Por João Bernardo

Há poucos dias um rapaz enviou-me uma mensagem. Criticava-me por eu defender uma posição rigorosa quanto à sintaxe e à ortografia dos textos, dizia-me que assim eu excluía as expressões populares e terminava afirmando que eu me colocava no lado errado na luta de classes. Isto dito por um garoto a um velho é uma acusação grave. Fiquei a pensar.

A linguagem é um instrumento técnico e, como tal, tem de ser usada com exactidão. Se o leitor tiver um problema com o sistema eléctrico no seu apartamento e chamar um electricista, imagine que ele confunde o fio fase com o fio terra e a chave de fendas com o alicate e usa o martelo para colocar o interruptor. O leitor ficará sem electricidade ou, pior ainda, terá um incêndio em casa. Com a linguagem, enquanto técnica, sucede o mesmo e os efeitos não são menos catastróficos. Uma sintaxe desorganizada e um vocabulário confuso impedem a expressão clara das ideias. Mas a linguagem caracteriza-se por uma peculiaridade relativamente a muitas outras técnicas, que é a de ter um efeito reverso, e se uma má utilização da técnica da linguagem prejudica a expressão, essa má utilização prejudica também o próprio processo de pensamento. Nós pensamos através de palavras, formulamo-las mentalmente ao pensarmos, e se a sintaxe é vaga e o vocabulário difuso, o pensamento não será diferente. Afinal, não se exprime bem quem não pensar bem e não pensa bem quem não se exprimir bem.

É absurda a acusação de que, pelo facto de eu insistir na necessidade de utilizar correctamente a linguagem como uma técnica, estaria a excluir a possibilidade de expressão popular. Numa mesma língua há várias linguagens, e cada uma exige uma utilização técnica rigorosa. Adoniran Barbosa estava a dizer isto mesmo quando explicou que «falar errado é uma arte, senão vira deboche». Tem de se saber «falar errado», ou seja, utilizar correctamente a técnica de uma linguagem popular, porque será um «deboche» fazê-lo sem a técnica correcta. Os romancistas que se especializam na transposição da linguagem falada sabem as dificuldades técnicas com que deparam.

Aquela afirmação de Adoniran, porém, está datada. Ela é de uma época em que as classes dominantes viviam de costas voltadas para os trabalhadores. Aliás, até uma data relativamente recente, em todo o mundo, em todos os sistemas económicos, em todas as sociedades, havia um hiato muito pronunciado entre as classes dominantes e a população trabalhadora. Num artigo acerca de Mário Quintana publicado neste site, Jan Cenek contou que «a família do poeta se comunicava em francês, para que os empregados não entendessem o que se falava». Não sei até que ponto isso teria sido corrente no Brasil, mas no século dezanove era a norma no império czarista, tanto na Rússia como na Polónia. Nestes casos não se tratava só de uma diferença de linguagens, mas de uma diferença de línguas. Não era necessário, todavia, chegar a tais extremos, porque no contexto de uma mesma língua os trabalhadores utilizavam dadas linguagens, com dadas técnicas de expressão, e a elite utilizava uma linguagem diferente, com outras técnicas. A classe dominante tinha uma cultura própria e não se incomodava com o facto de os trabalhadores terem as suas formas culturais. Ambos estes conjuntos sociais viviam, literalmente, de costas voltadas.

