Por João Bernardo

Traduzido para o francês.

1.

Há um ano e meio publiquei o breve artigo «A autodisciplina no combate à pandemia». «A cultura brasileira é 1) indisciplinada, 2) festiva e 3) aprecia o contacto físico», escrevi nesse artigo, para perguntar em seguida: «Será que os duzentos e dez milhões de brasileiros conseguirão, da noite para o dia, deixar de frequentar lanchonetes e cervejarias, deixar de organizar festas, de se encostarem uns aos outros e será que conseguirão fazer filas mantendo um metro e meio de distância entre as pessoas?». E respondi: «Duvido».

Em seguida, conhecendo o que estava a ser publicado por organizações de extrema-esquerda em diversos países, previ o que iria suceder no Brasil. «Nos meios libertários e anarquistas, inevitavelmente circularão textos atacando o “autoritarismo clínico” e defendendo o “direito à liberdade” numa situação de pandemia». E acrescentei que «com este tipo de atitudes, que eu encontro em vários textos, provenientes de vários países, esses meios libertários e anarquistas reflectem aquilo que no fundo os caracteriza — o individualismo».

O que eu fui dizer!

De um lado, os amantes das identidades acusaram-me de ser colonialista, eurocêntrico, não conhecer o Brasil, ser ignorante, preconceituoso e reproduzir lugares-comuns. Isto como se eu não tivesse vivido e dado aulas durante trinta anos no Brasil e como se não tivesse sido a cultura da convivialidade um dos motivos que me atraiu e ali me enraizou. Do outro lado, os leitores de pendor social acusaram-me de ignorar a miséria de grande parte da população brasileira, que a impediria de tomar os cuidados necessários para evitar a propagação do vírus. Isto precisamente na ocasião em que estavam a surgir movimentos com o objectivo de mobilizar os trabalhadores e os habitantes das favelas e periferias e organizá-los para os cuidados sanitários elementares, como sucedeu com os funcionários de call centers e como fez Deivison Nkosi e fizeram outros, por exemplo a Central Única das Favelas, CUFA.

Quanto aos anarquistas, são gente de pele muito fina, que não suporta qualquer beliscão, e ficaram escandalizados com as minhas observações, chegando a dizer que falo como um verdadeiro stalinista-leninista. Isto quando eu recebia quase diariamente publicações anarquistas de vários países bramando contra o distanciamento social, o confinamento e outras restrições à mobilidade. Basta um exemplo, que vale por todos. «Comparativamente, a gripe sazonal é muito mais mortífera», afirmou no dia 3 de Março de 2020 o órgão da Federação Anarquista francesa, considerando também «as medidas tomadas para limitar a propagação da covid-19» como «decisões liberticidas».

Houve ainda algumas pessoas que me acusaram repetidamente de defender a suspensão das lutas sociais enquanto durasse a covid-19. E isto quando eu concluíra assim o artigo: «Na situação actual precisamos de um esforço de auto-organização que nos leve, por nós próprios e sem esperarmos as imposições governamentais e as fiscalizações policiais, a respeitar e difundir as normas de segurança indicadas pelos cientistas e pelos profissionais da saúde. Se a autogestão da sociedade é preparada pela autogestão das lutas, agora ela é preparada também pela nossa capacidade de autodisciplina no combate à pandemia. Trata-se de ser solidário com os outros, de evitar que os contaminemos. E a solidariedade parece-me ser a base de qualquer luta anticapitalista». Aos caluniadores, porém, e aos que inventam só para caluniar, cabe um único lugar — o lixo.

2.

Mas deve-se a um motivo muito mais profundo o facto de a indignação daqueles leitores ter sido injustificada. É que há uma verdade óbvia que a esquerda se esforça por não ver ou, quando é obrigada a enfrentá-la, se esforça por não extrair dela as devidas conclusões:

Jair Bolsonaro não foi colocado na presidência da República por nenhum golpe militar feito nas costas da população. Ele foi eleito por 55,13% dos votos expressos, correspondentes a quase 57,8 milhões de brasileiros.

Isto significa que existia uma amplíssima base social disposta a apoiar o governo quando este subestimava o risco da covid-19 e apelava para a continuação de tudo como antes. O comportamento festivo e convivial, que é uma faceta indiscutível da cultura brasileira, predispunha para esta convergência política, ampliando os efeitos do descaso governamental.

De resto, ocorreu uma curiosa simetria entre, por um lado, o presidente Bolsonaro a dizer que não devia haver confinamentos nem distanciamento social porque a economia tinha de funcionar e os pobres precisavam de trabalhar e, por outro lado, os meus críticos a dizerem que as condições em que vive a população pobre a impediam de praticar o confinamento e o distanciamento social. Os resultados práticos foram os mesmos.

