Por um funcionário do Metrô de São Paulo

 

Há um ano escrevi aqui que “da forma como está, o metrô não é capaz de garantir a segurança nem dos passageiros nem dos funcionários”, e concluí dizendo: “Não podemos continuar sendo um vetor de transmissão do novo coronavírus e não fazer nada. Temos que ter responsabilidade com a vida da população trabalhadora, não podemos nos isentar diante da calamidade que se anuncia”. À época, o Brasil tinha pouco mais de 1,5 mil casos confirmados e 25 mortes pela covid-19. Hoje, 350 mil mortos depois, constato com tristeza não só que continuamos a ser um vetor de transmissão do novo coronavírus, como acabamos por naturalizar a situação insuportável de continuar trabalhando com milhares de pessoas morrendo todos os dias. Para efeito de comparação, Taiwan, que adotou uma estratégia eficaz no controle da pandemia, teve apenas 10 mortes por covid-19. Só no Metrô de São Paulo, segundo levantamento realizado pelo sindicato da categoria, já morreram 24 funcionários – mais que o dobro, portanto. Ocorre que a ilha asiática tem 24 milhões de habitantes, enquanto o Metrô não tem nem 9 mil funcionários. Os números deixam claro: estamos diante de um massacre.

Frente a este contexto, no último dia 6 de abril os metroviários de São Paulo decidiram se somar a outros trabalhadores do transporte e decretaram “greve sanitária” para o dia 20, exigindo a inclusão destes trabalhadores no grupo prioritário da vacinação. Parece uma ideia justa e óbvia. Mas não é bem assim. Neste texto eu pretendo explicar porquê.

Quem deve ser priorizado na vacinação?

Vacinas são o meio mais eficaz de combater epidemias. Doenças que antes devastavam populações inteiras, hoje estão controladas graças à vacinação em massa. Com a covid-19 não é diferente e a maior esperança para acabar com a atual pandemia é imunizar todos o mais rápido possível. No entanto, com exceção de alguns países desenvolvidos, o mundo inteiro tem sofrido com a escassez de vacinas. No Brasil a situação é ainda mais grave, pois o governo federal não comprou vacinas antecipadamente e inclusive recusou uma proposta da Pfizer, que prometia entregar 60 milhões de doses da vacina até o mês que se encerra agora. Com a vacinação andando a passos de tartaruga e o país passando pelo pior momento da pandemia (até agora), muitas categorias profissionais passaram a reivindicar prioridade na vacinação — entre elas os metroviários. Em alguns estados, professores e policiais já estão sendo vacinados, antes mesmo de terminar de imunizar os idosos. Com isso, começou uma corrida pela vacina. Muitos trabalhadores questionam — com razão — por que somente professores e policiais estão sendo vacinados, enquanto eles continuam trabalhando sem vacina. No entanto, ao exigirem prioridade na vacinação, produz-se um paradoxo. Afinal, é justo que todos os trabalhadores queiram ser vacinados, sobretudo aqueles que continuaram trabalhando presencialmente durante a pandemia: trabalhadores do transporte, de supermercados, frentistas, faxineiros, coletores de lixo, vigilantes, entre outros. No entanto, se todos forem considerados prioritários, ninguém será prioritário. Assim, a luta por vacinação prioritária acaba jogando trabalhadores contra trabalhadores.

Para combater uma epidemia, o que realmente conta é o ritmo com que se vacina, a velocidade da vacinação. Até porque nenhuma vacina é 100% eficaz, o que quer dizer que nem todas as pessoas vacinadas estão protegidas. A proteção vacinal só é garantida quando indivíduos desprotegidos estão cercados por um “rebanho” de pessoas imunes e o vírus deixa de circular. Além disso, não se sabe ainda se pessoas vacinadas deixam de transmitir o vírus. Daí a importância de um plano de vacinação que siga critérios epidemiológicos, pois embora não garanta imunidade para todos, a vacina reduz as taxas de hospitalizações e óbitos entre aqueles que foram imunizados. E, apesar do aumento vertiginoso no número de jovens internados por covid-19, idosos com mais de 60 anos ainda representam metade das hospitalizações no país — embora sejam apenas 16,2% da população. Por isso, é importante começar a vacinação pelos mais velhos. Depois de vacinar os idosos e demais grupos de risco, faz sentido vacinar o restante da população adulta, priorizando aqueles que continuaram trabalhando presencialmente. Sejamos diretos: vacinar qualquer grupo antes de vacinar todos os idosos resultará em mais mortes. [1]

Vacina sem lockdown?

