Por Patricio Azócar Donoso[1]

Para César Pérez, para meu pai, e para todes aqueles que pegaram a própria vida. Nem um minuto de silêncio e toda uma vida de combate.

“O que conquistamos como povo? Temos que perder o medo. Eles nos odeiam… nós também os odiemos. Que medo há em odiar? Temos que ter a força do ódio para poder estar contra eles, para poder lutar contra eles.” Luisa Toledo

Desde 1985, todos os 29 de março, comemora-se em todo o Chile o Dia do Jovem Combatente. Uma jornada de memória que recorda o assassinato de Rafael e Eduardo Vergara Toledo durante a ditadura militar de Pinochet e a luta de seus pais, Luisa e Manuel, e de toda Villa Francia, sua comunidade, por justiça. Com o mesmo empenho, durante todo esse tempo, os meios de comunicação e as elites não pouparam esforços para diminuí-lo, limitá-lo, manchá-lo, boicotá-lo. Campanhas midiáticas como a do “dia do jovem delinquente” são disseminadas entre os setores populares, buscando agravar as condições de precariedade e cansaço, incitando conflitos entre comunidades e vizinhos. No entanto, a potência de cada 29 de março persiste e insiste. Pequenas reuniões, confabulações, atos públicos e íntimos, com maior ou menor radicalidade nas ruas, não param de se multiplicar. As derrotas, os mortos, os assassinados, os suicidados, são nomeados, velados, abraçados, vingados. O 29 de março é o que sustenta a palavra dignidade e a faz persistir ante o esquecimento coroado da democracia neoliberal.

Quando eu tinha uns 12 anos, foi minha primeira “velatón”. Sempre vivemos muito perto de Villa Francia. Não lembro bem como chegamos, eu e minha mãe de mãos dadas, até a esquina das grades com a rua 5 de abril, onde todos os anos Eduardo e Rafael são lembrados. Essa também foi a primeira vez que ouvi Luisa. Mãe insubmissa de todes que dedicaram suas vidas à luta contra o capital. Mãe de todes que perderam alguém querido pela violência da democracia capitalista. Com a mesma sensibilidade e ressonância com que lembro de Luisa, consigo escutar minha mãe dizer: “Que força têm as palavras dessa senhora”. Pouco antes, meu pai havia se suicidado. Não há dúvida de que nas palavras de Luisa pudemos abrigar parte importante de nossa incerteza e perder o medo de dizer a palavra ódio. Ódio ao consenso do capital e condolência com outres desconhecides que, de uma forma ou outra, mais direta ou indireta, perderam alguém ou algo devido à fé desmedida na democracia capitalista e sua violência organizada.

O 29 de março é a condolência no ódio ante a cumplicidade na impunidade. A con-dolência, o exercício de sentir com e através de outrx desconhecidx, é o que nos permite reposicionar o corpo e sua presença diante da violência organizada, da impunidade, da injustiça e do silêncio com que tentaram selar o infame retorno à democracia no Chile. Enquanto todes clamavam pela “alegria que viria” — e que todes sabemos que nunca veio —, Luisa nos acolhia no ódio. No calor de uma maternidade que jamais esquecerá quem matou seus filhos, e em torno desse clamor por justiça infinita e ilimitada, ser capaz de cultivar uma comunidade. O 29 de março é a continuidade transgeracional com que milhares de mães, cuidadorxs, legam às gerações futuras uma pergunta infinita por justiça por aqueles que já não estão. Uma pergunta que, no entanto, não espera. Uma pergunta e uma demanda que cria, que reúne, que vincula, que afeta e, portanto, dá lugar e abriga o sentimento de vingança e ódio como parte fundamental da vida política. Com Luisa, sabemos que não há vida reprodutiva, cuidados, carinhos, amores sem um direito legítimo à guerra, ao ódio, contra aqueles que conspiram contra os despossuídos e impedem uma comunidade política de cuidados. Ou seja, sustentada na memória e no direito absoluto ao desacordo e à dissidência. Em nome de Luisa, no 29 de março chileno, ressoa a mesma potência política que impõe um limite absoluto à insensibilidade descarnada e institucionalizada na Argentina ou no México. A mesma potência que convoca o povo argentino por seus aposentados ou todas as organizações sociais latino-americanas em torno das mães buscadoras de desaparecidos no México.

