Por João Bernardo

Karl Marx era ecológico. Pescam-se umas poucas citações, sempre as mesmas, porque a apanha é escassa, e geralmente desemparelhadas, quando não mal traduzidas (Nota). Karl Marx era anti-ecológico. Aqui a safra já é abundante, porque Marx foi um entusiástico apologista do crescimento das forças produtivas. Entre um Marx e o outro, cada discípulo escolhe o que quer e trava o combate com citações, quero dizer, com aquelas que são a seu gosto. E nisto tudo a que conclusão chegamos? A uma só. Karl Marx foi contraditório.

Contraditórios, todos o somos e só deixa de o ser quem, depois de morrer, ficou convertido em imagem numa capela, porque então a estatueta resulta de uma colagem em que se seleccionaram alguns fragmentos para esconder outros. Porém, as contradições, em vez de servirem de pretexto para obscurecer a pessoa real, tornam-se elucidativas quando lhes descobrimos a sistematicidade, e podemos decifrar qual era o ponto vazio que a teia de disparidades se destinava a encobrir. Vemos então que o não dito é mais importante do que o dito, porque o esclarece. Foi assim que pensei e escrevi Marx Crítico de Marx (Porto: Afrontamento, 1977, 3 vols.).

Mas não é só essa a questão, porque Marx foi também, como todos o somos, prisioneiro dos conhecimentos da sua época. Os modelos históricos que ele construiu limitaram-se à História que tinha sido vivida e à que era então conhecida. Os anos passaram, a humanidade sofreu novas experiências, e entretanto amontoaram-se documentos antes ignorados, desenvolveu-se a arqueologia, inaugurou-se a antropologia. A História que Marx usou nas suas teorias e nas suas análises não é a História que nós vivemos e de que hoje dispomos.

Do mesmo modo, ou talvez mais radicalmente ainda, as formas do pensamento abstracto vigentes nos meados do século XIX decorriam de concepções científicas que ao longo da segunda metade desse século e sobretudo no século XX sofreram uma alteração profunda, mais brusca e radical do que qualquer outra desde a época de Kepler e Galileo. E uma colossal série de remodelações em todas as artes precipitou-se pouco depois da morte de Marx, sem que ele sequer suspeitasse o que haveria de vir. Inevitavelmente, a filosofia prosseguida por Marx e a lógica que ele usou estão, em boa medida, presas à época em que foram geradas. O alheamento em que estiolam agora as capelas marxistas não se deve só à rigidez das suas formas de organização. Deve-se ao facto de manterem uma visão do mundo que em nada corresponde ao mundo contemporâneo, o que é possível apenas em conventos e em departamentos universitários que vivam isolados da restante sociedade.

É nesta dupla perspectiva que devemos avaliar não só as necessárias limitações de Marx, mas ainda as operações da tesoura zelosa dos discípulos. Além de cortarem da imagem de Marx as facetas de que não gostam, os fiéis dedicam-se a secundarizar, banir e até esquecer aspectos que hoje são repelentes — mas que, apesar disto, não deixam de ser aspectos do marxismo. Por exemplo, o marxista Karl Pearson, tão marxista que até alterou a inicial do seu nome para ficar idêntica à do mestre, foi uma personalidade indissociável da fundação da eugenia. E o marxismo não figurava ali como um acessório, mas constituía um elemento básico, porque Pearson considerava o Estado forte e centralizado proposto pelos marxistas e capaz de coesão em torno de programas únicos como um utensílio político indispensável à prossecução do que então se chamava higiene racial. E, como ele, tantos outros marxistas inconvenientes ficaram excluídos da memória do marxismo.

Sobre estas bases incertas e avessos a pisar o terreno firme da História real, alguns refugiam-se nas nuvens e dedicam-se a fazer deduções usando o materialismo dialéctico.