Foi assim que no Brasil o povo criou o samba e o chorinho e ritualizou a capoeira. O mesmo sucedeu em todos os outros países. Aliás, já na Grã-Bretanha, que juntamente com os Países Baixos foi a pátria de origem do capitalismo, o proletariado tinha as suas formas culturais próprias, paralelas às da elite. Para nos apercebermos disto basta ler os romances de Dickens e, prestando também atenção tanto à plebe como às elites, Vic Gatrell mostrou essa dualidade de culturas na Londres no século dezoito (City of Laughter. Sex and Satire in Eighteenth-Century London, Londres: Atlantic Books, 2006). Na mesma cidade, no século dezanove, Henry Mayhew descreveu minuciosamente o universo cultural formado pelo proletariado e pelo submundo (Christopher Hibbert (org.) London Characters and Crooks, Londres: The Folio Society, 1996). Num livro muito interessante (A Renegade History of the United States, Londres etc: Simon & Schuster, 2010), Thaddeus Russell analisou a contribuição decisiva dos negros, do subproletariado de origem italiana, irlandesa e judaica e do submundo constituído por prostitutas e gangsters para a formação da cultura norte-americana. Em Lisboa, foi no submundo do porto, entre os marinheiros regressados do Brasil, os negros da tripulação e as prostitutas que os tinham como clientes que nasceu o fado, essa maravilhosa forma de mestiçagem cultural, fundindo a herança moura da população miserável do sul do país e a música negra criada pelos escravos no Brasil. No país vizinho, os ciganos e a miserável população de origem moura do sul da Espanha criaram o flamenco e especialmente a sua forma mais sublime, o cante jondo. Em Paris, sem o orgue de Barbarie, o realejo de rua, e sem o acordeom, le piano du pauvre, o piano do pobre, como Léo Ferré lhe chamou, não teríamos o que veio a ser a canção francesa. Para quê dar mais exemplos? Eles repetir-se-iam para todos os países, todas as regiões. Entregue culturalmente a ele mesmo, o proletariado criou formas próprias de expressão linguística e, portanto, de expressão artística. E todas estas formas obedeciam a técnicas, com regras tão precisas como as de qualquer linguagem. Se «falar errado é uma arte», também fazer música errado era uma arte.

Esse mundo morreu. Antes de tudo, morreu quando surgiram os fascismos. O meu livro Labirintos do Fascismo tem sido bastante lido, pelo menos algumas frases ou, no máximo, alguns capítulos têm sido bastante lidos. Mas o livro é mal lido por todos os que desprezam a parte relativa à estética. O analfabetismo dos esquerdistas a respeito da estética é lastimável. Julgam que a estética é o Buda que a avozinha colocou em cima da televisão, tendo ao lado uma cegonha de plástico a fingir de marfim. E julgam que a estética pode pôr-se e tirar-se, tal como se faz com esses bibelots. Por isso, quando analisam um filme ou uma canção — romances, já não há esquerdistas que os leiam — falam do enredo do filme ou da letra da canção, ou seja, reduzem o filme e a canção a uma monografia sociológica e, portanto, retiram-lhes o carácter estético, que é precisamente o que os distinguiria.

Ora, quem não for capaz de fazer apreciações no plano estético será incapaz de entender o fascismo. Prosseguindo numa perspectiva aberta por Walter Benjamin, quando afirmou que o fascismo «tende naturalmente a uma estetização da vida política» (L’Œuvre d’Art à l’Ère de sa Reproductivité Technique, em L’Homme, le Langage et la Culture. Essais, [Paris]: Denoël / Gonthier, 1971, págs. 178-179), eu escrevi no Labirintos que no fascismo a política se reduziu, pela primeira vez na história, a um desempenho exclusivamente estético, ou seja, que a única coerência possível do fascismo, foi no plano estético que ele a adquiriu. Foi nesse plano que se gerou o totalitarismo e foi aí que culminou, já que, para o fascismo ser eficaz, necessitava de incluir as massas na grande encenação estética. Pela primeira vez as elites deixaram de estar de costas voltadas para a plebe, e foi este o sentido profundo que os fascistas deram ao populismo. Quando patrões e operários, donos da terra e camponeses envergavam os mesmos uniformes e desfilavam de braço esticado nas mesmas paradas, ouvindo os mesmos discursos numa mesma encenação comum, foi então que o proletariado e o subproletariado perderam as suas formas culturais próprias.

Ao perdê-las, perderam igualmente o domínio da técnica dessas formas culturais. Uma coisa era inseparável da outra. Deixando de ser «uma arte», «falar errado» passou a ser simplesmente falar errado. Num dos romances geniais do século vinte, Auto da Fé, Elias Canetti mostrou como a desarticulação da linguagem da empregada acabou por levar à destruição mental do letrado e depois à destruição física da sua biblioteca. Os trabalhadores tinham perdido a cultura própria, tendo perdido com ela a técnica da linguagem. A empregada do letrado simbolizava a trabalhadora do fascismo. Começou então a barbárie.