Além disso, a experiência de países que estão mais avançados na vacinação mostra que vacinar é insuficiente para conter o contágio. No Chile, por exemplo, mesmo com 45% da população vacinada o número de casos bateu recorde, e o sistema de saúde está operando próximo do limite. Michigan, nos Estados Unidos, também acendeu o sinal de alerta diante do agravamento da pandemia, apesar da vacinação estar bem avançada. Isso ocorre porque as medidas de distanciamento social foram afrouxadas nestes lugares. Na Inglaterra, ao contrário, o governo decidiu que o lockdown deveria durar até que toda a população com mais de 50 anos estivesse vacinada. Agora, com mais de 40% da população vacinada com pelo menos uma dose, já se começa a flexibilizar algumas das restrições impostas. No Brasil, para variar, a situação é pior, pois com menos de 10% da população vacinada e a pandemia completamente descontrolada, é alto o risco de surgimento de novas variantes do vírus que enganem nosso sistema imune — o que pode inclusive anular todo o esforço de vacinação empreendido até agora. É urgente, portanto, conter a transmissão.

Especialistas têm alertado para a necessidade de que o Brasil implemente um lockdown rigoroso a fim de reduzir o número de óbitos e hospitalizações. Diversos sindicatos e movimentos sociais também têm defendido a necessidade de medidas que permitam que os trabalhadores possam ficar em casa, garantindo renda e emprego para todos. No mundo inteiro, cresce a pressão pela quebra das patentes das vacinas — única maneira de acelerar a produção de vacinas e imunizar o maior número de pessoas no menor tempo possível. Somente com essas medidas será possível controlar a pandemia e imunizar toda a população.

Interesses dos trabalhadores ou interesses patronais?

Se vacinas por si só não são suficientes para nos proteger, o que explica então essa corrida de diversas categorias profissionais pela prioridade na vacinação? Em primeiro lugar, o desespero causado pelo completo descontrole da pandemia. Ver as Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) lotadas, as pessoas morrendo asfixiadas por falta de oxigênio nos hospitais ou na fila de espera por um leito, e imaginar que você ou um familiar seu possa ser o próximo faz muitos trabalhadores quererem garantir o primeiro lugar na fila da vacinação. Aqueles que conseguem se organizar por categoria largam com vantagem nessa corrida. Os que não conseguem e não tem quem lute por eles, ficam para trás. Impera assim a lei do mais forte.

Mas acima de tudo, o que realmente pesa na hora de decidir quais categorias serão priorizadas é o interesse dos patrões. Isso explica, por exemplo, porque professores estão sendo vacinados antes de todos. Foi a pressão patronal pela reabertura das escolas que fez com que os trabalhadores da educação fossem priorizados. Em vez de manter as escolas fechadas e o ensino remoto, abrem-se as escolas e imunizam-se os educadores — nesta ordem, para piorar. Com os metroviários não é diferente. No último dia 10, o secretário de Transportes de São Paulo, Alexandre Baldy, postou nas suas redes sociais que apoiava os trabalhadores do transporte público “na luta para a sua vacinação”. Com mais de mil afastamentos de funcionários por covid-19 apenas na rede metroviária, não fica difícil entender porque o nosso patrão está tão preocupado com as nossas vidas. É essa mesma preocupação que leva empresários a pressionarem o Congresso para aprovar a compra de vacinas pela iniciativa privada. “Vacinem-se e voltem ao trabalho!”, é o mote dos patrões.

Enquanto isso, as medidas de distanciamento social vão sendo afrouxadas. A equipe econômica de Bolsonaro vem repetindo que investir em vacinas é mais barato do que pagar auxílios para a população ficar em casa. O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse no último dia 22 de março que o governo tem a obrigação de vacinar, nos próximos quatro meses, todos os 38 milhões de trabalhadores informais que receberão a nova rodada do auxílio emergencial. “Particularmente, esses mais vulneráveis não podem ficar em casa, no isolamento social, tendo sua sobrevivência garantida”, afirmou o ministro. Na proposta do governo, a vacina virou o novo “tratamento precoce”. Distribuir vacina ou distribuir cloroquina, para eles tanto faz. O que importa é continuar trabalhando, independentemente se morrem mil ou quatro mil por dia. Na mão dos capitalistas, a vacina é mais uma arma para impor a volta ao trabalho.