Todavia, se é possível um decréscimo da massa no montante de m=E/c2 , então o que é o materialismo? Além disso, uma matéria que pode ser entendida simultaneamente como partícula e como onda ou campo, afinal é o quê? É que não há afinal. E isto mesmo sem mencionar a descoberta da antimatéria. A partir de então, a noção de matéria tem sido cada vez mais desmaterializada, a tal ponto que hoje ela pode ser empregue apenas como expressão da saudade pelas ilusões dos velhos tempos.

Não menos perturbante é o uso da dialéctica quando sabemos que Hegel, progenitor do método lógico reivindicado por Marx, apreciava especialmente a obra de Jakob Bœhme e que Baader lhe deu a conhecer a obra de Mestre Eckhart. Um milénio de misticismo heterodoxo ou francamente herético foi sintetizado por Mestre Eckhart e daí, através de Bœhme, confluiu na dialéctica de Hegel. Não bastaria a Marx virar o hegelianismo de cabeça para baixo para se livrar de uma tal herança.

Estranho materialismo sem matéria, atrelado a uma imprevista dialéctica. É o que sucede quando se usa uma terminologia vinculada a épocas extintas. Pior ainda, porque estes vocábulos não são aleatórios, mas arrastam consigo certas concepções. E com estas lucubrações fuliginosas os seguidores perderam a inquietante vitalidade que caracterizara o pensamento original de Marx, onde era o ímpeto que importava, e o ponto de vista.

Mas o problema é, para mim, mais elementar. Eu nunca recorro a qualquer modelo lógico como critério decisivo. A História não se faz por dedução. Senão, o inesperado não existiria, o futuro seria previsível e, portanto, não haveria História e apenas a perpetuação de um eterno tempo presente. Na pesquisa historiográfica um modelo lógico pode ser usado, eventualmente, como inspiração inicial, mas o teste último terá sempre de ser empírico. E como na História, ao contrário do que sucede na Ciência, não é realizável a experimentação nem o uso de instrumentos de observação, só a história comparativa pode aproximar-se do que nas ciências é o trabalho laboratorial. É apenas no campo da história comparada que devemos raciocinar e debater. Eu trabalho com factos, não com deduções a partir de modelos lógicos.

*

Abordei pela primeira vez o tema da ecologia no Prefácio à tradução espanhola do meu primeiro livro, Para una Teoria del Modo de Producción Comunista (Bilbao e Madrid: Zero – ZYX, 1977). Passado meio século, ao reler essas páginas ressaltam dois aspectos: uma visão exclusivamente crítica da ecologia, que desde então nunca abandonei; e o estabelecimento de uma relação entre a ecologia e a classe dos gestores, que eu denominava ainda como tecnocracia. Depois de escrever que «grande parte dos que se dizem “ecológicos”» defendem «uma paragem do crescimento industrial e o regresso, pelo menos parcial, a certas técnicas de produção pré-capitalistas», eu pus a questão de lado afirmando que «não vale a pena gastar mais tinta a demonstrar a impossibilidade desse retorno». Logo em seguida, «quanto à defesa de um “crescimento zero”», sublinhei que «ela se encontra tanto na boca de muitos ecológicos como na dos economistas capitalistas mais conservadores», o que eu atribuí à crise económica iniciada em 1974, que afectara as condições de vida e de emprego dos tecnocratas (ou gestores, como depois passei a denominá-los), bem como dos «estudantes, aprendizes tecnocratas». «Em todos os países industriais desenvolvidos milhares de tecnocratas potenciais são lançados no desemprego sem terem alguma vez tido, mesmo enquanto tecnocratas, qualquer contacto com o processo produtivo. Tecnocratas frustrados, estes elementos revoltam-se sobretudo enquanto consumidores não inteiramente realizados». E concluí que «é esta a base social fundamental» da ideologia ecológica (págs. 12-14).

