Os patrões ditos de esquerda não só arregimentam trabalhadores como conseguem frear parte da inevitável revolta diante das más condições materiais para o exercício da profissão. Por Júlio Delmanto

Tenho 27 anos, e em 2013 completam-se cinco anos da conclusão do meu curso de jornalismo. De lá para cá, e também durante meus estágios ainda como estudante, procurei sempre que possível trabalhar em locais que me propiciassem se não exercer minhas convicções de outro mundo melhor, possível e urgente, ao menos não ofendê-las. Para além dos trabalhos em regime freelancer [1], já trabalhei para ONGs, movimentos sociais, um grande portal de Internet e empresas que se colocam no mercado como de esquerda, visando evidentemente um público também com esta visão de mundo. Olhando retrospectivamente, em nenhum destes empregos eu fui explorado e desrespeitado, tão “fudido e mal pago”, como neste último tipo.

Assim, não me surpreendeu em nada a atitude tomada nesta segunda-feira, 11 de março, pelo dono da revista Caros Amigos, Wagner Nabuco, de demitir sumariamente toda a redação da publicação por ter ousado fazer uma greve em busca de condições de trabalho minimamente dignas [2]. Não só porque já trabalhei lá e conheço o caráter (ou a falta de) da direção da revista, que segundo relatos no Facebook chegou a demitir uma funcionária durante sua licença maternidade, e as condições que os funcionários têm que enfrentar por ali, como os péssimos salários (invariavelmente atrasados ainda por cima) e a completa ausência de registro em carteira, benefícios e outros direitos.

Não me surpreendi pois também entre ONGs que conheci de dentro, uma delas inclusive supostamente defensora dos direitos humanos, vejo este mesmo tipo de postura extremamente cínica vigente em empresas que são geridas por pessoas ligadas de alguma forma a um passado e ou discurso de esquerda e que buscam, através dele, ocupar um nicho de mercado com “consciência social”. Pierre Bourdieu dividia explicativamente o Estado entre suas mãos esquerda e direita, com esta sendo responsável pela repressão e aquela pelos investimentos sociais, como educação, saúde e previdência. Neste tipo de ocupação há a mesma dicotomia: para fora, para os clientes e ou financiadores, a mão esquerda do discurso, dos produtos, do ar de contestação; para dentro, o punho de ferro da falta de condições para o desempenho da função, da ausência de democracia interna, da superexploração e do desrespeito completo e absoluto à legislação trabalhista e fiscal.

Se o desenvolvimento do capitalismo atingiu na contemporaneidade um estágio em que o desemprego é sua característica dominante, como avalia István Meszáros, não são só as grandes empresas que se aproveitam disso: no momento pelo menos metade de meus amigos jornalistas está desempregada e a outra metade está procurando algo melhor, e não só os portais de Internet, com suas jornadas de dez, doze horas, sabem disso. O sabem muito bem também os diversos Nabucos que por aí estão, sonegando impostos e ainda mamando em publicidade governamental graças a contatos políticos e que se aproveitam não só da falta de empregos decentes como, e ainda mais, da falta de alternativas de trabalho na área que não sejam explicitamente reacionárias ou degradantes – ou ambas. A Caros Amigos, que vinha sendo dirigida editorialmente com competência e combatividade, mesmo em meio à penúria material, por Hamilton Octavio de Souza desde 2009, fazia questão de se divulgar como “a primeira à esquerda”, e isso sempre funcionou não só como atrativo para seus leitores mas também como forma de convencer jornalistas a “colaborarem” com o projeto. Não à toa o termo utilizado pela direção sempre foi esse, muito querido pelas multinacionais mais sedentas de lucros: a relação de compra da força de trabalho não pode ser apresentada apenas enquanto tal, pois aí saltaria aos olhos a baixa contrapartida salarial; é preciso um “atrativo” a mais, o engajamento. Em uma dessas ONGs era muito comum que se dissesse se tratar de militância e não de trabalho – talvez assim convencessem a si mesmos de que o registro em carteira era desnecessário.

“Se todos ajudarem, podemos sair dessa situação e aí quem sabe finalmente talvez…”, implícito ou explícito isso é dito todo dia em um trabalho como esses. Vamos trabalhar pra crescer o bolo e depois dividi-lo? E enquanto isso o seu salário é bem maior que o meu, né? Sei.

