Por Angry Workers of the World

Então os votos foram apresentados e as grandes esperanças da esquerda foram esmagadas: os trabalhadores da Amazon de Bessemer, no Alabama/EUA, não votaram em número suficiente para ter um sindicato na empresa. O rigor mortis está sendo registrado por pessoas que, pelo menos durante a campanha, não se pronunciaram sobre o que agora é chamado de uma derrota “inevitável”. A pergunta é por que a esquerda é arrastada para essa desilusão coletiva de novo e de novo? Não são apenas as campanhas sindicais, mas as eleições também. Os sinais de aviso estavam todos lá. Eles sabiam, lá no fundo dos seus corações, que não ia dar certo porque os elementos básicos do poder de classe simplesmente não estavam lá (o que para nós significa: os trabalhadores estarem no comando). Mais uma vez, a esperança coletiva é como uma droga que cega, e todos aqueles com uma cabeça mais sóbria deveriam apenas parar de ser estraga prazeres e cortar o nosso barato!

Esta recente campanha sindical na Amazon destaca o maior problema da assim chamada esquerda, que é a sugestão de que qualquer tipo de avaliação crítica ou debate sobre o momento — quando ele ainda pode levar a algo construtivo e a uma mudança de estratégia — é um enfraquecimento da dedicação dos trabalhadores e dos esforços da classe trabalhadora para se organizar. Isso fala mais sobre o distanciamento da esquerda, que tem um atitude bastante paternalista em relação aos trabalhadores — os inocentes e inexperientes que serão enfraquecidos se nós levantarmos algumas questões sobre o que está acontecendo. Uma vez que muito do apoio hoje em dia é simbólico, em vez de prático, parece que não há espaço para se ter essas “conversas difíceis” sem ser rotulado como um cínico sentado em sua poltrona ou um sabe-tudo pessimista. Por que nós não podemos ter essas conversas com boa-fé, em um espaço onde há o reconhecimento de que estamos todos do mesmo lado e de que queremos todos as mesmas coisas — que os trabalhadores tomem o controle de sua situação — e onde questões de fundo sejam vistas como sinal de um movimento saudável e forte, e não como uma tentativa de divisão?

A esquerda também confunde “trabalhadores” com “sindicatos” e “estratégia sindical”, quando normalmente são coisas bastante distintas. Não estamos dizendo que os próprios trabalhadores não se envolvam em atividades sindicais, mas sim que a campanha em Bessemer foi tão claramente um exercício eleitoral de cima para baixo, com as vozes dos trabalhadores praticamente ausentes, que poderia ter sido bom expressar pensamentos críticos sobre a estratégia do sindicato sem minar os esforços dos trabalhadores dentro dela. Isto poderia até ter aberto algum espaço dentro do sindicato para os trabalhadores questionarem a estratégia sindical, o que, em meio a toda a publicidade em torno dessa campanha, provavelmente teria sido bem difícil.

Isto seria mais fácil de fazer se todos nós estivéssemos apenas conversando entre nós como trabalhadores em luta. No entanto, a esquerda é mais frequentemente vista como uma força política separada, que se encontra andando na ponta dos pés ao redor dos trabalhadores e dos sindicatos como se estes tivessem o monopólio sobre as lutas econômicas e “nós, os políticos de esquerda” não pudéssemos pisar nos seus calos. Não devemos sustentar esta falsa divisão entre a assim chamada esquerda (que supostamente apenas se engaja na luta “política”) e os trabalhadores (que apenas supostamente se engajam na luta “econômica”) porque isso leva a uma ideia distorcida de quem controla o quê, bem como uma hierarquia sobre quem deve estar envolvido no quê.