 

Como lutar?

Mas então, o que devem fazer os metroviários e demais trabalhadores do transporte? Esperar de braços cruzados sem fazer nada? Certamente, não. Enquanto a vacina não chega, é preciso lutar para controlar a pandemia, para reduzir o contágio. Uma medida urgente, que poderia ser aplicada imediatamente e com eficácia comprovada para diminuir o risco de contaminação, é a distribuição gratuita de máscaras PFF2 para todos os usuários e trabalhadores do transporte coletivo. É inaceitável que depois de um ano de pandemia, rodoviários e ferroviários ainda trabalhem com máscaras de pano, que muitas vezes nem é fornecida pela empresa! Exigir máscaras de qualidade vai aumentar a segurança de todos e salvar vidas.

No plano mais geral, é preciso continuar lutando por um lockdown de verdade, com garantia de renda e emprego para as pessoas ficarem em casa; pela quebra das patentes, para acelerar a vacinação; e, neste momento em que até equipes de futebol estão furando a fila, é preciso lutar para que a prioridade na vacinação dos idosos seja respeitada!

No Metrô, além disso, estamos em plena campanha salarial. Apesar disso, a discussão sobre a “greve sanitária” e a vacinação da categoria tem deixado em segundo plano o debate sobre as nossas reivindicações econômicas. Estamos desde 2019 sem reajuste nos salários e, em 2020, tomamos um calote no pagamento da Participação de Resultados relativa ao ano anterior, quando ainda não havia pandemia. É urgente retomar esse debate e nos organizarmos para a batalha. Em vez de nos distrairmos com pautas que jogam trabalhadores contra outros trabalhadores, devemos unificar a pauta econômica e a pauta sanitária e lutar para defender nossas condições de vida.

[1] O caso dos trabalhadores da saúde que estão na linha de frente no combate à pandemia é, obviamente, diferente, visto que a vacinação deles diminui a mortalidade dos pacientes, que teriam seu atendimento comprometido pela falta de médicos e enfermeiros.

A imagem destaque que ilustra este artigo pertence a  Matthieu Gouiffes. A segunda é de Alex Favale.

5 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom! Mas acho que, para além das reivindicações sobre os materiais de segurança sanitária, é bem vindo e necessário que as categorias que tenham condições de se organizar para paralisar as atividades e mesmo decretar greve (com os sentidos expostos pelo texto: critérios epidemiológicos para o controle do contágio e pandemia, manutenção das atividades que possam ser realizadas remotamente, por um lockdonw e por auxílio que consiga garantir uma quarentena efetiva, etc) que o façam. Nesse sentido a luta por uma greve sanitária (que não coloque como pauta central a luta entre trabalhadores por vacinação prioritária e que, obviamente, não secundarize outras tantas demandas específicas dos trabalhadores de cada categoria) é uma arma importante dos trabalhadores.

    Ah e outro ponto que acabei não comentando: uma vez que o desespero e uma certa revolta se instaura entre as mais variadas categorias, empurrando-as para ações focadas nessa bandeira que comunga com os interesses patronais (da prioridade da vacina ou mesmo da flexibilização para a compra de vacinas por empresas) qual seria a melhor postura das organizações combativas e dos militantes? Em minha opinião, caso eclodam manifestaçoes desse tipo não me parece que devemos simplesmente repreende-las de “longe”, ainda que seja necessário as criticar, mas me parece que, caso seja possível, disputá-las com a perspectiva de uma solidariedade de classe talvez seja o melhor caminho.

  2. Gostei bastante das reflexões do texto.
    Concordo com o comentário do Rodrigo.

    A reivindicação da máscara pff2 faz sentido no contexto… assim como também faz sentido pedir vacina pra categoria. A pff2 evita essa luta entre categorias por recursos escassos (a vacina no caso). Porém reivindicar EPI corre o risco também de virar a nova cloroquina, como bem apontou o texto que pra Bolsonaro a vacinação virou. A vacinação foi mistificado, como se ela fosse suficiente quando na verdade é apenas condição necessária para combater a pandemia.