Ora, esta convergência, à primeira vista improvável, entre os dois extremos do espectro político tem-se reproduzido noutros planos não só no Brasil, mas no mundo em geral. É que — duas coisas que os brasileiros frequentemente esquecem — o Brasil está no mundo, mas o mundo não se reduz ao Brasil, e desde cedo que na Europa e nos Estados Unidos têm ocorrido manifestações de rua, por vezes mobilizando vários milhares de pessoas oriundas tanto da extrema-esquerda como da direita extrema, em protesto não só contra a imposição governamental de medidas sanitárias, mas até contra a própria noção de que a covid-19 seja uma doença grave ou sequer exista e, portanto, que se tornem necessários cuidados especiais para a debelar. A recente generalização da imposição dos certificados de vacinação na União Europeia tem sido mais um pretexto para esta convergência, servindo agora de tema nas manifestações de rua.

Não importa aqui que a grande maioria da população em todos esses países apoie as medidas sanitárias e restritivas e que as minorias, apesar de estridentes, não deixem por isso de ser minorias, por vezes muito reduzidas. O que me interessa sublinhar é o facto de nestas minorias se encontrarem pessoas oriundas da extrema-esquerda e outras da extrema-direita. É esta confluência que nos deve alertar, porque penso ter abundantemente mostrado que o fascismo não surge em nenhum dos extremos do leque político, mas na convergência ou, talvez melhor, no cruzamento prático e ideológico entre eles.

3.

O cruzamento de um certa extrema-esquerda com alguma extrema-direita na recusa activa e militante das normas sanitárias não se tem limitado à participação conjunta em manifestações de rua e gerou uma esfera ideológica comum, em que se destacam dois grandes temas.

Um desses temas engloba as teorias de conspiração. Para o marxismo os rumos da História são ditados por forças supra-individuais definidas no plano económico, entendido quer nas suas infra-estruturas materiais quer nas relações sociais de produção. Pelo contrário, as teorias de conspiração pretendem detectar os rumos da História em decisões tomadas secretamente por um pequeno número de figuras sombrias. De um lado aceita-se a existência de um mecanismo situado além das vontades individuais, do outro lado acredita-se na vontade incondicionada dos participantes num conluio. Por isso as interpretações marxistas da História têm como sujeitos únicos as classes ou grupos sociais, enquanto as teorias de conspiração admitem a livre vontade de uma elite e supõem a dicotomia entre elite e massa, considerando a massa não como agente da História, mas como matéria inerte e manipulável.

Apresentadas nestes termos, dir-se-ia que as teorias de conspiração nunca poderiam cortar o cordão umbilical que as une à direita. E, no entanto, tem sucedido com certa frequência que também a extrema-esquerda interprete as contradições sociais como manobras de corredor. Qualquer de nós pode verificar isso no dia-a-dia, quando fala com os amigos ou escuta as conversas na mesa ao lado. Mas o problema é grave quando se generaliza em momentos históricos cruciais. Limito-me a um exemplo. Na França de entre as duas guerras mundiais o mito das deux cent familles, as duzentas famílias que conspirariam para dominar a economia e a República, criado pela extrema-direita, serviu igualmente para mobilizar a esquerda do Front Populaire. Sem isto não se entenderia a rápida aquisição de uma tão ampla base proletária por alguns partidos fascistas franceses dessa época, especialmente o Parti Populaire Français, que beneficiou de uma significativa migração de dirigentes e militantes provenientes do Partido Comunista. Afinal, estava a confundir-se a plutocracia (uma noção usada exclusivamente pelos fascistas) com os capitalistas (uma noção usada pelos marxistas) numa comum aversão às elites. Já não se tratava de remodelar o sistema económico, mas apenas de mudar a elite.

O mesmo se reproduz hoje no populismo, que procura mobilizar a população contra as elites, definidas independentemente da classe social em que se inserem. É este ou aquele, um nome na moda e conhecido por todos, que serve para esquecer a teia formada pelas classes sociais e o sistema económico que as sustenta. E para as odiadas elites são remetidos também intelectuais e cientistas quando exprimem opiniões antipáticas, independentemente do facto de não terem fortuna nem poder.

Um fascista de impecável lucidez, Maurice Bardèche, notou em Qu’est-ce que le fascisme?, obra que deve ser lida por quem quiser saber o que é o fascismo, «a impossibilidade de o fascismo se desenvolver fora dos períodos de crise». E depois de observar que o fascismo «não tem um princípio fundamental» e «não tem uma clientela natural», Bardèche proclamou que ele «é uma solução heróica», para afinal concluir: «É o partido da nação em cólera». E, insistiu Bardèche, «essa cólera da nação é indispensável ao fascismo». Desta forma, as classes dissolvem-se na massa, a luta entre classes converte-se no ressentimento, e aquilo que originariamente era o programa da extrema-esquerda, projectando uma reestruturação do sistema económico, fica transformado numa simples renovação das elites. É este o caminho marcado hoje pelas teorias de conspiração.

