Agora o desafio para a autonomia organizada não é apenas conquistar as ruas, mas controlar o sentido e significado dessa conquistaPor Leo Vinicius

Sim, o Capital joga em casa, e com juiz a favor.

A intenção aqui é trazer 20 centavos de contribuição para pensar as lutas de 2014 em torno do tema “Copa do Mundo”. Pensar de um ponto de vista autonomista, ou socialista libertário, isto é, a partir do entendimento de que o fortalecimento da organização autônoma do proletariado (da multidão, se se preferir) e a criação de novas instituições igualitárias que a acompanham estão no cerne de toda transformação social desejável.

Partimos da situação concreta, de hoje. E ela nos diz que, quer os governistas, junto com a FIFA e empresas patrocinadoras, esperneiem ou não, manifestações ocorrerão; mobilizadas em maior parte em torno de um sentimento de aversão ao escancarado favorecimento dos interesses dos lucros sobre as pessoas em função ou com a desculpa da Copa. Sentimento que deu origem ao slogan “Não Vai Ter Copa” e que ao mesmo tempo tem sido mobilizado por ele.

Motivos para alguém de esquerda se insurgir em função da Copa não faltam [1]. Mas afinal,

O que está em jogo nessa partida entre Capital x Multidão?

O que podemos conquistar ou deixar de perder?

Partindo do mais concreto, há a questão das remoções forçadas e de indenizações não recebidas e mal recebidas por elas. Barrar e se insurgir contra remoções de hoje significa possivelmente barrar outras que poderiam acontecer amanhã, com pretextos e interesses similares [2]. Há também o impedimento de comerciantes trabalharem em um raio em torno dos estádios. Outras questões se tornam mais difusas ou mais difíceis de serem pautadas com destaque ou de ganharem um objetivo imediato concreto: as leis de exceção impostas durante a Copa, a própria violência policial (desmilitarização, fim do uso de armas menos letais), entre outras. Em parte, isso traz uma certa semelhança com o movimento altermundista, ou “antiglobalização”, no qual uma série de diferentes reclamações e bandeiras eram levantadas por serem consequência de uma mesma política econômica global, a qual os manifestantes enxergavam como origem dos problemas. A diferença é que o movimento “antiglobalização”, em escala mundial, juntava grupos organizados de um imenso espectro político e social: ecologistas, sindicalistas, anarquistas, comunistas, povos tradicionais e também, embora em número inexpressivo, grupos nacionalistas de direita. Outra e crucial diferença: os organismos internacionais que eram vistos como símbolos e gestores da globalização capitalista (OMC, FMI, Banco Mundial, etc.) eram fechados a disputas de poder, isto é, não estavam no âmbito de um Estado-nação. A Copa do Mundo, embora seja um evento de uma transnacional (FIFA), tem suas consequências única e exclusivamente no país-sede, num Estado-nação, no caso o Brasil. E para qualquer um que esteja vivo não é preciso dizer que os grupos que disputam o poder do Estado farão da Copa e dos protestos um cavalo de batalha na disputa pelo governo, num ano de eleições. Isso coloca uma série de novas variáveis em jogo.

Mas, para além do objetivo muito concreto ligado às remoções, há algo muito fundamental em disputa, e que parece que os anticapitalistas não atentaram:

O controle sobre o produto da nossa atividade

Há uma única nova lição a ser aprendida do junho de 2013. Que mobilizações populares desencadeadas pela esquerda, com bandeiras de esquerda, possam ser reduzidas a uma espécie de estopim por serem transmutadas em seguida em mobilizações massivas direcionadas pela direita, através dos meios de comunicação, é um dado novo da luta de classes e que terá que ser levado em conta desde então. A “mutação” ocorrida agora não é mais uma tática desconhecida. Ela entrou no rol das possibilidades, para as quais os anticapitalistas devem estar preparados para lidar ou neutralizar na medida do possível.

