Por Leo Vinicius

O coletivo do Passa Palavra, entendendo ser necessário promover um debate o mais amplo e plural possível sobre o restabelecimento dos direitos políticos de Lula e a possibilidade de que volte a disputar a Presidência da República, decidiu pedir a alguns de seus colaboradores frequentes que escrevessem textos sobre o assunto. Esperamos que esses textos e o debate por eles suscitado possam estimular a reflexão em torno dos desafios com que depara a esquerda no momento.

Neste mês de março de 2021, decisões do Supremo Tribunal Federal que suprimiram as condenações de Lula e uma mudança nítida de grandes veículos da mídia burguesa em relação a Lula, a exemplo da Globo e seu Jornal Nacional, indicaram movimentações talvez inesperadas nas peças do tabuleiro do xadrez da política institucional.

O jogo é dinâmico e nas semanas que se seguiram peças foram mexidas e reposicionadas. Mas afinal, o que essas movimentações representam de fato? Lula estaria voltando?

Em 2015 havia dito que se Lula voltasse a ser presidente ele teria que enfrentar, sem mecanismos de apassivamento, uma fração da classe trabalhadora com proletarização descendente: grosso modo a classe média que estava dando corpo à nova direita social [1]. Em 2018 disse figurativamente que Lula e Marielle só voltariam quando a classe trabalhadora voltasse a morder a burguesia [2]. Se Lula está voltando, ou se for eleito presidente em 2022 e tomar posse em 2023, o que estaria ocorrendo então? Se parece óbvio que mais do que nunca a classe trabalhadora está sem dentes e abaixando o rabinho diante da burguesia?

* * *

Quando Sérgio Moro disse no Telegram aos procuradores da Lava Jato para não irem em cima de Fernando Henrique Cardoso (FHC) de modo a não melindrá-lo, era provável que estivesse pensando que não seria uma boa tática abrir ao mesmo tempo muitas frentes de luta e criar muitos inimigos, ainda mais que o foco ideológico da Lava Jato era o Partido dos Trabalhadores (PT). Inflados pela mídia burguesa que os instrumentalizava, não foram prudentes e avançaram sobre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e Superior Tribunal de Justiça (STJ) que não estariam devidamente alinhados a eles. Somado a essas imprudências, houve o desgaste causado pelas mensagens de Telegram hackeadas. Tendo cumprido sua missão para a burguesia, que era impedir o PT, tornou-se cada vez mais custoso politicamente sustentar a Lava Jato. Quanto mais diante do desastroso governo protofascista que cada vez mais gente passou a enxergar como derivação da Lava Jato.

Bolsonaro, como todos sabem, nunca foi o candidato dos sonhos da burguesia. Mas foi a mula que deixou ser montada pelo neoliberalismo para ter chance de vitória. Dado o golpe de 2016, e no clima social e político presente ainda em 2018, até um estúpido como Bolsonaro percebia que a burguesia havia dado um golpe de Estado para impor um programa ultraneoliberal. Portanto, só seria aceito e tolerado se se convertesse ao neoliberalismo. Por isso grudou na campanha eleitoral ao Beato Salu do neoliberalismo brasileiro, Paulo Guedes. Na incapacidade de candidatos como Alckmin ou Meirelles despontarem nas pesquisas eleitorais, a burguesia acreditou que o mal menor certamente era Bolsonaro-Guedes.

As expressões de nazismo dos altos escalões do governo Bolsonaro nunca chocaram a burguesia. Assim como nunca chocaram as suas ligações com milicianos, sua apologia de torturadores, sua ode à morte ou sua negação da ciência. O que importa são os negócios. Foi pela retirada do presidente da Petrobras, fiel representante dos neoliberais e do mercado financeiro, que a burguesia fez cara feia para Bolsonaro. Passou a ser o “intervencionista”, o “comunista”, ou o “nacional-desensevolmentista” (as aspas são para marcar expressão ditas pelo que a mídia burguesa considerou como representantes do “mercado”). Ao mesmo tempo, nessa mesma imprensa burguesa, aqui e acolá começaram a aparecer banqueiros e gente do “mercado” (a burguesia) em off dizendo que hoje preferiria Lula a Bolsonaro.

Em parte coincidência, foi poucas semanas depois do anúncio da troca do presidente da Petrobras que as decisões do STF reestabeleceram a elegibilidade de Lula. É certo que uma delas, a do Ministro Fachin, buscava unicamente preservar a Lava Jato da iminente derrota que viria quando do julgamento da suspeição do ex-juiz Sério Moro na Segunda Turma do STF. No entanto, o mais significativo não foram as decisões do STF, embora fossem condições necessárias para uma volta de Lula. O mais significativo foi a mídia burguesa ter desinterditado Lula como ator político, reproduzindo suas falas e não o apresentando mais como corrupto [3]. Falas de Lula que durante os últimos anos só eram reproduzidas pela relativamente nanica imprensa de esquerda.

