Como narrativa isolada a greve tende à mistificação. Compreendida como agregação própria de dinâmicas externas, a greve ganha substância histórica e humana. Por Pedro Benevides

Introdução

Uma greve de jornalistas não se via desde 1987 em Belém e mesmo às vésperas da sua deflagração em 2013 pode parecer impraticável: “o pessoal [funcionários da empresa] não acreditava que vocês teriam essa coragem de fazer, de enfrentar [a família Barbalho]” (Felipe Melo). Dos dias 20 a 27 de setembro de 2013, jornalistas do Diário do Pará e do portal de notícias Diário Online (DOL) deixam suas mesas e pautas para se manifestar em frente ao prédio da empresa, a Rede Brasil Amazônia (RBA), chegando a fechar a Avenida Almirante Barroso, uma das maiores da capital. Segundo os grevistas:

A equipe do caderno “Você” parou integralmente. O “Cidades” surpreendeu, apenas uma das equipes factuais formada por repórter e repórter fotográfico não aderiu à greve, o mesmo ocorreu no “Bola”. Metade dos repórteres do “Polícia” cruzaram os braços e duas produtoras fizeram o mesmo durante os sete dias parados. No DOL, repórteres, coordenadores e multimídias aderiram em massa. A ânsia pela mudança era real e não podia ser protelada. Mas houve quem optasse por continuar no trabalho (www.facebook.com/grevediarioedol?ref=ts&fref=ts, postado em 20.10.2013, acessado em 20.05.2014).

reuniaojorA greve é composta de ações de rua e nas redes sociais, tentativas de negociação e articulações entre as redações e também dos jornalistas com outras categorias de trabalhadores. Atos públicos, uma aula aberta, tuitaços, manifestações diárias na Avenida Almirante Barroso e o trancamento da rua do grupo RBA tratam de reunir apoio e expor a empresa em espaços públicos.

Ao longo dos sete dias de mobilização, patrões e trabalhadores trocam cartas abertas, expondo seus motivos. Diante da afirmação de um diretor do jornal Diário de que a “média salarial é de R$ 2,6 mil”, implicando que os jornalistas não teriam do que reclamar, os grevistas postam em sua página do facebook, no dia 27 de setembro de 2013, fotos de 14 contracheques variando de 757 a 1295 reais, sendo nove abaixo dos mil reais.

A RBA se vê obrigada a conceder aumento de 50%, o que encerra a greve com um resultado difícil de conceber uma semana antes. O jornal não deixa de circular durante a greve, assim como o portal não sai do ar. A vitória não decorre da interrupção da produção mas do desgaste imposto à marca da empresa e à imagem da família – que está lançando candidato ao governo do Pará em 2014. Começam as retaliações no primeiro dia útil após os 45 dias de estabilidade (um dos itens do acordo com a empresa) e, de novembro de 2013 a março de 2014, são 16 jornalistas demitidos da RBA.

As condições de trabalho dos jornalistas do grupo RBA são escancaradas na “Carta aberta à direção do grupo RBA de Comunicação”, de 18 de setembro, que exprime a mudança de tática e de tom das reivindicações que se acumulam desde 2011 e que até então apostam no acordo sem atritos.

não ficaremos mais calados (…). Nenhum de nós se conformará com um salário líquido que não chega a mil reais, com as frequentes horas extras nunca pagas, com cadeiras e computadores sucateados, que prejudicam nossa saúde com cada vez mais gravidade, com a falta até mesmo de água potável na copa e de papel higiênico nos banheiros. Nenhum de nós reproduzirá novamente o discurso de que “é normal o jornalista trabalhar muito e ganhar pouco”. Uma miséria, na realidade. Não é normal! Não deixaremos mais que nosso sofrimento como trabalhadores seja ocultado por todos os prêmios conquistados a duras penas e que fazem o Diário do Pará se autointitular como “o jornal mais premiado do mundo”. Estamos aqui para denunciar que essas conquistas se devem ao suor de homens e mulheres que sequer ganham o bastante para se alimentar com decência todos os dias do mês. Tampouco deixaremos que a ameaça de demissão e o assédio moral voltem a calar qualquer um de nós (www.facebook.com/grevediarioedol?ref=ts&fref=ts, postado em 18.09.2013, acessado em 20.05.2014).

As reclamações esparsas, diluídas nos bastidores das redações e em modestos atos sindicais negligenciados pelos patrões, agora se tornam discurso coeso, público, animado por base mobilizada, propagado em ações de rua e assinado pelos “Trabalhadores do Diário do Pará e Diário Online (DOL)”. A assinatura é expressiva: “Trabalhadores” – o termo acena a retomada de um grau de articulação e consciência abafado há duas décadas nas grandes empresas de mídia do Pará e do Brasil.

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jornalistasemgreveMetodologicamente, este trabalho se baseia em entrevista aberta semidirigida, visando colher informações sobre a greve e sobretudo combinar o eixo da narrativa dos eventos públicos com a memória das relações íntimas e políticas que se criam paulatinamente até que a ideia de greve ganhe as ruas. Do dia 26 ao dia 30 de maio de 2014, em Belém, foram entrevistados seis participantes da greve (listados abaixo) – cinco jornalistas demitidos do grupo RBA e a presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Pará (Sinjor).

Este texto tem objetivos em dois níveis. O primeiro é descritivo e motivado pela necessidade de registrar e propagar a lembrança do embate. A descrição, contudo, procura abstrair a qualidade de dinâmicas externas à greve, que se materializam nela e lhe dão substância interna.