O outro dos grandes temas em destaque no cruzamento entre a extrema-direita e a extrema-esquerda opostas às medidas sanitárias é o da decadência civilizacional. Desde o início do século XIX, na verdade desde a Revolução Francesa, a extrema-direita introduziu nas reflexões políticas o tema da decadência, quer com implicações estritamente civilizacionais quer com implicações raciais. No final desse século o tema foi adoptado por uma parte da extrema-esquerda, que passou a apresentar o capitalismo não como um regime de exploração da força de trabalho, mas como um factor de decadência. Na sequência de alguns precursores, como Benoît Malon, foram Georges Sorel e os sindicalistas revolucionários seus discípulos, nomeadamente em Itália, quem primeiro começou a considerar sistematicamente o capitalismo como um declínio civilizacional, capaz de arrastar consigo a própria classe operária. Foi esta a via que mais directamente conduziu ao fascismo. «Sorel é para mim o grande mestre», diria muito mais tarde um velho fascista radical português, Rolão Preto, entrevistado por João Medina. «Foi ele que fez talvez tudo». Nesta perspectiva, posso definir o fascismo como uma tentativa de mobilização da classe trabalhadora para impedir que o capitalismo conduza à anunciada decadência.

Ora, naquela época em que, aos olhos de muitos, o darwinismo convidava a conceber a civilização em termos biológicos, a distância era curta entre as noções de decadência civilizacional e de decadência racial. Isto que explica que figuras originariamente marxistas, como Karl Pearson na Grã-Bretanha, Georges Vacher de Lapouge em França ou Ludwig Woltmann na Alemanha, tivessem aderido à eugenia e interpretado a luta de classes como um conflito racial. Do mesmo modo a eugenia progrediu no meio anarquista, e as práticas, que hoje nos parecem inofensivas, do vegetarianismo e do nudismo eram consideradas então como instrumentos de redenção biológica tanto entre os anarquistas como entre os incipientes movimentos fascistas, os Wandervögel na Alemanha, por exemplo.

Enquanto uns concebiam o ataque ao capitalismo como o último recurso para salvar a civilização ou, em termos spenglerianos, a cultura, outros pretendiam ir mais fundo e salvar a própria raça humana. Estes labirintos ideológicos, que se teceram e emaranharam desde os finais do século XIX até ao termo da segunda guerra mundial, ressurgiram recentemente naquelas correntes de esquerda agora em moda nos campi universitários, para quem o capitalismo gera o seu próprio colapso, independentemente de quaisquer lutas da classe trabalhadora, a qual seria arrastada, junto com o capitalismo, na mesma catástrofe civilizacional. O terreno estava já preparado pelos pós-modernistas e pelos seus afilhados identitários com a recusa da noção de progresso.

O fascismo surge quando na direita soa o eco de alguns desejos e anseios, ou de alguns pavores, da esquerda, enquanto na esquerda se reproduzem alguns mitos correntes na direita. É o que está a suceder durante esta pandemia, fundindo-se os apocalípticos de um lado e do outro num ressurgimento, ou melhor, numa reelaboração do fascismo, tanto na rua como nas ideias.

À primeira vista, pode parecer estranho que a pandemia, uma conjuntura tão peculiar e exterior à política, tivesse sido usada neste novo processo de politização. Mas os pressupostos estavam já criados pelo movimento ecológico.

4.

A atitude negacionista perante a covid-19, as medidas sanitárias e as vacinas é do mesmo tipo, com os mesmos discursos e argumentos, que o negacionismo do movimento ecológico perante os avanços da ciência e as experiências laboratoriais.

Mas as raízes do problema descem mais fundo e, para o entendermos, é necessário destacar que não são as relações sociais de trabalho que preocupam o movimento ecológico, interessado unicamente pelo ponto de vista do consumidor. Tudo o que o movimento ecológico procura é promover produtos ou ambientes rurais e urbanos que ele mesmo apresenta como saudáveis, sem se interrogar minimamente sobre as condições de trabalho exigidas. E assim a esquerda, convertida à ecologia, abandonou aquilo que a caracterizara, uma perspectiva de classe assente no processo de produção, e restringiu-se à esfera do consumo, perspectiva tradicional do liberalismo e do reformismo de direita.

Num artigo publicado há já trinta e quatro anos na Revista de Administração de Empresas, Rita Delgado e eu chegámos à conclusão, analisando o caso português entre 1979 e 1984, que «3/4 dos acidentes de trabalho mortais verificados nesta amostragem devem-se a tecnologias primitivas ou à utilização arcaica de tecnologias mais evoluídas», o que nos levou a criticar a ecologia, quando «apela para a utilização de tecnologias antiquadas e para o regresso a um sistema de pequenas empresas de tipo familiar, que teriam como consequência travar o desenvolvimento das forças produtivas». «As comunidades marginais dos ecológicos são uma ilusão e uma demagogia», escrevemos nós naquele artigo. «O que resta, na prática, das propostas dos ecológicos não é a diminuição dos ritmos de trabalho, mas apenas o emprego de tecnologias antiquadas. E devemos então analisar quais as consequências da utilização dessas tecnologias antiquadas no contexto geral do sistema capitalista».