Enfatizando o caráter progressista da empresa ou da função cumprida, os patrões ditos de esquerda não só arregimentam trabalhadores como conseguem frear parte da inevitável revolta diante das más condições materiais para o exercício da profissão, tanto por parte dos próprios empregados como de clientes e apoiadores. (Sem falar no velho argumento de que qualquer crítica é “fazer o jogo da direita”.) “Não há dinheiro, o que se há de fazer?” Mesmo agora, com onze pessoas demitidas por uma revista supostamente de esquerda durante uma greve, se lê isso nas redes sociais. Claro que para os patrões sempre há dinheiro, para as contas sempre há dinheiro, para os fornecedores sempre há dinheiro, mas para os trabalhadores nunca – afinal, eles são militantes, trabalham também pela causa, às vezes só por ela.

Mas que causa é esta no fim das contas? Para os “colaboradores” a motivação é evidente, a possibilidade de utilizar uma publicação respeitada para difundir uma história ou um tema político considerado importante leva a que se aceite a remuneração simbólica e mesmo inexistente do trabalho, em nome do fato ou debate que se quer tornar público. Acontece que, diferentemente do Brasil de Fato [3] e da Expressão Popular [4], que são mantidos sobretudo pelo MST, ou do Passa Palavra, iniciativa mantida de forma militante, empreendimentos como a Caros Amigos e editoras como a Boitempo se nutrem do trabalho voluntário [5] para fins de acumulação pessoal de seus donos. Trabalha-se de graça para difundir uma ideia ou para encher o bolso de alguém? Neste processo, além do trabalho cedido e convertido em lucro, também estas empresas apropriam-se em alguma medida do nome dos colaboradores, que chancelam esta iniciativa como realmente de esquerda, como confiável, digna de ser seguida e divulgada.

“Realmente, é uma situação péssima, mas o mais importante é que a revista prossiga”, defendeu um dos apoiadores de Nabuco quando soube da greve na Caros Amigos. Então um projeto político de esquerda pode estar acima da bandeira maior da esquerda desde o seu surgimento, o fim da exploração? Vamos ser coniventes com trabalho precarizado e muitas vezes escravo, já que jamais pago, para podermos ler nossos ideais impressos em folhas de papel? Vamos ser coniventes com o discurso de esquerda sustentando o enriquecimento pessoal de alguns às custas da dignidade de outros? Vamos aceitar ler um conteúdo de esquerda, destinando nossos esforços financeiros, de elaboração e de divulgação, para uma revista que não respeita o direito de greve nem os direitos trabalhistas mais mínimos? Vamos criticar a sonegação fiscal das grandes empresas e fortunas quando a Caros Amigos não paga os seus impostos corretamente há mais de dez anos? Vamos criticar o dinheiro público que vai para publicidade das revistas da Abril e vamos aceitá-lo indo para um sujeito que não respeita sequer a maior arma e conquista da classe trabalhadora que é o direito de cruzar os braços?

Infelizmente o legado e o ótimo conteúdo produzido pela redação (e não pelo dono) da Caros Amigos estão sendo jogados no lixo já há algum tempo por seus gestores. Se a direção da revista passasse para seus trabalhadores ou no mínimo para alguém que seja digno de tal cargo, aí seria o caso de, em nome da disputa num campo tão concentrado quanto a mídia brasileira, nos solidarizarmos com sua situação econômica e ajudá-la a sobreviver, trabalhar de forma militante, fazermos campanhas, ajudar um projeto de comunicação contra-hegemônico a seguir se consolidando. Claro que aí teríamos que perguntar sobre a divisão do trabalho, sobre hierarquia, sobre livre debate, sobre relação com governos, mas isso é outro assunto.

Esta saída não parece estar no horizonte, infelizmente. Minha proposta então é simples: BOICOTE. Não leia, não divulgue, não assine, não “colabore”, não ajude, não trabalhe de graça, não curta, não compartilhe, não dê entrevistas para a revista Caros Amigos enquanto essa direção estiver à sua frente, se dizendo de esquerda para tratar os funcionários como o pior dos industriais. Se nem o pequeno grupo de leitores e assinantes desta publicação se preocupa e revolta com questões como essas, não consigo imaginar quem mais poderia. As ferramentas de luta devem servir aos trabalhadores, não o contrário. Outras publicações existem, diversas delas com os mesmos problemas financeiros [6] e mesmo assim muito mais dignas com seus funcionários, e outras surgirão [7]. A Caros Amigos está morta – que viva a Caros Amigos e sua bela história!

