Por Luís
O Brasil mudou muito nos últimos 25-30 anos? Não sei dizer ao certo, até por não estar sequer neste mundo na época mas, pelo que dizem os relatos e demais fontes, não parece. Fato é que, se há algo que, notavelmente, não é mais como costumava ser é a composição religiosa do Brasil: o cristianismo continua predominante, como era de se esperar, porém em uma forma diferente.
Naquele Brasil, já se pensava no batismo da criança recém-nascida nas mãos do padre assim que ela vinha ao mundo, quase como a sua consolidação como um ser humano pleno, um lavar-de-umbigo sacro. Se aprendia a rezar o ave-maria, o pai-nosso à maneira do alfabeto e das cantigas de roda. Os domingos eram os dias da missa, as festas populares pertenciam aos santos. Suas representações em barro circundavam o Brasil, à mostra e bem cuidadas ou embaladas em sacos de plástico nos comércios, sendo uma daquelas coisas que os vendedores têm sempre de ter no estoque, tão característicos quanto a fauna e a flora, elementos que se viam tanto nas residências mais humildes como no palácio presidencial, semelhante ao futebol, à música e tudo mais que nos é característico…
Então, alguns poucos anos se passam e tudo se modifica: os santos não são mais unanimidade, muitos dos que são ferrenhamente apegados a Jesus Cristo até zombam de Maria, a mãe de Deus. As imagens já não vendem tanto, são mais produtos destinados a um nicho, até objetos de um gosto nostálgico. As crianças são mais laicas do que nunca e, apesar de ainda terem em seus vocabulários muitas referências cristãs, são bem diferentes daquelas tipicamente católicas: menos ave-marias e agradecimentos fazendo o sinal da cruz e mais “sangue de Jesus tem poder”, “glória” e agora se agradece apontando os dedos para o céu ou de joelhos… O que aconteceu?
Há um tempo, existia uma estranha seita bem distante do centro. Acreditavam em Jesus Cristo, como já era de se esperar — quem além dos chamados “macumbeiros” negaria a Deus? [1] —, mas difamavam a Santa Igreja, a Virgem (ou talvez não tão virgem) Maria e tudo mais que havia de sagrado, um absurdo! Inaceitável!
Houve inclusive um episódio em que um líder, que talvez tenha pouco poder para se equivaler ao padre, o pastor, de uma dessas igrejas chutou raivosamente uma imagem da santa em rede nacional enquanto dirigia palavras ofensivas a ela e às crenças católicas. Vale lembrar que a televisão nesses anos não era como é a televisão de hoje. Aliás, nem a comparação com a internet seria adequada: esta é fragmentada em vários nichos, cosmos. Não há unidade, unanimidade. Seria provavelmente correto dizer que há uma internet para cada um, onde cada um consome o seu mundo e nada é universalmente reconhecido. Há uma internet de um grupo de jovens, dos idosos, das pessoas de meia idade… A televisão, por outro lado, era restrita, para o povo, a uns quatro canais que monopolizavam a atenção e a cultura, se assim podemos dizer, do país. Com a imagem do religioso e seu gesto passando em todos os canais se viu, ali, sim, o verdadeiro cancelamento.
É claro que a Igreja Católica se aproveitou da situação para alertar seu rebanho contra as blasfêmias e heresias dos evangélicos. Poderia haver imagem melhor que aquela para fazer com que qualquer um que se preze se afaste dessa religião? Obviamente os padres logo foram advertir energeticamente aqueles que assistiram a missa contra esse absurdo, com todos os fiéis uniformemente em silêncio expressando a concordância para com o sacerdócio, além do espanto e revolta notável de vários.
E, logo, alguns anos se passam e milhões desses católicos se tornam evangélicos, e estes ameaçam até mesmo ultrapassá-los em número (pois em relevância talvez já tenham passado) num futuro próximo.
Os católicos mais apegados poderiam chamar essa revolução de inversão de valores quando não percebem que não há aí nenhuma inversão: mesmo que as referências ao catolicismo abundassem, o fato é que, desde muito antes do Brasil ser como nós o conhecemos hoje, ser católico — e, na mesma lógica, ser cristão — muito pouco diz sobre valores. Aderir a um esquema rígido de valores é complexo, difícil. Se há em todo ser humano uma adesão a um conjunto desse tipo, ele se constitui através das experiências, da educação, da vivência: é uma adaptação, um aprender-a-viver, um habitus ou personalidade. A virtude depende da necessidade, e ter uma virtude que não atende a uma necessidade não é natural, o corpo sente que algo está errado. A religião cristã, seguida à risca, não é para todo mundo (e bem se poderia dizer que não é para ninguém), e se se quer torná-la popular, é preciso que ela seja não voluntária, mas útil.
