Por Francesca Machuca entrevistada por Passa Palavra

Em conversa com Francesca Machuca, militante chilena que estava no Brasil para participar de um curso realizado pela Escola Nacional Florestan Fernandes, ela nos falou um pouco sobre as lutas sociais em curso no seu país, que também vivenciou mobilizações massivas em período recente. Francesca trata também das formas organizativas que estão sendo ensaiadas por lá nas organizações de que faz parte. E ao final, diz a sua impressão sobre o atual contexto das mobilizações no Brasil. A entrevista foi realizada em Dezembro de 2013.

Francesca Machuca (FM): Meu nome é Francesca Machuca, sou chilena e pertenço a duas organizações sociais e políticas. Como coletivo, nós pertencemos a uma organização internacional, a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos Latino-Americanos). Este movimento é bastante forte, primeiro, por ser institucional de alguma forma, já que está composto por vários países da América Latina: entre outros, Bolívia, Nicarágua, Equador, São Vicente e Granadinas, República Dominicana, e recentemente, no final de 2009, se uniu o Haiti. Honduras também fazia parte, mas depois do golpe militar que sofreram, já não pertence mais. Bom, a ALBA nasce na década de noventa, e nós, como organizações sociais, nos unimos a uma articulação que tem a ALBA, já não como instituição governamental, mas de movimentos sociais entre si para aglutinar muitas outras organizações e não somente um governo específico.

coronel-ddhh2_-e1329995966223No contexto chileno, nos articulamos com diferentes organizações, como as assembleias, é por isso também que pertenço à Assembleia Cidadã. Nos consideramos construtores do poder popular. Somos bastante heterogêneos dentro da organização, porque temos diferentes formações: há uns que vêm das Ciências Sociais e outros que vêm do povo mesmo, que é o meu caso. Eu sou dirigente de uma población [um bairro de periferia]. Temos articulação com movimento estudantil, com assembleias territoriais e também cidadãs, com organizações feministas. Para cada militante do coletivo, há a tarefa de ir se unindo a diferentes organizações e somando mais pessoas.

Como Assembleia Cidadã, que tem bandeiras mais concentradas em problemas ambientais, que tem a ver, em Santo Antônio, com megaprojetos que estão vinculados diretamente com o IIRSA [Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana], que nasceu aqui no Brasil. A problemática central é homogênea em nível nacional, porque existe, creio, em toda América Latina, os problemas ambientais, os mega-projetos, a agroindústria…

Passa Palavra (PP): No caso das Assembleias Cidadãs, você falou que ela trabalha mais com problemas locais, mais imediatos que afetam as comunidades. Além dos megaprojetos, existem questões mais pautadas na moradia ou no transporte, por exemplo, que aqui no Brasil estão efervescentes nos movimentos?

FM: Não na Assembleia Cidadã, porque tem a ver com coisas que se dão no momento e tem uma efervescência muito grande, ou seja, somos pessoas que estamos como frente – nove, as que estão sempre – mas sempre vão se somando pessoas à assembleia. Temos uma assembleia que se realiza todas as segundas-feiras, com participação cidadã, onde não podemos esperar que cheguem todas as pessoas neste dia, simplesmente porque para algumas não interessa este tema ou porque há uma conjuntura muito grande. Como agitadores, estamos preocupados em espalhar a informação e formar a cidadania no contexto em que está a coisa ocorrendo e com os atores que estão sempre aí.

dscf7732O que você perguntou não cabe nas Assembleias Cidadãs, mas cabem no Coletivo. Porque temos articulação com diferentes movimentos… por exemplo, com o tema da moradia acontece assim, há um grande movimento no Chile que chama Andha Chile a Lutar, e são estas pessoas que tomam grandes construções, que tem a ver com o Ministério de Habitação e Urbanismo, tratam diretamente com o Estado, e o que acontece, a problemática específica é que eles entram num prédio, constroem, mas o processo para que o cidadão opte pela casa própria é muito chato e dura muito tempo. Por exemplo, pessoas que reivindicam este ano e são chamadas apenas dez anos depois. Este movimento é muito grande e quando realiza mobilizações aglutinam muitos outros movimentos e fazem grandes marchas. Com o tema do transporte, atualmente não, porque se regularizou um pouco. No governo de Michelle Bachelet, anterior ao que está agora, surgiu um problema muito grande, em 2011, porque trouxemos o modelo da Colômbia [Bogotá] para Santiago, que foi uma merda! Deixou o caos total na cidade, porque não tinha ponto de referência, a pessoa não sabia onde tinha que tomar o micro-ônibus, então a cidade começou a tomar os ônibus, à força, aquele que sabia dirigir e ia com as pessoas; queimavam os ônibus. Nossa, foi o caos que durou algo como sete meses! E o que se conseguiu com tudo isso foi somente que se pintassem os ônibus para que as pessoas entendessem melhor qual era o trajeto.