Júlio Delmanto é jornalista, tem a carteira de trabalho em branco e trabalhou na Caros Amigos em 2009 e 2010, recebendo 1.200 reais teoricamente-mensais como repórter.

Notas

[1] Tão onipresentes na vida de um jornalista da minha geração que são carinhosamente chamados de “frila” [freelancer], chegando ao paradoxal caso, bastante comum, do “frila fixo”.

[2] “E desde quando jornalista pode fazer greve?”, bem questionou Leonardo Sakamoto.

[3] Publicação que se relaciona de forma digna com os colaboradores, deixando bem claro que não há remuneração, e não simplesmente tentando “enrolá-los”, como invariavelmente faz Wagner Nabuco, mas cujas condições de trabalho de seus funcionários também estão muito aquém do necessário, pelo que me consta.

[4] Editora que se utiliza de trabalho voluntário também de forma honesta e que registra e respeita seus funcionários, mesmo sem condições de oferecer grandes salários.

[5] E mesmo “involuntário”, como no caso da Boitempo: aquiaqui e aqui.

[6] Cito aqui por exemplo as Revistas Fórum e Retrato do Brasil, para as quais às vezes colaboro em regime freelancer (sem saber portanto da dinâmica da redação) e que sempre foram bastante honradas e respeitosas comigo mesmo em meio a dificuldades financeiras evidentes.

[7] Para pensar o assunto recomendo o sucinto e ótimo comentário do jornalista Cristiano Navarro em sua página de Facebook: “No começo da década passada, havia no Brasil um cenário de grande efervescência entre os recém-formados comunicadores. Encontramo-nos em um tempo/espaço de lutas concretas contra o Estado Neoliberal e estávamos dispostos a criar, participar e debater: novos veículos, novos movimentos e novos direitos ligados à comunicação. Vínhamos de diferentes experiências e, sem dúvida, Porto Alegre era nossa Génova-Seattle-Buenos Aires para reunião e laboratório destes direitos e de uma nova comunicação contra-hegemônica. Foi daí que, em pouco tempo, a revista Caros Amigos, lançada em 1997, ganhava diversos companheiros de linha editorial (revista Fórum, jornal Brasil de Fato, agência Chasque, agência Carta Maior, Adital, Radioagência Notícias do Planalto entre outros) onde nós nos engajávamos. Foi nessa época também que nos mobilizamos e criamos o Intervozes. Uma década depois, outros tempos políticos e o cenário para este campo da comunicação é bastante desanimador. Enquanto as redações dos veículos alternativos de esquerda estão afundadas em dívidas, veículos tradicionais de linha editorial ultra-conservadora recebem volumosos recursos públicos de publicidades do governo federal . Para piorar, o ministro das Comunicações sentenciou que neste mandato não se tocará na reforma do marco regulatório. Não sei, posso estar errado, mas me parece que a Redação da Caros Amigos em Greve, cujo motivo é o corte em 50% da folha salarial (irrisórios 32 mil reais para absurdos 16 mil), é apenas um sinal do amargo momento que vivemos. Pois para além da total precarização, problemas tão ou mais graves do que este foram praticamente incorporados na sobrevivência destes veículos: como o assédio político partidário (especialmente em período eleitoral) e a ameaça de assessores do governo sobre jornalistas e assessores de movimentos sociais. Isso tudo, fora os embates do dia-a-dia destes profissionais contra os conglomerados de comunicação ligados à bancada evangélico-ruralista. Enfim, a situação é delicada e talvez tenha chegado o momento de voltarmos à pergunta que nos fizemos (e deu origem ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social – Grupo Público), no começo da década de 2000: E agora?”

16 COMENTÁRIOS

  1. Pois é minha gente, não tardou muito depois da série de artigos e todo o debate sobre o “Fora do Eixo”, e logo nos damos de cara com um caso que mostra a abrangência das práticas de precarização do trabalho dentro dos discursos “de esquerda”.

    Como bem escreveu o autor, “Se nem o pequeno grupo de leitores e assinantes desta publicação se preocupa e revolta com questões como essas, não consigo imaginar quem mais poderia.”
    Que tipo de leitor é esse que se dedica a leituras de esquerda veiculadas por um meio que precariza seus trabalhadores?? É o ápice do cinismo!