O segundo objetivo é o resgate de memória, visando apreender as relações entre cumplicidade e resistência. Como os instrumentos tão eficazes de exploração desenvolvidos há anos na RBA podem se tornar ferramentas de resistência que ajudam a viabilizar greve? Existe uma dinâmica de gradativa conversão de mecanismos de exploração em ferramentas de reivindicação sindical, beirando a consciência de classe. Como o trabalho naturalizado passa a ser visto como degradação intolerável e como a resistência inconcebível passa a aparecer como inevitável? A rotina com a qual se conviveu por anos passa a ser concebida como abuso insuportável, ao passo que a luta impensável rompe a fronteira da imaginação e se torna cotidiana. E, quando a luta se torna palpável, cabe refletir como seus agentes conviveram com os abusos por tanto tempo.

Assim, trata-se de descrever decisões, ações e consequências, e de analisar dinâmicas articuladas e subjacentes ao conjunto dos atos públicos, das deliberações formais, das reações concretas e das mensagens abertas. Na abstração de fatores subjetivos e objetivos podem ser encontrados os traços emancipatórios que se gestam numa mobilização sindical, como uma praga nos jardins das autoridades.

I.

“a greve foi como um copo que transborda”
(entrevista de grevistas ao blog do Sakamoto, 27.09.2013)

A greve dos trabalhadores do Diário do Pará e DOL tem uma série de antecedentes em níveis local, estadual e nacional, que gradualmente convergem para aquele movimento, cujas ações concretas internalizam esforços e ideias que o precedem. Além disso, a greve se sustenta numa articulação de atividades coletivas e individuais, públicas e subterrâneas, num cruzamento de fatores deliberados e involuntários que possibilitam o embate de setembro.

Pressões de jornalistas sobre patrões ocorrem em 2011 e 2012 na Rede TV!,no portal de notícias ORM, no jornal O Liberal e na Rede Record, segundo Sheila Faro, presidente do Sinjor. São mobilizações breves, com pequena repercussão, cujas vitórias porém alimentam um trabalho contínuo que desemboca na campanha “Jornalista Vale Mais”, promovida pelo Sinjor a partir de 2013. Os antecedentes mais próximos da greve na RBA são a mobilização na Record em 2012 e 2013, e a paralisação do jornal O Liberal em 2013. Nestes dois casos, somadas às tentativas de negociação com a RBA, algumas manifestações chegam a praças de Belém e à Superintendência Regional do Trabalho e Emprego.

Toda vez que a gente está para começar uma campanha de acordo coletivo, o grupo [ORM] começa a amedrontar a galera, a dizer que, se vai ter que aumentar salário, vai ter que demitir uma galera. E começou uma leva de demissões no O Liberal [jornal da ORM]. Foram demitidas umas 30 pessoas de várias áreas. Só jornalista, uns 14 foram demitidos. A redação ficou revoltada. (…) Lá dentro, nós fizemos um dia de paralisação. Todo mundo de braços cruzados. (…) Conseguimos invadir a antessala do diretor de lá, eu e mais uma diretora (Sheila Faro).

Temos então uma série de ações anteriores que afina pessoas e grupos em pequenas operações de mobilização, assim como sedimenta uma leitura do problema da precarização em campanha formalizada.

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Paralelamente, os jornalistas da RBA tomam suas iniciativas, também cautelosas. Em 2011 e 2012, eles organizam dois abaixo-assinados para serem levados ao sindicato, que por sua vez pressionaria os patrões. Na primeira tentativa, estes são informados da movimentação e punem alguns jornalistas com sua substituição para editorias de menor prestígio (aos olhos dos diretores da empresa). O segundo abaixo-assinado gera uma assembleia no Sinjor e a pressão leva à conquista de aumento salarial, sem retaliações.

O aumento para mil reais foi em função do abaixo-assinado. (…) Quando foi no final do ano, teve o aumento. Na carteira, diz que foi espontâneo. Não foi, não. Foi pela pressão (Elias Santos).

As pessoas ganharam confiança de que poderiam lutar. Nosso salário aumentou um mês depois para mil reais. Teve um aumento de 20 e poucos por cento. Já foi uma conquista, em termos percentuais, muito grande. O salário-base passou de 870 para mil reais (Felipe Melo).

Em que pese o aumento, todas as demais condições de trabalho ficam mantidas, sem expectativa de melhoria, como se vê pelas tentativas infrutíferas de negociação a partir de abril de 2013, data-base dos jornalistas do grupo RBA.

Considerando assim as ações na RBA e em outras redações, temos esforços de base e de sindicato que se somam à ameaça, ao recuo e à indiferença dos patrões, assim construindo um caldo no qual a rotina vai se tornando um problema e o estranhamento beira a indignação. Em 2013, tramas internas e externas à RBA acumulam potencial para se combinar numa ação que extrapole o limite de uma empresa e seja abraçada pela categoria.

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Com os protestos de junho de 2013, a mobilização massiva com enfrentamento físico contra autoridades ganha legitimidade nacional. Um novo dinamismo pode ser injetado nas lutas das redações, que por sua vez alcançam maturidade para receber tal injeção a partir de seus próprios esforços pontuais, gradativos e discretos. O tremor de junho e os passos dos jornalistas de Belém podem, então, se entrelaçar.

Em 2013, a gente não via nenhuma perspectiva. Até que estourou junho. (…) Em agosto, os funcionários dos supermercados aqui de Belém, por fora do sindicato, fizeram uma grande rebelião que a gente nunca tinha visto. Pararam todos os supermercados. Isso foi um dos pontos que fez as pessoas pegarem esse ânimo. E aí depois dessa greve dos comerciários, a gente voltou a conversar. E aí o sindicato chamou uma assembleia para nossa data-base, porque eles estavam tentando negociar há muito tempo e a diretoria da empresa não queria dar nada de reajuste a não ser os 5,7% (Felipe Melo).