Entretanto, o mesmo se passou na grande democracia, de uma forma, aliás, mais eficaz e perene, com a indústria cultural de massas. Entre os primeiros a entender a convergência entre a estética da encenação fascista e a indústria cultural de massas sobressaem os teóricos da Escola de Frankfurt, que por estarem geralmente afastados da política prática durante a república de Weimar não foram logo presos pelos nacionais-socialistas em campos de concentração, e por não alinharem com a ortodoxia marxista não emigraram depois da guerra para a Alemanha de Leste, onde teriam sido silenciados pela burocracia stalinista. Permaneceram no exílio norte-americano ou estabeleceram-se na Alemanha Ocidental, e desde cedo denunciaram na indústria cultural de massas a modalidade democrática da estética fascista. Mas não nos entusiasmemos demais nos elogios a Marcuse e aos seus colegas, porque já antes, na defesa que apresentou perante o Tribunal de Nuremberga, Albert Speer, o tecnocrata de génio que havia sido o arquitecto particular de Hitler e a partir do início de 1942 tinha dirigido a produção de guerra do Terceiro Reich, mostrara como a mobilização política do fascismo tinha ocorrido no quadro de uma indústria cultural de massas. «O telefone, o telex e a rádio permitiram que as mais altas instâncias transmitissem imediatamente as suas ordens aos escalões inferiores, que as aplicaram sem discussão, devido à alta autoridade de que emanavam», disse Speer no julgamento. «Estes meios tornaram possível submeter os cidadãos a uma vigilância muito ramificada, ao mesmo tempo que ficou muito fácil manter em segredo os procedimentos criminosos» (Albert Speer, Au Coeur du Troisième Reich, [Paris]: Fayard (Le Livre de Poche), 1979, pág. 676). A televisão inseriu-se nesta sequência lógica, permitindo que a indústria cultural norte-americana atingisse uma esfera mais ampla e penetrasse mais profundamente do que o fascismo hitleriano. Afinal, na sua defesa o ministro do nacional-socialismo derrotado estava a antecipar o processo da democracia vencedora.

Naquela sequência o passo seguinte foi dado pela internet, que fez a indústria cultural de massas alcançar dimensões colossais, ou até ilimitadas. Pelo menos, não lhe vislumbramos limites, porque as redes sociais multiplicam sem fim a indústria cultural. E a partir do momento em que todos estão presos nessa rede, todos podem sentir-se livres dentro dela. Os padrões desaparecem. Faça você mesmo a sua indústria cultural de massas.

É aqui que a barbárie se generalizou. Terminei assim um artigo intitulado Epílogo e Prefácio. Um Testemunho Presencial: «Agora […] as classes dominantes apresentam-se desprovidas de biombos institucionais, que são a mais eficaz das protecções. E quem vão enfrentar? Aqueles que se têm movido nos últimos anos contra o capitalismo não são operários qualificados mas trabalhadores precários, não são estudantes letrados mas analfabetos funcionais que incluem a cultura no mesmo desprezo que sentem por tudo o resto, jovens dos subúrbios — dos subúrbios das cidades e dos subúrbios do mundo — enquadrados por mais ninguém senão por eles próprios e capazes do furor destrutivo necessário para abalar as instituições em que vivem. Será este o perfil da próxima maré de lutas sociais. A violência sem precedentes de um confronto generalizado desprovido de mediações». E depois de enumerar algumas das músicas que nós, os revoltosos da década de 1960, ouvíamos e «nos serviam de liturgia», procedi à soma final. «Chamaram violência a esta candura. E o quê, agora? O que anunciam as músicas que dão voz às revoltas urbanas de hoje?».

Essas músicas são o rap e o funk e coisas assim. A desarticulação da linguagem que Canetti, no seu romance, escalpelizara na fala da empregada do letrado caracteriza hoje a generalidade da população comum — uma sintaxe fragmentada, um vocabulário ao mesmo tempo reduzido e impreciso, uma ortografia desregrada em que a genealogia das palavras fica incompreensível e, portanto, em que a língua perde a história e a profundidade. A moderna analfabetização vai mais longe quando as palavras são substituídas por uma ou duas dezenas de símbolos convencionais, emoticons ou emojis, desprovidos de subtileza porque não podem inserir-se em nenhuma sintaxe e, portanto, não podem ser tratados com nuances e efeitos. O reverso aqui é imediato, porque se a utilização desses ícones prejudica a expressão, prejudica igualmente o processo de pensamento. Decerto muitas pessoas que utilizam as redes sociais mostram algum grau de resistência a esta desnaturação da linguagem. Mas em maior ou menor medida ela afecta todos, tanto mais que, por baixo de qualquer coisa, imagem ou texto, está uma mão com o polegar virado para cima e outra com o polegar virado para baixo. Era o gesto dos imperadores romanos quando lhes perguntavam o destino do gladiador derrotado — deixa-se viver ou mata-se? Like ou dislike? Mas esta é a destruição do espírito crítico, que não pode ser contido na alternativa de gostar ou detestar. É igualmente a negação de qualquer possibilidade de análise, que não se compadece com a modalidade bipolar simpatia / antipatia.