Ora, ficaram claras as movimentações no tabuleiro. A burguesia, suas frações mais poderosas, se cansaram de Bolsonaro e passaram a ver, naquelas semanas, Lula como o menos ruim. Parecem ter vislumbrado que a aposta de que enquadrariam Bolsonaro fora equivocada. Bolsonaro se tornara insuportável, e a condução da pandemia (de fato, condução da pandemia e não de seu combate) também teve um papel no afastamento da burguesia em relação a Bolsonaro, como deixou clara a carta dos banqueiros e seus capangas economistas, redigida quando a burguesia passou a ficar sem leitos de hospital [4]. Obviamente, a reabilitação de Lula pela burguesia, e o olhar afetuoso com que ela olhou para ele durante pelo menos uma semana, só ocorreu porque Lula se apresentava aos olhos dela como o mais viável ou o único capaz de ganhar de Bolsonaro, que parecia ter se tornado aquele a ser derrotado.

Bolsonaro também movimentou suas peças para não levar o xeque. Copiou o discurso do Lula sobre a pandemia, que a burguesia havia gostado, e tomou algumas medidas, como a troca do Ministro da Saúde e a formação de um comitê de crise como Lula havia falado que faria. No fim das contas, a burguesia abanar o fantasma de Lula na frente de Bolsonaro pode ter servido, consciente ou inconscientemente, como instrumento para mais uma tentativa de enquadrar Bolsonaro. Até porque concomitante a esse reposicionamento de Bolsonaro em relação à pandemia, mesmo que cosmético, ocorreu também um afastamento da mídia burguesa em relação a Lula, se compararmos com a semana anterior.

Se Lula permanecerá meramente como uma sombra instrumentalizada pela mídia burguesa para enquadrar Bolsonaro, ou se de fato será adotado pela burguesia na ausência de um candidato viável do seu coração, é cedo para saber. Nesse mês de março de 2021 houve enormes mudanças de posicionamento nas peças do tabuleiro, tendo em conta o tempo de apenas dias transcorridos. Trata-se de movimentações, de mudanças de posição, que ainda não se estabilizaram. Certamente não está descartado um novo impedimento de Lula caso a burguesia encontre um candidato viável para derrotar Bolsonaro.

Lula está voltando ou será ele apenas uma fera que a burguesia solta para assustar e enquadrar Bolsonaro, pronta para pô-la de volta à jaula ou à mordaça quando quiser? Teria Lula se tornado instrumento de apassivamento não de uma classe trabalhadora, mas de um presidente de extrema-direita?

* * *

Ora, o leitor deve ter percebido que para falar dessa virtual volta de Lula falamos apenas da burguesia, e em nenhum momento falamos dos proletários.

Quando Lula finalmente foi eleito presidente em 2002 a relativa unidade e força da classe trabalhadora no Brasil já estava em descenso, nítido a partir da década de 1990. Durante o pouco mais de uma década de governo do PT, a capacidade da classe trabalhadora que sustentou a ascensão das lutas sociais dos anos 1970 aos anos 1980 se esvaiu, sem que a maior parte da esquerda se desse conta. Encantada com os governos petistas, não percebia que a base no qual ele se sustentava era erodida. Em 2016 o castelo de cartas de um governo “social-democrata” latinoamericano sem uma classe trabalhadora com existência sociológica, desmoronou. E estamos longe ainda de vislumbrar uma recomposição da classe trabalhadora e um ascenso das lutas. Além disso, como bem costuma dizer Marcio Pochmann, a classe trabalhadora que existia na fundação do PT não existe mais. Sua composição é muito diferente. E embora Lula enquanto governante tenha conseguido migrar eleitoralmente para um proletariado diferente do da sua origem sindical através de programas como Bolsa Família, não houve uma equivalente migração de organização dos trabalhadores e das lutas para outros setores da classe trabalhadora. Se Lula está voltando não foi como resultado de um ascenso dos conflitos postos pela classe trabalhadora. Trata-se de mera escolha da burguesia pelos votos que Lula ainda carrega, para tirar ou assustar Bolsonaro. Essa volta de Lula, como diriam os marxistas parafraseando Marx, seria a repetição da história como farsa.

Lula como presidente em 2023 terá que enfrentar todas as dificuldades que enfrentou vinte anos antes, e muitas mais. De partida estará enquadrado pela Emenda Constitucional 95 (o “Teto dos Gastos”), pela autonomia concedida legalmente ao Banco Central, com o principal instrumento de fomento da atividade econômica interna retalhado e desfigurado (Petrobras) e possivelmente com privatizações da Eletrobras também. Somada a isso, a imensa dívida pública que o coronavírus e Paulo Guedes estão construindo. E claro, dessa vez com uma oposição social de direita ativa e organizada contando com frações da própria classe trabalhadora, e com a mesma falta de base social que permitiu a derrubada do PT em 2016.

Caso ambas as candidaturas se confirmem, sabemos que você, que está lendo este artigo, irá votar em Lula no segundo turno contra Bolsonaro. Porque você sabe que nas atuais circunstâncias Lula significará uma redução da temperatura do inferno. A questão nem é o quanto a temperatura poderá ser reduzida, mas por quanto tempo aguentaremos arder ainda nesse fogo.

* * *

Em 2018, quando questionava quando Lula e Marielle voltariam, afirmei que os militantes de esquerda, diante do claro futuro neocolonial escolhido pela burguesia, deveriam estar “atentos a formas de organização, lutas e imaginários fora das cartilhas, dos livros e do próprio imaginário da esquerda militante. A revolução não vai ser encontrada no museu de cera da classe operária” [5].