  2. Interessante que muitas das críticas presentes no artigo são iguais às feitas por alguns leitores na série “Existe consenso sobre SP?” que publicaram comentários relatando suas experiências de trabalho no Fora do Eixo. O problema é o mesmo: de esquerda ou de direita, a Caros Amigos e Fora do Eixo são empresas capitalistas, com patrões, exploração.

    Tem muito o que pensar a partir desse texto, que além da análise tem propostas muito interessantes. Espero que venham mais comentários…

    Parabéns pelo artigo e força na luta.

  3. A pelegada já ta de armas em mãos pra defender o Nabuco: Gilberto Maringoni, chavista e psolista de carteirinha:

    “CAROS AMIGOS – Vou dizer uma coisa e espero não ser mal interpretado.
    Não vale a pena atacar o editor da Caros Amigos, Wagner Nabuco, como se ele fosse inteiramente responsável pela dramática situação da revista. Sei perfeitamente o que é ficar sem receber e sem ter direitos trabalhistas respeitados. Mas é injusto demonizar Wagner como se fosse um patrão da grande imprensa, um Frias ou Marinho da vida.
    Wagner batalha há mais de 30 anos pela transformação social e sofre o cerco e o descaso de um governo que dá importância zero à pluralidade e à democratização das comunicações. Estive com ele na Confecom, em 2009, e sei das investidas que faz para manter a publicação.
    Sou inteiramente solidário aos jornalistas de lá, muitos deles meus amigos. Eles devem buscar fazer valer seus direitos. Mas é preciso centrar as baterias contra o responsável principal por esta situação, o governo federal que tem absoluta preferência pelos monopólios da mídia.
    Na situação em que estamos, Caros Amigos será apenas a primeira a cair… Lamentavelmente.”

  4. Engraçado o nome da figura: mistura José Maria Marin com Gonzalo Sanchez Losada o Goni ex presidente da Bolívia e grandessíssimo corrupto. Queria perguntar pra ele qual é a diferença entre o dono da Caros Ammigos e os Frias e Mesquita e Marinho. A única diferença que sei é que eles registram seus funcionários e a Caros Amigos não também nunca ouvi falar neles demitirem durante uma greve mas aí não sei.

  5. Me lembra nossa situação aqui no IBGE. Os governos Lula e Dilma foram os que mais precarizaram o trabalho. Quase metade dos funcionários hoje são “contratados” – sem as proteções de um estaturário nem os benefícios de um celetista. Podem ser demitidos de um dia para o outro, sem mais nem menos, sem processo, sem justificativa, sem FGTS, acerto, nada.

  6. Esquerda com dono? Esquerda- trabalhadores com patrao? Onde esta a capacidade de outo organizaçao? trabalho cooperativo? socialismo e su coraçao- meios de produçao nas maos dos trabalhadores?? Tudo muito estranho – é muita educaçao!
    saludo revolucionario aos trabalhadores livres, sem emprego, porem, agora sim, livres.

  7. Lendo aqui essa matéria que saiu na Folha me veio à mente que talvez não tenha ficado claro por esse texto um detalhe da situação dos trabalhadores da Caros, que se não muda muito ao menos é um agravante a meu ver: não é que a revista paga por contrato Pessoa Jurídica, com nota fiscal, como a maioria dos órgãos faz pra pagar MENOS impostos e dar menos direitos, o que já é bizaro – lá não se tinha CONTRATO ALGUM, não se paga IMPOSTO ALGUM e não se dá DIREITO ALGUM. Você não assina nada, ganha um cheque em algum momento do mês, às vezes parcelado, e só. Se você morrer, no outro dia entra outro e já era.

    Agora o maior descaramento pra mim é esse cidadão sair dizendo aos quatro cantos que a revista vai continuar e tal. Como eu disse no texto, provavelmente gente pra colaborar vai aparecer, e não os condeno, há muito pouco espaço por aí mesmo. Mas e o empregador? ASSUME que ta ilegal com todo mundo e vai ficar na maior, contratando uma nova redação e pronto?

    Se alguém que manja de direito estiver lendo aqui podia esclarecer como isso é possível e se não é possível que “alguém” faça uma denúncia dessa patifaria no Ministério do Trabalho caso uma nova redação seja formada.

