Por Ricardo Mezavila [*]

O coletivo do Passa Palavra, entendendo ser necessário promover um debate o mais amplo e plural possível sobre o restabelecimento dos direitos políticos de Lula e a possibilidade de que volte a disputar a Presidência da República, decidiu pedir a alguns de seus colaboradores frequentes que escrevessem textos sobre o assunto. Esperamos que esses textos e o debate por eles suscitado possam estimular a reflexão em torno dos desafios com que depara a esquerda no momento.

Mais de três décadas se passaram desde a histórica eleição presidencial de 1989, a primeira depois da restauração democrática, após vinte e um anos de ditadura militar. A partir de então, o Partido dos Trabalhadores estabeleceu-se como o principal partido de oposição do país, sua estrutura partidária evoluiu e sua militância cresceu. O ex-metalúrgico e líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva esteve no cerne de todas as oitos eleições nesse período. Perdeu duas em primeiro turno, uma em segundo turno, venceu duas eleições como candidato, fez sucessor em outras duas e não participou da última, mas o candidato do seu Partido chegou ao segundo turno.

Com a possibilidade de conquistar seus direitos políticos em definitivo, Lula coloca-se mais uma vez como o principal candidato de oposição, tanto da esquerda, como da direita e do centro. Não apareceu ninguém capaz de enfrentar o establishment com a envergadura de Lula? A esquerda alimentou e deu oportunidade à classe trabalhadora, realizou sonhos e deu dignidade aos historicamente excluídos, as minorias se viram representadas e toda a sociedade experimentou momentos únicos de otimismo e desenvolvimento real.

A dependência de Lula nos mantém sentados na poltrona

Paralelo ao novo mundo onde o pobre passou a ser consumidor e peça fundamental no giro da economia, a escuridão permaneceu sem ser provocada a acender suas velas e revelar o passado de dominação e extermínio daquele novo comprador, cliente, freguês e usuário. É compreensível que o status prevalecesse, a princípio, sobre o estudo crítico de como a sociedade foi organizada e o que teria de ser feito para que ela fosse transformada. Foi assim quando ocorreu a revolução industrial, as vagas na produção formaram operários especializados, o furacão capitalista se sobrepôs ao contexto decadente, mas a classe operária se organizou criando sindicatos.

Talvez a origem sindical de Lula nunca tenha saído dele, mesmo quando era assediado por líderes mundiais, quando era elogiado por Obama como o “político mais popular da Terra”, quando participava como convidado de encontros do G7, quando atravessava o corredor da Universidade de Lisboa pisando sobre as capas atiradas pelos estudantes perfilados. A essência de Lula é a do torneiro mecânico, do marido e pai que bate o ponto e passa na padaria e no açougue antes de ir para a casa. Coube a Lula a função de garantir o sono do homem e da mulher trabalhadores que colocam a cabeça no travesseiro tranquilos por poderem cumprir com suas responsabilidade perante seus filhos.

Durante todo esse tempo ficamos admirados com a força e superação de um nordestino que subiu a rampa do Palácio do Planalto, que foi festejado, perseguido e preso, mas em que em momento algum deixou de pensar no bem-estar social do mais necessitado.

A dependência de Lula nos mantém sentados na poltrona

Perdemos tempo aplaudindo Lula e não fomos capazes de abrir a cortina e contar outra história, com o protagonismo de outros personagens. Será que somos tão dependentes que não conseguimos preparar alguém que não tivesse corrido o risco de morrer de fome aos cinco anos de idade? Lula está de volta e sua presença necessária é um remake do que fomos durante esses anos todos. A classe política precisa fortalecer os Partidos e seus Programas e não os seus candidatos. Se não mudarmos esse roteiro, quebrarmos a corrente ou desviarmos o curso da história, outras gerações conhecerão o que é um golpe, uma operação Lava Jato, um genocida.

 

[*] Ricardo Mezavila é cientista político.

As imagens que ilustram o texto são da autoria de Hugo Simberg (1873-1917)

 

3 COMENTÁRIOS

  1. Blablabla blablabla, dai vem: “A classe política precisa fortalecer os Partidos e seus Programas”. É de uma genialidade (medíocre) desejar “mudar o roteiro”, “quebrar a corrente” e “desviar o curso da história” apostando no que?! No fortalecimento dos organismos que existir exclusivamente em função da disputa por cargos da institucionalidade burguesa!

