Por Giovanni Souza Martinelli

 

Ocorreu recentemente um caso que seria bastante trágico, se não fosse tão cômico. Will Smith – um ator famoso -, esbofeteou a face de Chris Rock – um comediante famoso – após este último realizar uma piada sobre a companheira do primeiro – Jada Smith. Muitos poderiam afirmar que esta situação não foi nada engraçada. Contudo, defendo que foi exatamente por esta ter sido grotesca e um tanto reveladora. Grotesca por ter sido uma situação desnecessária e supérflua; e foi reveladora por mostrar diversas contradições que o atual momento do capitalismo gerou na relação entre as pessoas.

Antes de entrar no cerne da questão, é interessante notar que no momento da agressão, o público que a presenciou acreditou que aquilo foi ensaiado e falso. Até deram gargalhadas! Como é possível alguém ser agredido e todas darem gargalhadas? Só em uma situação bastante específica isto poderia ser possível de acontecer. Primeiramente, Chris Rock é um comediante. E, ao ser agredido, todos pensaram que seria mais uma piada dele, planejada e surpreendente como sempre são. Contudo, acreditamos que o lugar onde estavam é a principal determinação para as gargalhadas sádicas do público: nada é mais falso que a cerimônia do Oscar. Se a cerimônia é falsa, tudo que ocorre ali tende a ser igualmente falso. Foi, portanto, mais fácil acreditar que um comediante estivesse fazendo uma piada sobre ser agredido nesta cerimônia, do que acreditarem que um ser humano foi autenticamente agredido nela e sob o testemunho de todos que assistiam. O que demonstra a total falta de seriedade de tal cerimônia.

No entanto, o que gostaria de focar aqui é nas contradições reveladas após essa situação. Várias pessoas começaram a dar seus palpites sobre quem estava certo ou errado, julgando eticamente e moralmente os envolvidos a partir de uma perspectiva identitária. Diante de tantas posições, para ilustrar a miséria do identitarismo, focaremos naqueles que enobrecem Will Smith por ter defendido a honra de sua companheira, uma mulher negra que foi supostamente oprimida por Chris Rock, que teria sido racista e “machista”.

Acusar Chris Rock de racismo é desconhecer sua própria história na comédia, que foi marcada pela luta anti-racista (mesmo que despolitizada). E seria muito difícil um homem negro engajado como ele ser racista. Com certeza, sua piada não foi motivada pela cor da pele de Jada Smith. E também, a piada não foi para humilhar ela, por esta ser mulher. A miséria do identitarismo está indo tão longe, que é possível acusar alguém de racismo e “machismo”, mesmo que estes adjetivos estejam longe de descrever o que ocorreu. Estes identitários enxergam racismo e o “machismo” até na maneira como escrevemos as palavras e, de certo, enxergam essas características nos outros e até em si mesmos. A grande questão é que a piada de Chris Rock foi sobre a Jada Smith estar sem cabelo e parecida com a protagonista (Demi Moore) do filme “Até o Limite da Honra”. A piada foi de muito mal gosto e sem graça por ela estar sem cabelo em decorrência de uma doença autoimune. Mas… pasmem: ela realmente está careca e parecida com a protagonista do filme. Ele fez uma piada sobre a realidade, e não sobre alguém ser negra ou mulher. O óbvio parece ser necessário ser dito em um mundo onde ninguém está preocupado com a verdade. O importante parece ser enxergar o racismo e o “machismo” inexistente e ganhar curtidas efêmeras nas redes sociais. O que importa, para nossos caros identitários, é apontar aquilo que deve ser mudado na sociedade, contudo aquilo que eles apontam não existe concretamente… então, no fundo, nada precisa ser mudado, mas apenas conservado e todos ficarão satisfeitos por terem tido uma discussão superficial. Chris Rock fez uma piada sem graça e, ao invés de ser punido apenas com o silêncio, Will Smith quis mostrar sua capacidade de ser um completo inescrupuloso e o agrediu.

Aliás, ninguém comentou sobre a mentalidade completamente competitiva de Will Smith, o que é revelado nas próprias mensagens dos filmes que ele participa e em seus discursos. Inclusive, o prêmio que ele conquistou de melhor ator foi exatamente por ele ter participado de um filme sobre um pai que treinou compulsoriamente suas filhas para elas conseguirem vencer a competição social, algo que Will Smith não deixou de elogiar em seu discurso nesta mesma noite da agressão. Seria a agressão de Will Smith fruto de sua conduta ética e defesa da honra de sua esposa, ou apenas uma demonstração de poder e competição? Os identitários nunca chegariam nesta pergunta, uma vez que enobreceram este ato só por Jada ser uma mulher negra sem cabelo e supostamente com a autoestima em suspenso. O supérfluo fica cada vez mais supérfluo, e o conteúdo real é simplesmente ocultado: um homem negro com uma mentalidade competitiva, que é violento e agressivo em decorrência da competição presente no mundo das produções cinematográficas.

Escrevemos muitas linhas sobre Will Smith e seu caráter competitivo e nada sobre Chris Rock. O que será que motivou a piada que ele fez? Como dissemos anteriormente, é algo muito bizarro afirmar que foi o racismo ou “machismo”, uma vez que o conteúdo real da piada não corresponde com nenhum desses adjetivos. Mais uma vez o óbvio deve ser dito: ele fez essa piada, pois foi contratado pela organização do evento para fazer piadas durante a entrega de um dos prêmios. Chegamos a uma conclusão bastante refinada: comediantes fazem comédia e pessoas competitivas tendem a ser agressivas.

No entanto, para além dessa conclusão bastante refinada e ao mesmo tempo óbvia, devemos perceber aquilo que está atrás das cortinas desse espetáculo: Will e Jada Smith estavam em uma cerimônia completamente hipócrita, que valora a competição, onde teriam comediantes que fazem comédia ridículas e atores que receberiam prêmios apenas por terem aceitado uma quantidade de dinheiro em troca de cumprir um papel feito marionetes sem autonomia, enquanto diversas outras produções são marginalizadas por expressarem mensagens e valores que não correspondem com eventos como esse. Se não quiserem ser ridicularizados, minha sugestão é não comparecerem em um espetáculo do ridículo. Estar lá já é uma humilhação muito grande, mas isso será melhor percebido em um futuro onde a utopia já se realizou.

Contato do autor: [email protected]om

 

As artes que ilustram o texto são da autoria de Roy Lichtenstein (1923-1997).

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