    Por fim, infelizmente não apareceram ainda nos comentários os defensores, discretos ou não, da atitude do Nabuco, mas tem chegado a mim vários argumentos deles. O principal está no texto: a revista é um patrimônio da esquerda, blablablá. Só questiono pra essas pessoas: quer dizer que a esquerda brasileira é TÃO patética a ponto de ser REFÉM de uma publicação de dez mil leitores?!??! É realmente impossível que com essa nova morte moral da Caros Amigos, afinal não é a primeira, surja algo pra suprir essa lacuna? Se é, aí é melhor ir pra casa mesmo ne, se não conseguimos nem isso…

    Agradeço aos comentários, feitos aqui e no email pessoal,
    abraços,
    Júlio

  8. Sou contra o boicote a Caros Amigos

    O tema é complexo e infelizmente vou ter de ir escrevendo sem revisar muito, mas vamos lá.

    Gostaria de dizer, para situar, que não sou jornalista, e meu envolvimento com a Caros Amigos se deu num seguinte episódio: fui tentar mostrar meus quadrinhos para ser colaborador e fui recusado, e na ocasião não guardei mágoas, pensei que tudo bem eu querer participado e não terem deixado, que continuaria a respeitar a Caros Amigos, que a lição a ser aprendida é que não se trata de nenhum reduto que salva jornalista/artistas da esquerda (aliás em frente a situação atual, parece ser justamente o contrário, é explorador desses mesmos).

    A lição que apendi daquela vez foi que Caros Amigos não era MangaShonen. No Japão existia uma publicação de quadrinhos (ou melhor, mangás), chamada “Mangashonen”, que não tinha perfil mercantil, mas quando foi fechada os artistas choraram, não porque os valores que pagavam eram os melhores, mas porque era uma grande ajuda, uma incubadora de novos talentos, muitos artistas em início de carreira trabalhavam com a Mangashonen, e daí se desenvolviam e iam para outras publicações. Quando um artista falhava e não entregava seu trabalho no prazo, as editoras mais comerciais furiosamente boicotavam o artista fechando-lhe portas, Mangashonen também fucava brava, mas geralmente era a primeira a estender novamente a mã. Os editores, davam dicas como “seu mangá era divertido, e nós publicamos, mas fique atento que faltava isso e aquilo e não seria publicado em revistas mais comerciais”. A revista era um espaço para quem era iniciante e também para os que queriam experimentar, e por fugir da fórmula certa de sucesso abrindo espaço para esses trabalhos, não era muito comercial e não conseguia se vender muito, um dia acabou falindo. Isso não quer dizer que não existiram “sucessores”, mas provavelmente não tinham esse balanceamento, ou eram muito só para iniciantes (infelizmente o mundo é cruel e quer dizer que era vista como dose sinônimo de arte ruim), ou muito experimentais/artísticas, para uma elite.

    Tá, mas aqui eu disse que Caros Amigos não é/era como Mangashonen. No quesito remuneração, as pessoas não eram salvas pela Caros Amigos, ao contrário, comentei que meu trabalho foi recusado a um casal de amigos – ela artista plástica, ele fotógrafo – e eles disseram que eu não tinha muito a ganhar mesmo, e que eles colaboraram várias vezes mas o ganho maior foi talvez se projetar ou de afirmar publicamente uma ideologia, mas em termos de remuneração eles tinham muita raiva. Ela me disse do episódio em que uma pessoa lá de dentro a chamou para dar más notícias sobre a remuneração e ela sentiu raiva pois a pessoa estava usando um anel de prata.

    Um outro episódio… lembro que certa vez o designer gráfico da revista Trip (não lembro, acho que o Rafic Rafah) se voluntariou para fazer um projeto gráfico para Caros, e eles aceitaram imediatamente. Sei lá, eu não tinha gostado muito daquele episódio, pois ainda que o projeto fosse bonito, reproduzia uma coisa mais mainstream e não dava espaço para novos artistas…

    Puxa vida, enquanto escrevo noto que se eu quisesse boicotar a Caros tinha vários motivos, então é até engraçado que tinha me proposto a defender o contrário… mas vamos lá.