Apresentar como proletária a indústria cultural de massas é reduzir os trabalhadores àquilo a que o capitalismo os quer reduzir. É a apologia da barbárie. É a forma palatável do fascismo. Foi a indústria cultural de massas que permitiu a rápida difusão do identitarismo — tanto os identitarismos étnicos como o feminismo e os identitarismos sexuais — compondo o fascismo pós-fascista.

A esquerda outrora apresentou a alternativa socialismo ou barbárie, mas aquilo que agora passa por esquerda propõe socialismo e barbárie. Se a indústria cultural de massas corresponde à barbárie, a maior tragédia ocorre quando essa barbárie é assumida pela própria esquerda. O fascismo é isto mesmo, é o eco da direita na esquerda e da esquerda na direita, num permanente vaivém. Por isso, defender uma posição rigorosa quanto à sintaxe e à ortografia dos textos é hoje o fundamento de um possível discurso revolucionário.

A fotografia de destaque é de Victor Fraile e a outra é de Josephine Runneboom.

8 COMENTÁRIOS

  1. João só trouxe o primeiro passo
    Ao enunciar aqui sua conclusão
    Diz-nos o Evangelho: “aquele que não aceita ser triturado por sua época e almeja, de peito aberto, confrontar-se com seu tempo, para garantir a revolução, há de, com ânimo, seguir com a procissão”.
    Depois de aprender na lagoa a escrever corretamente
    Há de aprender em mar aberto a escrever inconvenientemente
    Se até então a palavra era sagrada
    Agora é bem-vinda a profanação
    Na linguagem escrita ou falada
    Há que meter a mão
    E desmontar a estrutura
    Levar à baixo a construção
    E contra tudo que separa
    Irrigar aquilo que ampara
    E se não posso fazer aposta
    Que fique registrada a proposta
    Nessa divina comédia humana
    Dancemos de mãos dadas
    O novo mandamento clama:
    “Unidos pelas gargalhadas!”
    E com a força de um vulcão
    Construir a insurreição:
    Adentrar o miolo da palavra
    Aprimorar a comunicação!
    Aí sim tamo podenu
    Falá errado, tá sabenu?
    Mas só então.
    Um novo passo aqui é dado
    Rumo à tal revolução
    Eu falo sério, não se ria
    Aquela que mais faz falta
    Todo mundo sabe (ou devia)
    É a poesia.

    p.s: não é atoa que os períodos de revolução são também períodos de florescimento sem igual de vanguardas artísticas: diante do assombro das portas abertas a criatividade se volta para o ato comunicativo, para o ser entendido e fazer-se compreender sob renovadas formas. Talvez a barbárie possa ser medida pela quantidade e qualidade das vanguardas artísticas que vão surgindo, ou que deixam de surgir, ou que surgem como vanguardas farsantes, que apenas repõem formas já há muito criadas e que, justamente pela miséria espiritual em que nos encontramos (não conhecemos sequer nosso passado), nem mesmo as percebemos enquanto tais. Que a juventude se limite a se comunicar por meio de memes e figurinhas, que não se leia mais poesia ou romances, que não se tenha mais o costume de alimentar diários (e sequer do autoexplorar-se subjetivo), que o mercado editorial de livros esteja tão empobrecido e precarizado, e que os medíocres dominem os terreiros das artes são talvez indicativos do buraco sem fundo em que nos encontramos. Que a arte resista e nos aponte uma resposta.