A classe trabalhadora da época da fundação do PT não existe mais, como lembramos. De lá para cá o percentual de produção industrial no PIB brasileiro está abaixo de 1/10, próximo à proporção de 1910, enquanto nos anos 1980 chegou a responder por 1/3 do PIB. Mesmo com o esforço do governo Lula, o caminho estrutural da desindustrialização não pode ser mudado [6]. A Ford é coisa do passado, a classe média assalariada está em extinção e as três maiores ocupações do Brasil, em 2019, são o trabalho doméstico, atividades ligadas à segurança privada e entregador [7]. A semelhança dessa tendência ocupacional com o retrato exposto no premiadíssimo filme sul coreano Parasita, nos faz lembrar que o Brasil está inserido numa tendência global. Nas palavras de Marcio Pochmann observando o quadro brasileiro, trata-se de “uma massa crescente de pessoas que dependem das migalhas das famílias muito ricas”; uma massa sobrante como na Velha República, submetida ao banditismo (jagunços) e gerida também pelo fanatismo religioso. Exemplar desse amálgama de passado reformulado de banditismo e fanatismo religioso, “o Rio de Janeiro é praticamente uma nova Canudos[8].

Somos parte de uma tendência global, que certamente encontra no Brasil destacada velocidade e profundidade. Aaron Benanav ressalta que globalmente “os movimentos da classe trabalhadora emergiram durante um longo período de industrialização, e agora vivemos no marasmo pós-industrial”; e as lutas que viveremos serão relacionadas “às consequências do fim da industrialização” [9]. Era a isso que me referia ao dizer que a revolução não será encontrada no museu de cera da classe operária. Na segunda década do século XX, enquanto a classe operária se formava no Brasil num processo de industrialização ainda incipiente, verdadeiras guerras se davam entre trabalhadores camponeses e interesses capitalistas no interior de Santa Catarina. Os operários dos centros urbanos influenciados pelas ideias iluministas socialistas e anarquistas pareciam habitar outro mundo, muito diferente daquele habitado pelos camponeses que produziam a Guerra do Contestado. Catolicismo rústico, Carlos Magno e os Pares de França e um messias que era interpretado por diferentes atores ao longo do tempo, em vez de Malatesta, Comuna de Paris e mártires de Chicago.

É certo que a esquerda tem alguma presença na Nova Canudos, agora urbana, animando movimentos de sem-teto e movimentos comunitários. Mas de um modo geral as referências e significações que compõem o imaginário dos socialistas parecem cada vez mais distantes do imaginário e vida cotidiana da massa que produzirá as guerras que virão. Poderão essas guerras constituir um projeto de emancipação como o movimento operário constituiu um dia? Ou o nosso futuro estará sempre preso ao retorno do passado?

Notas

[1] Que horas Lula volta?.
[2] Que horas Lula e Marielle voltam?.
[3] Eliara Santana: Após muitos anos, Lula recupera o direito à voz e retoma a cena no Jornal Nacional.
[4] Na íntegra: o que diz a dura carta de banqueiros e economistas com críticas a Bolsonaro e propostas para pandemia.
[5] Que horas Lula e Marielle voltam?.
[6] POCHMANN, M. Brasil sem industrialização: a herança renunciada. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2016.
[7] Márcio Pochmann: Estado de Sítio.
[8] Idem.
[9] Ver o artigo de Aaron Benanav, Automation and the Future of Work, part 2, p. 144.

Este artigo está ilustrado com fotografias de Dean West (1983 –      ).