    Bom, quanto ao ato do boicote. Eu não sei, me parece que o gesto do boicote é muito batido, a Trip por exemplo publicou besteira quanto ao estupro e propuseram boicote. Folha, Veja, Estadão, desses nem preciso dizer que campanhas para boicote são corriqueiros deivdo à linha editorial deles. O que me deixa temeroso, é que campanha para boicote à Caros Amigos tende a funcionar… boicotar a Coca-cola, mesmo nós de esquerda não conseguimos resitir por muito tempo, já com um “produto” como a Caros é diferente. quem consome é mais gente como nós e se n´so boicotarmos, mais infelizmente do que felizmente, terá sido uma das nossas campanhas mais bem sucedidas.

    O Boicote, como ação dentro do capitalismo, também daria a ilusão de que no meio editorial as revistas se mantém graças às vendas, não, como o Julio Delmanto colocou, tem a publicidade, em boa parte estatal, e chamaria a atenção para outro aspecto: os empecilhos ao jornalismo investigativo, pois os processos que colocam em cima dos alternativos levam à quebrar os que têm opinião independente. Como o Luis Nassif coloca, a lei tinha de mudar, pois se um grande jornal/revista (claro que ele se refere à Veja) quebra a reputação de alguém com meias verdades, é penalizada com algo que eles pagam com troco deles, enquanto que um independente, mesmo denunciando alguém com verdades inteiras, só pelo fato de ameaçar a honra de um poderoso, só por leve suspeita de calúnia/difamação, já consegue ser calado, quebrado só em tentar se defender pagando honorários advocatícios (por isso uma das sugestões de Nassif é que as penas sejam por porcentagem e não por valores definidos, só assim as grandes sentiriam o pesar em seus bolsos). Enfim, sei que a Caros também foi vitimada por isso e relfetindo historicamente, na época de Karl Marx, as revistas não podiam ser abertas sem um abusivo calção, um valor que elas deveriam pagar caso cometessem calúnia/difamação, e não bastava você juntar gráfica, papel, jornalista, sem esse valor calção você não podia abrir uma empresa de jornalismo e isso é visto como uma medida arbitrária dos bismarcks alemãs para censuar a imprensa operária e vejo que a situação não mudou muito a partie de lá para cá.

    Ainda mais preocupante, não é só na imprensa alternativa que o jornalismo investigativo está a perigo, leiam esse ótimo artigo “Caro, trabalhoso, Chato” da revista Piauí ( http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-49/anais-da-imprensa/caro-trabalhoso-chato ) em que se comenta que nos EUA eentidades filantrópicas estão financiando o jornalismo investigativo pois o interesse dos grandes jornais (mesmo do jornal que desbaratou Watergate) tem diminuído muito. Esse movimento de uma ação (o jornalismo investigativo) deixar o âmbito capitalista de compra e venda (e olha que o povo adora escândalos) para ser financiado pela lógica não capitalista da solidariedade (tá, “solidariedade” entre aspas, pois não é de “companehiros”, mas daqueles grandes filantropos ricos dos EUA), é bem preocupante.

    Acho que boicote, nessas horas, dá a falsa sensação de que o jornalismo ainda funciona como a Coca-cola, sobrevivendo por compra e venda (e pensando bem, nem a Coca-cola funciona estritamente assim), então o boicote é um movimento nada pedagógico, e talvez até alimente a falsa impressão de que pode surgir um outro veicúlo de esquerda que renascera com compra-e-venda de seus exemplares, mas dessa vez respeitando os emrpegados.

    Aliás, será que surgirá outra publicação em papel? O artigo acima, da Piauí, comenta que a publicação em papel em si está em perigo, e pensando bem, o magnata Murdock outro dia tava prometendo brigar com a internet, e dessa vez as pessoas tavam fazendo desdém a esse conquistador ganancioso.

    O que eu quero aqui é traçar um panorama do cenário, e daí que o boicote (eficiente no caso da Caros) me preocupa também. Bem, na verdade estamos numa era de transição que ninguém sabe bem aonde vai dar, eu não creio que o papel desaparecerá, mas o meu amigo quadrinista Cadu Simões acha que o futuroi é internet/tablets/Kindle.

    Um dia os blogs será tão importantes quanto jornalões? Provável, pois tem gente que substituiu a leitura de Folha/Estadão por Luis Nassif (e blogosfera orbitrando ao redor), Mas nessa era de transição incompleta, existir um veículo impresso ainda tem relevância, e muitos blogs as pessoas começam a ler pois “apareceu na revista Capricho/Superinteresante, etc”

    Nesse sentido, a Caros Amigos ainda tem esse papel de sugerir novidades (e deve ter gente que começou a ler algum blog porque a CAros recomendou).