Os jornalistas aqui em Belém foram muito presentes nessas manifestações [de junho]. (…) Várias pessoas foram. Então nesse afã de ver que tava todo mundo indo pra rua, então a gente pensou: vamos ter que fazer alguma coisa aqui, pela nossa categoria. (…) Em agosto, teve uma greve, aqui em Belém, de funcionários de supermercado. O pessoal da reportagem lidou direto com isso. E incentivou muito a gente, porque a gente perguntava pra eles: como assim, vocês são de empresa particular, vocês não têm medo de ser demitidos? E eles falavam: não, porque tá numa situação tão ruim que a gente já abriu mão; se demitirem, pelo menos a gente fez alguma coisa (Daniele Brabo).

Vários de nós participaram das passeatas que rolaram aqui em Belém. A gente estava antenado com o que estava acontecendo no Brasil. Acho que tudo foi uma reunião de forças pra que a gente passasse a olhar isso de um outro jeito: os movimentos sociais, as lutas de classe (Amanda Aguiar).

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Revigorados pela recente mudança nacional no equilíbrio das forças sociais e políticas, e ainda com encorajamento de lutas locais, os jornalistas da RBA retomam um espaço informal de reuniões – “a gente voltou a conversar”, como vimos (conferir Felipe Melo, logo acima). Paralelamente às assembleias no Sinjor, encontros acontecem na casa de um dos jornalistas, para trocar ideias, somar desabafos e avaliar possibilidades. Na medida em que se acumulam impasses nas negociações com a RBA, e agitadas pelo junho, essas reuniões se transformam num núcleo decisório independente do sindicato. Deste núcleo, inclusive, se ramificam comissões que ajudam a organizar a greve, compostas a partir da base.

A gente formou uma comissão: Comissão dos Trabalhadores do Diário e DOL. E a gente fechou dentro dessa comissão algumas pessoas que eram o núcleo, como a gente fala, que organizariam a greve nos pormenores (Amanda Aguiar).

Nós nos espelhamos em movimentos operários dos motoristas de ônibus daqui. Eles faziam comissões fora do sindicato para levar a discussão para o sindicato e tentar deflagrar a greve ou fazer uma greve por conta própria mesmo, como está acontecendo no Rio, em grande parte do país. (…) Nós tínhamos comissão de infraestrutura, comissão de comunicação, comissão de mobilização e comissão política. A comissão de trabalhadores tinha essas subcomissões. (…) [Foi] necessidade de organização mesmo (Elias Santos).

Essa necessidade foi catalisada pelo fato de que dois diretores do Sinjor que trabalhavam no Diário do Pará se alinharam com os patrões.

Quatro diretores do sindicato estavam dentro da empresa [RBA] e não fizeram greve. (…) Dois dias antes da greve, tentaram costurar junto com a empresa uma reunião para desmobilizar a greve (Felipe Melo).

jornal1Num período muito curto (da greve dos comerciários de agosto à greve dos jornalistas em setembro), um espaço informal de colegas se converte em estrutura organizativa e vínculo de camaradagem, materializando um expressivo impulso à autonomia, que não elimina o trabalho conjunto com o sindicato.

Enquanto isso, o Sinjor se coloca como a entidade que, acompanhando as mobilizações anteriores, se qualifica para dar formulação geral às demandas que aparecem com as especificidades de cada redação e para transformar as reivindicações particulares numa campanha, intitulada “Jornalista Vale Mais”. Segundo Sheila Faro, essa campanha lança nova etapa de pressão pelos acordos coletivos em abril de 2013.

As negociações abertas em abril se arrastam por meses sem que a RBA ceda, o que provoca assembleia geral do Sinjor, no dia 03 de agosto, na qual os jornalistas rejeitam as contrapropostas da RBA: “foi deliberada uma campanha de valorização profissional e majoração salarial, com o indicativo de paralisação geral da categoria”, segundo o site do Sinjor (notícia postada em 03.08.2013, e acessada em 20.05.2014). Segundo Felipe Melo, nesta reunião se decide que a campanha mude de tom, expondo publicamente a RBA e seus salários aviltantes. A proposta, aprovada, é de

uma campanha bem forte mesmo, apelativa, pra queimar mesmo a empresa, pra dizer que a gente ganha mil reais somente, que era ruim, horrível um salário desses (Felipe Melo).

A paralisação geral foi convocada para 03 de setembro, quando acontece ato na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, onde ocorre audiência de conciliação entre Sinjor e RBA. Sem acordo, o Sindicato convoca para o dia 05, quinta-feira, reunião com a RBA na sede da empresa, com ato público em frente à TV RBA.

Da decisão de paralisação geral e campanha com escracho tomada em 03 de agosto até este ato no prédio da RBA, realizado em 05 de setembro, temos uma mudança significativa de tática. De 2011 até agosto de 2013, as ações podem ser caracterizadas como pressão sem atrito: as pessoas participam dos abaixo-assinados porque “não viam tanta maldade, não viam enfrentamento” (Felipe Melo) e, cautelosamente, a campanha aposta no tom positivo, com o título “Vale Mais”, que não escancara a precarização. As manifestações, até o 05 de setembro, acontecem em praças e prédios públicos, o que é um modo de exigir mas também de evitar tensão direta com a empresa.

Quando aconteceu esse problema das demissões [em O Liberal em 2012], a gente queria fazer uma manifestação na frente do Liberal. E eles não aceitaram. Os jornalistas de lá disseram: não, a gente não quer se manifestar na porta da empresa. A gente quer se manifestar numa praça (Sheila Faro).