14 COMENTÁRIOS

  1. De volta ao mesmo lugar nenhum

    -> Bolsonaro, como todos sabem, nunca foi o candidato dos sonhos da burguesia. Mas foi a mula que deixou ser montada pelo neoliberalismo para ter chance de vitória.
    Exato como Collor em 1989.
    Bolsonaro tem a ilusão de ser dono da cadeira presidencial, com esta sendo capaz de lhe conferir poderes mágicos.
    A cada arroubo de onipotência mais se revela um mero joguete, exato como antes foram Collor e Sérgio Moro.
    Como todo aprendiz de tirano, medíocre e incompetente, Bolsonaro vê seu fracasso oriundo não de sua carência de qualidades, mas por lhe faltar o pleno poder para conseguir governar.
    Por fim, e bem mais importante, se esquece de alguns destinos trágicos anteriores, e até hoje não explicados: Castelo Branco, Costa e Silva, JK, Jango, Carlos Lacerda, Gal. Urano, Gal. Jaborandy, Eduardo Campos, Teori Zavascki…
    -> Teria Lula se tornado instrumento de apassivamento não de uma classe trabalhadora, mas de um presidente de extrema-direita?
    Mais uma vez 1989 se repete, como farsa trágica.
    Assim como Bolsonaro, Lulinha Paz e Amor é nada mais do que irrelevante marionete em busca de quem lhe puxe os cordéis.
    Para compreender a caótica e catastrófica conjuntura brasileira, é indispensável analisar quais são, e como se chocam, as frações de classe em luta neste momento.
    Está em curso uma disputa interna entre frações do setor dominante, cujo pomo infectado da discórdia é o lockdown.
    Quais os setores mais afetados pelo fechamento da economia?
    a) banqueiros e rentistas;
    b) exportadores de commodities;
    c) parque industrial remanescente;
    d) comércio, principalmente o pequeno e médio;
    e) arrecadação de impostos, que remunera os juros pagos pelos títulos públicos.
    Enquanto povo vai sendo tangido ao matadouro da COVID, nem que seja debaixo da convocação do Estado de Mobilização Nacional.
    -> Foi pela retirada do presidente da Petrobras, fiel representante dos neoliberais e do mercado financeiro, que a burguesia fez cara feia para Bolsonaro. Passou a ser o “intervencionista”, o “comunista”, ou o “nacional-desenvolvimentista”
    farsas se repetindo: Geisel é só um retrato no panteão dos Presidentes, mas como ainda incomoda.
    O setor dominante brasileiro jamais se aliou ao sonho prussiano de Geisel: um Brasil Grande erguido pela mão de ferro do regime militar.
    Ao contrário, se opôs de todas as formas. Inclusive pela via política, ao subitamente se tornar defensor da “democratização” e contra a tortura, que antes patrocinara.
    Geisel cometeu dois erros clássicos:
    – supor que a burguesia brasileira possa ser nacional;
    – implementar um projeto de desenvolvimento sem estar ancorado numa ampla participação popular.
    -> a condução da pandemia (de fato, condução da pandemia e não de seu combate) também teve um papel no afastamento da burguesia em relação a Bolsonaro, como deixou clara a carta dos banqueiros e seus capangas economistas, redigida quando a burguesia passou a ficar sem leitos de hospital
    se em 2002 Lula divulga sua carta aos banqueiros brasileiros, como atestado de fidelidade ao mercado financeiro, agora são os banqueiros a publicarem carta para declarar voto útil em Lula.
    sim, o política eleitoral-institucional gira. ainda assim está sempre de volta ao mesmo lugar nenhum, embaralhando farsa e tragédia.
    -> redigida quando a burguesia passou a ficar sem leitos de hospital
    Qual o sócio majoritário no setor dominante? O Imperialismo. O mega capital transnacional.
    Para este, o Brasil cada vez mais se assemelha a uma colônia de leprosos, colocando em risco a saúde do bom ambiente de negócios global.
    Geradas pela circulação descontrolada do Sars-CoV-2 no país, as novas e mais virulentas cepas são uma ameaça sanitária para o mundo.
    De um modo ou de outro, é uma situação intolerável. Vidas e economia serão destruídas, tanto aqui quanto fora.
    Com sua soberba ilimitada, os Generais no comando da quartelada em curso se imaginam os donos do poder.
    Pensam bastar muita ordem unida para gerenciar a crise do Capitalismo e o avanço da COVID, na suposição que assim estas lhe baterão continência.
    Em algum momento serão “neutralizados” pelo sócio majoritário, o Imperialismo, por nenhuma outra razão que não seja a segurança sanitária.
    Até lá, a pilha de destroços e de cadáveres vai se avolumar em direção ao céu.
    -> Porque você sabe que nas atuais circunstâncias Lula significará uma redução da temperatura do inferno. A questão nem é o quanto a temperatura poderá ser reduzida, mas por quanto tempo aguentaremos arder ainda nesse fogo.
    Como o foi 2018, 2022 está condenado a ser um ano longe demais. Nenhuma pax nos salvará.
    O termostato do inferno já não admite regulagem, com o fogo avançando simultaneamente por quatro frentes:
    – a decadência dos EUA como hegemon;
    – a crise sistêmica do Capitalismo;
    – o armagedon climático;
    – a pandemia do Sars-CoV-2.
    -> “atentos a formas de organização, lutas e imaginários fora das cartilhas, dos livros e do próprio imaginário da esquerda militante. A revolução não vai ser encontrada no museu de cera da classe operária”
    Tampouco o cadáver embalsamado de Lenin se erguerá para liderar o precariado.
    Como se não bastasse a Esquerda estar sempre de volta ao mesmo lugar nenhum, na repetição das farsas eleitorais, continua colonizada pelos modelos eurocêntricos.
    Enquanto o próprio Marx já deixara esclarecera que sua análise se baseou em circunstâncias sociais e históricas bem específicas, não sendo uma regra geral o socialismo surgir de sociedades industriais avançadas:
    《[…]o meu crítico quer absolutamente transformar o meu esboço histórico da génese do capitalismo na Europa ocidental numa teoria histórico-filosófica da marcha geral – fatalmente imposta a todos os povos, quaisquer que sejam as circunstâncias históricas em que se encontrem – para chegar em último lugar a essa formação económica que garante, com a maior impulsão dos poderes produtivos do trabalho social, o desenvolvimento mais integral do homem.》
    Marx on the Russian Mir, and misconceptions by Marxists
    https://libcom.org/library/marx-russian-mir-misconceptions-marxists
    -> “e as lutas que viveremos serão relacionadas “às consequências do fim da industrialização”
    A história das sociedades até hoje é a história da luta de classes. Sem dúvida.
    Mas a própria História, tal qual a conhecemos, tem sido a uma guerra de mundos. Um mundo se impondo e destruindo todos os demais.
    Por isto marxistas ortodoxos são incapazes de analisar e agir sob uma perspectiva não-eurocêntrica, colocada em consonância com terras e povos colonizados.
    Vivemos os horrores de uma guerra de extermínio, como anteriormente aconteceu com nossos ancestrais indígenas originários e pretos sequestrados da África.
    Estamos numa trágica situação na qual todas as farsas se desmascararam. O Capitalismo ostenta sem disfarce e com toda violência sua macabra e principal palavra de ordem: Viva a morte!
    Nossa sobrevivência depende de lançarmos as fundações de um outro modo de vida, tecendo em conjunto uma grande aliança.
    Para assim semear e fazer florescer territórios autônomos, onde se unem e se fortalecem os caminhos da Revolução dos Povos no Brasil.
    Morra a morte! Viva a Vida!
    1,2,3…1000 Canudos! Aos quilombos!
    Avancem! Avançaremos!
    .

