas vulgares e ruins. Ou parte-se da prática, do material, do concreto, do real, ou seja, da subjetividade dos trabalhadores em ambos os casos, ou parte-se da teoria, da idealização, da projeção em ambos os casos. Creio ser uma questão de coerência.
    Poder-se-ia até dizer seguindo o ponto de vista da crítica ao “socialismo da miséria” que se o que os esquerdistas têm a oferecer é uma cultura chata e pouco divertida, ao contrário dos bens culturais que lhe trazem diversão e tornam sua vida menos enfadonha, vão preferir sempre a indústrial cultural capitalista à arte e cultura socialistas.

  13. Com todo o respeito pelo sr. João Bernardo, não vejo nada em sua indignação do que uma recusa a aceitar que sua ortodoxia marxista escolástica não tem mais eco. Mas isso não é porque surgiu uma “esquerda ecológica” ou “políticamente correta”, mas porque a vida concreta se encarregou de enterrar a ortodoxia que cheira a leninismo mofo. Lenin dizia que socialismo era Soviets mais eletricidade. João Bernardo diz que emancipação e socialismo é sociedade urbana industrial. Que a “esquerda ecológica” tem como referência os “primitivos arcaicos”. E ainda não quer ser chamado de eurocentrico. É sim, eurocentrico, antropocentrico, evolucionista. Para João Bernardo o “homem civilizado” e do “futuro” é o europeu que levou a humanidade a duas grandes guerras mundiais e genocídios de todo tipo em nome da “civilização”. João Bernardo escreve olhando pelo retrovisor e sonhando com “operários” controlando grandes fábricas de bugigangas, se empanturrando de veneno. É a “abundancia” que tanto sonha para a humanidade. A ortodoxia de João Bernardo impede que ele aceite que pela primeira vez na história a esquerda inclui a natureza com parte da vida e não apenas matéria prima para seus consumo irracional. Como Marx não falou em ecologia, João Bernardo não se permite tal heresia.

  14. Não impressiona que João Bernardo diga “estar farto”! As pessoas terminam de ler o manifesto e publicam logo em seguida um comentário no qual revelam não ter lido (ou não ter entendido). Acusar o autor de repetir uma doutrina marxista ortodoxa é mostrar que, no mínimo, não se prestou atenção devida no texto. Releia:

    “Desisto? Das esquerdas doutrinárias sim, totalmente. A tragédia é que hoje o pensamento revolucionário surge e extingue-se sem saber que é esse o adjectivo que o devia classificar. Do mesmo modo, a política, se não for reduzida aos escândalos e às rasteiras que os profissionais passam uns aos outros, localiza-se hoje sobretudo fora do âmbito considerado político.

    Por isso não desisto da capacidade da classe trabalhadora para acabar com o existente. Uma revolução nos nossos dias só pode significar uma libertação das energias criativas dos trabalhadores nos processos de trabalho. Quanto ao que virá depois e ao que formos capazes de construir…”

    Em outras palavras: não acredito em doutrinas, acredito na capacidade criativa da classe trabalhadora. Muito mais ortodoxo e doutrinário, me parece, é ler um texto às pressas e tentar achar um rótulo para deslegitimá-lo.

  15. O anarquismo teve o seu valor histórico: já foi crítico e já teve importância social. Mas morreu na década de 1930. O que existe hoje é meia dúzia de pessoas saídas de grupos de estudo que não conseguem fazer absolutamente nada de importante, inovador, criativo. Vivem de decorar e recitar textos que foram bons em 1920 mas hoje não possuem mais validade.

    Isso no melhor caso. Nos outros, ou se trata de carreira e formação de professores universitários, luta por bolsas ou é mesmo um irracional disse-me-disse. Vida de anarquista vira ficar fofocando contra marxista. É muito estúpido, muita perda de tempo.

  16. Isto não é um ponto final. Com o manifesto está anunciado mais um recomeço nessa que é uma das mais formidáveis e complexas trajetórias intelectuais do nosso tempo.

  17. O marxismo e anarquismo que se produz no Brasil é não só inútil, chega a ser mesmo contraproducente. E o apoio possível que os grupos anarquistas e marxistas podem dar, efetivamente, para os humilhados da sociedade é zero. Nem se interessam e, a minoria que se interessa, é inepta, incapacitada (embora muitos sejam sinceros e tentem).

    Ai eu vejo o maior problema. Hoje, não é tão preocupante não se poder falar de revolução, (que é um mito), mas os trabalhadores não terem muitos mecanismos defensivos próprios. Um policial espanca gratuitamente um jovem periférico e os trabalhadores locais não possuem nada que os defenda. Ficam dependentes do Ministério Público, das corregedorias que sabemos funcionar quase nada. Assim, vale muito mais as Mâes de Maio, da Débora, que todos os teóricos anarquistas do país todo. Vale muito mais os saraus e os grupos de discussão barriais que todo o marxismo produzido pela UNICAMP. Vale muito mais o professor Tonhão, exonerado na greve de 2000, que toda a discussão sobre pedagogia libertária, objeto da ufologia.

    Marxismo e anarquismo ficaram para trás. O sonho possível, se houver, é que os trabalhadores de Francisco Morato não se limitem a quebrar as catracas dos trens mas se organizem para se defender não só da CPTM, mas também da ROTA, das Casas Bahia, dos espancadores de supermercado e etc. E terão que fazer por eles porque nenhum morador do centro e assíduo de mesas universitárias possui o menor interesse em ir lá ajudá-los.

    Quanto aos ecológicos, posso dizer que a ROTA pode ser ecológica. É capaz que ela espanque algum jovem sob os gritos:

    -vai, vagabundo, você não é sustentável.

    Todas as vezes que ouço a palavra ‘sustentável’ eu levo a minha mão ao revólver

  18. Essa discussão de Ronan sobre o que “vale mais” também me parece ter um eco bastante moralista. Se é importante que os trabalhadores, ou proletários (nas mais diversas formas que o proletariado tem assumido e nos mais diversos lugares que tem ocupado) se organize em defesa própria, primeiro ele precisa se reconhecer enquanto tal, e reconhecer a natureza da opressão, mas também da exploração. Então, sim, vale lutar, mas pensar em como reconhecer a forma que a luta de classes assume é parte da luta, parte da qual a gente não tem dado conta.
    Por muito tempo, ouvi dizer que a teoria era ruim porque era produzida nos partidos, nos sindicatos, tenho ouvido dizer que é ruim porque produzida na universidade. Mas o que mais me assusta é ver tantas pessoas entrando nessa de que não precisa mais de teoria, o que equivale a dizer ou que já se sabe o que fazer ou que no fundo tanto faz, não vai dar em nada mesmo (e nem sei o que é pior). O caso é que quando leio as coisas deste site, sinto ainda que estou estudando, e com todas os percalços, tem bastante gente fazendo a mesma coisa.

  19. Ronan, basicamente o que você diz então é “morte aos anarquistas, viva o anarquismo!”, esperando que ele brote sozinho da terra. Critica os intelectuais e eleva a romantização esponteneísta da revolta das massas. Que, agora então esperamos sentados?

    Eu tendo a concordar com as críticas ao autor no que diz respeito ao seu louvor à sociedade industrial, creio que matar o capitalismo e manter a fábrica é um objetivo tão baixo quanto matar a fábrica e manter o capitalismo (não seria isso o que os “eco-chatos” pretenderiam fazer, segundo o autor?)

    Se os indignados são pueris e bobos, eu apostaria muito mais na hipótese de que os sindicatos e a tal “classe trabalhadora” já não quer dizer muita coisa para as pessoas que sentem a faca no pescoço e tem ânsia por mudanças. Podemos chorar pela perda do espírito e da esperança proletária, mas o luto não pode durar para sempre: ou vamos à praça junto com os únicos que estão se dispondo a lutar por algo, ou somos cúmplices do status quo. Os indignados pueris e bobos certamente necessitam da colaboração de pessoas com idéias diferentes e que tenham a maturidade de uma tradição de séculos de luta de classes, basta com que estas pessoas deixem de esperar que os sindicatos voltem a ser algo com uma mínima potência revolucionária e dividam a praça com o resto dos cidadãos revoltos.

  20. Acho que há uma certa má-fé quanto aos anarquistas. Evidentemente, que existem anarquistas como os citados pelo Ronan e outros. Mas, também há aqueles – que inclusive já colaboraram com o Passa Palavra: Felipe Correa, Rafael Vianna e Alexandre Samis – que procuram atualizar o anarquismo face aos desafios colocados pelos trabalhadores na contemporaneidade com base em um projeto classista de revolução social.