É essa postura recuada que se torna desatualizada entre 03 de agosto e 05 de setembro. O passo adiante deliberado a partir da assembleia de agosto incorpora a variedade de acúmulos entrecruzados que vimos até aqui. Nesta assembleia, potenciais e realizações antecedentes se afunilam numa dupla maturação – a da campanha que sedimenta ações anteriores de várias redações mas chega em impasse e a do núcleo decisório montado a partir da base, com suas experiências internas a uma redação, e que incide sobre a campanha, acirrando a dinâmica.

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A intransigência dos subordinados é longamente precedida pela intransigência das autoridades. Negociações infrutíferas se arrastam desde abril. Da assembleia de agosto ao ato de 05 de setembro, no prédio da RBA, enfim ganha corpo o esgotamento da paciência dos jornalistas, sem que a ousadia deixe de se combinar com o temor: “nesse protesto, apareceram da empresa [RBA] só umas três ou quatro pessoas. O resto era tudo jornalista de fora” (Felipe Melo). “Esse primeiro ato foi meio esvaziado. Foram umas 10 pessoas, entre sindicato e funcionários. (…) Mas o ato aconteceu lá e já deu um susto no pessoal da empresa” (Daniele Brabo). A pressão avança para um certo atrito, mas sem respaldo efetivo de base.

Um novo ato em frente à TV RBA acontece em 11 de setembro, quarta-feira, chacoalhando os receios dos jornalistas do Diário e DOL.

A gente fez um panelaço. Entramos na recepção do grupo RBA, batendo panela e exigimos a presença de alguém da diretoria. Aí não mandaram ninguém. (…) Até esse momento, a adesão dentro do Diário ainda era pequena. Ainda tinha aquele grupinho central, tipo umas dez pessoas (Daniele Brabo).

O ato agora se constitui como efetiva ação direta, entrando no prédio, rompendo o tom decoroso, expondo a indiferença dos patrões e se encerrando com assembleia no asfalto da grande Avenida Almirante Barroso. A partir daí, a ideia de greve se torna assunto aberto e candente entre os jornalistas nas redações da RBA, ainda segundo Daniele. Assim, a ação também funciona como agitação – a etapa das conversas isoladas e discretas na redação estava vencida.

Aqui é grande o envolvimento de um conjunto maior de redações, ainda que a força tenha se concentrado em duas redações da RBA. No panelaço, “veio muita gente de outras redações”, como da TV Record e do jornal O Liberal, de acordo com Daniele Brabo. O site do Sinjor registra o envolvimento, em atos e assembleias, de diversas redações e o apoio de outros sindicatos. Logo após o panelaço, acontece um ato em frente à TV Record, no dia 13 de setembro, sexta-feira.

Em 12 de setembro, a jornalista da TV RBA, Cris Paiva, publica seu contracheque no facebook, “pra provar o quanto ela ganhava, o quanto ela era explorada” (Amanda Aguiar). É um alinhamento individual e voluntário à ideia de escrachar a empresa.

Ela foi demitida e a gente começou a fazer uma pressão muito grande para ela ser reintegrada e ela foi reintegrada. (…) A gente estava muito chateado por isso, por ela ter sido demitida porque postou o contracheque, como se ela tivesse que ter vergonha de quanto ela ganha. (…) Ela foi readmitida mas depois topou ser a única pessoa da TV [a participar da greve] (Amanda Aguiar).

O gesto isolado expõe o desprezo dos patrões, e a punição que Cris recebe provoca a agregação dos colegas, beirando o companheirismo.

As pessoas ficaram muito indignadas. A empresa, nesse sentido, recrudesceu essa nossa sensação de que a gente precisava fazer alguma coisa, quando a gente viu a Cris sendo demitida porque tornou público o valor do salário dela (Amanda Aguiar).

Em 14 de setembro de 2013, sábado de manhã, jornalistas de diversas redações deliberam a greve por unanimidade (com duas abstenções) numa assembleia “lotada”, segundo Elias Santos e Daniele Brabo. A decisão formal se soma à indignação com a demissão de Leonardo Fernandes, na segunda-feira, 16 de setembro. Assim como no caso de Cris Paiva, inverte-se a eficácia da retaliação, que passa a incentivar a mobilização. A pressão com atrito ganha adesão de base. Agora, “é greve!”

II.

Como em qualquer luta, a memória desta greve pode se manifestar num relato que oferece certo encaixe entre as partes. Sem dúvida, existem traços que delineiam o processo com nitidez, como as condições imediatas de trabalho, traduzidas em reivindicações.

A greve foi motivada por uma série de fatores. Desde as más condições de infraestrutura na redação, com cadeiras quebradas, falta de água potável e aparelhos de ar-condicionado com defeito, ao próprio salário. A remuneração de repórteres e repórteres fotográficos era de apenas R$ 1000 brutos, com descontos havia contracheques com menos de R$ 800 líquidos. Isso sem qualquer Plano de Cargos, Carreira e Remuneração. Imagine trabalhar cinco anos em um lugar ganhando o mesmo que um recém-contratado (Salário de R$ 800 fez repórteres cruzarem os braços por uma semana, jornalistas contra a repressão, postado em 30.10.2013, acessado em 20.05.2014).

Esses componentes sindicais, que são fundamentais, estão entrelaçados a outros, que vão do subjetivo ao político.

Não aceitamos a imposição de respeito através do medo (ibidem).

aulajornalismoNa busca pela coerência, destaca-se certa concatenação que pode, contudo, apagar dimensões de luta, algumas das quais serão tratadas abaixo. Em outras palavras, a dinâmica sindical, que sem dúvida oferece coesão à ação, cobra seu preço e pode se sobrepor a outras dimensões do embate. Se a análise da correlação de forças tende a se tornar uma equação, esta pode se tornar uma armadilha, ao oferecer transparência enganosa. Existe um grau de opacidade constitutivo à acomodação e à luta, que podem ser expostos como diversos fatores, que serão articulados abaixo: cumplicidade; proletarização e desgaste; ressentimento; estalo; conversão de ferramentas à esquerda; entre outros possíveis.