Como poderia ser popular o que é rígido, o que exige um esforço que o corpo nem sequer consegue suportar, o que não faz sentido? Se adaptando, e os santos foram muito importantes nisso: esses semideuses que rondavam a terra, o imaginário e eram visados nas orações e nas preces mais ligadas à vida cotidiana, enquanto o Deus-Pai era sempre muito distante, sempre inacessível. Seus mandamentos não diziam respeito ao que era do interesse de suas ovelhas, sua sabedoria, como tudo nessa figura, muito mais respeitada do que compreendida, e tal respeito não se funda nas suas obras, no que fez de benéfico, mas se dá simplesmente pelo fato de ser o que é, na sua posição — não atoa o chamam de “pai”. Os santos, por outro lado, são de carne, são como nós, especialistas nas paixões humanas, no amor, no casamento…, e assim como os pequeninos pedem aos irmãos, tios ou quem é que pensem ser mais afável para que os “liberem”, quando têm chance, ao invés das figuras que detém mais poder dentro da dinâmica familiar, se pede aos santos quando não se quer ver de frente as faces das suas vergonhas falando com Deus. Os santos são como as amizades de bar (e por quanto tempo não estiveram lá, como talvez a única peça que não é efêmera e secular, bem postados por cima dos balcões…), sempre presentes para quando os brasileiros comuns, afetivamente pobres, pedem migalhas a quem quer que se coloque na posição de igual em seus momentos de cansaço, para que possam aguentar a labuta de todos os dias com o objetivo de se manter vivo. Podem até mesmo dizer que lutam pela sua família, pelo dinheiro, pelo futuro, mas é pouco provável: o movimento se dá pelo costume, pelo tédio, pelo vazio. A nostalgia dos tempos de criança não se dá por acaso: no Brasil, a maturidade e a depressão se confundem com enorme facilidade.
O cristianismo talvez tenha sido palatável para diferentes classes sociais, por oferecer afirmação ao modo de vida — ou pelo menos cumprir importantes demandas — de grupos bastante diferentes. Os ricos, em sua vida mansa, ascética, pacífica, são cristãos; os pobres, quando revoltados, quando identificados enquanto humilhados, enquanto os últimos, são cristãos e, mais que isso, são afirmados como os primeiros. Essa, definitivamente, é uma grande virtude do que quer se tornar publicamente muito respeitado: permitir várias interpretações diferentes com as quais pode-se identificar.
Todavia, apesar de todas as simplificações e manobras que o clero fez ao longo do tempo para que mantivesse sua hegemonia, seu erro foi tornar-se cada vez mais distante, não acompanhar o ritmo da vida urbana. Como os casais apaixonados que põe o sentido da juventude na conquista do que veem como “amor” (e, assim como ocorre com os católicos, o conceito pelo qual se justifica a busca é opaco; o desejo de dominação, contudo, é muito concreto) e, depois de conseguirem o que tanto desejam, se deixam perder no costume, no tédio, na repetição, no ócio — tornando o companheiro um fardo a mais para se carregar e não, como se espera, um porto seguro, refúgio—, a Igreja esteve para com os fiéis: sempre com os mesmos rituais, assuntos, eventos… aquilo se tornava repetitivo, enfadonho, não fazia mais sentido em vista às urgências da vida das pessoas comuns.
No mundo de hoje muito se fala no efeito destrutivo das comparações nas redes sociais: comparar o orgânico, real e cru àquilo que é artificialmente trabalhado para que pareça o melhor possível, que é fruto de um trabalho de dissimulação, de pinça. O que geralmente não é lembrado é que esse fenômeno não é novo, e os heróis demonstram isso muito bem. Para que se torne um herói é preciso entender de economia simbólica, ou pelo menos ter a sorte de se adequar às suas regras ao longo da trajetória.