  21. Ao dizer que os marxistas e anarquistas (sejamos claros: os intelectuais) são completamente incapazes de auxiliar os trabalhadores em luta, o que está a se fazer é cobrar uma intervenção messiânica dos intelectuais, encarando-os como salvadores (ou lamentar que essa intervenção messiânica nunca se efetive). Em contrapartida, dizer que o único “sonho possível” é esperar pacientemente que os trabalhadores façam a revolução por si mesmos é justamente uma esperança utópica, nada mais. Negligencia-se as complexas mediações que se estabelecem entre teoria e práxis, na dinâmica da luta de classe. Os intelectuais não pode fazer a revolução, mas ele é indispensável (contanto que ele intervenha teoricamente no movimento prático, disputando em seu interior a sua direção ideológica, como Marx e Engels faziam, e outros tantos intelectuais importantes para a causa socialista): só um intelectual (mesmo que autodidata) consegue expressar a realidade num todo teórico coerente, formulando, a parti daí, um projeto a ser assumido pela classe operária em sua luta contra o capital, o que se faz pela crítica da ideologia dominante e pelo desvelamento da prática dominante, oculta pelo véu da ideologia. Os membros “não críticos” (ou não coerentemente críticos) da classe operária, são os que estão sujeitos à hegemonia ideológica da classe dominante. A luta, portanto, tem dois momentos: um ideológico (a ser assumido pelos intelectuais orgânicos da classe), outro prático (a ser guiado pelo projeto formulado por estes intelectuais). E nesse processo, que é dialético, a teoria e práxis transformam-se reciprocamente, potenciam-se reciprocamente. Lembrando que quando se fala em intelectuais, muitos imaginam os senhores professores universitários. Mas de dentro da própria classe, surgem membros capazes de formular projetos aptos à disputa pela hegemonia. E o sujeito que aqui escreve sequer é um intelectual naquele sentido elitista, mas um trabalhador como qualquer outro que, embora gostaria, não consegue dar soluções teóricas para os problemas práticos do movimento operário da atualidade (por outro lado, quem aqui escreve só tem um mínimo de compreensão dessas questões por causa de seu contato com brilhantes intelectuais acadêmicos). Outro erro é o de pensar que os agentes revolucionários serão os marginalizados ou os excluídos: se estão excluídos do próprio sistema produtivo, como é que poderão fazer uma revolução cujo princípio é justamente tomar as rédeas desse sistema? A única coisa que podem fazer é reivindicar a assistência social do Estado e resistir à truculência das autoridades que a negam. As críticas de João Bernardo e sua frustração são procedentes, mas a produção teórica de João Bernardo só será assimilada pela classe operária, só desenvolverá com ela uma unidade orgânica de teoria e práxis, através da ação de intelectuais que introduzam no movimento operário os princípios do marxismo bernardiano, divulgando a obra de seu mestre, criticando os projetos em vigor no interior do movimento operário com base nessa obra, formulando outros projetos e disputando com os projetos adversários a hegemonia no interior do movimento. Paradoxalmente (na minha opinião), o marxismo heterodoxo de João Bernardo precisa, para dar seus frutos, disputar o status de ortodoxia.

  22. “um projeto a ser assumido pela classe operária em sua luta contra o capital”
    Fagner, nesta passagem me parece condensada a fórmula esquemática que sustenta boa parte da tua intervenção. Não adianta falar (por falar) em dialética. Penso mesmo que aí está posto um dos elementos que favoreceu o descolamento entre uma parte das vanguardas e o grosso das classes trabalhadoras na experiência russa, paradigmática na formação de uma classe de gestores, como defende o João Bernardo. As outras vanguardas acabaram marginalizadas e eliminadas do processo político e o desenvolvimento da luta de classes foi obstaculizado ou contido em meio à lógica policial que sustentou um projeto social sem capitalistas mas também sem hegemonia socialista-proletária.
    Impossível não chegar à frase postada do Mao, entre conhecimento (teoria) e experiência (prática), assim como ao formulado pelo Lenin de que a teoria revolucionária é importada, vem de fora da classe. Bem fez o Althusser ao retificar Lenin mais ou menos assim: vem de fora? Mas tem de ser desenvolvida dentro, e foi gestada em seu próprio interior.

    Parece-me correto então radicalizar o que dizes da unidade teoria-prática, sem dar margem a alguma idealização de que “a classe” (toda ela) venha a assumir algo, mas apostando na formação de direções proletárias (os intelectuais orgânicos, os dirigentes, com seu campo de ação classista e mobilização revolucionária) que rompam com os dogmatismos das confirmações do passado, como o que impede as mínimas aproximações entre anarquistas e marxistas.
    Entendo que a INTERSINDICAL tem sido um espaço de aglutinação nesta direção (não me refiro ao campo das correntes do PSOL, que ensaiaram uma unidade com a Conlutas e seguem alimentando a ideia de fundar mais uma Central).

  23. Em primeiro lugar, referi-me a dois momentos do mesmo processo: o momento em que o intelectual formula o projeto e o momento em que a classe o realiza na prática. Quando João Bernardo está a criticar a ecologia, está a criticar uma ideologia, que inverte ou falseia a realidade. Mas a ideologia ecológica é hegemônica. A partir do momento em que a classe trabalhadora assimilar a crítica da ecologia de João Bernardo, ela não estará mais engajada no projeto que produz suas consequências reais (a mais-valia absoluta convertida em imposição natural etc.). Quis dizer, tão somente, que: primeiro, são os intelectuais da própria corrente de João Bernardo que devem tomar a dianteira da luta contra a ecologia, por exemplo, divulgando a crítica da ecologia por ele produzida, criticando os programas dos movimentos e partidos ditos de esquerda e produzindo seus próprios programas; segundo: embora essa intervenção dos intelectuais não seja suficiente, ela é indispensável – não porque sustento, como Lenin, que a classe operária tem uma propensão natural a não ultrapassar o sindicalismo, sem a intervenção do partido (ao contrário do que meu interlocutor quer fazer crer) – porque através dela a classe operária toma contato com projetos alternativos, alternativos justamente ao ou aos projetos hegemônicos. Não presenciamos uma revolução proletária há muito tempo justamente porque, diante da atual situação do capitalismo, a classe operária não encontra alternativas. A produção teórica de João Bernardo é um esforço no sentido de um projeto alternativa, mas a classe trabalhadora deve concebê-la como tal, e, para tanto, é preciso que os portadores da teoria de João Bernardo (intelectuais) produzam um projeto alternativos, com base naquela produção teórica, e insiram-se nos movimentos, partidos etc., disputando sua hegemonia ideológica, sua direção ideológica. Se o objetivo é impedir a formação de uma classe de gestores, a separação entre dirigentes e dirigidos, as experiências revolucionárias dominadas pela lógica policial do capitalismo de Estado, deixar que a esquerda tradicional, presa a uma estratégia cuja consequência é tudo isso, renunciando à disputa pela hegemonia no interior da classe operária, é uma incapacidade de perceber as coisas com realismo, uma fraqueza ou uma traição ao objetivo. Foi isso que defendi em meu comentário, ao que me parece sem muita clareza, já que fui acusado de leninismo, com a mesma radicalidade que as ortodoxias leninistas acusavam, no passado, os dissidentes de trotskismo. O que muito me diverte, pois prova que em parte minha última afirmação tinha sido acertada: dizia eu que “o marxismo heterodoxo de João Bernardo precisa, para dar seus frutos, disputar o status de ortodoxia”. Pois já é ortodoxia, pela menos uma delas e não “a” ortodoxia, e pelo menos restrita ao plano teórico… resta que se lute para que o seja no plano prático.

  24. Quem leu bem o texto sabe que nele está escrito:

    Os anarquistas e marxistas são ineptos, a começar pela incapacidade de romper essa tola divisão

    Ecológicos, acampados indignados, feministas e multiculturalistas são perda de tempo

    Enfim, a tal esquerda ideologicamente organizada é tempo no lixo. Daí o cansaço: gastar energias alimentando inutilidades, ou verdadeiros entraves. Trata-se de derrotas vâs.

    Sem nenhuma esquerda organizada fortalecedora dos trabalhadores o que resta são as lutas brutas travadas por eles, os ônibus queimados, as catracas destruídas, seguranças espancados, destruição de empresas, sabotagens.

    Mas será que um dia saírão do nível da revolta pura, violenta e imediata e atingirão algo mais? Se o fizerem, será espancando marxistas e anarquistas, feministas e ecológicos que o conseguirão, não batendo palmas ou gastando tempo com todo esse lixo ideológico que se amontoa.