Todos esses movimentos vão acontecer com mais força em 2011 e nascem da articulação de diferentes coletivos, incluindo o meu, para levantar o tema estudantil, que foi muito mais forte em 2011 por aglutinar não somente estudantes secundaristas mas também universitários. Tendo em conta também que em 2006 nasce um movimento estudantil chamado La Revolución Pinguina, que era dos estudantes secundaristas que queriam derrubar a Loce [Lei Orgânica Constitucional de Ensino], uma lei decretada pelo governo Pinochet. Os estudantes começaram a tomar os liceus (certamente o mais emblemático), os colégios estaduais, e a única coisa que se conseguiu com isso é derrubar a Loce, e ainda assim em parte, conseguiu que alguns diretores de certos liceus renunciassem, sob o argumento de que havia muitos roubos em relação às subvenções estatais; depois começou a decair e… acabou. O interessante disso é que, em seguida, os estudantes que estavam no 3º e 4º médio, com dezessete anos, ingressam na educação superior e em 2011 a maioria dos líderes que eram da Revolução Pinguina estão novamente, já com um movimento estudantil, começam a aglutinar também os secundaristas e começam a sair às ruas. Havia muita repressão por parte da polícia e…era muito difícil também a questão comunicacional… Por este motivo, as famílias destes jovens que iam presos e eram comunicadas começaram a se unir em favor dos estudantes. E nós pensamos como deveríamos realizar uma articulação para que isso fosse muito maior, não somente a família do estudante que estava lutando para uma educação gratuita, mas com outras que se sentiam identificadas por estarem amarradas ao Estado, por exemplo, com um crédito que têm que pagar em 30 anos. Têm muitas pessoas no Chile que já são profissionais, já estão trabalhando, mas têm que continuar pagando e só vão terminar de pagar o crédito que ganhou do Estado quando tiverem 40 anos. Começamos a pensar: como chegar neles também? Como chegar também na pessoa que está pagando uma casa e se sente identificada mas, pelo medo da repressão policial, não se aproxima. Nesse contexto, começamos a tomar, primeiramente, modelos para isso que tem a ver com carnaval, e com a batucada. E quando uma efervescência social segue nesse sentido, imagino que aqui também, as pessoas gostam muito da alegria. Tomamos em conta isso e também o caráter cultural de dada mobilização para as famílias se unissem e não tivessem medo da repressão policial. Sempre estavam nas linhas de trás, num momento da mobilização, elementos que estavam encapuzados – porque também tem que ter este momento, eu creio que todo protesto é válido. E nós fomos nos dando conta de que cada vez se somavam mais pessoas, mais pessoas. Então começamos a pensar: se tem um efeito tão positivo, tem que incluir mais coisas, não somente a música. Aí, como fizemos na universidade, começamos a falar com as escolas de dança; incorporamos as escolas de dança e aí já começou a surgir o tema do corpo pintado. Então foi carnaval, comparsa [folia com mascarados] e também a dança. Quando as pessoas começaram a ver isso, que também era transmitido pela televisão, porque era impossível que não mostrassem a massa que estava ali… E cada vez iam se somando mil e mais mil pessoas. A última marcha chegou a ter 20 mil estudantes e também as famílias. E dessa forma começamos a derrotar um estigma a respeito das mobilizações. E também, em relação à violência, fazer visível que a violência não era por parte dos estudantes, por parte das mobilizações, não era por parte da organização e nenhum movimento social, mas que a provocação começava pela polícia. E essa é uma conquista muito grande que conseguiu o movimento social no Chile.

cuerpos-pintados-marcha-AgenciaUnoPP: Dentro da esquerda chilena que participou dessa mobilização, quais eram as principais tendências, as principais forças políticas?

