Apresentado por Passa Palavra

Desde Fevereiro deste ano uma leitora ou um leitor tem deixado poemas dispersos pelos comentários, sempre sob assinaturas diferentes, para que cada novo nome lhe apague o traço dos passos. O padrão é invariável, um encadeado rítmico em que a ironia provém da síntese, num panorama desolado entre a militância fútil e a condenação ao trabalho.

Para que esses poemas não se percam, pareceu-nos útil reuni-los.

28 de Fevereiro de 2021

Anarquistas perplexos no twitter twittando suas irrelevâncias.
O professor anarca vomita receitas sobre como fazer revolução.
O Editor anarca pede mais dinheiro, tudo em nome da autonomia e do bem viver.
A anarca identitária sentencia provérbios sobre o lugar de fala.
O punk dá de ombros e aumenta o volume do headphone.
O grupelho espalha A Palavra em zines que ninguém vai ler.
Anarcas do Instagram protestam contra as corporações.
O Big Data a rir de todos.
O povo na rua segue na lida, alheio aos ruídos.
A realidade não será digitalizada.

3 de Março de 2021

Cheque Mate
O povão circula nas quebradas
A Polícia circula nas quebradas
O tráfico circula nas quebradas
Entregadores circulam nas quebradas
A Perifa circula
O vírus circula
A Esquerda não sai de seu quadrado

11 de Março de 2021

O professor anarquista chegou aos 15.000 seguidores.
O Pedalant Copia e Cola 18 horas por dia.
A moça antropóloga segue escrevendo Teses nos twittes, exigindo lealdades.
A esquerda compra da esquerda é o lema da Revolução.
A agência de notícias traz notícias de além mar, de onde não virá revolta alguma.
O psiquiatra receita Clonazepan.
A mãe do assassinado chora a violência da PM.
Nós choramos pelo quê?
Fui cancelada da família, será que este ano eu morro?

4 de Maio de 2021

Enquanto isso… na República do “E daí?”
Convocaram outro Tuitaço.
Manifestos saem do teclado às centenas
Dá-lhe indignação digital.
O professor anarca comemora 15.000 seguidores.
A Editora adquire mais uma impressora libertária.
O Zé do Território é criticado por plantar sua própria comida e esquecer de “organizar para a revolução”.
Mais um Mestrando da Revolução é aprovador com louvor.
A Central clama no Facebook por uma greve nacional.
Maria clama por comida pros seus três filhos. A Vakinha Empreendedora é acionada.
O sol mais uma vez se levanta no horizonte, a galera aglomera na praia.
E o “povo” não vai pra rua, compa?

22 de Junho

Flagrante Delito
A Copa América segue a toda, a bola rola e rala.
O MTST ameaça com a polícia os vândalos da Ação Direta na Paulista.
Notas de repúdio se espalham pela blogosfera, e a cepa Delta se esparrama no território.
Entre debates e tretas da esquerda, mais uma TAG é levantada no twitter
No OnlyFans, uma ativista faz nudes pela Palestina.
A semana terminará com o relatório sobre ÓVNIS pela Governo dos EUA.
Viva São João!

1 de Julho de 2021

Mutatis Mutandis
A Editora anarquista festeja o aumento das vendas em tempos de “levantes”, até já compraram uma novíssima impressora de alto poder libertário.
A antropóloga informa mais duas Lives.
O professsor anarca agradece os novos egressos em seu twitter.
O sem teto clama por moradia digna
O faminto por alguma dignidade sobrante.
O hacker ético posta pela privacidade no Face e no Twitter.
A Perifa festeja o show on line da Anitta.
Ivete declara seu fervor “antifa”.
Nemésio, ajudante de pedreiro na ZL, não sabe se terá jantar de noite.
A Agência posta mais textos do que somos capazes de ler.
Amanhã tem importante jogo na Copa Covid.

3 de Julho de 2021

O Trem do Tempo posta mais um Podcast, quem escuta o quê?
O editor se esmera em mais um anúncio da Vakinha on line.
A antropóloga reclama da antropofagia de seus leitores.
Os anarcas do Mastodon postam mais um 3J.
A Agência de Notícias Anarquista comemora algum centenário.
Alfredo, motorista da linha 311, sai para mais um dia de labuta.
Anitta grava em inglês um novo hit.
O Professor anarca chamando pra sua Live pelo 3J.
Para onde iremos?

10 de Julho de 2021

Enquanto duginistas dominam o PDT
A Editora Anarquista adiciona máscaras pff2 n95 ao seu portifólio, além de gadgets diversos.
No Mastodon os anarcas brazucas dissecam a revolução espanhola em milhares de “toots”, multiplicados ad infinitum.
No Twitter a antropóloga sugere que o regime político está mudando de “textura”, e que isso demanda uma nova “cartografia das resistências”.
O professor prolixo indica Focault pro fim de semana.
O movimento indígena acusa os usuários de Ayuasca de “fascismo verde”.
Os “eco fascistas” pedem o fim do combustível fóssil, e a expulsão dos Ciganos dos países europeus.
Gilmar defende a urna eletrônica, Lula também, Boulos defende a urna, o STF defende a urna, o Banco defende a urna.
Rosa, operadora de telemarketing, defende seu direito de ir ao banheiro quando preciso.

29 de Julho de 2021, o próprio dia da publicação desta recolha

O galo pôs fogo no Borba Gato?
O anarca comemora
Feminista solta fogos e a vizinha reclama do ruído
O liberal condena o incêndio da estátua
O identitário acha execrável não terem derrubado o Borba
O Anacom avalia o ato
O anticiv dá de ombros e prega entre os escombros
A coquete acha lindo o efeito fantasmagórico do fogo sobre o Borba
O teórico avalia o gesto decolonial
O pragmático sugere a mesma fórmula para outros monumentos
João, trabalhador de apps, passa pelo incêndio com pressa para mais uma entrega.
No boteco em frente todos de olho na Fadinha do Skate.

 

Esta recolha de poemas está ilustrada com fotografias de Alan Schaller.

3 COMENTÁRIOS

  1. faltou mais a ultima :

    chimarrão 29/07/2021 at 10:48
    O galo pôs fogo no Borba Gato?
    O anarca comemora
    Feminista solta fogos e a vizinh reclama do ruído
    O liberal condena o incêndio da estátua
    O identitário acha execrável não terem derrubado o Borba
    O Anacom avalia o ato
    O anticiv dá de ombros e prega entre os escombros
    A coquete acha lindo o efeito fantasmagórico do fogo sobre o Borba
    O teórico avalia o gesto decolonial
    O pragmático sugere a mesma fórmula para outros monumentos
    João, trabalhador de apps, passa pelo incêndio com pressa para mais uma entrega.
    No boteco em frente todos de olho na Fadinha do Skate.

  2. Ficou boa a reunião dos poemas do autor(a) anônimo(a). Valeu. A leitura me fez lembrar de um verso do bardo de Itabira: “Que século, meu Deus!”

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