No Brasil os resultados deste prevalecimento da perspectiva do consumo sobre a perspectiva das relações de trabalho são especialmente flagrantes entre os agroecológicos, como demonstra a posição que adoptam perante a agricultura familiar. Recordo que numa entrevista publicada no site do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, o economista Jean Mar Von Der Weid, coordenador de Políticas Públicas da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia e membro da Articulação Nacional de Agroecologia, depois de considerar que a agroecologia «não é um sistema que opere bem com mão de obra assalariada, pois esta só funciona com tarefas simples», afirmou: «Se você vai pedir uma tarefa extremamente complexa ele [o assalariado] não tem interesse, porque vai ganhar igual por hora de trabalho». Este economista reconheceu, portanto, que a luta dos assalariados rurais contra a exploração é um factor que inviabiliza a agroecologia, por isso concluiu que «há uma simbiose perfeita entre a agroecologia levada a seu limite máximo e a agricultura familiar» e que «no futuro precisa de muito mais agricultura familiar do que você tem hoje».

Com efeito, qualquer economista sabe que o grau de exploração nas empresas familiares, sejam elas oficinas ou empreendimentos agrícolas, é muito elevado porque os membros da família não consideram o seu próprio trabalho como um custo e, por isso, estão dispostos a trabalhar muito mais horas do que um assalariado exterior. Ora, no Brasil, segundo o Censo Agropecuário de 2006, do total de pessoas ocupadas na agricultura familiar, 89,4% tinham laços de parentesco com o cabeça de exploração. Este facto é cinicamente aproveitado pelo MST e por todos os agroecológicos. Um dos aspectos mais flagrantes dessa busca de mais-valia absoluta é o recurso ao trabalho infantil, pois o referido Censo revela que 7,4% da força de trabalho ocupada nos estabelecimentos familiares era composta por crianças e adolescentes, enquanto nos estabelecimentos não familiares essa percentagem se reduzia a 3,6%.

Esta aparente digressão teve como objectivo mostrar, através de exemplos eloquentes, algumas consequências práticas da perspectiva centrada no consumo e alheada das relações sociais de trabalho. Mas o problema é mais vasto e atinge o âmago do movimento ecológico, porque quando recorre a uma noção mítica da natureza para evocar um não menos mítico esgotamento dos recursos naturais e justificar um rebaixamento do nível de vida, esse movimento está a usar o argumento do consumo para deteriorar as relações de trabalho. E a actual pandemia é mais uma oportunidade para os ecológicos nos tentarem convencer de que estamos a consumir demais e que é necessário adoptar formas de vida ascéticas, um apelo tanto mais audível quanto em ambos os extremos do espectro político surgiram alucinados que atribuem a uma sociedade de abundância a culpa pela covid-19.

Não resisto a destacar de novo uma irónica convergência que já mencionei noutro artigo. «A imprudência desse superconsumo teve um papel importante na degradação ambiental», escreveu David Harvey, coqueluche da esquerda marxista, concluindo que «na medida em que o gosto pelo consumo excessivo imprudente e sem sentido é refreado, pode haver alguns benefícios a longo prazo». Ao mesmo tempo, o bispo de Setúbal, situado na franja esquerda do episcopado português, pretendeu que «este vírus veio mostrar que se pode viver decentemente e muito mais feliz com menos — com menos desgaste de recursos, que são para todos e não só para alguns». Não falta quem diga o mesmo.

Quando eu defini o movimento ecológico como um dos componentes do fascismo pós-fascista estava já a anunciar o horizonte em que as teorias de conspiração, o populismo antielitista e a obsessão da decadência e da catástrofe haveriam de se fundir na amálgama ideológica que considera a covid-19 e as vacinas como uma manipulação das elites empresariais e a exigência de medidas sanitárias como uma manipulação das elites políticas.

Tenho mostrado, com abundantes provas, a filiação da ecologia nos regimes fascistas, e nomeadamente a filiação da agroecologia no nacional-socialismo germânico. Mais exactamente, na sua modalidade originária, enquanto agricultura biodinâmica, ela deve-se a Rudolf Steiner, o fundador da antroposofia. Walther Darré, que além de ministro dos Abastecimentos e da Agricultura do Reich era Führer dos Camponeses do Reich e chefiava o Departamento Central de Raça e Colonização dos SS, com a patente de Obergruppenführer, o segundo mais alto escalão dos SS, acolheu no seu Ministério numerosos discípulos de Steiner. Mas, para iludir a rivalidade ou mesmo hostilidade que alguns sectores do nacional-socialismo nutriam pela antroposofia, Darré procedeu a uma mudança vocabular e a agricultura biodinâmica passou a denominar-se agricultura orgânica, ficando convertida numa doutrina oficial do Terceiro Reich. Depois de 1945 a ecologia foi remetida ao mesmo esquecimento que atingiu o resto da ideologia fascista, mas com a derrota das esperanças geradas pelos movimentos autonomistas da década de 1960, especialmente com a dissolução do mítico Maio de 68, a esquerda em desespero ressuscitou a ecologia, e com ela a agroecologia.