O tipo clássico de herói de carne e osso é aquele que, além de ter grandes feitos, sabe se manter à distância: proximidade, profundidade, opinião, relação íntima, tudo isso gera conflito, divergência. O herói precisa, primeiramente, estar acima das contradições, ser unânime, o seu reconhecimento se dá por não poder ser reconhecido por nada que seja questionável. Não se veem contradições, defeitos (que, dizem por aí, “todo mundo tem”, mas são ignorados no caso, nos dois sentidos da palavra), o seu ser se dissolve na imagem do bem, porque o bem é tudo que se sabe a respeito do ser — e sempre que só se sabe o bem, se sabe muito pouco —, a figura imaculada é um não-ser. Exemplo máximo são os que morrem logo depois de nascer: tudo que será comentado ao seu respeito é positivo, se pensa no que seria, no que poderia ter feito, no melhor sentido do seu potencial, é o eterno “ e se”, e não se critica justamente porque não há quem seja capaz de criticar na falta de obras concretas. O ditado diz que ou você morre herói ou vive o bastante para se tornar vilão, o que é verdadeiro, mas a frase passa longe de ser crítica: ela constata com um realismo cinza, que se vê frente às regras do mundo com passividade, não propõe ruptura — que seria um tanto necessária… Only God can judge me…
O outro tipo de herói é aquele que, do alto de seu pedestal, desce aos mortais e se abre à polêmica, à confusão. Deixa a mostra para o mundo as suas veias, artérias, entranhas, derrama o sangue pelo centro e não pelas margens [2], justamente em um mundo que o corpo é vergonha e, o espírito, capital. Mas de onde vem o prestígio desta espécie?…
A figura do padre ilustra bem o primeiro tipo e, também, o que deu origem ao vácuo que foi deixado no coração dos católicos: Ele é o espectro que se coloca ao centro e acima dos demais. Os ouvintes se assentam nos bancos, como iguais uns aos outros, para se submeterem ao que, ali, está mais próximo do Céu, próximo às figuras sagradas, das imagens e de toda aquela beleza cuidadosamente polida ao longo de séculos no palácio mais nobre que a cidade conhece. Tudo que se vê é a sua versão mais polida e gloriosa, e isso constrange, e constrange principalmente o povo. O povo é que tem de internalizar as disposições de violência, que se traumatiza, que vive sufocada pelas urgências, pelos medos e que se submete aos males da vida urbana. Ele é que vai olhar para dentro de si, para seus pecados e terá vergonha, se sentirá menos e abaixará a cabeça escondendo o rosto no confessionário para ser perdoado e disciplinado pelo padre, como um eterno educando, um eterno a-ser-lapidado que nunca chega à maturidade, o fiel é para sempre um menor a ser continuamente corrigido, mas sua correção não aponta para o crescimento, pois sua essência é a menoridade, enquanto a do sacerdote é a figura a quem o pai deixou parte de seu poder, é o que goza de parte da sua autoridade, um quase-pai.
Os pastores aparecem nessa brecha deixada pelos católicos. Mas não os pastores das igrejas tradicionais, os presbiterianos, os batistas mais ortodoxos e semelhantes. Tais figuras não concentram tanto poder por si mesmos e são apenas parte de uma estrutura que é muito maior que os mesmos: são “somente” operários da fé. Adversários com quem a Igreja Católica não rivaliza, postados em lugares distantes dos grandes centros e das grandes margens, com frequentadores de classe-média, cultos e que conservam distância suficiente do resto para que não se pense além de seu próprio cosmo. Descendentes daqueles grandes europeus dos livros de história, vivem àquela maneira enquanto habitam o país tropical, mas muito, muito longe da selva…
Mesmo distantes, sua semente chegou lá e cresceu entre os espinhos — e bem sabemos que o que cresce entre os espinhos é mais próspero do que o que cresce em solo pedregoso; aqui, os frutos católicos. Nos locais mais inóspitos, o pastor teve de aprender a se tornar herói. Porém, sem as regalias monetárias, sociais, culturais e outras, não poderia ser o herói tradicional, teve então de se tornar aquele que constrói com sangue seu capital. Ele não pode, como o primeiro tipo, se assentar na aura de Deus, da Igreja, ou da família, pois não herda nada. O padre é herdeiro de uma forte herança simbólica: geralmente oriundo de “boas famílias”, tem um sobrenome que vai além das letras, acumula respeito com seu nome e as posses que conquista no fluxo natural do mundo e, ao realizar sua vocação (ou pelo menos assim chamam…), é beneficiário de toda uma riqueza construída ao longo de séculos — e que foi construída em cima de muito mais sangue; porém, enquanto sangue for capital, não será visto como morte, mas como vida: quem lembra do sangue derramado admirado com a Pirâmide de Quéops? Se toda aura é trabalho de um acúmulo histórico, o pastor marginal terá de ser duas vezes melhor, mesmo estando há 500 anos atrasado; é, por excelência, o self-made man. O seu maior feito? Ser o mais próximo de Deus na boca do inferno.