Quando no Chile dizemos 29 de março, nomeamos todes nossos mortos e herdamos suas intensas biografias. Mas não pedimos lugar para eles nos aparelhos e consensos que os assassinaram. Em vez disso, os abrigamos, lembramos, acariciamos no pleno exercício de ocupação absoluta das ruas, da calma e da tranquilidade. No enfrentamento direto contra as forças repressivas que, diferentemente de nós, herdam a responsabilidade ética, moral e política dos algozes. O 29 de março no Chile é a imposição de um limite absoluto ao silêncio sobre o qual se fundou a distribuição desigual da riqueza, mas também da tranquilidade. E diante dessa afirmação radical e crua, o Dia do Jovem Combatente segue sendo um gesto de honra, de memória, de vingança contra as mais diversas figuras responsáveis por preservar esse princípio de injustiça e esquecimento.

O 29 de março não precisa se justificar, nem ser entendido, nem institucionalizado — exige implicação, atenção, acolhimento. Luisa Toledo e Manuel Vergara, Rafael, Eduardo, Pablo, Aracely… seus nomes não esperam nada mais que serem atendidos e lembrados. Suas memórias, biografias, histórias, coragens, paradoxos, contradições precisam ser velados como o que foram e ainda são até hoje: um grito encarnado e absoluto por justiça. O 29 de março é a afirmação afetiva de uma coragem maternal que se herda e se cultiva na luta: no enfrentamento direto, mas também na construção cooperativa de novas infraestruturas para uma vida digna. O 29 de março é a educação afetiva do porvir. É o carinho afetivo e a intimidade revolucionária que justifica o ódio e queimar tudo diante da violência organizada e da distribuição desigual do direito à tranquilidade. Que o nome de Luisa Toledo nunca seja esquecido, assim como o de Mariano Puga e todes aquelxs que sentiram a exigência de lutar por quem não teve nome nem lugar na história dos vencedores. Por um 29 de março intransigente, de cuidados mútuos e uma responsabilidade ética selvagem. Por quem já não está, mas também por aqueles que virão!

Notas

[1] Integrante da Cooperativa Espaço .terra (e-tierra.org) e do Coletivo de Pesquisa Política Vitrina Distópica

As fotografias com o logo FF são do coletivo fotografia e protesta.

Texto publicado em espanhol aqui e aqui.

Está disponível uma entrevista em espanhol com Luisa e Manuel.

4 COMENTÁRIOS

  1. O comentário de Incrédulo fez-me lembrar o artigo A barbárie, que publiquei no Passa Palavra há já quase cinco anos e que entretanto esquecera, como esqueci outros. Ao reler agora esse artigo vi como ele se desactualizou, e a todas as destruições da linguagem que eu enunciara soma-se outra, que leva à proliferação de X, ao desvirtuamento de palavras pela ignorância da etimologia ou a escrever coisas como «as nossas corpas», porque é claro que, se os homens têm corpos, as mulheres devem ter corpas e xs Xs não podem senão ter corpxs. É a barbárie a multiplicar-se.

  2. Bolsonarização da esquerda é quando o problema dela é a linguagem neutra.

  3. Aos leitores.
    O Passa Palavra não adota a chamada “linguagem neutra”. Entretanto, como se trata de um texto sobre uma luta e, além disso, de uma contribuição externa, resolvemos publicá-lo sem edições ou sugestões de edições.
    Cordialmente,
    Coletivo Passa Palavra.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here