Convém nunca esquecer esta filiação, porque ajuda a entender o negacionismo sanitário que caracteriza a mais recente reencarnação do fascismo pós-fascista. O mesmo mito da natureza entendida como um organismo e da necessidade de fusão do ser humano nesse organismo, que fundamenta as doutrinas ecológicas, permeia também os delírios daquela gente que atribui a covid-19 a um desequilíbrio da natureza provocado pelos humanos. De igual modo, a atitude do movimento ecológico perante a ciência e os laboratórios é idêntica à atitude do movimento antivacinas. As críticas que uns fazem ao que denominam agrotóxicos são as mesmas que os outros fazem às vacinas, a desconfiança que uns têm relativamente à Pfizer ou à Johnson não difere da que outros sentem perante a Monsanto ou a Syngenta.

Aliás, não resisto a abrir aqui um parêntese para observar que a Syngenta foi adquirida em 2016-2017 por uma empresa estatal chinesa, a ChemChina, o que não impede o MST, apesar do seu proselitismo agroecológico e da sua hostilidade ao que denomina agrotóxicos, de ter assumido as funções de porta-voz das maravilhas do regime chinês. Ou será que foi o MST S.A. a descobrir qualquer benefício nessa função?

O certo é que a desconfiança do movimento ecológico perante a ciência e as descobertas laboratoriais abriu o caminho para o recrudescimento da actividade do movimento antivacinas. E assim o irracionalismo que há um século se gerou no âmbito do fascismo clássico ressurge agora, propiciando do mesmo modo a confluência de temas originados na extrema-direita e na extrema-esquerda.

Este artigo está ilustrado com imagens daqueles horrores com que os videogames ocupam os ócios de muita gente.

9 COMENTÁRIOS

  1. Li tanto o texto acima como também aquele citado (“A autodisciplina no combate à pandemia”), no qual consultei muitos dos comentários.

    Como sempre ambos estão repletos das idiossincrasias do autor. Não devem ser desprezadas pois revelam muito de quem escreve.

    Ainda assim focar nelas seria um equívoco maior, pois pouco encaminham daquilo que se propôs abordar.

    Após 18 meses, o amplo espectro político, de um extremo a outro, fracassou rotundamentente no enfrentamento à pandemia.

    Por quê? Porque só é possível fazê-lo a partir do seguinte marco: 《Se a autogestão da sociedade é preparada pela autogestão das lutas, agora ela é preparada também pela capacidade de autodisciplina no combate à pandemia.》

    Além disto é indispensável colocar a pandemia no contexto histórico das relações sociais, determinantes para sua eclosão.

    Sem auto-disciplina não há auto-gestão. Sem agricultura e pecuária, tais quais as conhecemos, não há epidemias.

    Então devemos retornar à situação de caça e coleta?

    Evidente que não! Isto seria tão estúpido quanto supor que auto-disciplina implica em auto-flagelação.

    Auto-disciplina não é erigir para si mesmo um Estado interior, nos submetendo 24×7 pela vigilância e controle, ou nos organizarmos como um partido, com um comitê central comandando nossas vidas.

    Auto-disciplina é a única possibilidade de florescer e fortalecer nossa potência, sem a qual nenhuma luta política de emancipação pode ser levada a cabo.

    Por sua vez, o surgimento de micro-organismos altamente letais tem sua origem primária nas formas de produção agrícola (incluindo a apropriação e armazenamento do excedente), bem como na criação intensiva de animais em confinamento e na substituição extensiva de florestas por pastos.

    Numa sociedade fundada na auto-gestão (portanto baseada na auto-disciplina), tanto a agricultura quanto a criação de animais teriam outra configuração.

    E qual a relação disto com o Fascismo?

    O Fascismo surge nos momentos de crise aguda do Capitalismo, mas só pode triunfar como uma revolução dentro da ordem caso consiga erradicar toda e qualquer possibilidade de auto-gestão.

    O Fascismo não é uma resposta irracional, ao contrário é decorrência racional de um modo de vida completamente irracional.

    A pandemia não será superada por vacinas, por mais que estas possam ser um controle de danos.

    A terceira dose (e subsequentes) e as variantes são claro indicativo de não haver solução por dentro de um sistema que em si é o problema.

    Outras pandemias virão, tão destrutivas quanto as próximas crises do Capitalismo, do qual elas decorrem pela globalização das epidemias.

    Em meio a tantos negacionismos, deste nascem todos os demais: a negação de que fora da auto-gestão como meio e fim, irá prevalecer a extinção.

  2. A leitura deste artigo me fez lembrar de um militante, vegetariano, na cidade de Curitiba, por volta do ano 2009, que acreditava que na futura sociedade anarquista não nasceriam mais pessoas com Síndrome de Down. Ele justificativa tal assertiva dizendo que nesse futuro apenas existirá a produção de alimentos sem uso de veneno e, consequentemente, uma alimentação saudável, o que bastaria para corrigir naturalmente, e ao longo das gerações, inclusive uma alteração genética como aquela.

  3. Caro João, quanto tempo.
    Ando sumido, mas costumo acompanhar o coletivo e já li muitos textos seus aqui, assim como trocamos ideias aqui nos comentários também.