  2. As movimentações no tabuleiro nas últimas semanas:

    1) Mourão se colocando (ele e o exército) para a burguesia como serviçal.. prometendo até uma nova reforma da previdência. Os militares não vão querer perder facilmente a boquinha que conseguiram;

    2) A burguesia ensaia passos para tirar Bolsonaro antes das eleições, possivelmente através da CPI da Pandemia. Livrando-se de Bolsonaro abririam espaço na direita para um candidato do seu coração. Ao mesmo tempo poderiam assim impedir novamente Lula e criminalizar o PT como antes. Tirar Bolsonaro seria ter a liberdade de se livrar do PT também. A cúpula petista sabe disso, sabe que a liberdade de Lula e as chances eleitorais do partido estão muito atreladas à catástrofe Bolsonaro.

    A isso se reduziu o PT, o maior partido do país. Um partido sem base social, que mantém sobrevida eleitoral na medida que a extrema-direita destroi o país.

  3. A Esquerda eleitoral-institucional e o genocídio

    Sendo a proposta do setor dominante no Brasil para a pandemia a materialização do genocídio em curso, qual a contra-proposta da Esquerda eleitoral-institucional?
    Enquanto as mortes batem seguidos recordes, seu imutável horizonte permanece fixo nas Eleições de 2022.
    Assim como 2018, 2022 está condenado a ser um ano longe demais.

    Centenas se aglomeram no Centro do Rio de Janeiro em busca de uma quentinha.
    Nas periferias《o número de pessoas disputando o lixo está cada vez maior, chega a ter rodízio de catadores que disputam os materiais recicláveis dia e noite. São homens, mulheres e crianças!》

    Frente a esse imediato desespero, qual a relevância de uma campanha eleitoral para 2022?
    A base do diálogo com uma população das favelas e periferias, acossada pela COVID e o ultraliberalismo, não poder outra senão a sobrevivência imediata.

    Onde estão os sopões de rua? O mutirão para entrega de cestas básicas? As caravanas nas áreas abandonadas fornecendo ítens básicos de higiene e proteção (como máscaras PFF2)?

    Os tempos mudaram. E mudaram radicalmente. A quase totalidade das pessoas de Esquerda não acompanharam essa mudança.
    Pior, estão afundadas no negacionismo.

    *** *** ***

    A Esquerda revolucionária e o genocídio

    Além de atuar no desespero imediato, fornecendo condições básicas de sobrevivência à população das favelas e periferias, a única contra-proposta ao genocídio em curso só pode ser: abandonem as grandes cidades, marchem para a terra em direção aos quilombos!

    Mas como viabilizar esse êxodo de modo coletivo e organizado?

    Na região sudoeste da Bahia está o caso concreto. Assentamentos da Brigada Ojeffersson do MST estão abertos para acolhimento.
    E nisto importa mais a grandeza da atitude do que a dimensão do resultado.
    Este é o exemplo a ser divulgado e adotado, aqui e agora e não em 2022.

  4. Ora,
    Quando vi “A esquerda revolucionária e o genocídio” não pude supor que me depararia com uma proposta de como os revolucionários podem repetir genocídios do passado.

  5. Em artigos e comentários neste site tenho dito que os defensores da ecologia mais avessos à civilização urbana deveriam estudar a ruralização geral da sociedade operada pelo regime dos Khmers Vermelhos, no Cambodja, na segunda metade da década de 1970. Mas os meus apelos ficam sem efeito, talvez porque essa gente desconfie que um tal estudo lhes revele aquilo que preferem ignorar. Vou reproduzir aqui o que escrevi no artigo Post-scriptum: contra a ecologia. 3) a hostilidade à civilização urbana:

    «[…] no caso do Cambodja os Khmers Vermelhos procederam à súbita destruição das condições sociais e económicas que permitiriam industrializar. De um dia para o outro foi dissolvida a população urbana, incluindo a totalidade do operariado, foram fechadas as universidades e escolas e mortos muitos professores e 80% a 90% dos artistas profissionais, e foram dispersados no campo entre dois e três milhões de citadinos, convertendo-se em trabalhadores agrícolas toda a população, excepto os quadros dirigentes. Note-se que ao mesmo tempo a agricultura familiar ficou destruída, porque a família foi posta em causa enquanto unidade social e tomaram-se medidas para dissolvê-la. A ruralização extensiva baseou-se numa modalidade de esclavagismo de Estado. O país ficou transformado num arrozal quadriculado de diques e valas de água, e o arroz e a água eram oficialmente os dois pés deste projecto de ruralização. Aliás, talvez se tratasse de um tripé, porque previa-se a utilização maciça da urina como fertilizante, e os governantes queixavam-se de só estarem a ser recolhidos 30% da urina, além de se estar a desperdiçar também a urina das vacas e dos búfalos. Eis uma interessante lição para os inimigos dos chamados adubos químicos. Os custos humanos e, se estes não bastarem, os custos económicos são hoje bem conhecidos. Entre 1,5 e 2 milhões de mortos numa população de cerca de 7 milhões, um holocausto devido à deslocação populacional, à repressão política, ao genocídio das minorias étnicas e à inanição e doença provocadas pela crise instaurada na agricultura».

    Se a opção que essa extrema-esquerda apresenta aos brasileiros é entre a incúria sanitária do governo de Bolsonaro e a loucura genocida dos discípulos dos Khmers Vermelhos, entre a bosta e o estrume não vejo o que escolher.

  6. Nada mais distante do Khmer Vermelho e de Pol Pot do que a proposta, que já existe encaminhada na prática há anos, de aquilombamento.
    Se for para dela buscar referências históricas, que seja em Palmares, na Confederação dos Tamoios, na Baialada, Sabinada, Cabanagem, Revolta dos Malês, Canudos, Contestado, Caldeirão do Deserto.
    É legítimo, necessário e saudável discordar de uma posição política, mas para assim ser é preciso abandonar as abordagens pré concebidas e estereotipadas a fim de conhecê-la como de fato é.

  7. Achei muito boa essa proposta da arkx Brasil de levar o vírus para os quilombos. A gente aqui nos centros urbanos tá enfrentando o vírus como homem, não como moleque. Os covardes têm que ir sair e deixar quem quer trabalhar em paz. E se quilombolas e indigenas forem contaminados nesse êxodo reverso não vai ter problema não, o povo tá acostumado a andar no mato… vai andar de máscara? Os caras tomam chás ancestrais e depois somos nós que apoiamos medicamento sem comprovação científica… têm a minha benção, podem ir embora das cidades mas não vem pedir Auxílio ou seguro desemprego não, tá okay? Aqui não é comunismo pra dar boquinha pra parasita da nação!

  8. Arkx Brasil, não muda o fato de se operar uma política genocida horizontalmente, ao contrário da política de Pol Pot que foi levada a cabo através das armas, verticalmente. Os subalternos não estão blindados de fazerem escolhas políticas equivocadas.

  9. Jair Messias Bolsonaro, sem máscaras

    Como sempre fez questão de alardear, Messias BolsoNazi odeia os povos originários e os quilombolas.
    E o ódio que nutre não é nada mais do que o mesmo ódio que o setor dominante no Brasil tem por eles.

    Por que tanto ódio? O problema não está em se declarar indígena ou quilombola, e sim no direito à terra que disto advém!
    Terra é o meio de produção primordial, do qual todos os demais podem decorrer. Terra é poder! Daí o ódio do setor dominante por quem luta pela posse da terra.

    Messias BolsoNazi sintetiza um conjunto de valores e visão do mundo que dominam nossa época: os valores e a visão do mundo da classe dominante.
    Para BolsoNazi, terra, território, indígenas, quilombolas são arcaísmos a serem superados na marcha inexorável do “progresso”, este outro nome do Capitalismo que nos trouxe ao genocídio atual.

    As referências BolsoNazi de indígenas são povos isolados em meio à floresta inviolada. Entretanto, seu próprio Vice-Presidente é um indígena reconhecido por conta de sua ascendência.

    O que nos torna indígenas ou pretos?
    Nós brasileiros somos todos descendentes de índios e pretos seviciados, somos carne da carne deles.

    Nós habitantes dos grandes centros urbanos somos todos filhos de uma urbanização forçada, em nome do desenvolvimentismo à serviço da burguesia brasileira e de seu sócio majoritário, o Imperialismo.
    Milhões de brasileiros descendentes de indígenas e pretos vivem apinhados nas periferias urbanas, como se até hoje amontoados nos porões dos navios negreiros.
    Esta migração compulsória sempre se moveu através da expropriação das pequenas propriedade rurais. E majoritariamente é formada por indígenas e pretos, desterritorializados e despossuídos para serem proletarizados.

    No Brasil o genocídio é constitutivo da formação do Estado. Só que agora ele chutou a porta e invadiu os condomínios fechados e os hospitais de luxo, como sempre fez nas áreas urbanas habitadas pelos descendentes diretos de índigenas e pretos.

    BolsoNazi jamais pisou num quilombo ou num aldeamente, sequer numa comunidade. Já o Sars-Cov-2 não. Sua presença por lá já ocasionou muitas vítimas. E para lá não foi levado por refugiados urbanos. Ao contrário, foi obra de uma bem calculada política de Estado: uma limpeza étnica.