  25. Pois bem, então se não há “esquerda organizada fortalecedora dos trabalhadores” podemos (e devemos!) deitar de barriga para cima e esperar a revolução proletária (como se a classe operária fosse um bando revolucionário aguardando a melhor oportunidade para derrubar o capitalismo)! Mas porque ficarmos nos estressando com essas questões, contemplando as derrotas da classe operária, se podemos fazer qualquer outra coisa, não é? Deixem os trabalhadores quebrando catracas e queimando ônibus: que grande plano! Agora vejo que o maior sinal de crise da esquerda não é a sua incapacidade de elaborar novas estratégias, é sua hostilidade para com aqueles que pelo menos tentam…

  26. Nisso eu tendo a concordar com o Rugai, em relação a seu último comentário.

  27. Fagner, e se ao invés de deixar os trabalhadores queimando ônibus e quebrando catracas, a esquerda tentasse ir fazer essas coisas junto com eles? Não para ensiná-los ideias abstratas (marxistas, anarquistas, “ismos” de modo geral), mas para, ao contrário, aprender com eles, com humildade e respeito. Acho que é mais por aí que o manifesto entra quando diz que desiste das esquerdas doutrinárias, mas não da capacidade da classe trabalhadora para quebrar com o existente.

    A classe trabalhadora talvez não seja “um bando revolucionário aguardando a melhor oportunidade para derrubar o capitalismo”, mas de certo não são explorados e dominados passivamente. Quebrar busão, queimar catraca e espancar seguranças são exemplos concretos de que há resistência. Mas não são os únicos, há muitos outros, menos brutais (e por isso menos visíveis e perceptíveis). Desde soluções individuais que cada pessoa desenvolve para amenizar ou contornar situações opressivas a até relações de solidariedade em determinadas comunidades.

    O problema das esquerdas doutrinárias é que elas elaboram suas teorias levando em conta o que escreveu o anarquista X ou o marxista Y, e não com base nessas formas de resistência, isto é, com base na experiência dos trabalhadores. Talvez por isso a frase do Mao que esteja ali em cima, provocativa: “todo conhecimento genuíno tem origem na experiência direta”.

  28. Percebo que nenhum dos comentadores entendeu o que tenho tentado defender nos meus últimos comentários. Caio me diz: “e se ao invés de deixar os trabalhadores queimando ônibus e quebrando catracas, a esquerda tentasse ir fazer essas coisas junto com eles?” Pois é mais ou menos isso que estou a defender, com a ressalva de que creio que a esquerda deva unir-se aos trabalhadores não somente do ponto de vista negativo, mas também do positivo, isto é, na criação de um projeto mais abrangente, de longo prazo, de uma estratégia de intervenção anticapitalista. Afinal, resumir-se ao vandalismo e coisas do tipo, faz com que os trabalhadores legitimem a repressão estatal (que surge para defender a “segurança pública”) e coloquem a opinião pública contra eles. É mesmo uma forma de dividir a classe operária, já que nem toda a classe operária concorda com esse tipo de ação (e esse tipo de estratégia não vai generalizar-se, naturalmente, por uma difusão molecular). A luta deve ser por democracia política real e por socialização do processo produtivo via autogestão. Agora, o ponto que ninguém parece ter entendido dessa minha argumentação é o de que, para que isso ocorra, é preciso que nós – que somos a vanguarda intelectual da classe trabalhadora (aceitemos ou não), e que temos um conhecimento a ser colocado a seu serviço (a teoria social de Marx, Bakunin, João Bernardo etc.) – devemos nos integrar na luta da classe trabalhadora, utilizando esse conhecimento para apresentar alternativas viáveis (abrangentes e de longo prazo) à classe trabalhadora. Essa estratégia deve, logicamente, entrar em contradição com o(s) projeto(s) societário(s) das classes dominantes, ao qual boa parte da classe operária aderiu, e mesmo boa parte da esquerda (o socialismo derrotista de meus interlocutores é só o outro lado da moeda do triunfo do neoliberalismo).

    João Bernardo definiu as esquerdas doutrinárias como esquerdas que continuam a defender projetos ultrapassados, isto é, elas não são doutrinárias por basear seus projetos no que escreveu o anarquista x ou o marxista y, mas porque continuam a prender-se ao que escreveram o anarquista x e o marxista y numa época já superada pela evolução histórica. Obviamente, qualquer esquerda vai basear seu projeto no que escreveu o anarquista x ou o marxista y, senão não há projeto. Quando João Bernardo diz que está farto de escrever em vão, ele está dizendo justamente que está farto de não ver sua produção teórica transformada em projeto. E o que eu disse é que isso que se deve fazer! E que esse projeto deve disputar a hegemonia, no seio da classe operária, com os projetos das classes dominantes e com os projetos das esquerdas doutrinárias presas a fórmulas fracassadas. Mas se não existem pessoas dispostas a formular tais projetos e apresentá-los como alternativa à classe operária, disputando sua adesão a um projeto bernardiano, apostando que quebrar algumas vidraças mudará o mundo, então essas pessoas podem dedicar-se a outra coisa, ao lazer etc.

    Então, para resumir: a classe trabalhadora tem diante de si dois projetos básicos, o neoliberal e o das esquerdas doutrinárias. Mas se não surgir um projeto alternativo, das esquerdas não doutrinárias, que seja colocado diante da classe trabalhadora como algo viável, então ela continuará a limitar-se aos outro dois (mas a história não está decidida, ela continua em aberto). Eu não acho que a classe trabalhadora é estúpida, eu não acho que é preciso a intervenção de intelectuais para dotá-la de consciência de classe. Pelo contrário, eu acho que ela é muito inteligente, e que opta pelos projetos societários que lhe parecem mais viáveis, pesando nas balanças os benefícios e os prejuízos que estes projetos trazem como consequência. E o vandalismo não é um dos projetos por ela considerado viável, sinto muito. Estamos todo fartos… O que quero dizer é: então vamos à luta! Se depois de tudo que disse, ninguém foi capaz de me entender, então eu desisto.

  29. Fagner, não desista. Mas também não entenda que divergência seja o mesmo que incompreensão. Das tuas colocações só me interessou destacar e discutir um esquematismo que lhe é próprio, e que pelos desenvolvimentos posteriores me pareceu não mais que um estilo. Concordo que estaríamos melhor se alguns se dedicassem mais ao lazer (ou à autoflagelação, talvez) do que parecem querer se dedicar ao debate anticapitalista. Mostram-se tão ou mais parasitários da classe trabalhadora do que as vanguardas detentoras da teoria correta e infalível. Querem esconder suas frustrações nela, e ainda a idealizam.

  30. Só posso descrever minha reação para com as respostas aos meus comentários como uma reação de perplexidade. Muito me surpreende que os leitores de João Bernardo, que têm em mãos uma das mais frutíferas obras da tradição marxista, recusarem a assumir o dever, que é o seu, de intervir praticamente nas lutas operárias, disputando com outras tendências da esquerda a direção intelectual dessas lutas. Direção não implica domínio, implica mostrar o caminho, implica convencimento e é aí que entra a divergência (para mim não importa se outros leitores divergem de minhas opiniões, o que importa é fazer a classe operária divergir das ideologias dominantes, num trabalho de convencimento, de crítica da cultura e da ideologia do capitalismo contemporâneo). Se minha visão é esquemática? Não tenho dúvidas quanto a isso. Qualquer um que se interessa pela crítica e pelo combate ao capitalismo, se quiser ser racional, precisa ousar elaborar esquemas. Só partindo de um esquema é que se chega à sofisticação. Quanto ao que se disse sobre a teoria correta: não sei se estou errado, mas acho que quando alguém escreve sobre um assunto, elabora uma teoria e critica outras teorias, esta pessoa obviamente acha que é a sua teoria que é correta, caso contrário não precisaria se engajar no esforço teórico que a tarefa demanda. Assim, e desde o princípio estou me dirigindo aos que consideram que a teoria de João Bernardo é a correta, creio que estas pessoas devem intervir nas lutas dos trabalhadores, apresentando-os o que desta teoria pode ser transformado em projeto de transformação social, apresentando-os uma boa alternativa, dentre tantas outras más alternativas, para que eles possam derivar a orientação de sua práxis político-social desta teoria que se considera correta. Os que acham que não há (e nem pode haver!) teoria correta são os multiculturalistas. De nada adianta criticar a esquerda tradicional se não se apresentam projetos de esquerda alternativos à classe operária. Podem me aplicar a pecha que quiserem, mas esta é a minha opinião, e tenho a ousadia de dizer que acho que ela é a correta.

  31. Então Fagner, se o que está dizendo é “vamos à luta” e concorda com a minha afirmação inicial, estamos sim no mesmo caminho. Eu justamente ressaltei que quebrar catraca é uma entre várias formas outras de resistência. Há outras menos brutais, não tão destrutivas, com mais aspectos positivos (apesar de eu achar que existem aspectos positivos em destruir uma catraca, por exemplo a ideia de um transporte público de livre acesso), como, por exemplo, greves. Quem inventou a greve foram os trabalhadores, com a tal da sua criatividade para romper com o existente. Antes de Marx, antes de Bakunin.