Não há espaço aqui para se alongar na tática que uma fração da classe burguesa usou para lidar com as manifestações pela redução da tarifa dos transportes em junho de 2013. Obviamente não tinham total controle sobre os desdobramentos, mas foram relativamente bem sucedidos em direcionar por algum tempo as manifestações e alcançaram um intuito que certamente tentarão repetir nesse anos de eleições: fazer despencar a aprovação da Dilma. Mesmo que o leitor dessas linhas ache desprezível quem ganhará as próximas eleições, a questão que se coloca da perspectiva autonomista é a da disputa pelo controle do produto da nossa atividade, senão de parte do próprio processo de atividade. Essa direita é incapaz de iniciar e produzir manifestações com qualquer relevância, mas não é incapaz de parasitá-las: são empresários pós-fordistas, que já aprenderam faz tempo a capturar os fluxos de fazer autônomos, pré-constituídos a seus empreendimentos, e explorá-los economicamente. Agora procuram aplicar o pós-fordismo, a captura e exploração do impulso autonomista do proletariado (da multidão), a seus empreendimentos políticos, mesmo que pontuais e pragmáticos. O que ocorreu após o 13 de junho de 2013 e deve se repetir em 2014 é também um laboratório, não simplesmente de lutas sociais, mas de desenvolvimento de um modelo de produção ou sua expansão a outras esferas. Em alguns meios anticapitalistas em que se usa o conceito de multidão costuma-se exaltá-la como uma potência, mas esquecendo-se de que é essa potência que empurra o desenvolvimento do modo de produção capitalista, que é essa potência que tem sua atividade capturada e explorada. Esquecem-se de que a luta entre capital e trabalho (seja na forma de multidão ou qualquer nome que se dê) é a luta permanente pelo controle do processo produtivo, da atividade, e de seus produtos. Esses produtos podem ser materiais como uma placa de chumbo, ou imateriais como a expressão da indignação coletiva. Não, não é mais apenas sobre a Copa, é sobre a capacidade de gerir nossas próprias lutas e ter controle sobre seus resultados!

Podemos esperar que a tentativa de captura e exploração se dê através da tentativa de dar o sentido e significado das manifestações, principalmente pela grande imprensa, mas também inflando-as com sua base social (seja com direitistas mesmo ou os “coxinhas”) e com “demandas” mais adaptadas a seus interesses [3].

Diante disso,

O que fazer?

Se o slogan “Não Vai Ter Copa” por um lado possui a qualidade indubitável de ter vindo das ruas e captar um espírito, uma rebeldia e revolta, tornando-se um brand perfeito, capaz de mobilizar sentimentos latentes de uma parcela da população ou de uma juventude; por outro lado sua fraqueza está em ser vago, podendo servir com relativa facilidade a propósitos distintos. Ele mobiliza, mas exatamente para onde? Contra quem? Pelo que? Não fixa uma direção. Quem duvida pode ver a ambiguidade explicitada na Operation World Cup que circula em meios virtuais e pelo ainda mais ambíguo Anonymous. Isso não seria muito problemático se o contexto em que nos encontramos não fosse pós-junho de 2013. A história não volta atrás, e a disputa pelo significado das manifestações será e tem sido uma realidade desde então.

O slogan completo na verdade é “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa”. Mas diante de forças que foram capazes de, em expressiva medida, transformar num período de tempo uma pauta tão concreta e única, a revogação de um aumento de tarifa do transporte, em uma quantidade de reclamações difusas e significativamente em acordo com os interesses pragmáticos de uma fração da burguesia, podemos crer que nem um slogan que é ao mesmo tempo uma reivindicação concreta como “Tarifa Zero” impede por si só que os resultados de ações coletivas sejam em alguma medida capturados e explorados.

Lembrando o exemplo da Revolta do Buzu, uma questão se colocava para entender o fato do movimento não ter conquistado a redução da tarifa na ocasião e ter sido esvaziado após entidades estudantis negociarem outras pautas em nome do movimento: a falta de articulação daquela multidão politicamente independente e autônoma, deixando espaços vazios que eram preenchidos por pessoas alheias ao espírito e desejo da multidão [4]. Mas pensando nas ações em torno da Copa, a questão vai além da articulação e organização dessa autonomia em uma potência política que ocupe espaços de fala, negociação, referência. É preciso estar organizado e articulado suficientemente para ocupar ou, melhor, constituir espaços de significação. Ambas questões não devem ser separadas, se entrelaçam numa estratégia de autogestão das lutas e controle dos resultados.

A importância de constituir organizações de referência vem também da necessidade de que táticas sejam pensadas de acordo com as movimentações do adversário e da conjuntura e possam ser minimamente postas em prática. Os Comitês Populares da Copa, que existem desde 2009, e a Articulação Nacional deles (ANCOP) seriam a princípio as organizações que deveriam emergir como principal referência. São certamente as que melhor podem articular as demandas sobre remoções. A perspectiva das manifestações parece que irá fazer o governo chamar os Comitês para negociar essas demandas [5]. Mas talvez eles tenham dificuldade de se tornarem referência a um setor mais amplo que vai às ruas.