    Ah, e na equação não se definiu como ficará o jornalismo investigativo. Talvez no futuro, ONGs financiem blogueiros que vivem apenas de seu blog (e eles nem estarão postando toda hora, como os blogueiros profissionais de hoje, pois se é investigativo, só vçao publicar após juntar considerável material) e quando começarem a publicar, talvez outra ONG ajude a divulgar nas redes sociais, de forma que um escândalo do tipo Watergate se espalhe pelas boca do povo por rewittadas, compartilhamentos, retumblr, etc sem existir um grande jornal por trás… sei lá, talvez seja assim, talvez não.

    Bem, mas reparem também nos veículos que citei: Luis Nassif? Blog próprio (com atualização toda hora, e não no modelo que imaginei acima). Eu? Fui para Mad onde fiquei um tempo (é que curiosmente, a Mad brasileira por força de seu editor, mesmo reporduzindo conteúdo da Mad americana, dá um bom espaço para quadrinista iniciante, e em alguns raros casos até alternativos e experimentais, o Latuff uma vez publicou lá, Ah sim, mas Mad também não é Mangashonen e pagava muito mal, uma vez reclamei isso numa lista de emails e tive problemas por isso). Uma jornalista que é digna de nota é a Natália Viana. O nome ficou na minha cabeça pois eu via os textos dela bem escrito para o jornal da Puc-sp, quando ela ainda era estudante, e depois fiquei contente que ela tinha dio para Caros Amigos. Aliás na visita que eu fiz à Caros, eu disse que admirava a revista e que uma matéria em que Natália se passou por desempregada é inesquecível. Uma coisa meio triste é que a pessoa da Caros com que conversei não lembrava muito da Natália nem da dita matéria, talvez relfexto da alta rotação dentro da Caros, que não consegue segurar ninguém com remuneração atrativa. Bom Natália Viana agora é da Apublica, que trouxe um cara falando inglês da Wikileaks e o cara por sua vez, disse que esperava que a Apublica seja uma espécie de filial da Wikileaks. Enfim, tenho orgulho de ter estudado na mesma época que essa menina, embora não tenhamos nos encontrado nunca dentro da Puc quando éramos estudantes (é meu orgulho fica mais no “eu lia os artigos dela quando ela estudava”). Ah, Apublica estava vendendo camisetas e posteres, para ajudar a se manter, enfim, não é um modelo de compra/venda de exemplares, e se isso não gera custos de publicação, tem outros custos e camisetas/posteres devem ajudar só um pouquinho.

    Tá, talvez tenha me enrolado: o que quero dizer é: como fica um cenário sem a Caros Amigos? Onde as pessoas vão? orbitar na blogosfera do Nassif? (sem resolver muito o problema do jornalismo investigativo?) Ir para Apublica (que mesmo que tenha a importância investigativa do Wikileaks, em termos de financiamento/sustentabilidade é complicada?) Eu falei que a Piauí é boa, mas como se sabe, ela não é muito de esquerda. Mad… bom, mais para quadrinistas. Trip? Eu acho a Trip muito legal, não sei bem como é relamente por dentro . Quando visitei a redação deles era bem bonito, vendem um estilo de vida alternativo-surfista, mas na minha avaliação, pode até ser que a Caros venda um estilo de vida alternativo-esquerdista, mas em termos de publicidade eu não gosto muito que os anunciantes, na ânsia de vender dentro da Trip, fazem umas coisas em que você não sabe direito quando está lendo a revista e quando está lendo publicidade… Tá, mas continuando, Le Monde Diplomatique (Diplô)? Legal, mas ainda não chegou a popularização da Caros Amigos. Revista Viração e outros pequenos? Bem, muito pequenos, com devido respeito. Jornal Brasil de Fato? Bem, alguns nção gostaram do seu lulismo (e por isso José Arbex saiu do conselho). CMI (Central da Mídia Indpendente)? Olha, aí sim vira uma coisa 100% voluntária, e as matérias se perdem no meio de brigas ideológicas e para ser sincero muitos devem ter abandonado para ficar no facebook.