FM: A esquerda mobilizada também tinha o Partido Comunista, que sempre se soma, mas por quem não nos sentimos representados e como quem tampouco queremos nos articular, porque muitos dos líderes da mobilização estudantil, quando recém começamos, eram membros da juventude comunista, principalmente Camila Vallejo. E o que sucede depois, com essas figuras, é que começam se autocandidatar para as eleições, e nós temos a postura que não queremos o modelo neoliberal e, portanto, se eles estão caindo nisso, eles o estão aceitando. Nas organizações independentes, temos a opinião, no Chile, de que o capitalismo não se pode humanizar. Portanto, é impossível… não queremos um país mais igualitário, queremos igualdade e ponto. Então, temos que fazer uma diferenciação, se falamos de esquerda, temos que falar de Partido Comunista e, no Chile, nenhuma organização independente quer fazer parte nem do Partido nem tampouco articular com ele.

PP: E dentro das organizações independentes, vocês têm orientações trotskistas, marxistas, anarquistas…?

FM: Sim, muitas, obviamente, somos bem heterogêneos aí. O importante, creio eu, é articular e deixar de lado isso. Creio que, a nível latino-americano, lamentavelmente é uma problemática porque, quando descemos muito dentro de uma só ideologia, também estamos distanciando outro companheiro que tem a mesma finalidade. Agora, é muito difícil chegar a consenso entre dois, mas eu creio que isso é possível.

PP: Você disse que conseguiram expandir a mobilização para as famílias. Em que medida essas pessoas conseguiram se incorporadas organizativamente, elas começaram a participar de assembleias, a participar de movimentos ou só iam às manifestações?

FM: No começo foi somente uma questão de massas e de efervescência do contexto específico, mas logo depois disso começam a se formar muitas assembleias a nível nacional, foi algo assim como cogumelos formando-se em todo o Chile. E, sim, se conseguiu isso também, principalmente em relação às assembleias, porque os coletivos já existiam, só não eram muitos. Mas, agora, a força que há no Chile são as assembleias, porque são as que aglutinam majoritariamente o morador e a moradora do bairro, o trabalhador e a trabalhadora, que era onde queríamos chegar e era difícil fazer enquanto coletivo.

PP: E elas continuam com força hoje em dia, dois anos depois?

21_9_2008_17_30_19FM: Sim, sim. Dentro de tudo que ocorreu em 2011, nascem essas diferentes assembleias e uma delas, que está em Freirina, na zona norte do Chile, especificamente na região de Huasco se tornou um processo emblemático dentro das lutas ambientais e das assembleias no Chile. A luta que eles tinham era com a agroindústria, uma empresa muito grande chamada Super e causava um problema ambiental muito grave, afetando principalmente os idosos e as crianças, que tinham muitas dores de cabeça. A questão dos excrementos dos porcos, a emanação de odores e se converteu num problema de saúde pública. Então a assembleia começa uma luta que logo se tornou muito mais radical e… houve muita repressão por parte da polícia e também de paramilitares contratados pela própria empresa, que agrediram muitos companheiros, houve dois casos de morte também. Mas ainda assim, com toda a repressão que teve, a luta impulsionou muito mais e eles começaram a fazer barricadas, para não deixar passar os caminhões da empresa, que duraram cerca de um ano e meio. Logo depois de um ano meio conseguiram fechá-la. Ela teve um caráter muito anarquista e por isso digo que é tão importante o tema transversal das alianças, não? Porque nós não somos anarquistas, e se somos muito radicais dentro de nossa postura… Mas, ainda assim, podemos articular juntos. Em Freirina foi realizado o I Encontro Nacional de Assembleias Cidadãs e Organizações de Base, que foi algo bastante importante tendo em conta que, no Chile, a suposta democracia que temos há 20 anos nunca se realizou assim.