    Não acho que devamos resignar de interferir, pelo contrário. O que disse é que essa interferência não deve ter em vista convencer os trabalhadores uma teoria externa, isto é, doutriná-los com mais um “ismo”. Mas sim tentar aprender com a experiência prática de resistência, pois é a partir dela que deve ser formulado um projeto de transformação social de longo prazo. Daí que as esquerdas doutrinárias são estéreis: engessadas em textos antigos, dizem pouco respeito à vida cotidiana. Não acho que o que escreveu o marxista y ou o anarquista x seja estéril, pelo contrário, acho importante. É a reprodução dessas ideias enquanto doutrinas dogmáticas que me parece pouco frutífera. (Mas sei lá também, vivi poucas primaveras ainda e não tenho tanta certeza assim se minhas ideias estão corretas ou erradas. Um projeto elaborado a partir da experiência de luta me parece fazer mais sentido, mas confesso que vira e mexe me vejo flertando com as tais esquerdas doutrinárias).

    Tenho pra mim que um exemplo de algo assim que deu certo (mas talvez conheça uma versão por demasiado romantizada da história) são os zapatistas no México. Resultado, pelo que sei, de membros da guerrilha urbana que foram para as selvas onde, vivendo com os indígenas, mudaram sua visão de mundo e elaboraram um projeto mais ou menos novo. É possível que o Marcos tenha aprendido mais do que ensinado em Chiapas. Tendo tido sucesso ou não na luta, é inegável que a experiência do EZLN pelo menos refrescou as ideias e esperanças anticapitalistas em todo o mundo neste início de século XXI.

  32. “Esta é a questão crucial que, mais de meio século antes, já Dostoyevsky enunciara na parábola do Grande Inquisidor, tal como Ivan Karamazov a narrou a Aliocha, o irmão mais novo. Cristo regressara ao mundo, na Sevilha dos Reis Católicos. Não proferira uma palavra, nem era necessário, a multidão reconheceu-o pela aura que dele emanava e começou a segui-lo. E o seu cortejo encontrou-se com o do Grande Inquisidor, que o mandou prender e trazer à sua presença.
    “De novo tu!”, o Grande Inquisidor acusa o Cristo, em termos que não são literalmente os do romance, mas nem são apenas meus também, pois pertencem a todas as sociedades modernas. “Tu de novo, para destruires a obra que nos demorou quinze séculos a perfazer e voltares a difundir os teus erros! Apelando para que cada um se tornasse livre, assumisse o seu destino e fosse responsável, trouxeste à humanidade a infelicidade. Pretendeste confrontar cada indivíduo com ele próprio e com os outros, deixando-os assim nas incertezas da revolta e obrigando-os à angústia das deliberações, ao peso das escolhas. Mil e quinhentos anos nos foram precisos para libertar as pessoas da responsabilidade e deixá-las felizes, com o humilde contentamento da submissão. Sou eu quem agora carrega a dureza das opções necessárias e a memória de as ter tomado. Nos meus ombros assenta toda a infelicidade do mundo, de que alheei os homens”. Perante Cristo, o Grande Inquisidor coloca-se como outro Cristo, pois também ele redimiu a humanidade; mas é um anti-Cristo, afastando-a do conhecimento e da responsabilidade, que reserva para si, com todos os tormentos e culpas da decisão. A esta infelicidade ficam imunes os outros, a quem basta seguir caminhos já traçados. A passividade é sinónimo da ordem e obedecer é delegar a responsabilidade em quem comanda.”
    (BERNARDO, João. Aridez e Futilidade: Parábola da mais –valia absoluta e da mais-valia relativa. Revista Educação & Sociedade, nº 51, ano XVI, 1995.)

  33. Sim, Caio, destruir uma catraca realmente pode simbolizar a ideia de um transporte de livre acesso, mas só dentro de um contexo específico, pois caso as classe dominantes disponham de meios (e dispõem!) para representa a quebra de catracas como um ato irracional de vandalismo (o que ocorre!), convencendo o restante da classe operária de que o que está ali a ser cometido é um crime contra o patrimônio público e uma agressão contra a inteira sociedade, então aquilo simbolizará algo muito diferente. O que você está supondo é que sempre que um trabalhador quebre uma catraca (ou espanque um segurança!) todos encarem aquilo como um ato heróico e libertário, digno de louvores. Mas, para que os trabalhadores possam lutar contra obstáculos mais complexos que o que uma catraca pode lhes impor (ou o coitado de um segurança!), é preciso uma teoria que guie-os nesse processo: a luta contra o domínio de classe dos gestores, por exemplo, não pode ser travada com base em intuições instintivas dos trabalhadores. Quando um trabalhador quebra uma catraca, ele não está necessariamente guiando sua ação de acordo com uma teoria, porque trata-se de algo muito simples, não sendo necessária uma teoria. Atente para o trecho em que João Bernardo diz que as esquerdas doutrinárias são incapazes de apreender a “complexidade social” do capitalismo contemporâneo, prendendo-se a fórmulas tradicionais. Esta só pode ser uma debilidade teórica, pois para lutar contra uma realidade social complexa é necessária uma teoria que dê conta dessa realidade. Daí a inviabilidade de se apostar nas manifestações de revolta popular espontânea: elas não são capazes de apreender a complexidade da totalidade social concreta, só são capazes de lutar concretamente contra aspectos parciais, unilaterais, dessa totalidade. E a prova disso é que, desses momentos fugazes de revolta popular espontânea, não emergem estratégias abrangentes de transformação social. A classe operária só se tornou revolucionária, por exemplo, na época em que o jovem Marx escrevia o manifesto, porque tomou para si a tradição das lutas democráticas iniciadas com a revolução francesa. Recomendo a leitura do “Democracia e Socialismo” de Arthur Rosenberg (São Paulo: Global, 1986). Havia uma teoria abrangente, que foi tomada pela classe operária como uma alternativa à ordem burguesa em 1848 (levar a democracia até as suas últimas consequências, anticapitalistas): deu-se a revolução. Nas revoluções russas de 1905 e 1917 havia uma série de teorias (e organizações) revolucionárias que – após um intenso esforço, de décadas – começou a ganhar as massas e representar para elas alternativas concretas à ordem política e social do czarismo (recomendo a leitura de Daniel Aarão Reis Filho, “Uma revolução perdida: a história do socialismo soviético”. São Paulo: Perseu Abramo, 1997). As tradições teóricas vão abrindo o caminho, apresentando alternativas às massas. Trata-se de apresentar alternativas que dêem conta da complexidade atual da sociedade capitalista. Num dos trechos do manifesto, diz João Bernardo: “O fim dos regimes soviéticos trouxe-me duas grandes ilusões: a de que, liquidado o capitalismo de Estado, deixaria de se confundir socialismo com nacionalizações e centralismo económico; e a de que surgiria uma nova síntese programática, que superasse o marxismo e o anarquismo doutrinários”. O apelo ao surgimento de “uma nova síntese programática” é o mesmo que o contemplar do incendiamento de ônibus, da quebra de catracas? É o mesmo que a apologia do espancamento de seguranças (tenho pena deles…)?

  34. “Em qualquer luta importa mais a forma de organização dos participantes do que o conteúdo ideológico inicial. A tomada de consciência faz-se através da possibilidade que cada pessoa tiver de colaborar na condução prática da luta, sem se limitar a ouvir doutrinas ensinadas por outros. A aprendizagem ideológica só é criativa quando ajuda a conceptualizar experiências já adquiridas ou em vias de aquisição; e quanto mais profundamente vividas forem essas experiências tanto mais longe se pode levar a aprendizagem ideológica. É a luta o fundamento e o principal motor desta pedagogia, e a autonomia ou se aprende a partir de uma base prática ou não se aprende.”
    (BERNARDO, João. Piá Piou!, nº 3, Novembro de 2005.)

  35. Bela intervenção. Só não se deve perder de vista que uma “forma de organização dos participantes de uma luta” é sempre um disciplinamento, implica numa pedagogia – seja ela “orgânica” ou não, variando apenas o caráter dessa pedagogia, se ela é apropriável pelos paticipantes, ou se ela é apenas inculcação-doutrinação de um corpo teórico-prático prévio.
    No mais, todo esse povo que se acha mais revolucionário quebrando vidraça ou ofendendo um policial (ou mesmo dando-lhe umas porradas antes de tomar outras) acaba assumindo posições reacionárias e positivistas em relação à classe trabalhadora real. Não ultrapassam a “defesa dos oprimidos” e seu “direito de revolta”, combatendo na prática as posições revolucionárias e intervencionistas quanto às relações de produção.

  36. As formas de organização refletem, elas mesmas, um conteúdo ideológico inicial. Pode ser muito bem que não reflitam uma doutrina, coisas que são muito diferentes. Pode ser também que elas sejam uma reprodução, sob novo formato, de formas de organização precedentes. O ponto é: nenhuma forma de organização (e nenhuma ideologia) surge do nada, como um raio em céu sereno. Elas são fruto de um acúmulo de experiências práticas e um acúmulo de experiências teóricas: elas são um produto da cultura.