A constituição de organizações de referência, além do trabalho contínuo sobre um tema, passa também nesse caso por táticas de luta que favoreçam esse reconhecimento. E nisso devemos lembrar que manifestações de rua são apenas uma tática, e não a luta ou movimento em si. A previsibilidade além de tudo é uma fraqueza de qualquer movimento e em qualquer luta. Ocupações de locais realizadas por grupos menores e organizados podem trazer a visibilidade e a possibilidade de divulgar uma demanda de forma mais clara e profunda do que as manifestações de rua têm permitido, as quais tendem a não conseguir ultrapassar o mote “contra a Copa”, sufocadas pela espetacularização em torno delas.

constituição de espaços de significação passa pela organização de uma mídia própria. Qual, em que formato? Uma? Muitas? Impossível uma pessoa dizer. Isso é parte da criação e das possibilidades e capacidades do próprio movimento frente a suas necessidades vistas a partir dos que estão imersos nele. Mas a necessidade já não é apenas aquela que esteve por trás da criação do Indymedia em relação ao movimento “antiglobalização” e ao N30 em Seattle, em específico. Não se trata de apenas produzir, disponibilizar e difundir informação que se contraponha a uma desqualificação moral do movimento e das manifestações feita pela grande imprensa, e que ajude a defender os manifestantes da violência policial. Trata-se de mídia que seja parte do processo de controle dos resultados das ações, que ajude a produzir o sentido e significado das ações na sociedade.

Se a idéia é não ter Copa se não houver direitos, é desejável agir no sentido de tornar as palavras em realidade, isto é, estar preparado para impedi-la. Impedir a realização da Copa, a essa altura, guarda semelhança de objetivos simbólicos com a tentativa de impedir a reunião da OMC, em novembro de 1999 em Seattle. É preciso lembrar que esse bloqueio, razoavelmente bem sucedido, foi fruto, entre outros fatores, de muita preparação, articulação de ativistas, treinamento e organização, a partir da formação da Direct Action Network no início daquele ano. A dificuldade é maior no caso da Copa, no sentido de bloquear completamente o evento, uma vez que ocorre simultaneamente em várias cidades e diferentes datas. Mas por certo o impedimento ou mesmo atraso numa única partida causaria mais do que um impacto simbólico, pois teria impacto econômico sobre as empresas que lucram com ela. Seria uma inegável demonstração não só de indignação, mas de capacidade organizativa. Porém, agora o desafio para a autonomia organizada não é apenas conquistar as ruas, mas controlar o sentido e significado dessa conquista.

Notas

[1] Ver por exemplo “No mundo onde cresci, protestar contra violações é ser de esquerda”, por Igor Ojeda, aqui.
[2] Foi o que o “movimento de ação direta” britânico conseguiu nos anos 1990 em relação ao megaprojeto de construção de estradas. Apesar de não conseguir barrar as estradas em iminente início de construção, fez o governo abortar o programa nacional de construção de estradas como um todo. Ver aqui.
[3] Essas demandas são em geral heterônomas, produzidas por essa própria grande imprensa. Como ouvi alguém dizer durante o junho de 2013, os coxinhas protestavam contra notícias, não contra fatos, contra uma realidade vivida. As pautas vinham dos noticiários de TV: corrupção, PEC 37 …
[4] Essa questão está um pouco melhor elaborada na página 64 e 65 aqui.
[5] Ver aqui.

Os leitores portugueses que não percebam certas expressões usadas no Brasil
e os leitores brasileiros que não entendam algumas expressões correntes em Portugal
dispõem aqui de um Glossário de gíria e termos idiomáticos.

9 COMENTÁRIOS

  1. O texto foi escrito 3 dias atrás. Hoje eu acrescentaria algumas coisas.
    Antes de tudo deve-se pensar se vale a pena entrar com time em campo, ou se é melhor se focar nos campeonatos que os movimentos constituídos já tem disputado.
    Há demonstrações de que os dois lados da disputa eleitoral estão vendendo até a mãe para ganhar as eleições. Forças militares e de comunicação estão sendo jogadas em peso. Aprenderam já, depois de muitos anos, que nessa composição social a repressão faz aumentar as manifestações. Por outro lado os governos tem cada vez menos controle sobre as polícias.
    Pelo que tem surgido pela internet, o governo pode apelar para “milícias”, e está fazendo um esforço de divisão do proletariado: http://tvkajuru.com/?p=6588

    Para os Comitês Populares da Copa e famílias removidas, evidentemente essa é a luta que não se pode furtar, e é provável que consigam avanços pelo simples medo que o governo tem tido das manifestações esse ano.