    Este seu artigo me deixou um tanto quanto inquieto, talvez. Porque me parece tocar em vários pontos importantes de uma maneira coerente, mas me incomoda como algumas coisas parecem se misturar ou serem tratadas como uma unidade.
    Essa convergência entre os extremos de esquerda e direita, por exemplo, me parece algo bastante interessante de ser notado e um movimento que está sendo cada vez mais conscientemente usado para tentar articular as massas. No Brasil de hoje é comum a gente ver os bolsonaristas mais fanáticos fazendo críticas (coerentes?) ao papel da mídia hegemônica, ou ao sistema judiciário e claro às grandes coorporações do ramo farmacêutico e por aí vai

    Me parece que existem algumas convergências entre os extremos que podem vir a tona em momentos críticos e acabar contribuindo pra virar tudo uma massa confusa. Mas, por exemplo. Quando falamos do ”movimento ecológico” ou seu plural, ou quando falamos de uma crítica à uma ciência que quer ser tratada como uma verdade religiosa ainda que nem sempre seja boa em assumir suas premissas fracas ou improváveis, será que não é importante diferenciar os matizes no meio de tudo isso?
    Digo isso porque no texto parece que o ”movimento ecológico” é um todo coeso. Será que vale a pena fazer algumas diferenciações tipo, sei lá, comentar que existe um movimento ecológico que é narrativamente hegemônico, e isso não é a toa. Talvez esse tipo de diferenciação possa inclusive atrair mais debate.
    Conheci algumas moças que participam (em maior ou menor grau) ou são relativamente simpáticas aos movimentos identitários ou algumas de suas pautas, mas preservam uma perspectiva marxista e uma noção de classe. É complicado articular essas coisas, mas na prática o que tentavam era participar desses espaços e levantar a união pela classe mais do que a diferenciação pelas identidades. Ainda que possam fundar ou liderar movimentos com esse tipo de orientação, eles são minoritários, justamente porque existem movimentos (identitários, ecológicos, etc) que dominam a narrativa e contam com o apoio e financiamento do capital, e esses movimentos certamente correspondem mais ao que você vem denunciando há muito tempo.

    Digo isso porque, por exemplo:

    ”Mas as raízes do problema descem mais fundo e, para o entendermos, é necessário destacar que não são as relações sociais de trabalho que preocupam o movimento ecológico, interessado unicamente pelo ponto de vista do consumidor. Tudo o que o movimento ecológico procura é promover produtos ou ambientes rurais e urbanos que ele mesmo apresenta como saudáveis, sem se interrogar minimamente sobre as condições de trabalho exigidas. E assim a esquerda, convertida à ecologia, abandonou aquilo que a caracterizara, uma perspectiva de classe assente no processo de produção, e restringiu-se à esfera do consumo, perspectiva tradicional do liberalismo e do reformismo de direita.”

    Este trecho me deixou inquieto, porque é algo que já ouvi de um amigo diversas vezes. A questão é que esse amigo sempre foi de direita e com tendências reacionárias, que desde 2018 estão vindo a tona com toda a força. Para ele, que inclusive estava nas manifestações de terça-feira, é bem por aí o que o movimento ecológico representa: uma negação da ciência, uma forma de precarização, uma ineficiência, um processo anti-evolutivo visto que a tecnologia deve ser incorporada para melhorar as vidas das pessoas e por aí vai
    É interessante notar que o seu texto aponta a convergência entre os extremos e contém um trecho que me é um claro exemplo de uma das formas dessa convergência.

    Além disso, não há esgotamento de recursos naturais no mundo? É um mito? Ha preocupação de ordem ambiental ou ecológica no marxismo?

    Aliás, parece que um artigo recente do safatle teve um tom de “o brasil acabou, está tomado por uma minoria reacionária que não tem medo de lutar, a esquerda precisa assumir uma postura combativa, também”
    Me pergunto como tem sido a participação dele nas lutas e nos movimentos, especialmente desde que a pandemia começou

  4. Caro Gabriel,

    A minha resposta, ou tentativa de resposta, será insatisfatória, porque você cobre um vasto leque de questões, que exigiriam centenas de páginas para ser respondidas devidamente. Na impossibilidade de o fazer, resigno-me a remetê-lo para outros lugares.

    1) Assim, para começar, a noção do fascismo como resultado da convergência entre extrema-direita e extrema-esquerda está na base de tudo o que escrevi sobre o assunto, nomeadamente o Labirintos do Fascismo, que é fácil encontrar na internet, e que aconselho na 3ª versão.

    Aliás, não se trata tanto de convergência como sobretudo de cruzamento. Em termos mais próximos da linguística, que eu prefiro, trata-se de um eco de temas originados na extrema-direita e que repercutem na extrema-esquerda, combinado com um eco de temas gerados pela extrema-esquerda e que soam na extrema-direita. O fascismo é isto, e portanto eu não o incluo nos extremos do leque político convencional. Ele é outra coisa, criou outro terreno.

    Este cruzamento de ecos implica que o fascismo seja uma realidade dinâmica e instável, continuamente sujeito a tensões. Eu defini o fascismo como uma revolta na ordem; a revolta, que é um eco da extrema-esquerda, na ordem, que é um eco da extrema-direita. Eu defini também os regimes fascistas como situando-se no cruzamento entre um eixo endógeno, quer dizer, um eixo gerado pelo próprio fascismo, que une o partido fascista aos sindicatos fascistas e às milícias fascistas; e um eixo exógeno, já existente anteriormente, que une as Igrejas ao exército. Nestes termos, o fascismo está numa permanente tensão interna.