  37. Concordo com o Fagner, defendendo que o conteúdo ideológico-cultural mais pertinente aos processos revolucionários de hoje, devem incorporar criticamente as experiências passadas e se precaverem diante das tendências à formação de gestores e sacerdotes – o que não significa, pelo que penso, em desdenhar e desreconhecer o lugar das vangardas nos processos, só me preocupa que elas não sejam monopólicas e autoproclamadas.
    E agrego às minhas considerações anteriores: esses que ainda hoje insistem no puro espontaneísmo, caem no puro mecanicismo, se defendem em alguma ideia qualquer de Deus, lançando fogo contra os que põem a cara a tapa e reconhecem a sua responsabilidade e intervenção nos processos.
    Eles trocam o bom selvagem do Rousseau pelo bom esquizo do Deleuze, sempre para fugir da materialidade concreta da luta de classes e seus condicionamentos.

  38. Quem não está?
    Meu caro, há de se convir que”Tenho apenas duas mãos/ E o sentimento do mundo…”, essa é uma característica essencial desse homem integral. Um ser limitado as suas próprias ações, que não abarcam suas pretensões, pois bem, tendo em vista isso, mantenha se firme. “Está farto”, mas é pelo menos, no mínimo, um exemplo “farto”. hahahahah
    Abraços.

  39. Todos os meus comentários não são baseados num doutrinarismo, mas numa experiência pessoal, convivendo com outros trabalhadores no local de trabalho. Há uma grande rejeição por parte dos trabalhadores, quando não hostilidade, a qualquer organização autônoma dos próprios trabalhadores, a qualquer manifestação, à greve etc. Sobretudo entre os mais jovens, que são verdadeiramente hostis a tudo isso. Isso porque, nas empresas de hoje, os gestores consegue fazer com que eles desloquem do seu horizonte a alternativa da luta de classes e do socialismo, colocando no seu lugar a alternativa da colaboração entre dirigentes e dirigidos (tanto que em algumas empresas todos os empregados são chamados de “colaboradores”), a alternativa da ascensão do trabalhador na hierarquia da empresa via “meritocracia” (ou seja, a conversão de trabalhador em gestor), os incentivos morais e materiais, a divisão dos trabalhadores em equipes que competem entre si no interior da empresa etc., etc., etc. Toda essa organização foi cuidadosamente teorizada (por intelectuais) e toda empresa desenvolve o que foi teorizado, testando novas estratégias e aprimorando as que já são aplicadas. Soma-se a isso o fato de que a maior parte dos trabalhadores não conhece projetos alternativos: confundem socialismo com ditaduras que centralizam a economia e promovem nacionalizações, do que resulta uma sociedade de privações; hostilizam-se à greve e a outros mecanismos de luta dos trabalhadores, porque a alternativa da colaboração de classe e da ascensão meritocrática na hierarquia da empresa (ou do Estado) lhes é mais atraente; quando não se hostilizam a greve, se hostilizam (muitas vezes com razão) às lideranças sindicais; são seduzidos pela possibilidade de uma vida de abundância geral, através de sua transformação em gestores ou em funcionários públicos etc., etc., etc. É claro que também surgem atritos entre os trabalhadores e a empresa, mas eles no geral são resolvidos no acordo entre gestores e trabalhadores, ou no predomínio de uma posição autoritária da empresa (ameaçando e demitindo trabalhadores etc.). Testemunhar tudo isso, todo dia, de perto, me leva a pensar que o capitalismo reestruturou a hegemonia ideológica das classes dominantes de uma maneira tão competente, que demanda dos que ainda a ele se opõem um trabalho de intervenção ideológica contra-hegemônica no seio da classe operária. O que não implica a “formação de gestores e sacerdotes”, já que se os anticapitalistas militantes estiverem munidos do arsenal teórico de um João Bernardo, por exemplo, essa possibilidade seria (com algum trabalho, certamente) obstada. Espero ter me esclarecido melhor e que minha linguagem gramsciana não seja um obstáculo a que se reflita sobre o que digo com seriedade.

  40. Meus amigos reclamam, com razão, de embora possuir alguma leitura, usar dados biográficos em minhas argumentações. Vou lhes dar mais uma ocasião para reclamarem.

    Minha suspeição com os anarquistas universitários começou quando ouvi de um anarquista chic que somente participaria de uma palestra para a qual o havia convidado se eu arrumasse forma de a faculdade pagar passagem de avião. Eu, filho de doméstica, havia criado um coletivo de estudos anarquistas e, embora não tivesse dinheiro para comer carne todos os dias (desejo pecaminoso), vendia livros para bancar as publicações do coletivo e outros gastos, sem reter um único centavo do lucro para mim. Arrumei livros por 1 real e vendia dois por cinco reais. Na altura, me surpreendeu a exigência de quem se julga superior de adentrar somente em avião, embora o camarada se oferecesse para palestrar gratuitamente.

    Com os marxistas universitários a suspeição começou depois de ver, após um lindo seminário no SINTUSP, um militante sair da USP e ir pechinchar preço com uma precarizada prostituta de rua: “só chupetinha é quanto?”. Esticando, com o tempo também percebi que as garotas punks só ficavam com os caras punks que eram de bandas ou tinham alguma posição de destaque no movimento e me ocorreu de ver num debate anarquista uma garrafa de café se tornar propriedade exclusiva dos três que compunham a mesa, embora houvesse somente mais cinco na plateia e o café sobrasse para todos. Nós queríamos tanto tomar aquele café que não nos foi oferecido…

    Eu fui durante anos apaixonado por Proudhon, Kropotkin, Malatesta, Bakunin, (fui politizado por anarquistas) embora tenha que afirmar que, exceto por algumas frases impactantes e textos para jornais, o que conheci do publicado no Brasil do Bakunin é quase tudo perda de tempo. Além de ultrapassado, trata-se de mau texto, inútil como análise. Por fim, de todos, só recomendo para o filho e amigos o bom e velho Malatesta, com alguma ternura, como quem olha fotos da avó. E nem tanto. Que meus amigos ou ex-amigos aprendam a olhar para o presente e construir tuas análises. O livro “A Guerra da Tarifa”, de Léo Vinícius, vale hoje mais que toda a obra de Proudhon. Recomendo para o meu filho “A Guerra da Tarifa”, não recomendo perder tempo em história do pensamento com Proudhon ( a não ser que ele pretenda fazer carreira universitária). Viva o movimento de rotação!

    Mas devo voltar à anorexia (pobreza, miséria) do anarquismo e marxismo universitários (o que predomina) de um ponto de vista “fortalece quem te fortalece”, (MC da Leste, novo intelectual orgânico?), vivificador dos humilhados sociais, crítico, potente. Anorexia, na verdade, é elogio, trata-se de lente envelhecida, desfocada, em suma, coisa a ser dada aos quartinhos de casas abandonadas, água passada da história ideológica. E venho novamente com a vida (minha espada), não com autores, livros ou citações.
    ….

    Há um ano e meio meu filho mora em Campinas, cidade da UNICAMP. E mora num conjunto de habitação popular construído pela CDHU, com o dinheiro dos nossos impostos. Trata-se de prédios populares destinados a trabalhadores comuns, o cara que serve o teu café, a mulher que limpa a tua casa, o corintiano que dirige o ônibus. Chama-se CDHU San Martin, mas o povo local fala “San Martins”, por desconhecer a história do lutador.
    Como todos sabem, recentemente, no Facebook anarquista e marxista universitário divulgaram-se textos, imagens, gritos, chamadas para atos a respeito da violência em Barão Geraldo, distrito enriquecido numa empobrecida Campinas, ilha de prosperidade onde fica a UNICAMP. O curioso é que o CDHU San Martin fica do lado de Barão Geraldo. É de lá que saem muitos dos trabalhadores precarizados que atuam na UNICAMP e muitas das domésticas que servem em Barão. No entanto, embora a proximidade, ao passo que Barão Geraldo apresentava casos rotineiros de assalto, furtos, tentativas de estupro, violências outras, o espaço do CDHU San Martin brilhava como um oásis de paz. Qual a razão? Tão próximos, meros cinco minutos de carro, um rico e com violência enquanto outro ostenta paz e tranquilidade, embora empobrecido!

    Sabemos que tantos espaços de dormitórios populares (nos finais de semana convívio) são também muito violentos. O que diferencia o dormitório popular citado, entre outros fatores, está na atuação da Associação de Moradores do CDHU San Martin. O que o dirigente da Associação e sua equipe fazem é uma autogestão da sociabilidade local. Imagine um negro, imagine um palco, agora pense em Barack Obama mais escuro e tratando da instalação de lixeiras pela comunidade, de alguns espaços ainda sem asfalto, da necessidade de uma creche. É isso. Agora continue somando com o fato de que não há furtos – os botijões de gás externos sem cadeados, mesas de sinuca ao ar livre -, nem estupros, nem assaltos, nem outras tantas brigas, zero. Sem polícia e sem carrocinha. É isso.