    Mas para aqueles que militam em movimentos sociais com seu próprio foco e pauta, hoje me parece que o mais inteligente é não colocar o time em campo, não aplicar energia no que tem grandes chances de se dissipar em algo sem avanço. Medir as forças que estão colocadas em campo com as suas próprias. Autonomia é isso, saber definir quando entrar, quando sair, quando avançar, quando recuar, a partir do seu próprio objetivo, e de capacidade de controle, não necessariamente sobre as ações, mas do seu sentido e resultado. A guerra é ganha também em função de saber quais batalhas deve disputar, e como disputar, de acordo com seus objetivos, suas forças e possibilidades.

  2. Caro Léo, o texto vinha seguindo uma trajetória brilhante, até você dar esses dois passos atrás no comentário. Ainda pretendo escrever a respeito da especificidade do tema/relação/evento Copa do Mundo e as distintas implicações de tal especificidade para os protestos e seu significado. De antemão, há fortes razões para acreditar que um elemento fundamental para a captura pela direita do sentido das manifestações não desempenhará o mesmo papel que em junho de 2013; a saber, a grande mídia e, em especial, a Globo. Para pensar a Copa, é interessante que nos perguntemos por que a grande mídia não se empenhou em capturar o significado da greve dos professores do Rio e como a “multidão” nas ruas (alguns atos contaram com dezenas de milhares de manifestantes) logrou controlar, em grande medida, o sentido e o significado da sua ação. Não acho que a resposta se encontre no caráter localizado da disputa, o que supostamente diminuiria seu interesse para fins de manipulação nas eleições presidenciais — até mesmo porque no Estado haverá eleições. Como participante das movimentações durante a greve, notei claramente que a direita jogou peso para se apropriar da narrativa no princípio, mas o esforço resultou inócuo e o que se viu foi o fortalecimento do papel da esquerda, que tinha consciência do que ocorrera em junho-julho e se preparara melhor. Alegar, como você fez no comentário, que o mais inteligente para os militantes dos movimentos sociais é não colocar o time em campo é fomentar o esvaziamento do campo de luta, o que seria uma derrota estratégica.

  3. Olá Eduardo,

    tentando ser breve pois já escrevi demais.

    Acho que a Globo será mais um vez o principal agente da direita para tentar dar o sentido e significado das manifestações. O seu lucro será garantido pelas forças militares que o governo colocará à disposição, o que lhe dará tranquilidade para tentar usar as manifestações para mudar o governo nas eleições: http://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/preocupada-globo-orienta-reporter-a-denunciar-irregularidades-da-copa-2124

    Só para deixar claro (não que ache que vc tenha entendido errado, mas para não haver dúvida a outros leitores): quis dizer no comentário (uma espécie de P.S.) que exatamente hoje minha impressão é de que os movimentos organizados não deveriam entrar em campo, ou pelo menos não deveriam esquecer essa possibilidade como melhor tática a adotar; o que não significa evidentemente deixarem de existir em 2014, mas simplesmente continuarem focando as energias nas suas pautas, objetivos e calendários específicos, em vez de se entregarem à disputa sobre a Copa. Aliás é o que parece que tem feito, por exemplo, o MPL aí no Rio e o Bloco de Lutas pelo Transporte em Porto Alegre. E “focar” também não significa deixar o que ocorre em volta completamente de lado.

    Mas é possível que semana que vem eu mude de opinião.