    Comparar as experiências comunitárias na América Latina à imposição de um regime de ruralização baseado no poder central de um partido é para um intelectual, no mínimo, um atestado de ignorância. Talvez má-fé.
    Ainda mais se tratando de um Sudeste Asiático tão influenciado pelo pensamento Confucionista, no qual a coletividade importa muito mais do que o indivíduo e as famílias.
    A experiência Afro-diaspórica e Ameríndia é de encantamento com a natureza e respeito às liberdades das pessoas, famílias, clãs… Nada tem a ver com Khmer Vermelho e outras atrocidades do gênero.

    Intelectuais marxistas, inclusive os radicais, mesmo não tendo consciência, ou então a isto não assumindo, são todos filhos do Iluminismo.
    Foram gerados nesse útero, pela cópula do dissenso irreconciliável entre Natureza e Cultura. A Natureza coma aquela fera selvagem que precisa ser domada e colocada a serviço do “Humanismo”.
    Não se vêem como parte da natureza. Não compreendem a natureza. Não querem compreender. Tem raiva de quem compreende.
    Permanecem prisioneiros dos paradigmas do desenvolvimento, da urbanização, da industrialização, do progresso. Mitos criados pelo Iluminismo e pela classe que com ele se tornou hegemônica: a Burguesia.

    Agora todo este mundo ruiu. Dele restou a síndrome aguda de insuficiência respiratória. Os intelectuais já não podem mais respirar o mesmo ar de antes.
    Nada tem a perder, caso decidam largar para trás o que já não lhes permite se manterem vivos.

  10. Qual a saída para essa classe trabalhadora desapossada de seu sustento familiar que encontrou nas cidades sua fonte de renda? Uma retomada esperançosa em trabalhos arcaicos? por que o problema estaria na fábrica e não no patrão? Arkx Brasil vomita lugares comuns, não à toa esse discurso naturalista não encontra eco nas lutas da classe trabalhadora, mas sim em certas correntes da literatura heideggeriana, em grupelhos de Facebook e, é claro, dentre os anarcoprimitivistas. Pra mim tem mais a ver com frustração nas lutas urbanas (ou diante ao proletariado rural) e encontraram refúgio no sonho de um anacrônico comunismo primitivo. Os problema com os quais devemos nos ocupar estão já bem mastigados como um ponto de partida aqui: https://passapalavra.info/2020/07/133143/. Como prover um modo de produção cuja escala dispensa a formação de classes gestoriais, ou seja, que os recursos técnicos e seus objetivos sejam ditados por toda a sociedade?

    O programa político da Arkx Brasil só interessa ao Bolsonaro e à classe dominante brasileira, na medida em que procura inibir a disputa dos meios urbanos, deixando a classe trabalhadora à própria sorte. Não contem comigo.

  11. O ser humano lutou, ao longo de vários milênios, para sobreviver à natureza e ir gradualmente dominando-a, abrindo caminho para a urbanização, a industrialização e o progresso tão criticados por arkx Brasil e confundido com os interesses da burguesia. E depois de tudo isso, a classe trabalhadora buscou, muitas vezes ao longo da história, partir dessa civilização urbano-industrial para transformá-la em outra, ainda urbano-industrial, mas também coletivista e igualitária, para o que colaboraram muitos filhos do tão maléfico Iluminismo. arkx Brasil quer, no entanto, voltar aos primórdios do neolítico ou quem sabe antes, porque a própria revolução neolítica foi um enorme progresso, implicou vastíssimas transformações operadas pelo ser humano na natureza e abriu caminho para todo o resto. A esquerda já quis ser moderna. Se depender de arkx Brasil e de outros como ele, passará a ser pré-histórica.

  12. Muita gente apareceu para expressar repúdio ao fato de o Passa Palavra ter se aberto para textos pró-capitalistas em defesa de um estatistas de esquerda (sem aspas, pois já não cabem mais ilusões a respeito do caráter ambíguo do que é “ser de esquerda”). Não há engano a respeito disso e, de fato, dois princípios do coletivo editorial se chocaram. Quando isso acontece, tem que saber entender o contexto e tomar a decisão mais acertada, e entre se tornar um identitário (ou essencialista) do anticapitalismo ou abrir um amplo debate, o segundo caminho é o mais acertado.

    Mas esse debate aberto pelo Passa Palavra, que não trouxe novidade nenhuma a respeito de quem é Lula, acabou revelando o caráter identitário do anticapitalismo de esquerda. Causou muita comoção os textos ruins aqui publicados em defesa de Lula, mas pouca gente ficou horrorizada com o anticapitalismo (sem aspas, pois se ainda há ilusões a respeito do caráter ambíguo do “ser anticapitalista” precisamos superá-las) de sujeitos como Arkx Brasil. Prefiro mil vezes ficar lendo esse lenga-lenga a respeito dos poderes sobrenaturais de Lula, que ainda acha que vai colocar o país em outro patamar oferecendo cerveja e picanha para quem se fode cotidianamente com a polícia e com o transporte público, do que as sandices dos teóricos do primitivismo e do decrescimento, mais genocidas do que o próprio Bolsonaro. Oxalá que a classe trabalhadora – negra ou branca, homem ou mulher, homo ou hétero, das zonas ainda rurais ou das periferias urbanas – continue desprezando esse tipo de gente. Mas para isso acontecer, nos nossos meios precisamos não deixar esse tipo de sandice genocida se espalhar.