A greve radicaliza a percepção das condições de trabalho nas redações, que passam a ser visto como uma degradação absurda. Porém, isso foi percebido como normalidade por anos a fio. Isso se deve, em parte, à própria cumplicidade dos subordinados. A etapa de greve nos ajuda a fazer um balanço das motivações à acomodação que antecederam a mudança de postura. Expostas pelas pessoas aqui entrevistadas, esses motivos são os que levam os repórteres a se submeter a uma situação entendida antes como aceitável e mesmo proveitosa.

A gente gosta do que faz e a gente procura sempre fazer o melhor porque afinal de contas a única coisa que a gente tem é o nosso nome. (…) A gente ficava feliz porque sabia que estava fazendo um trabalho bonito, bacana, e que as pessoas gostavam. A gente recebia muito elogio. (…) Como tu gosta do que fazes, as pequenas alegrias talvez acabassem tornando esse dia-a-dia de dificuldades suportável. Às vezes você está entrevistando o cara que tu sempre admiraste (Yorrana Oliveira).

As motivações são inúmeras e se confundem no cotidiano, mas podem ser abstraídas em algumas linhas relevantes. Do aprendizado rotineiro básico até a construção da carreira (“o nosso nome”), a redação de um jornal poderoso propicia esse ganho, que não é monetário e se faz da lenta reunião de fontes e da exposição gradual do profissional associado à marca do jornal. A empresa que explora é aquela que serve de vitrine ao profissional.

Nas entrevistas, surge o gosto pela “liberdade criativa” proporcionada em certas ocasiões e pelo agito da profissão que exige constante deslocamento. No caso do Diário do Pará, é mencionada a reunião de pauta agradável, o dia-a-dia cheio de brincadeiras e o clima de amizade. Em grau mais íntimo, as premiações da RBA afetam positivamente a auto-estima dos repórteres, já seduzidos pelo precário glamour da profissão que dá acesso aos poderosos e às celebridades.

Os diretores exercem uma pressão cordial, feita de quebrar galhos, que por sua vez geram promoções para os repórteres mais flexíveis (ou submissos) e vetos às carreiras dos mais arredios (ou preservados). Esses procedimentos se agravam com a inclinação à multitarefa nas redações.

Há também fatores mais elevados, como o senso de missão, expresso nas entrevistas como o prazer de contribuir com a sociedade. Existe uma postura de responsabilidade e de profissionalismo na qual a própria produção industrial impõe seu ritmo:

Não é nem que o editor te obrigasse a ir, mas (…) tu sabias que a pauta era importante – tu não ia? (…) Como é que ia ficar o caderno no outro dia? (Yorrana Oliveira).

Embaralhadas no dia-a-dia, todas essas peças ajudam a compor a malha que, ano após ano, filtram como aceitáveis os abusos sobre o trabalho jornalístico. É um regime de exploração feito de compensações, atenuantes, promessas, favores, entre tantos outros mecanismos, que foram rompidos pela greve.

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A gente vivia cotidianamente com absurdos – com pequenos absurdos e com grandes absurdos. Então, era muito irreal que um dia a gente se rebelasse (Amanda Aguiar).

assembleiaComo a cumplicidade se torna resistência? É possível identificar, mesmo em etapa de acomodação, uma ambiguidade nas percepções sobre a redação, que aparece como degradação agradável e cordialidade aviltante. Aqui está o potencial de uma virada no sentido da exploração. Um modo de enxergar essa mudança latente é observar o desgaste dos mecanismos de exploração, a partir do relato dos grevistas, que se recordam das pessoas demitidas sem que ninguém as substituísse, ou seja, o acúmulo de funções.

Yorrana Oliveira relata a ocasião em que saiu mais tarde da redação (às 3h da manhã): após um dia de apuração, ela fica até meia-noite esperando uma fonte atendê-la. Na saída, de madrugada, uma colega a alerta de que a jornada não pode se estender tanto e de que o procedimento correto é a substituição de repórter. Porém: “ninguém me falou, né? (…) Esse tipo de coisa eles não falavam pra gente. Era minha primeira vez em redação. Não sabia como é que funcionavam as coisas. E aí, se eu não entregasse a matéria, depois cabeças iam rolar, com certeza” (Yorrana Oliveira). Amanda Aguiar se lembra da estagiária que nunca teve carteira assinada, sendo contratada por três meses, depois por mais três meses, e assim indefinidamente – “aquela situação sendo empurrada e empurrada, sem o menor zelo da parte do RH, sem o menor zelo da parte dos diretores” (Amanda Aguiar).

De diversos ângulos, a situação própria aparece como deprimente, mas ainda não revoltante: é rotineira a comparação com o salário mais alto de repórteres de O Liberal, de frilas [freelancers, bicateiros], da TV RBA e inclusive dos motoristas da RBA, assim como a observação da reforma da TV RBA, e sobretudo os prêmios recebidos pelo Diário do Pará, exaltados pela autopromoção da empresa – “a mais premiada”, enquanto seus repórteres penam.