  4. uma questão de leitura: se haverá manifestações de rua pela Copa, o governo terá de optar como relacionar-se com elas. Se a pressão for apenas de direita, num W.O. da esquerda, não será o aumento da tarifa que será barrado em mais de 100 cidades, talvez seja a vez de um corte nos impostos diretos, talvez seja a privatização de mais partes do SUS para que os hospitais tenham mais cara de Europa, talvez seja o fortalecimento de “lideranças” da classe média coxinha dentro máquina do governo, talvez seja o aumento dos juros e o aperto do orçamento e dos pagamentos dos funcionários públicos, enfim.
    A midia tradicional e alguns setores da direita conseguiram transformar a narrativa de junho, talvez não dominá-la. Mas em efeitos práticos quais foram os enormes ganhos assim obtidos? Para mim não há comparação no saldo das manifestações. Pode ser que a grande midia assuste, passe a impressão subjetiva de que ela tomou o controle da coisa, mas botando as coisas no papel não consigo concordar com isso.
    Não deixo de concordar, no entanto, que a esquerda que estiver articulada nas ruas deverá contar com um bom potencial de fazer sua própria midia, isso será um grande desafio. Em junho não havia tempo de preparação para isso, foi do jeito que foi. Agora há mais tempo para organizar uma tal rede de pessoas e coletivos que o façam de maneira mais em sintonia.

    (entendo que o autor não pensa realmente num W.O., mas uso a expressão para pensar o que poderia ocorrer caso os movimentos sociais não coloquem a devida importância nos eventos da Copa).

  5. Sei que esse tema do controle das lutas pelas lutadoras e lutadores é fundamental, mas as vezes acho que ele fica superdimensionado. É certo que no 20 de junho de 2013 todo mundo ficou alarmado com isso. Mas a minha impressão, pelo menos no Rio de Janeiro, é que esse assunto foi superado se não no dia 21, pelo menos no dia 22 de junho. As manifestações que se seguiram forma populares, de esquerda.

    E mais, além do “não vai ter copa”, outro grito que surgiu nas ruas, e é tão importante quanto o primeiro, foi o “não tem arrego”. Quer dizer, não tem suborno, não tem apropriação das lutas por parte da direita, nem nas ruas nem na mídia corporativa nem no governo. E não tem mesmo.

    E 2014 já começou. A direita não quer e não iria conseguir sequestrar os sentidos das lutas contra a remoção da favela da mangueira nos primeiros dias do ano. E a Globo, por mais que durante dias tenha feito matérias sobre as condições precárias dos trens, ignorou completamente as manifestações contra o aumento das passagens que inclusive garantiram ‘tarifa zero’ para muitos que usam o trem nos dias dos protestos.

  6. Noticiário sobre as manifestações contra tarifas do transporte de ontem pode nos trazer algumas pistas. O papel da grande imprensa nunca foi e nunca será noticiar e divulgar pauta de movimentos sociais, e não temos controle sobre as distorções que eles cometem propositalmente. Mas diante da probabilidade de repetição da tática de captura e exploração de manifestações, essas distorções podem ser indicativas. Todas as notícias abaixo são da Globo.

    Manifestação em BH que tinha como pauta unicamente o transporte. No lead da matéria fizeram questão de colocar que manifestantes também questionaram realização da Copa (eventualmente manifestantes gritaram “FIFA paga a minha Tarifa” e coisas do tipo, mas era manifestação unicamente em torno do transporte): http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2014/02/ato-em-bh-pede-reducao-de-tarifa-e-divulgacao-de-auditoria-do-transporte.html

    Manifestação no Rio, contra aumento das tarifas de transporte. Duas matérias no G1 em que aparecem faixas. Numa delas faixa sobre a pauta da manifestação. Na outra a faixa que aparece é uma gigantesca levada por um partido trotskista, contra a Corrupção (o masoquismo e falta de leitura da realidade de um partido desses é uma outra questão a discutir): http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/02/rio-tem-nova-manifestacao-contra-reajuste-aumento-de-tarifas-de-onibus.html
    http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/02/cinegrafista-e-ferido-na-cabeca-em-manifestacao-no-centro-do-rio.html
    Foram buscar essa faixa contra a Corrupção do meio da manifestação, demonstrando alta seletividade. A matéria fez questão de apontar que manifestantes gritavam “Não Vai ter Copa, nem Aumento”.

    Pra fechar, mudando um pouco de assunto: “Ministra da Cultura diz que povo vai ‘escorraçar black blocs’ se houver protestos na Copa”
    http://globotv.globo.com/eptv-sp/g1-eptv/v/ministra-da-cultura-diz-que-povo-vai-escorracar-black-blocs-se-houver-protestos-na-copa/3130132/

    O que se liga ao link que coloquei no primeiro comentário. Faltou a Ministra dizer se o tal “povo” irá escorraçar os manifestantes que não se vestem de preto também, ou se o repúdio é só à cor da roupa.