PP: Você comentou há pouco sobre a presença de “los encapuchados” nessas grandes mobilizações. Esse é um tema tático que tem levado a grandes debates aqui no Brasil, conforme a leitura das várias linhas políticas. Como isso se equacionou na experiência de vocês?

FM: Durante as marchas, tudo tinha o seu momento; e foi um trabalho que se realizou com eles principalmente. Porque, no começo, quando não havia essa massa grande que conseguimos alcançar ao final com as marchas, sim, havia muitos problemas com eles porque eles não calculavam o tempo, ou seja, começavam os enfrentamentos antes que chegássemos ao ponto final, que já estava previamente organizado antes de ocorrer a marcha. E, obviamente, os diferentes coletivos da organização estavam encarregados de conversar com as diferentes figuras dos setores importantes que havia de toda a organização. Então, o que fazíamos também era organizar cordões para proteger as famílias para não desanimá-las. Bom, no começo, sim, foi bastante complicado porque eles já iam encapuzados antes da marcha começar. Assim, éramos nós mesmos falando com eles para entenderem que havia famílias, havia crianças e tampouco queríamos que os meios de comunicação utilizassem isso para que as pessoas pensassem que a violência vinha dos estudantes.

Encapuchados-contra-guanacoBom, finalmente se compreendeu; os coletivos que são de caráter anarquista, nós tivemos conversas com eles bastante sérias e chegou ao consenso que esperariam até o momento que nós chegássemos ao ponto final da marcha, onde sempre havia um cenário, com músicos e tudo isso. E depois da canção final, tudo bem… acho que também tem que ter o momento disso. Creio que toda organização ou indivíduo que se sente indignado por alguma coisa tem o direito de expressar. E assim se chegou ao consenso com eles.

PP: Em relação à importância que você falou das assembleias, nas diversas localidades no Chile, como forma de uma organização de base, como são encaminhadas às reivindicações das questões mais circunscritas à localidade, como é a relação de diálogo com o Estado?

FM: É bastante complicado, tendo em conta que nós temos um governo à direita, de modo que é muito difícil.

PP: Mas com o governo Bachelet também?

FM: Com o Bachelet não foi tanto, mas as mobilizações ainda não eram muito fortes. Agora, nesse momento, como participação cidadã, e falo especificamente da organização em que eu milito (porque a Assembleia é muito maior e eu não participo de todas), a participação que há é com o tema dos megaprojetos, a expansão do maior aeroporto da América Latina, que é o de San Antonio. O projeto é para ampliá-lo mar adentro, mas o que vai ocorrer é a privatização da única praia que há em San Antonio. E há um decreto no Chile, que é o 130, que obviamente tem um caráter neoliberal, nas entrelinhas permite que seja concessionado um espaço público. Em relação a esse projeto, sim, a prefeitura apareceu e o que faz são reuniões de participação cidadã. As pessoas que vão à assembleia, sim, assistem, mas estamos completamente conscientes de que a participação como tal é uma farsa que se resume a você colocar sua assinatura em uma ficha de comparecimento.

Agora, em relação ao governo que vem, caso seja Michelle Bachelet novamente (sua campanha foi financiada pela burguesia e Monsanto) [Bachelet realmente ganhou as eleições], aí veremos o que vai acontecer, porque dentro de seu discurso está a educação gratuita (que já mudou: agora ela diz que é impossível que a educação no Chile seja gratuita) e está também a proposta de “ver com lupa” o que está acontecendo com a agroindústria e também com as hidrelétricas (tendo em conta que durante seu período anterior ela aprovou 42 projetos de hidrelétricas), que é algo muito forte que está ocorrendo no Chile.

PP: Qual a influência do jogo eleitoral nos movimentos independentes?

umlem-2-e1287149719684FM: O que acontece é de se aproximarem de nós para nos unirmos a eles, sobretudo os candidatos que são de esquerda, do Partido Comunista ou como Marcel Claude (Partido Humanista). Ocorre que as organizações têm tão claro para onde estamos apontando que não caímos nisso.

PP: As organizações… mas e a população?

FM: Tampouco, estas foram as eleições em que houve menos porcentagem de participação em relação ao voto, porque o voto é voluntário. Esta é uma razão também de porque não saímos com Marcel Claude.