    No CDHU San Martin, a Associação de Moradores garante que nenhum jovem seja espancado pela polícia. Isso porque, de base, há um sentido de união, de comunidade. E também atua coagindo. Desde jovens que empinavam motos e arriscavam a vida de outros até o som de funk que atrapalhava o sono de tantos trabalhadores. Autonomia não é só liberdade, mas também responsabilidade com o próximo.

    Agora, pensem comigo. Tem muito anarquista ilustre na UNICAMP e muito marxista ilustre também. São apenas cinco minutos de carro, é de onde saem as mulheres que servem o café e limpam a casa. Qual deles conhece a experiência de autogestão da sociabilidade praticada no CDHU San Martin? Qual deles escreveu sobre? Quantos grupos de estudo, pesquisa, comparação? Quando digo que o anarquismo e marxismo que se produz no Brasil hoje são contraproducentes estou falando de pessoas mais interessadas em averiguar se há erros de pontuação num texto do que se há gente lutando na cidade de Campinas.

    Quando vou visitar meu filho e ando pelas ruas escurecidas pela noite e respiro a paz do CDHU San Martin não devo essa prazerosa paz nem ao marxismo nem ao anarquismo. Mas ao desconhecido presidente negro da Associação de Moradores, sua equipe e o sentido de solidariedade que a comunidade construiu e serve de base para tudo. Todos com pouca leitura. E quando penso que em apenas um ano e meio eu descobri em Campinas motoristas e cobradores que fazem greve contra demissão de colegas e não por dinheiro, grupos de funk e pagode que tocam gratuitamente no CDHU, moradores que assumem uma associação sem ganhar um nada, nem candidatos a vereadores são, eu imagino o que mais deve existir e que os pesquisadores locais desconhecem. Penso, enfim, no grande prazer de aprender com os olhos e elaborar com minha mente, e de como me é inútil aquilo que, sob medo de assalto (lá em Barão), se produz sobre um passado mais que defunto.

    O Passapalavra teve o mérito de fazer a única entrevista, ao menos que eu saiba, com o professor Tonhão, exonerado por conta da greve de 2000 (o velho professor lutador foi abandonado tanto pelos marxistas quanto pelos anarquistas universitários – se prepare quando for tua vez). Deveria fazer, também, uma entrevista com os membros da Associação de Moradores do CDHU San Martin. Olhar o que os estabelecidos são incapazes de ver, mesmo ao lado, é o que me faz clicar nesse site e aqui também escrever. Com esse texto estou produzindo conhecimento, não sou marxista nem anarquista, nem sou financiado por nenhum grupo, nem de nenhuma universidade. É isso. Viva o movimento de rotação!

  41. Curioso que as feministas gostem de elogiar as delegadas da mulher, as promotoras, mas não elogiem as lutadoras do CDHU, e os lutadores, que auxiliam para que não haja agressão às mulheres.

    Ao elogiarem órgãos do Estado indicam onde querem trabalhar e o que apóiam. Ao nunca descobrirem os mecanismos populares de resolução da questão de gênero, explicitam, o que não querem fazer: lutar pelas mulheres trabalhadoras.

  42. Para se ter ideia do que é que a falta de alternativas representa para os trabalhadores, darei um exemplo concreto: testemunhei a pouco uma das manifestações de criatividade organizativa dos trabalhadores, sobre o que falarei. Existem grandes empresas em que os trabalhadores são divididos em pequenas equipes que devem competir entre si por incentivos materiais e morais. Trabalho numa delas. Cada equipe tem o seu gestor, mas foi da cabeça de um trabalhador da empresa que saiu a brilhante (e pioneira) ideia de propor ao gestor de sua equipe que cada pequena equipe fosse também ela dividida entre duas equipes menores ainda, as quais devem competir entre si em troca de longas pausas para descanso. Além disso, o melhor colocado na competição será nomeado líder da sub-equipe, o qual ficará responsabilizado de “motivar” os piores colocados. Não posso descrever o brilho no olhar do gestor que logo nomeou o jovem trabalhador como seu assistente. Como todos os outros trabalhadores da referida equipe, que agora será dividida em duas também, são também jovens e despolitizados, mas criativos e sedentos por desempenhar funções de gestão e comando, todos aprovaram a ideia com entusiasmo. Agora todos terão que esforçar-se para bater as metas da empresa em troca das referidas pausas de descanso: a mais-valia relativa irá às alturas. Na sua cabeça tudo será bem divertido, como numa gincana em que se compete por um prêmio. Fora de um universo de alternativas que apontam modelos alternativos de organização, só o que pode sair da cabeça de um proletário é uma reprodução da organização que coloca os trabalhadores para competirem entre si, levando à fragmentação da classe operária. Não porque ele não é inteligente ou porque não consegue perceber quando é sujeito à opressão e à exploração, mas porque a colaboração com seus superiores hierárquicos e a competição com seus iguais é considerada a melhor (quando não a única) alternativa para a ascensão social, para a conquista de melhores condições de vida. Nem é preciso dizer que, mesmo ganhando generosas pausas de descanso, e exatamente por isso, a produtividade irá aumentar e a defasagem entre o que se produz e o que se incorpora no salário irá se multiplicar também generosamente. Mas um trabalhador que não tem a teoria da mais-valia como alternativa diante de si nunca o compreenderá: os ganhos imediatos é que lhe interessam. Testemunhei tudo isso com meus próprios olhos.

  43. (Comentários sobre o texto de J. Bernardo colocados no blogue Vias de Facto)

    Do capitalismo só se sai de duas maneiras, pelo abandono do consumismo em favor da frugalidade e da suficiência, ou pelo colapso. Adjectivar como “miséria” o necessário (e revolucionário) modo de produção que reconheça a finitude do planeta e dos seus recursos, é uma ideia que só pode sair da cabeça dum lunático como o João Bernardo, que decidiu simplesmente ignorar, à velha maneira dos economistas liberais, a base biofísica do milagroso crescimento económico dos últimos 150 anos, sem o qual não haveria sociedade urbana e industrial.

    Imaginar que é possível salvar a sociedade industrial sem energia fóssil abundante e barata, num planeta com 2 mil milhões de hedonistas e mais 5 mil milhões com desejos de o serem, é completamente ridículo.

    Enquanto a esquerda não descer do mundo das ideias (hegelianas, no caso de JB)) para o da realidade biofísica, aquilo que ela tem a dizer sobre o presente e o futuro será totalmente irrelevante, porque pretender analisar a realidade económica sem contar com as limitações biofísicas do planeta é o mesmo que pesar comparativamente um elefante e um leão numa balança de cozinha: um fútil exercício de lunáticos.

    A esquerda representada pelo João Bernardo pensa que o inimigo ainda é o capitalismo porque é isso que diz a teoria marxiana. Se levantasse a cabeça, veria que o seu querido inimigo se encontra já na condição de pré-cadáver(como de resto foi previsto há décadas por gente simplesmente sensata como E. F. Schumacher), e que se chegou a pré-cadáver foi simplesmente porque lhe aconteceu o que fatalmente acontece a todos os sistemas e organismos vivos: ficarem sem energia. Tentar deitar fora a água suja do capitalismo para conservar o bebé da sociedade industrial não é ser revolucionário, é ser idiota. Os únicos revolucionários, hoje, são a pessoas que vivem e defendem a transição para a sustentabilidade. Tudo o resto é mera conversa para entreter ilusões apodrecidas.

    …..
    Caro Miguel Serras Pereira

    Uma das afirmações mais absurdas do texto de J. Bernardo é essa que cita, sobre a satisfação com que o patronato verá a esquerda ecologista defender a frugalidade. Se ele tivesse falado na elite financeira, que nada produz nem dá emprego a ninguém porque percebeu que é no casino da Bolsa que se ganha dinheiro no casino da Bolsa, eu até poderia dar-lhe razão. Mas ele fala em patrões. Ora, que eu saiba, um patrão é alguém que vive da exploração do trabalho alheio e da recolha das mais-valias, logo, é alguém a quem o que menos interessa é que as pessoas se retirem do ciclo alienante da produção e do consumo. Se há alguém para quem o crescimento seja vital, é para os patrões. Ou será que o consumo já deixou de ser, como gostam de afirmar os economistas liberais, a “alavanca do crescimento”? Portanto, a afirmação de JB é completamente disparatada.
    Em todo o caso, o que os patrões pensam ou deixam de pensar não faz subir o petróleo nos poços nem baixar os custos da sua extracção, não faz subir o nível da água nos aquíferos, nem aumenta a produtividade agrícola, que muitos ecologistas consideram ter alcançado um máximo inultrapassável.
    Não vejo em que é que o meu comentário pode dar razão às críticas de J. Bernardo. A perspectiva de Castoriadis parece-me muito mais lúcida do que o tecno-fetichismo de J. Bernardo, e em nada contradiz o que eu digo. A gestão do necessário decrescimento pode e deve ser feita democraticamente. Claro que há o risco de essa gestão vir a ser feita totalitariamente, imposta de cima para baixo por elites corruptas e apostadas em fazer retroceder a relação de forças dentro do sistema produtivo para os tempos do ancién regime. Mas, por muito que isso pese ao JB, que vive num mundo de ficção assombrado por fantasmas “eco-fascistas”, não é isso que eu defendo, nem é isso que defende a ecologia socal. Mas é isso que acontecerá, provavelmente, se a esquerda insistir em pelejar com inimigos-fantasma, se a esquerda continuar a pensar que o grande objectivo é tomar os comandos do trem-bala capitalista na sua pretensa viagem para o Eldorado do consumismo para todos; se a esquerda continuar a fingir que vivemos ainda em 1930, ou em 1950, e que é fisicamente possível um mundo com 7 mil milhões de automóveis e de IPods.