Em um cenário onde, para que se consiga viver (ou pelas dores da vida) se internaliza o “pior” [3], o pastor consegue demonstrar ser bom. Mas não é bom por sua essência, não é alguém distante com quem se comparam os que comparecem ali — muitas vezes pela primeira vez ou após muito tempo sem qualquer experiência em Igrejas —, de quem não poderiam estar perto nem por sua menoridade moral, nem por sua inferioridade intelectual [4]. É um ser humano, muito humano, e que poderia muito bem ser amigo do ouvinte, familiar do ouvinte e, é claro, o próprio ouvinte. Não somente por sua origem simples, por sua aparência familiar — nisso Jesus também se enquadra e nós bem sabemos o quão longe está o mundo de Jesus — mas por sua carnalidade e abertura. Muitos não compreendem o sucesso que têm em seus empreendimentos aqueles que, na posição de líderes eclesiásticos, expõe os maiores horrores de seu passado: uso de drogas, vida na criminalidade, promiscuidade… “Como alguém vai respeitar assim?” perguntam; não veem que na quebra do teto de vidro, se quebra também o constrangimento, para de ser sobre domar e se começa a pensar em engajamento, o que é muito mais prazeroso, é potência, e de que carecem mais estes pequeninos que poder?… Mais que isso, ele rompe com o estéril, com o enfado do catolicismo deslocando o discurso do além para o agora. Não se fala em um Deus que está parado no céu, a esperar tranquilo pelo longínquo dia do julgamento final e sim do Deus que começa a ocupar o posto que era dos santos, ativo na vida cotidiana. É a ele que se recorre para se curar das doenças na falta de um sistema de saúde adequado, para que desvie os filhos do mau-caminho (que são muitos), para que se tenha recursos mínimo em um contexto de escassez. O pastor também participa ativamente do processo, conduzindo as doações, tocando nas feridas abertas de suas ovelhas, se infiltrando na sua vida pessoal, dando opiniões fortes… O pastor, como todo herói da sua espécie, é e tem que ser polêmico.
Conseguimos perceber o desejo incontrolável por ascender socialmente nos dias atuais, e que exemplo melhor do que o pastor para mostrar que isso é possível? O padre tomou o “toco” até mesmo em seu discurso inflamado contra o protestantismo nos anos 90. Agora os pastores fazem o mesmo e seus antigos fiéis se deliciam no maior dos prazeres que o ressentimento pode proporcionar: difamar àquele que o atinge, mas a quem não consegue questionar.
O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Ah, por que Jesus não advertiu, no seu apelo ao amor, que este não tem nada a ver com paixão… Não sei ao certo se é correto falar em morte ou metamorfose de Deus, mas, seja como for, se se amasse tanto a Deus por aí como se costuma dizer, isso aconteceria? Haveria mudança tão rápida e radical? E Maria, e os santos a quem diziam ter amor?…
Notas
[1] Não se trata aqui de dar aval à tais declarações preconceituosas em relação às religiões de matriz africana, mas ilustrar o infeliz preconceito.
[2] Queria
Queria ter te conhecido antes
Pra não ver você endurecido ante
O mundo escurecido, instantes
Antes do delírio: sangue
É o que você derrama pelas margens
(Minha autoria)
[3] Pior aqui aparece entre aspas para destacar o caráter arbitrário, flexível e não rígido do valor dessas disposições. Disposições iguais ou semelhantes podem ser negativas em uma determinada sociedade e positivas em outra, como a maior aptidão à violência, reatividade. Dentro da mesma sociedade pode ocorrer o mesmo, a depender dos princípios de percepção e apreciação e das regras de cada campo, pensando em Pierre Bourdieu. Aqui, o “ruim” é o que não é cristão, o que é corpo e não espírito (sobre essa oposição nas sociedades ocidentais, ver Como o Racismo Criou O Brasil, de Jessé Souza).
[4] A intenção não é, evidentemente, defender essa inferioridade como se fosse real. Se trata, na verdade, de colocar como essas questões poderiam ser erroneamente vistas por quem participa do processo, seja no “topo” ou na “base”. Aliás, seria um tanto ridículo falar em superioridade ou inferioridade moral visto o que foi desenvolvido até aqui, e também a diferença de capacidade intelectual entre classes.
Ilustram o artigo cenas do filme O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte (1962).