    Eu quero dizer que sou contra o boicote pois ainda vai ficar um buraco muito grande. A Caros é cheio de problemas, e para falar a verdade, faz tempo que não leio (acho que tinha ficado intelectualizado demais com muitos textos em espanhol e toques de francês entre os colunistas, e também porque sabia que a revista tinha sido muito processada por exemplo quanto à matérias como filho do FHC e imaginava que isso devia ter minado seu lado provocador), mas para a pergunta que Delmanto fez nos comentários do PassaPalavra:

    “quer dizer que a esquerda brasileira é TÃO patética a ponto de ser REFÉM de uma publicação de dez mil leitores?!??”

    a minha resposta é que sim, não refém, mas dependente do que a Caros foi/é. E a coisa tem de ser vista nesse cenário complexo de fim da publicação em papel, jornalismo investigativo sendo financiada por filantropos, internet concorrendo com jornais tradicionais, mas ainda com blogs sites dependendo de serem mencionados por veículos impressos para serem acessados, e dentro da internet, o deslocamento do da atenção que está migrando do conteúdo produzido coeltivamente (CMI, PassaPalavra), para conetúdo individualizado (Blogs, ou pior, facebook). Paralelamente, Wikileaks/Apublica estão atuando (e se pensarmos que os boatos são de que o Papa renunciou por causa de um VaticanoLeaks, a gente pensa “caramba”…)

    De forma, que não são apenas 10 mil leitores, se contar a internet e a conjuntura toda, devem ser muito mais! Não se trata de mencionar “Caros Amigos” (ver como ela é mencionada no GoogleTrends), mas de pensar que sem a Caros Amigos, provavelmente diminuem os leitores de APublica, talvez do Luis Nassif, os jornalistas estarão se vendo colaborando para Trip ou Piauí, mesmo os leitores da Diplô podem diminuir se a população pensar que está “saindo de moda” existirem veículos de esquerda, enfim, os efeitos serão grandes.

    Célio Ishikawa
    (nome artístico nos quadrinhos: Dedo Zuka)
    Por ter ficado muito tempo na Puc-sp, viu Natália Viana escrever, viu Brasil de Fato nascer no Fórum Social Mundial, Viu pessoal comentando que a Diplô iria ter filial Brasileira, viu Apublica nascer, viu amigos estudantes de jornalismo do ótimo Contraponto (jornal laboratório da Puc-sp) irem trablahar na Caros Amigos e… infelizmente viu eles sendo demitidos.

  9. Célio,
    creio que o que se debate aqui é que uma revista que se diz se esquerda, mas que pratica o mesmo método de exploração dos trabalhadores que as grandes empresas capitalistas é em sí uma contradição de termos.

    Creio que ninguém é contra que a esquerda tenha grandes e destacados veículos de idéias e informação/notícias, no entanto há que se traçar a linha em algum momento entre o que é aceitável e o que não há como maneira de sustentar tal veículo. Já imaginou uma revista sobre ecologismo que usa papéis feitos com madeira de desmatamento ilegal, tinta com poluentes, etc?

    Não se trata de boicotar a Caros Amigos para que ela suma do mapa, mas sim para que ela deixe de praticar os padrões da direita para que então possa ser um veículo de esquerda como um todo, não apenas no discurso, deixando de apoiar-se nas práticas capitalista mais sórdidas para existir.

  10. Discordo um pouco. Só cheguei a comprar a CM quando havia a coluna de Marilene Felinto (e muito eventualmente por alguma entrevista de capa). Marilene Felinto deixa claro no seu blog que saiu por discordar de condições contratuais. Mulher independente, corajosa o suficiente pra cair fora muito antes.
    E não acho a revista seja de esquerda. Era caricata.
    Era e é uma revista de uma mesmice só, edição a edição, é a preguiça de pensar e repensar (e de se autocriticar, coisa rara). Na minha opinião (se me permitem destoar) o colunista que aparece em tudo que é canto, Sader, é um samba de uma nota só, ou não diz nada além do senso comum de aluno de ciencias políticas e sociologia de 1º semestre. Ou de último, como anda nosso ensino…
    Discordo, enfim, por não achar um trabalho de conteúdo notável.

  11. Não podemos confundir duas coisas distintas: uma revista “para” o público de esquerda e uma revista feita pela esquerda. As pessoas de esquerda também são um mercado consumidor (e que antes da Caros Amigos havia sido pouco explorado por empresas capitalistas). Lamentar-se que a Caros Amigos acabe é como lamentar que os shoppings não vendam mais camisas do Che.
    O que precisamos é de um veículo de comunicação produzido pela militância de esquerda, não por uma empresa que faça isso por nós.

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