    Eu compreendo: a mensagem não é popular, e a esquerda partidocrata receia, e com razão, que um eleitorado estupidificado por ilusões consumistas lhe fuja ainda mais depressa perante o anúncio de que o único programa realista, humanista e revolucionário passa pela gestão equitativa (e democrática, obviamente!) dos recursos que restam. Isso implicaria necessariamente que o mundo ocidental deixasse de se poder atulhar com gadgets fabricados por escravos asiáticos. Porque o povinho ocidental está viciado em gadgets, certo? Tal como os partidos políticos estão viciados em votos.
    Mas de um pretenso analista económico como J.B, que ainda por cima não é líder de partido nenhum, o mínimo que se esperaria era que não embarcasse em ilusórias promessas de crescimento exponencial num mundo finito, como se vivêssemos ainda no tempo em que bastava espetar uma picareta no solo para extrair petróleo, no tempo em que éramos apenas 2 ou 4 mil milhões a pesar sobre a Terra, no tempo em que ainda havia lucros fabulosos a fazer na exploração da mão-de-obra. O que JB não percebe, estranhamente, é que para os capitalistas, neste momento, os seres humanos já nem como mão-de-obra barata têm serventia, e que o que eles gostariam é que metade da humanidade desaparecesse subitamente, para que se aliviasse a pressão sobre os recursos e a produção pudesse retomar a mágica do crescimento, sem o qual não existem lucros possíveis.

    O excerto de Castoriadis parece-me bastante lúcido e apenas vem dar-me razão. A ecologia social, que eu saiba, não defende o apagamento das clivagens políticas; pelo contrário, o que defende é a sua exacerbação radical. JB vive encerrado numa teoria materialista-dialéctica de “sujeitos históricos” , para a qual tudo o que conta são as relações de produção e a propriedade dos seus meios. O que eu digo é que essas teorias perderam actualidade, porque o mundo que elas analisavam tinha subjacente uma realidade biofísica que não era (não é) menos real pelo facto de o profeta Marx não a ter reconhecido. O sujeito histórico, no mundo real limitado pela finitude dos recursos e pelas diversas crises (ambientais, financeiras, energéticas) que impendem sobre nós, não pode ser menor do que a humanidade inteira, e quem persiste em situar na fábrica (esse fóssil da economia industrial!) o lugar por excelência da praxis revolucionária, quem julga que o sujeito revolucionário continua a ser o proletário, ou o estudante, ou o eleitor, ou o vendedor de castanhas, vive simplesmente num mundo de fantasia. No mundo real em que eu vivo, cada vez se torna mais evidente que a guerra de classes do século XXI se travará entre os oligarcas rentistas (coadjuvados pela sua rede de apparatchiks políticos e de relações públicas) e o resto da humanidade. Não sei em que terreno será travada essa luta, mas nas fábricas ou nos escritórios não será de certeza.

    Quanto à moral cívica, só se pode fundar na noção de que a hubris predatória da economia capitalista é não só imoral como insustentável a médio prazo, e que novas relações de produção (preferencialmente, longe do salariato) terão forçosamente de orientar o nosso futuro, se é que queremos ter um futuro.

  44. Ler as postagens do JMS é em tudo semelhante a ouvir as pregações dos evangélicos da quebrada, anunciando o fim do mundo. Ao menos o JMS não vem à porta de casa num domingo matinal…

    Mas eu queria contestar um dogma. Eu não consigo realmente entender esse papo de que a humanidade tem que ser eterna, o planeta eterno e segue. Se o planeta é finito, estou pronto para o fim. Só não quero passar meus últimos dias com ecocratas sugando o meu sangue e me dando ordens.

    Abaixo o dogma da humanidade eterna. Se bem que tenho certeza que esse trem vai muitos milênios ainda…

  45. Em comentários colocados no Passa Palavra JMS chamou a João Bernardo «lunático», «ignorante», desprovido de «curiosidade científica», caracterizado por «um deficit gritante de conhecimentos científicos», «pretenso analista económico», partidário do «tecno-fetichismo», defensor de «uma doxa baseada em preconceitos cristalizados», alguém que «representa admiravelmente a esquerda tradicional», cujas «análises da realidade política e social parecem feitas através do binóculo economicista/sociologista», alguém que quer «continuar a sentir-se uma pessoa influente», partidário das «ideias hegelianas» e «cartesiano».
    Num comentário colocado no Vias de Facto (http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2525053614363345408&postID=8655611561434351264 ) JMS afirma: «Eu não conheço a obra de JB, com a excepção de alguns textos esparsos […]».

  46. Se João Bernardo afirmasse que 2+2=9, eu só teria o direito de afirmar que ele não sabe aritmética se provasse estar familiarizado com as suas obras completas…

  47. Maria,
    Prolongando o seu “raciocínio”: se você não vai viver eternamente, porque não matar-se já? E os seus filhos ou netos? Não será preferível acabar já com eles, visto que são constituídos por células e órgãos lamentavelmente finitos? Pense nisso.

  48. JMS,

    Se alguém disser que 2 + 2 = 9, obviamente você legitimamente pode afirmar que essa pessoa errou a conta, ou até mesmo que é muito ruim de matemática ou que não sabe matemática, sem precisar ter lido ou ouvido nada mais vindo dela. Pois a pessoa errou um cálculo.

    Porém afirmar que alguém, por exemplo, é um “pretenso analista económico”, conhecendo apenas alguns ‘textos esparsos’ dessa pessoa, não traz legitimidade alguma para a afirmação.

    O próprio fato de não enxergar a diferença entre os dois casos traz descrédito para suas opiniões.

  49. JMS, um parceirão meu foi espancado pela ROTA não faz um mês. Por que você não contar pra ele a sua teoria sobre a finitude do planeta? Tivesse eu frente a frente com tí usaria as palavras corretas, e não estas tão educadas. De onde a gente vem e vive não precisamos nos preocupar com uma suposta natureza fascista porque o fascismo é real, bate na cara, dá socos e chutes, coronhadas, cassetadas, choques e outros mais. E, sim, muitos dos nossos se mataram, aniquilados psicologicamente, mas os que criaram forças para prosseguir não possuem interesse em dar esse gostinho. A vida aqui é tenebrosa, tanto é que você não habita estes lados nem sequer nos visita. E é tenebrosa não pela natureza. O que seria um deleite!

  50. Um aparte sobre a pequena controvérsia matemática que surgiu nos últimos comentários: se alguém disser “2+2=9” esse alguém é certamente um matemático e está a referir-se, como é óbvio, à operação de soma no corpo Z_5, onde de facto se verifica 4=9. Quem acha que 4 é sempre diferente de 9 é que nada sabe de matemática, pelo menos da matemática desenvolvida nos últimos 200 anos. Com tantas menções a filósofos e eminentes teóricos, e utilizando palavras como “hubris”, seria de esperar que se tivesse uma concepção menos primária da matemática e da sua epistemologia.

    Vamos todos combinar deixar de usar a aritmética elementar para analogias e metáforas infantilizantes e toscas? A tarefa dos professores de matemática já é difícil, vamos tentar não piorar as coisas.

  51. Estava passando o olho novamente no livro Nemesis da Medicina, de 1975, do Ivan Illich, e encontrei esse trecho bem interessante:

    “A ecologia aspira à hegemonia entre as ciências. Considero que seria erro grave, no atual período da crise, determinar à ação humana limites ditados por uma ideologia ecológica que seria apenas versão pseudo científica da antiga sacralização da natureza. Somente um acordo geral sobre os processos suscetíveis de garantir igualitariamente a autonomia do homem pós-industrial poderá permitir a determinação dos limites com os quais se deve ocupar a atividade humana.”

  52. Mais um trecho:

    “Não é necessário, não é provavelmente viável e não é certamente produtivo fundar a limitação das sociedades industriais sobre um sistema partilhado de dogmas ecológicos para cuja observância, no interesse geral, seria necessário um poder policial.”