PP: No Chile, existem movimentos de ocupação por moradia?

FM: De terra, não; de prédios, sim. Aquele que mencionei anteriormente é o mais forte. Mas são dois, porque há uma questão interna, então se desligou um movimento do outro, mas têm o mesmo fim. Um é o Andha Chile e outro, Andha Chile a Luchar, mas não têm muita diferença. É, mais ou menos, como acontece com a Frente Dário Santillán na Argentina, em que há a corrente nacional e a outra… Eu, particularmente, tive algumas conversas com uma dirigente deste movimento, pois queria que me orientasse um pouco… [ela] sabe muito sobre legislação habitacional, então, especificamente, como dirigente da poblácion onde vivo, estamos vivendo o problema da expropriação por parte do município. Estão oferecendo uma quantia em dinheiro que é muito menor ao que realmente valem os terrenos das famílias que vivem nesse lugar; e não estamos falando somente de terreno, não, também temos que ter em conta outra coisa: estamos falando da cultura dessa família, tem que ter em conta que há uma pessoa que nasceu aí e que seus avós nasceram aí. O que acontece é que se trata da casa dessa gente e não lhes interessa absolutamente nada. Há uma luta das famílias que têm vivido lá, há aproximadamente 20, 30 anos mas que não são donas do terreno. Então também há uma questão sobre os papéis, os documentos que devem regularizar para poderem ter o título. Em duas conversas, ela me orientou bastante para poder ajudar estas famílias.

PP: De que formas essas organizações de que você participa atuam em relação à luta feminista?

FM: As organizações feministas no Chile são visíveis há pouco tempo, o que a meu ver é péssimo, já que são muito necessárias para criar consciência nas mulheres. É um dos países em que há um índice de feminicídios a nível latino-americano muito grande. E era um tabu até há dois anos… Então ainda estão como que em processo e é por isso que é uma das lutas, ou uma das bandeiras, de que se está tomando conta que é algo fundamental, entende? Lamentavelmente, os coletivos feministas nascem dentro da universidade, principalmente das mulheres que estão estudando algo relacionado às Ciências Sociais, porque têm uma formação teórica a respeito disso. Mas são elas mesmas que fazem uma segregação porque não permitem que entrem uma pessoa, por exemplo, que não tenha o mesmo nível de discussões a que estão acostumadas; e é um erro, terrível. Do que estão falando: queremos feminismo, mas tampouco há uma completa abertura para massificar o movimento. Há muitas correntes. Há aquelas que querem impor seu poder frente ao poder dos homens. E há outras, das quais eu faço parte, que pensam que, na realidade se trata de uma questão de gênero, não de feminismo ou meramente isso. Ou seja, é impossível que eu realize uma assembleia ou uma reunião e proíba que um companheiro participe dessa reunião. É algo estúpido! Mas lamentavelmente existe. Querem uma igualdade ou querem impor seu poder frente ao outro, que é um companheiro, que é um ser humano, não? Então, é bastante complicado isso, mas está em processo de melhora, creio.

PP: Para finalizar, qual a sua impressão sobre as mobilizações, as lutas e os movimentos sociais no Brasil?

FM: Creio que o MST é bastante importante, pela criação da ENFF (Escola Nacional Florestan Fernandes) tomando em conta que é indispensável a formação política e a teoria a nível latino-americano, porque a finalidade é voltar aos nossos países com essa formação. E não é tanto o tema teórico, que é, sim, muito importante, mas também a questão de extrair, com outras organizações de outros países, e entender qual é a conjuntura de outros países que estão participando. Porque é nessa convivência diária que os indivíduos e organizações que fazem parte desse curso, onde estamos todos os dias juntos, dentro de aula, fora de aula, é aí onde realmente se realiza a aliança latino-americana, se quisermos erradicar o capitalismo e seu modelo imposto. É claro que o movimento tem muitas contradições, que são temas pontuais, eu acho.

poblaodres1E sobre as mobilizações, me veio a grande surpresa. Não é algo muito comum – coisa que em nível latino-americano, sim, tem bastante. Creio que se deve ao fato de os movimentos sociais estarem decaindo e é isso que, em sua maioria, motiva a as pessoas a saírem às ruas e a gritarem pela reivindicação de seus direitos. Ademais, devo mencionar o mal que faz aos movimentos sociais a relação com o Governo, pois, desde Lula até Dilma, o PT, “Partido dos Trabalhadores”, só tem o nome. Suas políticas não têm caráter popular… ou melhor, são “governos progressistas”(como muitos da região sul da América) que é a forma de maquiar os Estados neoliberais, igual à palavra “democracia”, com isso seu discurso soa mais “bonito” para o eleitorado.