Eu não conseguia entregar as pautas no horário. Eles pediam e não tinha como, porque tu fica tantas horas na rua, aí pega trânsito e volta. Como é que tu vai entregar a matéria no horário que eles querem? (…) Aí tu está terminando a tua pauta e [o editor] te chama: “revisa esse texto aqui.” Aí tu respira fundo. (…) Eles te cobravam uma coisa – “tu te vira”. Tu te virava mas às vezes não dá pra tu te virar mais do que certo limite. “Ah, como assim tu não conseguiste falar com fulano?” [diz um editor]. “Não consegui. Não tenho senha pra ligar. Não vou usar meu crédito” (Yorrana Oliveira).

Assim as pessoas percebem a escalada da exploração em suas vidas – proletarização de jornalistas. Por outro ângulo, decisões de elite orientadas pela flexibilização do regime de trabalho somadas à cumplicidade de subordinados criam uma parte das condições para uma virada.

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A concretude da degradação possui dimensão íntima. E, se a necessidade de explorar se acompanha do prazer de humilhar, isso por sua vez gera ressentimento – que pode arrebentar.

A memória do riso dos superiores é marcante. Quando Amanda reclama de baratas na mesa do café, o editor diz: “que bom que barata não toma café”. Yorrana lembra do relato que recebeu sobre a negociação de data-base, na qual o diretor teria rido das reivindicações.

Eu fui começando a me sentir completamente indignada com situações desse tipo em que você reclama e que você recebe uma brincadeirinha de volta (Amanda Aguiar).

Tem muita gente que não sabe identificar uma ordem legítima de uma pressão que já configura assédio moral. Quando a gente para pra pensar, muita coisa que a gente vivia lá era assédio moral, sim. (…) Eu só consigo lembrar no pós-greve (Yorrana Oliveira).

Tudo que a empresa oferecia, a gente queria. Porque era o que a gente podia pegar, entendeu? Se a empresa fazia uma festa, todo mundo ia. E a gente bebia todas as cervejas do mundo. (…) Era o que nos restava (Elias Santos).

Tem gente que já nem liga mais porque já está acostumado. (…) Antes da greve a gente tinha aquelas pequenas revoltas. A gente se revoltava de uma maneira discreta, digamos assim (Yorrana Oliveira).

Várias vezes, as pessoas aqui entrevistadas tiveram dificuldade de se lembrar de episódios de abuso dos chefes, o que demonstra a efetividade da ameaça camuflada com humor, uma pressão projetada para ser esquecida – testemunhas neutralizadas. Quando a greve rompe o equilíbrio entre sutilezas de chefia e compensações de empregados, aqueles episódios – que podem ser esquecidos mas que deixam suas marcas – aparecem de outro modo.

Com a greve, a direção da ameaça se inverte e agora a desconsideração dos poderosos começa a dar prejuízo. Quando o ressentimento vem à tona, vemos um arrebatamento emocional, que também é um modo de inversão de mecanismos de humilhação. No dia em que a avenida é ocupada,

vários colegas começaram a chorar (…). As pessoas não aguentavam mais. (…) A emoção foi sempre algo muito forte entre a gente. (…) Já vi greve de construção civil, já vi peão chorando também com raiva; peão duro, duro, chorando com raiva de patrão. (…) Quando [os trabalhadores] conseguem perceber as desigualdades, os problemas, conseguem entender a sua condição de explorado, então as pessoas se indignam mais ainda mesmo e às vezes alguns quando se indignam batem, quebram, outros choram (Felipe Melo).

E mesmo nessa pesquisa, durante as entrevistas, a emoção aflorou em todos os depoimentos – o que transcrições mal podem captar. Manifesta-se aí uma força e um laço que o vocabulário político tem dificuldade de exprimir. Um dia antes da greve, houve assembleia de preparação, na qual

um colega lá que estava com depressão e tal, estava meio mal, ele diz que naquele momento ele conseguiu meio que se livrar bastante disso. Depois ele teve uma recaída por causa do assédio moral na empresa. Ele fez uma carta que a gente chorou junto lá, umas vinte pessoas, um bando de homem barbudo, mulher, tudo velho, chorando, parece criança, porque demonstrou esse laço mesmo, muito forte, de um cara que nunca tinha participado de nada. (…) [No movimento estudantil] eu passava na sala dele e ele era aquela pessoa totalmente indiferente, que te olhava com cara feia, e depois a pessoa estava na mesma trincheira (Felipe Melo).

* * *

Ao longo das entrevistas, as pessoas se recordam de um evento específico que “foi onde tudo começou”. Naturalmente, a memória nos prega peças, e uma mesma pessoa pode mencionar dois ou três momentos em que “tudo” começou. A demissão de Cris Paiva e a de Leonardo Fernandes aparecem com força. Outras pessoas declaram que não houve um momento, mas um transbordamento, ainda que este exija uma gota d’água. Assim, a compreensão da luta exige a reflexão sobre um estalo pessoal ou de um disparador pontual, que mesmo relativizado, insiste em se colocar na narrativa.

A gente começou a perceber que o diálogo não estava levando a nada. Esse era o discurso do sindicato: “o diálogo com a empresa não funciona mas ainda é aberto”. Me explica isso. Até hoje eu não sei o que isso significa. (…) A gente tem a possibilidade de reunir com eles [os patrões]. Mas não avança. Então não interessa mais o diálogo (Elias Santos).

A gente trabalhava com goteira na nossa cabeça. Revisor ia ler o meu caderno e não tinha cadeira pra ele sentar. (…) Umas situações muito estranhas, muito esdrúxulas (…). São situações que a gente vai vendo se repetirem tanto que uma hora você acorda e fala: “gente, isso não é normal, isso não pode ser normal” (Amanda Aguiar).

É uma empresa que rouba sonhos (Elias Santos).

Quando a gente soube da demissão da Cris, todo mundo ficou indignado. Aí nós nos reunimos na Praça Batista Campos, que é perto da Record. (…) Ali a gente decidiu que a gente ia fazer greve (Yorrana Oliveira).