Nós somos todos trabalhadores que precisam aprender uns com os outros. Se você pensa que não é um trabalhador e que não pode falar com outros trabalhadores no mesmo nível, então fica mais difícil fazer os debates e conversas necessários para construir o poder de classe. Não podemos ceder o controle dos trabalhadores aos sindicatos e todos nós deveríamos exigir mais dos esforços de organização do que a “abordagem-de-inoculação-em-dez-passos” de sempre que supostamente garante o sucesso, mas sempre falha. Na atual avaliação sobre “o que deu errado”, a maioria das pessoas ainda estão focando no “fracasso da campanha” ou “na manipulação nojenta dos gerentes” ou nas barreiras legais — mas, além da visão dos “trabalhadores como traidores de classe”, ninguém está tentando realmente entender as razões dos trabalhadores para rejeitar o sindicato.

Organizar não é sobre uma eleição e não é sobre bater em portas e ter um milhão de conversas para “convencer” as pessoas de que é do interesse delas. Não funcionou para eleger Corbyn, e certamente não funcionou em Bessemer. Quer dizer, nós realmente temos de convencer as pessoas de quais são os seus interesses? Não é melhor encontrar formas de luta que não precisem de heróis? E discutir a luta em torno de questões concretas? A esquerda fala o tempo todo sobre “aprender lições”, mas parece incapaz de fazer mais do que açoitar este cavalo morto. A situação social é muito assustadora no momento para que possamos nos contentar com isso. Precisamos querer e exigir mais.

* * *

Para algumas reflexões sobre formas alternativas de organização na Amazon, dê uma olhada neste excelente artigo de um trabalhador da Amazon de Chicago. Os trabalhadores de lá fizeram um “protesto” contra o novo turno recentemente imposto, o “megaciclo”. Não tiveram nem de perto a mesma publicidade do que aconteceu no Alabama, mas houve muito mais potencial e iniciativa dos trabalhadores. Trabalhadores de armazém e motoristas da Amazon da Itália fizeram a primeira greve nacional na história da empresa, e também não tiveram muita atenção dos jornais. Devemos nos perguntar qual é o interesse por detrás de toda a mídia e a esquerda focarem nesta tentativa de organização sindical (frustrada) em Bessemer, em vez de outras em que os trabalhadores da Amazon estão envolvidas em lutas reais…

Este artigo foi traduzido por Marco Tulio Vieira e sua versão original em inglês pode ser encontrada aqui.

9 COMENTÁRIOS

  1. Enquanto isso…na República do “E daí?’
    Convocaram outro Tuitaço
    Manifestos saem do teclado às centenas
    Dá-lhe indignação digital
    O professor anarca comemora 15.000 seguidores
    A Editora adquire mais uma impressora libertária
    O Zé do Território é criticado por plantar sua própria comida e esquecer de “organizar para a revolução”.
    Mais um Mestrando da Revolução é aprovador com louvor
    A Central clama no Facebook por uma greve nacional
    Maria clama por comida pros seus três filhos.A Vakinha Empreendedora é acionada
    O sol mais uma vez se levanta no horizonte, a galera aglomera na praia.
    E o “povo”, não vai pra rua compa?

  2. Enquanto isso também, para que não se perca a esperança em uma saída sindical e legal pra esse importante conflito, a gente vê nessa reportagem aqui (https://www.reuters.com/technology/us-labor-board-says-evidence-presented-by-union-amazon-vote-could-be-grounds-2021-04-28/) que há possiveis indicios apontados pelo sindicato de que a empresa atuou contra a votação e que o Conselho Nacional de Relações Trabalhistas pode voltar atrás e anular a eleição. Aprenderemos a lição ou vamos continuar açoitando esse cavalo morto?

  3. O que tem na água que vocês bebem aí no Brasil?

    Passei a vida ouvindo dos pais e tios a frase “O Brasil não é para amadores”. Aí me pego lendo e vendo informações sobre as revoltas em Myamar, Colômbia, Haiti, ações na Alemanha e outros lugares. Levei 39 anos para perceber que os pais e tios tinham mesmo razão. Do vizinho Peru uma velha amiga perguntou via email: O que tem na água que vocês bebem aí no Brasil?