    Vejo muitos brasileiros espantarem-se agora com o facto de no dia 7 de Setembro o presidente Bolsonaro ter excitado as suas bases mais radicais com apelos à insurreição para ontem, depois de escutar o ex-presidente Temer, ter procedido a declarações conciliatórias. Não há motivos para perplexidade, nem isto significa avanços e recuos. Trata-se apenas de um episódio nas tensões internas entre revolta e ordem em que todo o fascismo se constitui. Não fosse o receio de alongar demasiadamente esta resposta, fornecia-lhe aqui uma enorme lista de exemplos da mesma oscilação, desde o fascismo italiano e o nacional-socialismo germânico até ao peronismo na Argentina, passando pelo franquismo em Espanha e pelo Estado Novo em Portugal, sem esquecer o fascismo nipónico. Uma vez mais — e por muito que custe aos brasileiros admiti-lo — o Brasil está no mundo.

    2) Mas a sua principal questão diz respeito aos movimentos ecológicos. Ora, a minha primeira crítica aos movimentos ecológicos data de 1977, no prefácio à edição espanhola de um livro meu, reproduzido depois numa revista portuguesa. Isto significa que desde há quarenta e quatro anos a crítica aos ecológicos constitui um dos principais eixos de continuidade das minhas intervenções. Mesmo a preparação de uma obra como Poder e Dinheiro, onde o assunto não está explicitamente tratado, teve uma grande importância no desenvolvimento e na consolidação da minha crítica à ecologia, na medida em que me permitiu estudar os efeitos altamente destrutivos das técnicas usadas em sistemas económico-sociais anteriores ao capitalismo e à indústria.

    É certo que existe uma variedade de movimentos ecológicos, desde aqueles que se mantêm num certo plano de racionalidade até aqueles que se confundem com a New Age nas lucubrações místicas. Mas todos eles partilham um mesmo quadro, e é por isso possível referi-los em conjunto.

    a) Um desses aspectos comuns é o mito da natureza, com o seu corolário do equilíbrio natural, ou seja, a noção da natureza como um organismo que pune aqueles que a violarem. Trata-se de uma nova encenação da Árvore do Paraíso e da malfadada maçã.

    b) Outro desses aspectos comuns é a noção de esgotamento dos recursos naturais, como se a tal natureza fosse um saco com um número limitado de coisas lá dentro. Também aqui deparamos com o antiquíssimo mito de que os deuses concedem as benesses com a condição de nós lhe fazermos os devidos sacrifícios. Quantas centenas de milhares de corações os aztecas arrancaram aos seus prisioneiros de guerra para assim alimentarem a divindade solar Huitzilopochtli! O mundo mental dos movimentos ecológicos não é muito diferente, só que agora substituem os corações pela mais-valia absoluta. Na realidade, porém, a noção de esgotamento da natureza partilha uma noção de matéria típica do Iluminismo do século XVIII, que já fora posta em causa pela noção de campo, no século XIX, para ser liquidada no século XX pela noção de energia. Será que falam de esgotamento da energia? Aconselho-o, como prefácio a esta questão, a ver as previsões feitas pelo Clube de Roma em 1972. Alguns exemplos encontram-se no meu artigo «“Os Limites do Crescimento” ou crescimento sem limites?». O curioso é que o fracasso daquelas previsões em nada contribuiu para o descrédito do Clube de Roma. Os fiéis das Igrejas apocalípticas são imunes aos baldes de água fria.

    3) Para terminar, convém sublinhar que os dois temas desta minha resposta, o fascismo e o movimento ecológico, estão intimamente relacionados. Os ecológicos gostam pouco, ou não gostam mesmo nada, de fazer a história do seu movimento, e compreende-se porquê. É que os movimentos ecológicos foram gerados no fascismo. A filiação, só por si, deveria ser esclarecedora. Mas, uma vez mais, nada esclarece os fiéis das Igrejas.

  5. Não entro no debate do aquecimento global e da esgotabilidade dos recursos porque me falta leitura além da cobertura midiática, mas penso que, pela filosofia, o trabalho do Clément Rosset coloca um tempero bom nessa discussão.

    No livro “A antinatureza: elementos para uma filosofia trágica”, ele apresenta o naturalismo como ilusão, preconceito, miragem assentada no próprio antropocentrismo, desde os gregos. João Bernardo fala dos iluministas, e é interessante ver como esses mesmos autores que trouxeram a natureza pra pensar as transformações radicais, as revoluções, como o Abade Raynal, nos colocam ou mantém numa condição de devedores, de aprendizes eternos de forças transistóricas apresentadas pela natureza. Forças às vezes “caprichosas”, “vingativas”, outras vezes “acolhedoras”, “misericordiosas”,…

    Mesmo comentando “de orelhada”, porque tem muitos anos que eu li esse livro, arrisco dizer que o argumento central é que se é natural aquilo que no mundo “se faz por si mesmo”, independente do homem e seus artifícios, de seus acasos e liberdade/arbítrio, acaba se estabelecendo sorrateiramente que nossas necessidades são essencialmente naturais, que (ao menos as maiorias, acrescento) não poderemos nunca nos desprender desse fato, pois afinal a natureza seria o Princípio e o Fim da existência, seria Deus (com quem a humanidade pecadora poderia apenas apressar o encontro).