Fechamos a Almirante Barroso, que é a principal avenida da cidade, que fica na frente da empresa. Vários colegas começaram a chorar. Gente que nunca tinha participado. (…) Foi quando a gente visualizou que não tinha mais jeito mesmo, que a partir dali a gente ia ter que ir até as últimas consequências (Felipe Melo).

Daniele Brabo relata sua passagem do alinhamento com a empresa ao impasse e deste para uma solução de outro tipo.

Nesse período [dos abaixo-assinados], eu não me preocupava muito com essa parte sindical, apesar de ter dificuldades dentro do trabalho. Mas ainda não era uma preocupação minha. Eu me considerava muito início de carreira, aquele gás todo. Não tava nem aí se eu fazia hora extra. Ainda tinha uma mentalidade de que tenho que me esforçar (Daniele Brabo).

Ela conta que, em fevereiro de 2013, ocorre mudança de gerência, o que lhe dá esperança de aumento e de progressão de carreira, como repórter especial. Ela está otimista, pois seu trabalho vem tendo bom retorno de acesso dos leitores (pageviews) e recebendo elogios dos diretores, apesar da fragilidade dos recursos de trabalho, que ela compensa se desdobrando. Mas a promoção “não vinha. E eu comecei a ficar angustiada” (Daniele Brabo). Em junho, ela é convidada para participar da campanha salarial por um colega do DOL que

tem uma história de movimento estudantil. Então, ele já era ligado às lutas. Eu não. Eu não tinha conexão nenhuma. Na faculdade, eu não me envolvia com DCE, Enecos [Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação], nem nada. Eu era na minha. Não tinha esse interesse. E aí, a partir da minha insatisfação pessoal, que eu comecei a dividir isso com os colegas, ele chegou e conversou comigo. (…) Ele tentava me convencer de que eu tinha que sair da inércia. Que eu tinha que fazer alguma coisa. E eu falei muito pra ele do medo, né? Que eu tinha medo. Que, por mais que eu ganhasse pouco, ali era uma segurança. E aquele discurso do medo que a gente sempre tem. Mas, ao mesmo tempo, eu sempre fui aquela pessoa, dentro do Diário Online, que reclamava de tudo, porque a gente tinha muito problema de infraestrutura. (…) Nós passamos acho que um mês e meio sem ar condicionado na redação [que não tem janelas], pingando de suor. (…) Era sempre assim. A gente se lamentando sobre tudo, sobre a copa, que era imunda. Inclusive, não era mais uma coisa discreta. A gente já falava pra todo mundo, pro pessoal da limpeza, já declarava que não tava mais aguentando. (…) De fevereiro a junho, foi uma fase que eu já tava bufando de raiva. (…) Quando eu caí em mim que eu não ia ter possibilidade de progressão dentro daquela empresa, que nem sequer plano de carreira, que nem piso salarial a empresa tinha, aí eu falei “não, a gente tem que fazer alguma coisa” (Daniele Brabo).

O disparador também pode ser visto como uma espécie de ponto sem volta. Às vésperas da greve, diante da sugestão de adiá-la, a resposta decisiva é que, se for para fazer depois, “nem vai ter greve, porque todo mundo já vai ter sido demitido, só pelo fato de estar aqui” [na assembleia do sindicato] (Yorrana Oliveira). Quando Cris Paiva é demitida, as pessoas pensam “bora pra cima, porque não adianta, vai ser todo mundo demitido mesmo, pra pelo menos garantir que tenha alguma vitória” (Felipe Melo). Aqui se manifesta a sensação vital de que a hora chegou. Quando a gota d’água se precipita, a atmosfera cordial se desmancha e os mecanismos de naturalização dos abusos são neutralizados. A história se acelera – é agora ou nunca.

* * *

bracosarjornFinalmente, com os depoimentos, é possível observar uma conversão das ferramentas de exploração em estimuladores da luta. Assim, os jornalistas são jovens e não sustentam família, tendo assim muita disposição para se ajustar ao trabalho, mas também são ousados e têm menos a perder na hora da luta. Outros possuem família e hesitam em aderir mas, quando finalmente entram nas fileiras, encorajam os demais. A tomada de consciência é adiada pelo clima de amigos, que vai, depois, propiciar a formação do núcleo dirigente e o trabalho de convencimento dos demais.

A mesma dinâmica se dá com a rotatividade de funcionários, incorporada pela inclinação individual a nunca ficar muito tempo no mesmo lugar. É a chamada geração Y, celebrada como inovadora – e voluntária do próprio esgotamento. Trata-se de uma faixa constante de pessoas que não aguentam o excesso de trabalho e decidem abandonar certa empresa ou mesmo a profissão. Em tempo de greve, a flexibilização do vínculo de trabalho se torna disposição para encarar a perda do emprego, de modo que as pessoas que sairiam aos poucos e caladas decidem agora cair lutando – a vingança da geração Y.

Eu já estava querendo sair aqui de Belém. E eu tinha colocado já isso na minha cabeça, assim, que eu tinha aguentado seis anos, então eu tinha que sair daqui tendo feito uma greve, senão não ia ter valido a pena aguentar tudo, entendeu? (Amanda Aguiar)

O próprio espaço de trabalho cede a essa dinâmica. A copa (onde se toma o cafezinho) é aquele espaço mínimo e sujo, projetado como parte do sufoco cotidiano, mas também funcionando como zona de desabafo e articulação – que pode virar tomada de decisão. Até a intranet, usada pela chefia para falar com repórteres, vira meio para estes planejarem ações. Mesmo o senso de responsabilidade profissional que vimos alimentando a empresa pode se converter no dever de defender o jornalismo contra os donos da empresa, agora vistos como apropriadores ilegítimos. Os receios antes paralisantes podem se tornar inclinação à solidariedade – após o primeiro ato, quando poucas pessoas dão a cara a tapa, a conversa na redação é que “a gente não pode deixar esse pessoal sozinho” (Felipe Melo).