  13. Acompanho com um misto de indignação e tristeza, mas não exatamente surpresa, as reações e comentários à proposta concreta em relação à catástrofe atual da pandemia no Brasil, aqui por mim apresentada.
    A quase totalidade da Esquerda, tanto a eleitoral-institucional quanto a revolucionária, se acostumou a operar com modelos prontos e fechados, a serem aplicados unilateralmente ao conjunto da sociedade.
    Além de obviamente se colocarem na posição de vanguarda a liderar os povos e trabalhadores, seja em que rumo for.
    Por isto sempre encaminham as questões em termos abstratos e desvinculados da situação concreta.
    Exemplo: num cenário de milhares de mortes diárias, quais as propostas e encaminhamentos existentes?
    Alguém sabe? Alguém viu? Alguma medida concreta para aliviar o sofrimento atroz da população abandonada à própria sorte? Alguma perspectiva de curto prazo articulada a um projeto de amplo alcance?
    Enquanto uns permanecem obcecados com 2022, os outros continuam hipnotizados pela Revolução. Tanto uns quanto os outros sem atuação presente num genocídio acontecendo aqui e agora.
    Estamos propondo e encaminhando em duas frentes:
    • assistência imediata aos vulneráveis.
    • acolhimento dos sem condições de se manterem vivos em sua localização atual.
    É de se indagar:
    • como algo tão óbvio e necessário foi confundido com resgate do genocídio praticado pelo Khmer Vermelho?
    • como a necessária crítica ao desenvolvimentismo, assim como a bandeira da Terra, Território e Comunidades, pode ser tomada como defesa de “primitivismo”, “decrescimento”, “identitarismo”, “volta ao neolítico”, “aversão à civilização urbana”?
    De um modo geral, intelectuais, acadêmicos, e mesmo militantes burocratizados, se afastaram tanto da prática cotidiana e do contato direto com favelas, periferias e trabalhadores precarizados, que jazem perdidos em bolhas hermeticamente blindadas.
    As redes sociais e o ambiente virtual veio somente exacerbar antigos vícios, há muito tempo já inviabilizando o diálogo presencial e a atividade com os pés no chão.
    O que organiza os povos e sela a aliança entre todos aqueles participando da luta é a prática. Só a luta concreta nos mantém unidos e faz avançar o processo emancipatório.
    Nossa prática e nossa luta concreta aqui está colocada. Críticas são absolutamente necessárias e sempre agregadoras.
    Por outro lado, resta também saber qual a prática e a luta concreta de nossos críticos. Especialmente em relação à pandemia.
    Não para deslegitimar suas críticas a nós, mas para adequadamente se caracterizarem. E talvez até aprender com eles.
    Agradeço.
    .

  14. Eu dispenso registro das minhas atividades, ou a bater ponto nas lutas sociais que me envolvi ou não. No que pesa o debate, ele tomou rumos curiosos.

    “A quase totalidade da Esquerda(…) se acostumou a operar com modelos prontos e fechados, a serem aplicados unilateralmente ao conjunto da sociedade. Além de obviamente se colocarem na posição de vanguarda a liderar os povos e trabalhadores, seja em que rumo for.”

    — Mas não há modelos prontos e fechados paralelo ao que você propôs. Há, sim, críticas diretas a essa perspectiva tomada. Você preferiu desviar-se dela. Fala de programas “prontos e fechados” vomitando um programa político nos comentários.

    “sempre encaminham as questões em termos abstratos e desvinculados da situação concreta.”

    — A menos que estejamos todos em um delírio coletivo o Khmer vermelho, aliás, as consequências econômicas de programas políticos desastrosos existem. São um dado da realidade. Antes de digitados ou escritos nos livros de história eles mancharam o solo em que vivemos com sangue.

    “num cenário de milhares de mortes diárias, quais as propostas e encaminhamentos existentes?”

    — Arkx deve notar que seu primeiro comentário veio com dois títulos. É o segundo, — que defende abertamente um êxodo abrupto para o campo — que é aqui questionado nos comentários. Ora, o camarada despeja um programa político no Passa Palavra na seção de comentários, onde é uma seção relativamente livre para debates, e não acha de bom tom que haja questionamento sobre essas teses?

    “como algo tão óbvio e necessário foi confundido com resgate do genocídio praticado pelo Khmer Vermelho?”

    — Porque os autores, cientes disso ou não, escrevem um texto defendendo a dispersão das cidades, isso me parece contraditório à noção de “se manterem vivos em sua localização atual”. Retomo o apelo de vocês. Vamos debater as lutas concretas. Como barrar o genocídio nas cidades? deixando as cidades? defendendo que todos os assalariados — esses precários que vocês mencionam, inclusive — desfaçam-se dos seus empregos e tentem sorte nas áreas rurais? Como livrar-se da exploração, se demitindo? É um alívio que esse tipo de pauta não encontra eco nas lutas concretas.

    Por fim, é curioso que esse discurso sempre repulsivo com o conhecimento teórico receba também tanto eco, principalmente, na academia. É que isso que chamam “academicismo” é frequentemente confundido, por má fé ou não, com os conhecimentos adquiridos através de estudo, sejam eles dentro ou fora da academia. Não atentar para essa diferença é que repousa em negacionismo.

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