  7. Nossa, mais porque essa obsessão com a “midia”? Este é o papel dela, seria estranho se estivesse agindo de outro modo.

    Não podemos controlar o que a midia vai dizer, mas podemos dar uma resposta convincente nas ruas… de outra forma só ficaremos angustiados e presos as nossas próprias obsessões.

  8. Por mais que não concorde com tudo, belo texto, Leo. Principalmente por iniciar um debate estratégico tão incomum na esquerda autonomista.

    Agora vamos ao importante:

    Antes de tudo gostaria de deixar claro que assim como o autor, vou assumir posições aqui que podem ser que sejam transformadas em uma semana. Acho que isso tem se tornado comum nas análises pela incapacidade que temos tido em ler o momento que estamos passando.

    Ao contrário do P.S., acho que ir para as ruas contra a Copa é a grande luta a ser travada nesse primeiro semestre para todos nós. Essa é uma pauta capaz de aglutinar os diferentes setores da esquerda e perder essa oportunidade eu acho uma pena. Acho sim que os estudos táticos de como bloquear o evento devem começar a serem feitos. Não que eu ache que vamos conseguir, nem que não conseguir vai significar uma grande derrota, mas acredito que uma preparação desse tipo representa num avanço qualitativo para o movimento muito grande. Isso porque será necessário estudar as armas da repressão, estudar nossos territórios, realizar articulações, aprender a garantir nossa segurança e a lidar com essa multidão maior que raramente irá para uma reunião, entre outras milhões de coisas. Esse esforço – que já tenta ser neutralizado pelo controle do Estado – é altamente pedagógico.

    Uma vitória contra a Copa (um atraso, o reposicionamento de um jogo, o cancelamento!), é realocar as “consequências” da Copa para além do Brasil. É incalculável o efeito contágio que isso pode gerar em todo mundo como incentivador de revoltas em potencial. Isso sem falar que pode ser garantido um legado de lutas contra a Copa que se viralizem nos próximos eventos da FIFA.

    Por enquanto, é isso.

  9. Dois anos depois:

    “NAO VAI TER COPA: A APROPRIAÇÃO CONSERVADORA NAS REDES
    Trabalhando na revisão da dissertação de Jean Medeiros sobre o movimento ‪#‎NãoVaiTerCopa‬ (2014) no Twitter. A dissertação apresentará também o conceito de “taxa de diálogo”, que construímos conjuntamente. Mas queria dar um spoiler sobre minha conclusão em torno do movimento #NãoVaiTerCopa: ele foi completamente embalado à vácuo por perfis ligados ao atual campo conservador. Foi uma dobradinha interessante: os movimentos de rua eram brutalmente reprimidos na rua, e a turma do ‪#‎VemPraRua‬ construía massivamente uma máquina de bots e outros bichos para propagar essa repressão, notificando continuamente muitos veículos de imprensa e webcelebridades, mas sempre com um viés antipetista. Não é à toa que a correlação das hashtags “NãoVaiTerCopa” e “ForaDilma” tenha se revelado a simbiose mais oportunista no discurso das publicações no Twitter. Quem estiver a fim de dar um confere pode analisar o perfil-hub @_naovaitercopa (http://twitter.com/_naovaitercopa). Hoje ele se chama ‪#‎VemPraRuaBrasil‬, com avatar escrito “tchau querida”. É impressionante como os coletivos que conduziram as ruas de 2013 a 2014 deixaram um vácuo enorme na condução das narrativas sobre seus respectivos movimentos. E isso explica, contraditoriamente, a própria emergência da “nova direita”, que se apropriou inteiramente das lutas para ressignificá-las através de um vocabulário antipetista (que servia a um alvo eleitoral do período). É claro, houve uma contra-narrativa governista (a tal ‪#‎copadascopas‬), mas que foi atropelada pela rede boleira (‪#‎vaitercopasim‬ ‪#‎imaginanacopa‬, a da zueira). Proporcionalmente, no campo eleitoral, esse vácuo narrativo também ocorreu (ainda continua) na campanha de Marina Silva (não na do Eduardo Campos, que, é bom lembrar, abusou de robôs logo no começo da sua campanha, quando se lançou presidente). E talvez esse antipetismo, longe de ser o traço que amalgama a crítica dos movimentos pós-junho, seja o substrato narrativo mais bem sucedido desde lá.”

    https://www.facebook.com/fabio.malini/posts/10154182969736151

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