  2. João Bernardo,
    esta questão da cultura própria da classe trabalhadora parece ter se embaralhado no regime democrático em que vivemos, como você aponta. Isso me remete a certas discussões ou nomenclaturas feitas por grupos anticapitalistas, a respeito do sentido da palavra “comunidade”. Afinal, se estamos já enlamados pela linguagem miscigenada, se nossas ferramentas são todas já órgãos vitais de um sistema totalizador, nos restaria apenas a destruição total do existente, ou quando muito, uma “comunidade de luta”, um espaço próprio que só alcança pureza quando é delimitado pela negação.
    Mas talvez estas posturas neguem algo que você ressalta logo no começo do artigo: o aspecto técnico, e a necessidade de fazê-lo nosso.
    Hoje mesmo terminei uma leitura que tem talvez seu eixo central nesta questão. Se trata de “La consagración de la Primavera”, de Alejo Carpentier (1979). É uma obra com muitos traços biográficos do autor, onde vive uma intensa troca entre a “alta cultura europeia” e a “cultura popular centroamericana”. Os protagonistas, um arquiteto cubano e uma bailarina russa, vivem (e se encontram) em caminhos antagônicos: ele buscando a revolução, e ela fugindo dela. Mas a verdadeira busca de ambos, em algo realizada na Revolução Cubana, é a aplicação de seus ofícios para fins que poderíamos chamar de modernistas. A arquitetura para a habitação e para as atividades humanas, já não para os investimentos imobiliários, o ballet para a exploração das expressões culturais humanas, já não para reproduzir mandatos tradicionalistas.
    Mas como bom filho de um muro que foi derrubado, esses propósitos modernistas me soam como maravilhosas figuras de um passado. Sem dúvida inspiram, mas são tão difíceis de reproduzir, pois parecem já não surtir efeitos nesse mundo de hoje (ao menos não os efeitos que tinham antes).
    Me pergunto se alguma noção de comunidade hoje é necessariamente nostálgica, como o são estes sonhos modernistas. E aqui uso “sonhos” em seu sentido coletivo, o único que importa, pois sonhar sozinho de forma modernista é algo que não preciso colocar em questão, posso fazê-lo por puro gosto estético e assim dar algum sentido para minha vida.
    Alguma lanterna de Diógenes, que me ajude a ver em meio a tanta luz… alguém a guarda?

  3. Acredito que vamos mal inclusive em termos de leitura de enredo e letra da canção. A indústria cultural aprendeu muito cedo, depois da contracultura e da ascensão dos direitos humanos, a vender crítica social. Boa parte da própria publicidade de ponta hoje vende mais transgressão do que norma. Domesticada mas está ali. A Heineken se dá ao luxo de pagar pilotos profissionais para dizer “Não, obrigado” ao seu próprio produto. Assim, autoriza todos não-pilotos a dizer sim. Ou seja, não é possível selecionar o aspecto que mais nos agradaria em determinada obra. Mas parece que é assim que se tem lido certos enredos, como em “Pantera Negra”, por exemplo, ou em “Bacurau”. Todos os elementos de conciliação e domesticação presentes nesses enredos são sublimados em favor de uma leitura que visualiza apenas os elementos de uma resistência, que é na verdade a velha síntese entre polos antagônicos. Em “Clube da luta”, por exemplo, adora-se no enredo a crítica difusa ao sistema e ao consumismo, mas apontar a posterior exploração e massificação dos “space monkeys” não parece mobilizar nenhuma paixão. Operação parecida fazem as incessantes narrativas distópicas, ecológicas e totalitárias, cujos enredos têm como desdobramento que o espectador torça para que tudo permaneça como está, porque o futuro pode ser muito pior. O sinistro é que essas histórias tem sido consumidas como “críticas”. A solução que o capitalismo encontrou para sobreviver como único imaginário possível, vendendo sua própria crítica, parece estar funcionando com poucos ruídos.

  4. Gregório,
    Nada tenho a responder, mas tenho tudo a agradecer.

    Lucas,
    Comunidade? Mas que comunidade! Arranje um aquário e meta-se lá dentro, junto com os outros peixinhos vermelhos — é a receita mais directa para a estagnação. Sempre fugi de comunidades, nunca quis transformar uma convergência de pontos de vista políticos numa comunidade de vida. Esses falanstérios são para mim a imagem do inferno. O que caracteriza o totalitarismo é a destruição da privacidade, e as comunidades fazem exactamente isso. O que eu quero é ver pessoas diferentes de mim, por isso só consigo viver nas grandes cidades, e o que mais me custa no actual confinamento é a impossibilidade de passear sozinho no meio da multidão, de ouvir as conversas de quem está próximo, de me sentar numa esplanada a ver as pessoas passarem. A minha comunidade é a humanidade.
    Nostalgia? Mas que nostalgia! As vanguardas, se forem realmente vanguardas, manterão sempre o seu potencial revolucionário, para quem as saiba ver. Oscar Wilde ironizou uma vez — ironizava sempre, tudo e todos — aqueles que invocavam os clássicos contra as vanguardas, esquecendo que os clássicos haviam sido vanguardas e só não o eram para quem não os sabia entender. Cada nova vanguarda nos desperta o olhar e os ouvidos e podemos ver e escutar as vanguardas de há séculos com sentidos sempre renovados. Nada de nostalgia! Em 2014 o Passa Palavra publicou um artigo que eu tinha escrito quase cinquenta anos antes e que mantivera inédito. Tinha dezanove anos quando o escrevi, na prisão política de Caxias, era então militante do Partido Comunista. É um texto sobre arte e um texto político, as duas coisas juntas. Nunca as separei, até hoje. E você pergunta-me sobre a nostalgia! A vanguarda é renovada todos os dias, e Rauschenberg abre-nos o olhar para ver Velazquez de outra maneira, assim como Philippe Manoury nos permite ouvir Bach com outros ouvidos.