  4. No Rio de Janeiro, o podrão que CEDAE vende como se fosse água é um hiperclorado de chorume.

  5. Evidentemente, acho que o desânimo generalizado da classe trabalhadora não é nada animador. Por outro lado, tentando enxergar a unidade dos contrários, vejo que há no desânimo um elemento positivo. A autocrítica não é apenas um processo teórico, mas também emocional. A perda do otimismo no sindicato, apesar de ser um claro sintoma da nossa derrota enquanto classe, é simultaneamente um sinal da necessidade de superação desse instrumento que, já há muito tempo, se transformou numa instituição integrada ao Estado e, consequentemente, a serviço da burguesia. Os trabalhadores sob a tutela sindical não estão em situação de vantagem em relação aos que não estão. Muito pelo contrário. A existência de um aparelho sindical tem funcionado como uma represa para conter as lutas selvagens da classe trabalhadora onde quer que sujam, diminuindo as chances da emergência de experiências de lutas autônomas. Vejo o cavalo morto como uma metáfora muito mais apropriada para o próprio sindicato, e a recusa em açoitá-lo como um sinal da perda da ilusão de que ainda há vida nesse cadáver em putrefação. Quando a classe trabalhadora decidir seguir em frente, nos momentos de luta, deverá se erguer e caminhar com as próprias pernas.

  6. Laruelle: a filosofia prova sua inadequação por meio de sua obsessão pelo Mundo e pelo Homem. Com o mundo, a filosofia se preocupa com uma investigação de má-fé sobre “o que tudo gira em torno” ( Struggle and Utopia at the End Times of Philosophy , 5). No homem, a filosofia apresenta sua resposta a todos os problemas: o homem como sujeito de salvação. Ambos resultam em uma antropologia idealista projetada apenas para fugir do pensamento.

    Ninguém é o desastre. Nem as coisas que constituem o desastre são análogas. Não é possível envolver a escravidão, o colonialismo, o Holocausto, o capitalismo e as mudanças climáticas em um só pensamento. No entanto, o desastre exige que pensemos.

    O desastre é o lado de fora. Não é um constituinte exterior oculto pela moldura, como uma rajada que sopra por uma janela aberta. Não é a vingança de um reprimido como se houvesse algo impensado, ignorado ou não explicado afirmando sua presença incômoda. Ao mesmo tempo, o exterior era visto como a necessidade da contingência, ou seja, aqueles elementos que revelam como todo sistema é incompleto – mas isso o fazia parecer muito com um espaço de possibilidade. Tem um caráter muito mais passivo; “Onde falta o ser sem dar lugar ao não-ser” ( Writing the Disaster , 18).

    O que fazer com o desastre quando é o que torna este mundo intolerável – o desastre é uma estratégia capitalista – mas também oferece uma oportunidade de romper com esse mundo?

  7. Estamos tão acomodados em nossas cadeiras giratórias,lendo o passa palavra,os tuites e as bolhas digitais todas. Acomodados em nossas casinhas de cimento e aço, tão distantes e confortáveis do conflito real, acostumados a toda sorte de ilusão de segurança, habituados com a polícia e a política, esse duo tão estranhamente juntinhos.
    Nos acostumamos com o capitalismo, como quem se adequa aquele canto do sofá que tem o molde de nossas bundas que qualquer possibilidade de ação e movimento,nos deixa ansiosamente inseguros.
    Neste filme catástrofe,nosso lugarzinho quente e aconchegante é o que nos sujeita aos vários modos de inércia. Gostaria de ser um Belter, que faz explodir plataformas e lança meteoros sobre a Terra, mas só de pensar na falta de oxigênio….

  8. Os revolucionários tendem a desistir não por causa da repressão ou encarceramento, mas por causa da desmoralização,das batalhas intestinais após ações/movimentos, por causa do muitos Cancelamentos que são operados nas trocas de lugar Amigo/Inimigo, no tédio que a ausência de adrenalina dos conflitos gera. No fim contas é o Tédio e não a Polícia que está eliminando os antagonistas.

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