    No artigo ‘Elogio ao Lula, O Estadista!’, Castro e Deep comentam, respectivamente: “O Passa Palavra virando um “puxadinho” do Brasil 247?”; “surgem aqui e acolá nos 247 da vida, única e exclusivamente uma saída eleitoreira para a crise”. E, dessa vez, o Passa Palavra não só convidou um colega Lulista, como convidou também um colega lulista que publica frequentemente no, vejam só, 247!!! https://www.brasil247.com/authors/ricardo-mezavila
    Ricardo Mezavila não é apenas um cientista político (como aponta a estrelinha de legitimidade no final do texto). Ricardo Mezavila é também autor de 210 artigos publicados pelo 247. Desses 210, trago dois para resumir a posição do grande cientista:
    1) em ‘O antipetismo não pode ser maior do que a vontade de viver’, Ricardo Mezavila diz: “Com a presença de um Lula conciliador nas pautas dos jornalões e nos noticiários da TV, apesar dos comentários enviesados, pode ser que o antipetismo perca força e a sociedade, enfim, perceba que a melhor alternativa é viver.” https://www.brasil247.com/blog/o-antipetismo-nao-pode-ser-maior-do-que-a-vontade-de-viver
    2) em ‘A juventude que não conhece Lula’, Ricardo Mezavila diz: “O período Lula foi aquele em que a democracia e a liberdade foram respeitadas, o Brasil era admirado por outras nações e povos, era convidado a sentar com as maiores lideranças do planeta. O povo teve sonhos pessoais realizados, como a aquisição da casa própria, o acesso à universidade e a oportunidade de viajar para fora do país e conhecer outras culturas.” “Progressistas jovens, adultos e idosos, cabem a vocês a tarefa de mostrar à juventude como foram os governos Lula, quem de fato é esse brasileiro tão requisitado a dar entrevistas nos canais mais importantes do mundo.” https://www.brasil247.com/blog/a-juventude-que-nao-conhece-lula
    No dia 5 abril (data de publicação do artigo 2 citado aqui), Ricardo Mezavila diz que é importante contar aos jovens quais foram “as conquistas sociais positivas e históricas que estarão presentes nas gerações futuras” e que são frutos do governo Lula. E no dia 8 de abril, hoje, aqui e agora, Ricardo Mezavila diz que “Perdemos tempo aplaudindo Lula e não fomos capazes de abrir a cortina e contar outra história, com o protagonismo de outros personagens”. O curioso é que ele é um dos que mais aplaudem o Lula, não só no 247 mas também no próprio texto em que ele diz que estamos (me inclua fora dessa, vade retro rs) perdendo tempo aplaudindo Lula: “Coube a Lula a função de garantir o sono do homem e da mulher trabalhadores que colocam a cabeça no travesseiro tranquilos por poderem cumprir com suas responsabilidades perante seus filhos”. E agora me digam, como podemos nomear isso? Trata-se meramente de um indivíduo bizarro, como diz Gramsci, ou trata-se de um cientista desprovido de honestidade intelectual?
    Se tivesse o mesmo espírito de João Bernardo, diria estar sentindo neste momento um misto de perplexidade e divertimento. Mas como não me surpreendo com mais nada e como não vejo graça na tragédia e tampouco me entretenho com ela. Sinto apenas um profundo vazio que a perda do sentido editorial e estatutário do Passa Palavra me desperta. Mas, pluralidade, né!? Busquemos a pluralidade, aplaudindo sem aplaudir, mas ainda assim aplaudindo, amém!

