O sentimento de revolta está bastante presente nos discursos dos estudantes. É chegada a vez e a hora do culto às ocupações. Por Um Apoiador


Centenas de escolas do estado do Paraná estão ocupadas por estudantes. A luta deles é, principalmente, uma luta contra a Medida Provisória do Ensino Médio. Quem tenta acompanhar os fatos do movimento e as ações dos executivos estadual e federal logo percebe a extrema dificuldade de tal empreitada. Ficando apenas com o lado do movimento, são centenas de grupos de WhatsApp por onde circulam notícias e informações de todos os tipos: atualização do número de escolas ocupadas, divulgação de manifestações, organização de aulas e oficinas nas ocupações, e a busca por outras solidariedades, basicamente, na forma de alimentos, gás, material de limpeza e higiene pessoal. Sem contar as numerosas páginas no Facebook que praticamente servem para a mesma coisa, só que com divulgação de muito mais imagens. Hoje parece ser impossível acompanhar de perto um movimento dessa proporção.

14470382_1686639711655106_4154815214430548968_nAcompanhar três ocupações, visitando-as, assistindo filmes com estudantes, professores e demais pessoas da sociedade, acompanhar reuniões abertas, comer com eles e ajudar na divulgação dessas lutas e das necessidades que eles estão enfrentando e tentando resolver me permitiu perceber algumas características da forma e do conteúdo das lutas desses estudantes dessas escolas, como também do processo de construção das mesmas.

O sentimento de revolta está bastante presente nos discursos dos estudantes. É chegada a vez e a hora do culto às ocupações. Nos casos que acompanhei é bem notório que a revolta está dirigida tão somente ao executivo federal e o discurso estudantil lamenta o fato dessas escolas – quando dizem escolas estão se referindo apenas aos professores e estudantes – não terem sido consultadas sobre a reforma do ensino médio, que todos dizem ser necessária, mas não é bem esta do texto da MP que eles, tanto estudantes quanto professores, esperam. Apesar de haver quase uma unanimidade entre os estudantes dessas ocupações de que há pontos positivos na reforma da MP.

Acompanhando essas ocupações ao longo da última semana pude perceber que este sentimento de revolta para com o executivo federal também se faz presente nos discursos de vários professores que manifestam apoio a essas ocupações, e pelo mesmo motivo. E também que essas ocupações resultam tão somente do acúmulo de forças de pequenos grupos de estudantes, que antes do início das ocupações construíram entre eles mesmos algumas poucas atividades internas à essas escolas, num formato que permitia que a ocupação resultasse muito mais do desejo de um pequeno grupo do que da mobilização real de um grande grupo de estudantes. Neste formato, os outros estudantes foram apenas consultados, se manifestaram favoráveis às ocupações, e elas aconteceram sem grandes conflitos com as direções dessas escolas e com os professores.

Depois das escolas ocupadas é que veio a parte mais dura dessa realidade. O número de estudantes nas ocupações até que cresceu, comparando o número com as quais elas foram iniciadas e o número de participantes ao final de pouco mais de uma semana de ocupações. Mas às vezes, segundo eles próprios, faltam estudantes nas panfletagens, nas manifestações de rua e até mesmo para permaneceram dentro das ocupações e por lá dormirem. Sem contar o cansaço que vai abatendo a todos eles, o que começa a prejudicar atividades internas e externas dessas ocupações. Soma-se a isso as ofensivas da justiça para que atividades culturais que venham a envolver apresentações artísticas e participação de outras pessoas da sociedade não aconteçam.

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Muito diferentemente do que aconteceu, por exemplo, no Chile em 2006, onde as ocupações foram usadas, a princípio, como uma tática da luta frente à brutal repressão policial sofrida pelos estudantes nas manifestações de rua – lembro-me aqui do documentário A Rebelião Pinguina, nos casos acompanhados as ocupações se realizam, até o momento, como o símbolo da revolta – é bem provável que ela já existisse assim no imaginário desses estudantes antes mesmo dessas ocupações – e não como uma tática da luta social, e são construídas por estudantes que estão descolados do restante dos estudantes dessas escolas. Neste momento esse descolamento aumenta e agora, sem mais aquele cotidiano proporcionado pelo ambiente escolar em funcionamento normal, com as escolas nas mãos de poucos e o grande número restante disperso pela sociedade, parece ser bem pouco provável que a situação seja revertida tanto a curto quanto a longo prazo. Ela não pode ser resolvida no curto prazo porque dá muito trabalho e gasta-se muito tempo para encontrar esses outros estudantes e para fazer trabalho de base com eles. E dificilmente será resolvida no longo prazo, porque muito provavelmente faltará pernas e braços aos movimentos para tanto.

No entanto hoje, dia 17 de outubro, segunda-feira, inicia-se a greve dos professores e demais funcionários públicos das escolas da rede estadual do Paraná e uma grande novidade em termos de solidariedade para com esses jovens pode estar sendo gestada no subterrâneo desta nova luta. Tal greve pode vir a apontar, também, a ocupação de novas escolas ou o reforço das ocupações existentes como uma tática da luta dessas categorias contra os interesses dos executivos estadual e federal. Penso ser mais provável, não só nesta região como em todo o estado do Paraná, crescer a solidariedade dessas categorias para com os estudantes do que as mesmas integrarem de fato as ocupações existentes ou mesmo criarem novas ocupações.

Talvez estejamos, pelo menos na região dessas três ocupações, onde uma escola não está distante da outra nem dez quilômetros, acompanhando os lutadores sociais que perdem o conflito para eles mesmos mais do que para seus inimigos históricos, porque na verdade já começaram perdendo, quando pensavam que desde o início só estavam ganhando e que a queda da MP do Ensino Médio era só uma questão de tempo. Mas não. A semana passou. O cansaço chegou. Mais estudantes não chegam às ocupações. O cotidiano vai se mostrando caótico. As pressões contrárias aparecem de todos os lados. A justiça incomoda, ameaça, assusta. A realidade como ela é se apresenta ao revoltado que praticamente não sabe fazer outra coisa a não ser se fechar cada vez mais no seu próprio grupo de amigos, todos eles revoltados no mesmo grau, e construir a única coisa que pensam ser símbolo de resistência e garantia de vitória: ocupações. Não importando o número de envolvidos, não importando o que pensam as outras categorias que existem nas escolas, não importando a construção de lutas em conjunto com os professores e demais funcionários, não importando nem mesmo o que se passa com as outras ocupações.

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Será que esta realidade é propriedade exclusiva dessas três escolas ou há de fato hoje na população deste estado, talvez até do Brasil, uma camada social de jovens que pensam e praticam as mesmas coisas? O que nós lutadores sociais podemos aprender com tudo isso? O que que o chamado campo autonomista pode aprender com essa nova onde de ocupações de escolas? E o capitalismo no Brasil, que assim como em toda parte fica mais forte toda vez que uma luta não o derruba, o que ele irá assimilar dessa onda de ocupações? O quê, desse processo todo, pode deixar o capitalismo no Brasil ainda mais bem preparado para nos enfrentar amanhã?

As imagens que ilustram o texto foram retiradas da página EE – De Estudante Para Estudante.

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