    Claro que esse argumento não vem para a glória de um ente qualquer, mas para sustentar e reforçar alguma posição política e ideológica na conjuntura, obscurecida pela operação discursiva. Fica sem explicação, por exemplo, a consideração dos clássicos de que os operários alemães tinham necessidade de cerveja enquanto os operários franceses tinham necessidade de vinho. Aliás, é o contrário, não fica sem explicação, não, torna-se mais compreensível pensar que tal ou tal necessidade seja considerada um “luxo”, “para poucos”, enquanto outras são admitidas.

  6. Fiquei sabendo recentemente que uma conhecida se recusa a tomar a vacina contra a Covid-19 por desconfiar da celeridade com que as vacinas foram elaboradas, além de desconfiar do poder destrutivo de todas as vacinas e dos interesses maléficos da big pharma. Fiquei sabendo também que seu filho, de 4 anos de idade, nunca tomou sequer uma vacina. Ela pede que não a critiquemos por ser uma escolha individual, assim como ela respeita nossa escolha individual por tomar vacinas.
    Ela odeia o Bolsonaro, é feminista, bruxinha, gosta de cristais e incensos e ervas, só anda de bicicleta, produz cosméticos com produtos naturais não poluentes, recicla lixo, faz compostagem…

    Outra é uma ex-estudante de uma instituição de ensino onde há cursos na área de saúde e onde vacinação é estudada no âmbito da saúde coletiva, e não individual. Ela também tem as mesmas desconfianças em relação à vacina e diz publicamente que não tomará a da Covid-19, pois trata-se de uma escolha individual e todos devem respeitar – assim como dizem das religiões.
    Ela também não gosta do Bolsonaro, é feminista, bruxinha, ecológica, maqueia-se a si e seu namorado com menstruação e ama o cerrado.

    Junto com elas há outras amigas… e muitas mais.

    Hoje peguei um carro emprestado para resolver problemas e a rádio estava ligada na Jovem Pan, reconhecidamente uma imprensa bolsonarista, senão a mais abertamente bolsonarista das imprensas privadas. Estava lá o tal do Fiuza, um médico bolsonarista e mais alguns dizendo dos perigos da vacinação para adolescentes e inclusive, com sensacionalismo típico, dizendo que muitas mães já choram as mortes de seus filhos em decorrência da vacina. Apesar disso, reconhecem que a vacinação não é obrigatória e que respeitam as opiniões individuais em tomar ou não, mas desaconselham.
    A Jovem Pan é povoada por aquilo que as bruxinhas chamam de fascistas, homens-brancos-cis-heteros.

  7. Concordo com o autor em grande parte, mais tendo a ver a ecologia como outros assuntos em sua ambiguidade.
    Fico tentando definir melhor a Ciência, pois acredito que é uma visão do mundo interessante para nós. Sim, temos ai um largo espectro da esquerda que é contra a ciência nesse assunto das vacinas , mais quando falamos em Mudanças climáticas por exemplo, a opinião muda e a ciência oficial ( onu ) passa a ser creditada e tida como máxima autoridade. Ai a ciência atende a todo essa agenda anti- progresso , mais estimula novas tecnologias ” limpas” . A ciência junto a ecologia tem se configurado num campo gestor do capital nos tempos atuais com grande apelo. Como encarar essas contradições ;?

  8. Giovanni,

    Quando se fala de ciência convém discernir, pois com frequência os lobbies ecológicos nos grandes meios de informação denominam «cientistas» pessoas de especialidades diferentes das do assunto em questão. Conhecendo pessoalmente o meio científico a perspectiva é outra.

    De qualquer modo, quanto à questão climática e em traços muito gerais, remeto para o que escrevi no primeiro dos artigos do ensaio São Marx, rogai por nós. E já que nesse artigo eu citei The Economist a propósito das oportunidades económicas geradas por essa colossal renovação da indústria, tanto nos bens de consumo como nas infra-estruturas, convém notar que este órgão do grande capital chamou ontem a atenção para a possibilidade de as camadas de rendimentos mais baixos não estarem dispostas a pagar as modas ecológicas. Ver o artigo «An anti-green backlash could reshape British politics».

    Ainda sobre a relação entre os ecológicos e o meio científico, João Aguiar propôs uma perspectiva radicalmente inovadora no seu ensaio em quatro partes Uma ou duas classes dos gestores?. Eu pretendi prolongar essa reflexão no artigo Gestores ideológicos?, o que levou João Aguiar a prosseguir com o artigo A massa e os gestores ideológicos: considerações sobre um tema inacabado. E ele tem razão — é um tema inacabado.

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