    Tem que ter clareza que reivindicar pff2 é uma reivindicação recuada, e bem mais recuada que a greve sanitária. Para a saúde dos trabalhadores o certo é não se expor ao agente nocivo e não usar EPI estando exposto. Corre-se o risco de uma vez reivindicando e conseguindo o EPI a categoria perca a capacidade e sentido de reivindicar algo mais efetivo. A tendência é que se pare no EPI, pois se afinal o EPI não era suficiente por que se reivindicou apenas isso?

    Esqueci de comentar sobre a nota do artigo.

    O caso dos profissionais de saúde que estão na linha de frente não é diferente apenas porque a morte deles pode acarretar morte de mais pacientes. na verdade o principal não é isso que determina eles terem prioridade de vacinação. Mas exatamente por estarem na linha de frente. Linha de frente nesse caso significa lidar com os infectados e ter um nível de exposição muito maior que qualquer outro trabalhador. Maior em termos de tempo e maior em termos de carga viral a que estão expostos. O risco que eles correm, pela atividade, é muito maior que qualquer outra categoria.

  3. Não acho que reivindicar a aquisição dessa máscara corre risco proporcional à vacinação exclusiva. Uma coisa é a luta da categoria por EPIs para não morrer diante o trabalho. Outra é, o que tem sido nosso obstáculo desde abril do ano passado, nos organizarmos de tal maneira para como conjunto da classe trabalhadora impor que estados e municípios façam lockdowns eficientes. Diminuindo o fluxo dos transportes públicos assegura necessariamente a segurança dos trabalhadores metroviários. É verdade que vacina e tratamento precoce possuem o mesmo efeito psicológico, mas não estou convencido de que a máscara cumpre igualmente esse papel. Concordo que não basta só [reivindicar] o EPI, é que nesse caso não são pautas excludentes, como o é “vacina para nós X vacina para todos”

  4. Acabo de ler no UOL que um estudo feito por pesquisadores da USP e da UFRJ aponta que a pressão política pela ampliação dos grupos prioritários na vacinação tem sido uma das causa do atraso na vacinação dos idosos.

    “Os pesquisadores citam que ‘em contexto de insuficiência de vacinas, os critérios de priorização adotados pela maioria dos países focam na diminuição da mortalidade’ e, por isso, ‘têm sido priorizados os trabalhadores da saúde (…) idosos, pessoas com comorbidades e grupos em extrema vulnerabilidade’.

    ‘No Brasil, o Ministério da Saúde incluiu mais de 77 milhões de pessoas nos grupos populacionais prioritários a serem vacinados. Este número vem aumentando constantemente por pressões políticas e corporativas, acrescentando demandas a uma oferta notoriamente escassa de vacinas'”.

    https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/04/17/covid-19-coronavirus-vacinacao-de-idosos-pressao-politica.htm

  5. Um dia após a publicação do meu texto, reportagem do R7 repercurtia o posicionamento do Secretário de Transportes, Alexandre Baldy, favorável à vacinação dos trabalhadores do transporte. Em resposta à acusação de que o Metrô havia reduzido a frota de trens por conta da redução no número de passageiros transportados, o secretário afirmou:

    “Não reduzimos frota por haver menos passageiros. Mas exclusivamente a redução se dá por não termos pessoas para operarem os trens”

    Dois dias após a reportagem o governo de São Paulo anunciou a inclusão dos funcionários do Metrô e da CPTM (trens urbanos) no grupo prioritário da vacinação:

    “Serão imunizadas no grupo, ao todo, 9.500 pessoas, incluindo todos os operadores de trens, independentemente da idade, e demais funcionários da operação, como seguranças, técnicos de manutenção e trabalhadores da limpeza, que lidam diretamente com o público, acima dos 47 anos.” (Folha de São Paulo, 17/04/2021)

    Desta forma, a Secretaria de Transportes conseguiu resolver o problema da falta de funcionários para operar os trens e ainda logrou criar uma cisão entre os trabalhadores do transporte: os “com vacina” e os “sem vacina”. Se argumentos não eram suficientes para convencer, espero que os fatos possam esclarecer.

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