Em suma, quando vigora a exploração, combinam-se percepções conservadoras: quem já decidiu sair não liga mais; os recém-chegados se ajustam isoladamente; e os que virão são vistos como continuadores do presente. Com a greve, tudo muda de tom: os que já estão de partida mergulham de cabeça na luta; os principiantes e os mais velhos combinam ímpeto e cautela; e os que virão se tornam herdeiros da mudança. O “tô nem aí” vira “pro que der e vier”.

A gente aguentou tanta coisa. A gente tem que fazer as próximas pessoas terem outra realidade quando elas vierem trabalhar aqui (Amanda Aguiar).

O medo maior era continuar recebendo mil reais pra sempre. (…) Vai ser pros que virão (Felipe Melo).

As lágrimas, as canções e as cirandas dançadas durante a greve exprimem um vínculo talvez incompreensível para patrões, ainda que os especialistas em recursos humanos saibam do que se trata. É aqui que se entende a importância da decisão administrativa de proibir operários de conversar e ir ao banheiro das fábricas. Todo o controle é pouco para evitar que os laços mudem de sinal e ganhem um surpreendente tom avermelhado, o do companheirismo.

É importante perceber, assim, que a sensação de que a luta é inviável depende da desconsideração de uma capacidade já instalada para a luta. Porém, graças à realização da greve, percebe-se que algumas ferramentas de luta já estavam lá, embora latentes. Vencido o medo, muitos fatores inibidores passam a trabalhar a favor de quem resiste.

III.

demitidoComo normalmente acontece, o olhar retrospectivo tende a isolar o evento que ganhou maior projeção, concentrando a atenção sobre os sete dias de pressão aberta e conflitiva com uma das famílias mais poderosas do estado do Pará. A caracterização do processo, contudo, é delicada: extrapolando as duas redações e o sindicato, ele pode ser entendido como um período de anos de mobilizações de jornalistas da região metropolitana de Belém articulados a sindicato estadual contra o poder midiático estadual afiliado a conglomerados nacionais. Essa dinâmica converge para duas redações, que funcionam como zona concentrada onde medem suas forças os oponentes em âmbito metropolitano e estadual.

Além disso, das mobilizações localizadas de jornalistas aos protestos nacionais e locais de junho de 2013, passando por greves de motoristas de ônibus e de funcionários de supermercados, e de volta aos jornalistas que fazem a greve na RBA, existe um percurso de adensamento de reivindicação sindical e social, que ganha traços políticos, fazendo reemergir a referência à luta de classes. Os jornalistas se veem afetados por lutas estaduais e nacionais, que interferem sobre a percepção do caráter de sua própria ação.
O próprio significado desta greve específica não é estático e será alterado por novas interpretações e sobretudo pelas próximas etapas de ascenso e refluxo dos enfrentamentos em inúmeras instâncias.

Quando a história local fica em segundo plano e a greve aparece em relato isolado, esta pode aparecer como uma façanha, um prodígio, e seus agentes subitamente se deparam com uma arrebatadora força interna, que os leva além de si mesmos e que aparece a seus próprios olhos como quase inexplicável. Em outras palavras, como narrativa isolada a greve tende à mistificação. Compreendida como agregação própria de dinâmicas externas, a greve ganha substância histórica e humana: ela precipita uma longa decantação de incontáveis riscos assumidos, punições recalcadas, vitórias minúsculas, decisões esquecidas, numa trama que converte o fator subjetivo em dinâmicas objetivas. Estas podem então se encadear e promover um fator subjetivo mais elevado, a ação direta contra autoridades antes invencíveis, mas apenas se aquelas dinâmicas forem acionadas pela ousadia de quem decide levá-las a novo estágio, com todas as incertezas e ameaças envolvidas.

Entrevistados

Amanda Aguiar – entra no Diário do Pará em 2008, onde se torna editora de cultura. Demitida em novembro de 2013.
Daniele Brabo – entra no Diário Online (DOL) em 2010, onde se torna coordenadora de conteúdo. Demitida em 3 de janeiro de 2014.
Elias Santos – entra no Diário do Pará em 2011. Demitido em 5 de fevereiro de 2014.
Felipe Melo – entra no DOL em 2009. Demitido em novembro de 2013.
Yorrana Oliveira – entra no Diário do Pará em 2011. Demitida em 8 de janeiro de 2014.
Sheila Faro – presidente do Sinjor no triênio 2012-2014.

Registros da greve

GREVE de jornalistas no Pará envolve diário de Jader Barbalho. blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/09/27/greve-de-jornalistas-no-para-envolve-empresa-de-jader-barbalho, 27 de setembro de 2013.
GREVE do Diário do Pará e DOL. Página do facebook. https://www.facebook.com/grevediarioedol?ref=ts&fref=ts. Acessada em 20.05.2014.
SALÁRIO de R$ 800 fez repórteres cruzarem os braços por uma semana, jornalistascontraarepressao.wordpress.com/2013/10/30/jornalistas-falam-em-retaliacao-apos-geve-em-jornal-do-para, 30 de outubro de 2013.
SINJOR discute data-base com jornalistas em assembleia geral. www.sinjorpa.org.br/125-sinjor-discute-data-base-com-jornalistas-em-assembleia-geral, 03 de agosto de 2013.

Nota sobre o autor

Pedro Benevides é Professor de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
[email protected]

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