    Ah, um comentário adicional sobre o artigo que: “pode ser que o antipetismo perca força e a sociedade, enfim, perceba que a melhor alternativa é viver”. Bom, a alternativa à vida é sempre a morte. Se não for a morte matada (por causas naturais, por causas acidentais ou pelas mãos de um outro indivíduo) é a morte suicidada. Quando o autor coloca que há uma escolha de alternativas, a única via para a morte que consigo imaginar é a do suicídio (e nesse caso a do suicídio coletivo). Com isso o autor associa o antipetismo a um desejo suicidário. O que, de novo, aponta uma completa falta de compreensão do pragmatismo que movimenta as mentes ancoradas na miséria. O que falta, e é o que deveríamos estar buscando construir, é uma ética formulada (inventada e reinventada constantemente) pelos explorados e para os explorados. O problema que estamos vivendo, o abismo sem fim, o deserto de ideias, é na verdade um grande e avassalador vazio ético. Cito Fromm para aprofundar mais a questão do suicídio, principalmente:
    “A ética humanista, para a qual ‘bem’ é sinônimo do que é bom para o homem e ‘mal’ do que é mau para este, e sugere que a fim de se saber o que é bom para o homem temos de conhecer sua natureza. A ética humanista é a ciência aplicada da ‘arte de viver’, baseada na teoria estabelecida pela ‘ciência do homem’. Nela, como nas outras, a excelência da realização da pessoa (‘virtus’) é proporcionar ao conhecimento que esta tem da ciência do homem e de sua habilidade e prática. Todavia, somente se podem deduzir normas de teorias partindo da premissa de escolher-se certa atividade e visar-se certa meta. A premissa para a ciência médica é de que é desejável curar a doença e prolongar a vida; caso contrário, todas as regras da ciência médica seriam irrelevantes. Toda ciência aplicada baseia-se em um axioma que decorre de um ato de escolha: ou seja, de que o fim da atividade é desejável. Há, sem embargo, uma diferença entre o axioma implícito da ética e o das artes. Podemos imaginar uma cultura hipotética em que as pessoas não queiram ter pinturas ou pontes, mas não uma em que elas não queiram viver. O impulso para viver [e aqui está a fonte do pragmatismo] é inerente a todo organismo, e o homem não pode deixar de querer viver independente das ideias que ele gostaria de ter a respeito. A escolha entre vida e morte é mais aparente do que real; a escolha real do homem é entre uma vida boa e uma vida má.” FROMM, Erich. Análise do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1960.

  2. Sensacional a resposta. Agradeço ao autor do comentário pela análise sobre artigos que escrevi no Brasil 247. Escrevo no Jornal GGN, Pátria Latina e no Pravda também.
    Bem, não há nenhuma incoerência entre os artigos, porque sou um miliante dos movimentos sociais e, para fazer entender quem não tem essa experiência, nós falamos para públicos diferentes, que acessam canais diferentes, que compreendem o contexto de maneira diversa dentro de sua realidade.
    Quando eu escrevo que precisamos mostrar aos jovens quem é Lula e, em outro texto, escrevo que a dependência de Lula nos deixa meio inertes, ora nenhuma estou negando a necessidade da luta e isso é a base de todos os artigos que escrevo.
    Posso convergir os dois textos em um só, que o propósito será preservado, mostrando o sentido da luta e alertando que é preciso mais do que temos para lutar.
    Agradeço ao Passsa Palavra pela oportunidade da exposição ás críticas, são muito bem-vindas, provoca e alimenta o desejo de escrever mais e melhor.
    Até outra oportunidade.

    Ricardo Mezavila
    autor do artigo em questão

  3. -> A essência de Lula é a do torneiro mecânico, do marido e pai que bate o ponto e passa na padaria e no açougue antes de ir para a casa.

    O mito Lula tem sido alimentado por um constante falseamento da verdade dos fatos, sendo a frase acima um grande exemplo disto.
    Lula abandonou a carreira de operário torneiro mecânico desde 1972, quando já entra no Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo pela porta da burocracia e pelas mãos de um agente policial, o então presidente Paulo Vidal.
    Nessa eleição de 1972 na qual Lula se tornou Diretor Sindical, duas chapas de oposição tiveram integrantes presos e torturados.

    -> Talvez a origem sindical de Lula nunca tenha saído dele, mesmo quando era assediado por líderes mundiais, quando era elogiado por Obama como o “político mais popular da Terra”

    Se for para abordar alguma “essência” de Lula, ela se expõe neste trecho.
    Forjado pelas contradições da Luta de Classes no Brasil, Lula encarna o típico migrante, levado a se desterritorializar pelo avanço da urbanização forçada, em busca de “vencer na vida” na periferia das grandes cidades.
    Lula nunca deixou de ser um carreirista oportunista. Desde sua origem sindical esteve em busca de ascensão social e reconhecimento pessoal.
    Neste sentido, ser elogiado por Obama é compreendido como uma consagração.
    E não o que de fato é: um atestado de bons serviços prestados, passado pelo Presidente do Estado-Nação sede do Imperialismo, cujo poderio militar e “privilégio exorbitante” de emissão do Dólar são os pilares de sustentação do permanente massacre dos Povos e da natureza ao redor do mundo.

    Se há alguma dependência de Lula, é por parte de um Esquerda eleitoral-institucional viciada num impossível projeto político de conciliação de classes no Brasil.

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