Por Marcelo Tavares de Santana

É muito bom reunir família e amigos para criar e relembrar momentos, conversar, ver vídeos e fotos, porém com o avanço das redes sociais e das tecnologias digitais, a forma como as famílias registram e compartilham momentos da vida cotidiana mudou bastante. Fotografias que antes ficavam restritas a álbuns físicos agora circulam instantaneamente por plataformas digitais. Nesse contexto surge o fenômeno conhecido como sharenting — termo derivado da junção de sharing (compartilhar) e parenting (parentalidade) — que descreve o hábito de publicar conteúdos envolvendo crianças e adolescentes na internet, geralmente por seus próprios responsáveis.

À primeira vista, o sharenting parece uma prática inofensiva. Pais e mães compartilham conquistas escolares, aniversários, primeiros passos ou situações engraçadas como forma de celebrar o crescimento dos filhos e manter vínculos sociais com amigos e familiares. Para muitos, essas publicações representam uma extensão natural do afeto, funcionando como um diário digital da infância. Além disso, as redes oferecem facilidades a essa troca de experiências e sensação de pertencimento, pois são projetadas e planejadas para reter os usuários em suas diversas formas de relações sociais.

No entanto, apesar de suas motivações positivas, o sharenting levanta questões éticas, jurídicas e psicológicas relevantes. Um dos principais pontos de debate diz respeito à privacidade infantil. Crianças pequenas não possuem maturidade para compreender as implicações de longo prazo da exposição digital, tampouco podem consentir de forma informada sobre a divulgação de sua imagem e de dados pessoais. Assim, decisões tomadas hoje pelos adultos podem afetar diretamente a vida dessas crianças no futuro.

A chamada “pegada digital” começa a ser construída muito antes de o indivíduo ter consciência dela. Fotos, vídeos e relatos permanecem armazenados em servidores, que podem ser replicados por terceiros e, em muitos casos, tornam-se praticamente impossíveis de remover completamente da Internet. Esse histórico digital pode influenciar relações sociais, oportunidades profissionais e até a autoestima na vida adulta. Situações embaraçosas, problemas de saúde ou dificuldades escolares, quando expostos publicamente, podem gerar constrangimentos duradouros.

Outro aspecto preocupante é o uso indevido dessas informações. Imagens de crianças podem ser apropriadas por desconhecidos, utilizadas fora de contexto ou até mesmo exploradas em ambientes inadequados. Além disso, a publicação frequente de rotinas, locais visitados e detalhes pessoais pode facilitar práticas como engenharia social, golpes ou assédio. Em um cenário de crescente sofisticação tecnológica, inclusive com o avanço de deepfakes e clonagem de voz, qualquer material compartilhado amplia as probabilidades de risco; vide as ferramentas de Inteligência Artificial que estão trocando as roupas de mulheres por peças íntimas e até nus sem autorização.

Do ponto de vista psicológico, o sharenting também pode impactar o desenvolvimento da identidade infantil. À medida que crescem, crianças e adolescentes podem sentir que sua história foi construída publicamente sem sua participação. Isso pode gerar conflitos familiares, sensação de perda de controle sobre da própria imagem e dificuldades na construção da autonomia. Para alguns jovens, descobrir que momentos íntimos foram amplamente divulgados pode provocar sentimentos de vergonha ou traição.

No Brasil, o debate ganha contornos específicos à luz do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Ambas reconhecem a criança como sujeito de direitos, incluindo o direito à privacidade e à proteção de dados pessoais. Embora ainda haja lacunas na aplicação prática dessas normas ao sharenting cotidiano, cresce o entendimento de que responsáveis devem agir sempre considerando o melhor interesse da criança, mesmo quando se trata de postagens aparentemente banais.

Isso não significa que toda forma de compartilhamento seja prejudicial ou deva ser proibida. O ponto central está no equilíbrio e na responsabilidade. Algumas práticas podem ajudar a reduzir riscos, como evitar a divulgação de informações sensíveis, limitar o alcance das publicações, não expor situações constrangedoras e, sempre que possível, envolver crianças maiores na decisão sobre o que será postado. Também é importante refletir sobre a real necessidade de cada publicação: ela beneficia a criança ou atende principalmente ao desejo de validação social dos adultos?

Educar para o uso consciente das redes é parte essencial desse processo. Pais e responsáveis são modelos de comportamento digital, e suas atitudes influenciam diretamente como crianças irão se relacionar com a tecnologia no futuro.

Em resumo, o sharenting é um fenômeno complexo, situado entre o afeto familiar e os desafios da era digital. Embora seja motivado, em grande parte, por amor e orgulho, ele exige reflexão sobre limites, consentimento e consequências de longo prazo. Diante desse cenário algo radical precisa ser proposto:

  • encerre todos os compartilhamentos colocando todos os conteúdos no modo privado de cada rede social;
  • mostre fotos e vídeos nos encontros presenciais através de celular, tablet ou TVs (alguns modelos smart aceitam compartilhamento de tela do celular);
  • se decidirem conscientemente fazer um grupo com a família para compartilhar momentos da criança, faça em aplicativos com criptografia ponta-a-ponta e configure a opção de conteúdo efêmero que apague automaticamente em até uma semana – não use redes sociais.

As plataformas digitais sempre trarão ferramentas que facilitem seus usos para capturar nosso cotidiano e encher suas bases de dados com informações que possam ser analisadas e vendidas, exigindo de nós um certo comportamento anti-modernidade usando aparelhos sofisticados como um álbum em papel em encontros presenciais. O lado bom é que teremos que fazer mais esforço em nos encontrarmos fora do meio digital e trocar o compartilhamento de memes por risadas presenciais.

Boas reuniões a todos!

Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo

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