    Neto,
    Você fala-me de enredos, mas enquanto nos limitarmos aos enredos não temos arte. Temos sociologia, ou aquela forma rasteira de sociologia que é a propaganda. E, enquanto propaganda, o valor estético da propaganda política não é superior ao da propaganda comercial. Só conheço uma definição de arte — na arte a forma é o principal conteúdo. A forma pode ser o conteúdo exclusivo da arte, nos casos da música e da pintura ou escultura. Ou pode ser o conteúdo principal, nos casos das artes narrativas, como o cinema, a literatura, o teatro. Antes de a mensagem ser transmitida pela narrativa tem de ser transmitida pela forma. Existe uma maneira simples de saber se uma obra é ou não uma boa obra de arte. Se não o for, você sente-a com a cabeça. Mas se o for, você sente-a no estômago, é como um murro na barriga. Você falou de cinema. É muito difícil hoje haver um bom filme. Nos últimos cinquenta e cinco anos só vi quatro filmes geniais. Não disse bons, disse geniais: Pierrot le Fou, de Godard, em 1965; Zabriskie Point, de Antonioni, em 1970; Taxi Driver, de Scorsese, em 1976; e La Grande Bellezza, de Sorrentino, em 2013. Estes sim, são murros no estômago. E o mais genial filme de sempre, Ivan, o Terrível, de Eisenstein, em 1944, com música de Prokofiev, que a todos supera sob o ponto de vista da forma enquanto principal conteúdo da forma.

    O esquerdismo desceu ao plano mais abjecto ao pretender divulgar o enredo revolução embrulhado na estética publicitária, que é a destruição de toda a vanguarda artística. É o que pretendo dizer neste artigo. É essa a barbárie.

  5. Oras, João Bernardo. É muito natural que ao se falar sobre a linguagem da classe trabalhadora plasmada na arte dita popular, a temática da comunidade e da nostalgia apareçam. No samba são os morros, as escolas de samba, no tango são os arrabales, os bairros portenhos. Sobre o tempo, o carnaval (essa eterna nostalgia), os tempos dourados que não voltam mais…
    Você mesmo é quem diz que as classes dominantes viviam de costas dadas a esta cultura. Pois esta foi gestada em comunidades, fossem os bairros pobres, os bairros operários, as populações migrantes (africanos, ciganos, judeus, etc).
    Não estou aqui fazendo uma apologia à comunidade nem à nostalgia, apenas as reconheço como questões de difícil abordagem, e que geram tensão em um mundo onde os quadros de sociabilidade se transformam com muita rapidez. Como entender, senão, a retórica de Steve Bannon, os assassinatos-suicídios de crianças armadas em suas escolas, o ressurgimento da religião como força política? Eu não me preocupo tanto com os peixinhos vermelhos, em seus aquários anticapitalistas, me preocupa que boa parte da fauna terrestre queira voltar para o mar. Então quero saber o que é que existe lá (ou melhor, o que é que pensam que la encontrarão).
    (e se possível, no caminho aprender algum instrumento ou partitura que esteja à altura de uma contra-flauta de Hamelin)

  6. Caramba, João Bernardo! Inabalável! Aplauso total, como sempre! E lá vou à cata do Sorrentino que é a única coisa que deixei escapar! Não tens facebook, vai por aqui o meu abraço orgulhoso!

  7. Tereza, com z e tudo, quantos anos! Ne rate pas La Grande Bellezza. Jep Gambardella, il y en a pas mal qui auraient pu l’être. Mais la grande bellezza, celle-ci tu la connais. Encore plus belle que Monica Vitti. Tout ce qu’on aurait dû être et qu’on n’a pas été.

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