Me parece lamentável porque vi quão necessário é, no Brasil, uma mudança real; e tomando em conta que o povo acreditou neste mudança social que o PT e o Lula, durante sua campanha, utilizaram em seu discurso, e agora com Dilma é o momento que se concretize, não?

Um dos movimentos que soube permanecer no tempo é o MST e os seus 30 anos. Creio que, em grande parte, tem a ver com sua ligação à Teologia da Libertação, considerando a importância que tem a religião por aqui (que eu mesma vi). Sem desmerecer suas lutas e vitórias alcançadas, mas no Brasil não se deve lutar apenas pela terra e apoiar o direito à moradia… o que acontece com a classe trabalhadora que vive nas favelas, quebradas… o que acontece com os jovens, as crianças desses lugares… o que acontece com todos aqueles que não estão dentro do MST ou da Via Campesina? O que acontece com a desigualdade social, com a saúde e educação de qualidade?… O racismo que ainda é tão forte, a violência contra a mulher, contra os povos originários, a violência contra a população vulnerável por parte da polícia. Estas são perguntas que devem ser respondidas pelo Governo eleito “democraticamente” e reside aqui a importância dos movimentos sociais e as organizações sociais de base. Somos nós que devemos tomar estas lutas e ganhá-las para a classe trabalhadora, para o povo oprimido.

2 COMENTÁRIOS

  1. É interessante essa perspectiva. Me reconheço activista, naquela época estava terminando minha graduação no Chile, e reconheço que a tese da luta voltada para as assambléias é forte. Agregar também uma forte politização de formas de organização funcionais a outros fines como os “comités de vivienda” que passaram da demanda pela moradia para uma luta muito mais ampla. Nesse sentido reconhecer a ação da “Federación de Pobladores” FENAPO, as organizações que compõem essa coordenação, como o MPL “Movimiento de pobladores en Lucha” e o ANDHA CHILE A LUCHAR (Asociación Nacional de Deudores Habitacionales) que em diferentes graus tem polítizado espaços locais, algumas assembléias mais horizontais que outras, mas confrontando de maneira clara o Estado e os governos liberais. Porém, acho que o fenômeno do 2011 crio novos espaços locais que não frutificaram, acho que por falta de clareza política dos integrantes, alguns inclusive reacionários (que reclamavam pela ideologização do movimento estudiantil e pela busque de câmbios estruturais, fora do educacional) e pelos outros oportunistas que achavam que era uma boa forma de fazer voltar a chamada esquerda para o poder por meio de Michelle Bachelet, numa aliança política que vai desde o Partido Comunista até o Demócrata Cristiano. Uma sinal clara disso foi a grande importância que tem gerado em torno aos espaços representativos estudiantieis como as eleições de federação, em contraste com a baixada da participação nos espaços mais locais e horizontais nos últimos três anos.
    Acho que esse ano é chave, se as demandas colocadas reforzam esses espaços horizontais locais, já fora das tensões dos anos eleitorais e no primeiro ano do segundo governo da Bachelet.

    Em quanto a experiencias de ocupação de imóveis, no Chile tem havido uma forte repressão contra os atos que afetassem a propriedade privada. Se bem nos anos 60, a pesar da forte repressão pelos mesmo motivos de hoje, processos de ocupação de solo foi um forte meio para construir cidade e poder popular, hoje depois da ditadura, tem havido uma completa oposição. Nesse sentido, acho que são únicas as experiências que tem o MPL na Rede de Imóveis Recuperados por Autogestão (IRA) no setor centro (http://mplchile.cl/inmuebles-recuperados-por-autogestion/).

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