  53. Não acho que devemos andar pra trás mesmo, concordo(mas não tudo é isso que faz as coisas movimentarem) e gostei muito do texto. Pra andar o pé tem que se articular, pra criar as coisas do cérebro tem que usar a maleabilidade das mãos, pra falar a boca tem que abrir. Tudo pra frente mesmo, tudo, mas tome cuidado pra não tropeçar em tantas letras e informações…quantos cérebros pensantes duros!

  54. Não sei porque estamos aqui, comentando, se o título do manifesto nos impele a fazer exatamente o contrário. Talvez o melhor fosse desabilitar comentários para essa publicação. Mas já que estamos aqui e que sempre é possível um novo parágrafo, vamos lá.

    Infelizmente, as qualidades do que argumenta e reflete JB caem no seu excesso. Pede um homem integral, novo, que supere o marxismo e o anarquismo (uma comparação esdruxula, da minha parte, visto seu problema escalar), mas começa pela mesma crítica ortodoxa. Marxistas, pelo menos, tentam se renovar, os anarquista nem isso. Ilusão pior que a dos ecológicos multiculturalistas. Pede um novo começo, mas parte de uma proposta antiga. Quer um homem integral, mas nega o ambiente em que vive, desde o momento que descredita a ecologia como um saco de batatas. Pede uma nova construção, mas ouve tão pouco de seus interlocutores quanto o inverso. Critica o esfalecimento das propostas de sociedade por sua falta de complexidade e caráter retrogrado, mas nega a multiplicidade de agentes transformadores. E qual é o limite, até onde pode ser conceituada essa classe trabalhadora? No mesmo limiar entre o operário revolucionário e o camponês tradicional? Teremos ainda que esperar vislumbrar uma libertação criativa de uma classe única, resultante de um proletariado organizado frente um capitalismo avançado, ou podemos acreditar em revoluções outras? No vias de facto, explicita o conceito plasticamente, mas critica a plasticidade dos outros, quando essa não o favorece. Desqualifica JG por gostar de passear por cachoeiras, mas em outro momento se intitula como ser nascido, e criado, no urbano. Argumenta como que despido disso, como que construindo a critica somente a partir de ideias e dados. Mas cria suas ideias dentro de seus próprios horizontes urbano-industriais. Faz, exatamente, o que desqualifica no fazer dos outros. Como podemos nos dar direito a dúvidas, quando o emissor que diz não ter certezas prolifera verdades? Pior, além de tudo, é ver a defesa, por vezes messiânica, dos pensamentos de JB por alguns leitores. Já vi isso antes, com outras figuras mais marcantes da história, que levaram somente a defesa doutrinária que o próprio critica.

  55. A direita se tornou ecológica?! Ah, vá… A esquerda brasileira é a mais anti-ecológica de todas, fazendo um belo monte de merda…
    Realmente a questão de gênero tomou proporções bastante grandes no movimento político contemporâneo e muitas vezes cai no vitimismo particularista. Mas não vejo isso como sendo diferente do vitimismo dos trabalhadores. Trabalhadores que não são revolucionários coisa nenhuma, que acalmam sua revolta com iogurte, BBB e i-pod. Seja na Europa dos anos 80, seja no Brasil dos anos 2000 e tantos. Sujeito revolucionário é aquele que se transforma coletivamente e mutuamente, ele não está pronto. A alma do trabalhador, como diria o outro, só dá trabalho, nunca será anti-trabalho. A não ser que ele abandone sua posição de classe. E nada disso adianta ser questionado se a desigualdade de gênero não for questionada, ao contrário do que faziam Marx e Proudhon.

  56. Já joao bernardo dizia em 70 que à esquerda de cunhal todos os gatos são pardos. Ele foi o primeiro democrata a considerar as duas formas de capitalismo existentes até etáo: o capitalismo de Estado monopolista(Russia e China) e capitalismo monopolista de Estado(EUA e CEE). Os conceitos de esquerda/direita exprimem se em função dos interesses das fracções da burguesia interessadas em apropriar – se do Estado (apropriar – se dos dinheiros dos cidadãos) para defender os seus interesses de classe; a burguesia. Os parlamentares que defendem estas formas de capitalismo são apenas os participantes da execução dos instresses da burguesia. Com os “cientistas” e os “técnicos” e os “gestores” configuram a estratégia macroeconómica transnacionale nacional e a “harmonia de interesses” através do mecanismo da racionalidade que procura a sustentabilidade do sistema social, anestesiando a acção politica dos assalariados de modo que mantenham as condições mínimas de poder trabalhar para viver e viver para consumir.A sua legitimação politica(pelo voto) através da sua “ética” vai delimitando a acção politica dos assalariados.Os meios de comunicação, os opinion makers encarregam se do processo de aliençao dos assalariados e os estudantes das universidades aprendem técnicas novas de produtividade,de espirito de grupo, coaching, etc, a implementar nas empresas onde irão trabalhar. Esses futuros técnicos mal sabem que os CEO ganham 10 vezes mais que eles(são eles que decidem o caminho das formas capitalistas) e cujos rendimentos do “trabalho” deses 0.1% CEOS representam mais de 10% do rendimento do trabalho nacional sem falar ainda dos rendimentos do capital pois só eles podem investir em capital virtual.
    Os conselhos ou CT que o João propõe desde 1976 devem assumir politicmente o domínio do novo modo de produção e das relações de produção. As classes intermedias constituídas pelos técnicos,devem contribuir para o seu desaparecimento como classe desvanecendo se à medida que os assalariados consigam ter conhecimento quer das condições de produção , quer da gestão, quer do processo produtivo. Em termos de sociedade deve haver uma ligação transversal entre os concelhos, ou CT, ou sindicatos não afectos a partidos políticos(os sindicatos deviam ser como uma irmandade) , as comissões de moradores e as associações politicas dirigidas para a democracia directa. Não existirão pois comités centrais mas o processo da transversalidade é que determinará institucionalmente a domínio do económico pelo politico. Enfim, o caminho faz se caminhando.
    Uma patrulha para o Bloco Democrático

  57. Olá,

    Recentemente descobri que havia um comentário em meu nome na listagem desse artigo.

    Eu desconhecia tanto o texto quanto o comentário. Ele não é de minha autoria. Aparentemente alguém que não quer dar a cara a tapa se utilizou de me nome para comentar, tentando se passar, de maneira bem tosca aliás, por mim. Falhou miseravelmente porque tanto a linguagem quanto o conteúdo destoam muito do que penso sobre o tema.

    Consultei o Coletivo Passa Palavra a respeito e eles confirmaram que é possível que qualquer pessoa comente se utilizando de nome e email de outrem e que o coletivo só modera o teor dos comentários.

    Abaixo segue trecho do email enviado pelo Coletivo:

    “Nossa política editorial visa preservar a identidade dos comentadores,por isso fazemos a moderação apenas do conteúdo do comentário. Isso está colocado no ponto 6 deste documento:
    http://www.passapalavra.info/2009/02/151
    .
    Sendo assim, nos é impossível checar se este comentário ou qualquer outro foi realmente feito por você ou outra pessoa. Tal como em qualquer outro site, é possível comentar no Passa Palavra colocando qualquer nome ou pseudônimo e email. O comentário é recusado apenas quando infringe nossa política editorial.”

    Enfim, sugiro que antes de criticar qualquer pessoa conhecida por supostos comentários nessa página chequem e confrontem diretamente a mesma sobre a autenticidade do mesmo.

    Que sejamos criticados pelo que de fato escrevemos e pensamos e não por comentários fake.

    Abraço a todos!

  58. Confirmamos o teor do trecho do email enviado a Ricardo Ramos Rugai e reiteramos nossa política de moderação de comentários disponível no link que foi indicado acima.

    Cordialmente,
    Coletivo Passa Palavra

  59. Rugai

    Obviamente, é um problema do site essa questão dos nomes e dos apelidos. No entanto, olhei a lista de comentário e não tem nenhum assinado Ricardo Ramos Rugai….existe apenas alguém que escreveu como Rugai.

    Deve existir muitos Rugai por ai. O problema fica, então, nas pessoas que pressupõem que seja tal ou tal pessoa atrás de dado nome, apelido.

    Judicialmente, só poderia acusar de que há alguém tentando se passar por ti se tivesse publicado como Ricardo Ramos Rugai.

    O site ou seja lá quem for foi vítima dos pensamentos prévios.

  60. PROSCRITO : PRESCRITO : PÓS-ESCRITO
    4 anos & 2 meses depois (diria Dava Tênia [sic], o rábula rabugento), já prescreveu [:-D}]…

  61. Sim, concordo, mas não custa nada deixar isso bem claro, porque somente este ano “descobri” o texto e os comentários, infelizmente por razães bem desagradáveis

  62. Atenção passa palavra: periga de Mequetrefe da Silva – Silva, para os íntimos – pleitear isonomia…

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