Desenvolvi este núcleo de ideias dois anos depois, em O Inimigo Oculto. Ensaio sobre a Luta de Classes, Manifesto Anti-Ecológico (Porto: Afrontamento, 1979), e não quero deixar de notar desde já que este livro, com o título mais sintético de Ensaio sobre a Luta de Classes, foi editado pelos Demitidos do ABC para angariarem fundos, o que eu só vim a saber depois de me ter estabelecido no Brasil. Aqueles metalúrgicos que enfrentavam a repressão política e económica tiveram sobre a obra uma opinião diferente da que têm hoje alguns universitários em situação confortável.

A crítica à ecologia ocupa apenas a parte final de O Inimigo Oculto, cujo eixo principal é constituído pela análise da classe dos gestores, ligada à análise da sua base económica e tecnológica, que consiste na articulação das condições gerais de produção com os processos particulares de fabrico. Porém, já desde os meados do livro eu insisti nos estritos limites com que deparam as reivindicações de consumidores, consideradas como «um elemento integrante da evolução do capitalismo porque nunca podem desenvolver-se em formas novas de organização social» (pág. 117). O caminho ficava assim aberto para a crítica aos ecológicos. «Uma grande parte das reivindicações dos consumidores, todas aquelas que não estão prejudicadas pelo misticismo ou pela utópica idealização de formas ultrapassadas de exploração — são indubitavelmente úteis. […] Mas as empresas capitalistas podem fabricar produtos sãos e deixar de poluir o ambiente, continuando nesse processo a reproduzir os seus lucros» (pág. 121).

No entanto, em O Inimigo Oculto eu enganei-me, como já o havia feito no Prefácio do Para una Teoria del Modo de Producción Comunista, ao considerar que a crise económica deflagrada em 1974 poderia, por si só, explicar a expansão conseguida pelos movimentos ecológicos. Errei ao julgar que as potencialidades de aumento da produtividade nas condições gerais de produção haviam chegado a um limite, sem ter previsto o colossal aumento de possibilidades criado pelo desenvolvimento da informática. «A transmissão electrónica de informações e o processamento de dados, se é certo que constituem a mais importante das inovações do post-guerra que as condições gerais de produção puderam aproveitar, têm talvez como efeito secundário acelerar o ritmo a que essas condições gerais esgotam as suas virtualidades. De qualquer modo, os computadores estão longe de poder responder a todos os problemas infra-estruturais que se colocam à indústria contemporânea. Chegou-se, assim, a uma situação de estagnação das condições gerais de produção» (pág. 128-129). O meu erro proveio de subestimar as capacidades criativas do capitalismo. Serviu-me de lição, e desde então tenho-me esforçado por não desprezar esse potencial inovador.

Nesta perspectiva, a ecologia teria surgido como um movimento no interior da classe dos gestores destinado a remodelar as condições gerais de produção numa situação de declínio da produtividade. «Por ecologia entendo […] um projecto global e ideologicamente articulado de remodelação das condições gerais de produção e de restruturação interna do capitalismo em novos mecanismos de funcionamento económico e social». E sublinhei que «a minha crítica não incide sobre reivindicações isoladas, mas sobre a sua organização sistemática numa concepção global da economia e da sociedade» (pág. 153). Para isso, depois de ter distinguido entre o eixo dominante do movimento ecológico, constituído por gestores e profissionais com formação universitária, e as ideologias ecológicas periféricas, características de «grupos constituídos apenas por maus estudantes com ideias delirantes» (pág. 163), eu formulei a crítica à noção de «equilíbrio natural» em que se alicerça toda a ecologia. Nunca deixei, desde então, de prosseguir e aprofundar este tema. Ora, é certo que a crise desencadeada em 1974 criou condições propícias à actuação dos movimentos ecológicos, que viram na demagogia do pretenso equilíbrio natural uma forma social de contornar os efeitos do declínio da produtividade nas condições gerais de produção. «Produzir menos — eis o ponto central do programa destes gestores. É este o fulcro de todas as ideologias ecológicas» (pág. 171). Mas o problema revelou-se muitíssimo mais amplo.

Durante as duas décadas e meia em que me ocupei com a pesquisa e a redacção de Poder e Dinheiro. Do Poder Pessoal ao Estado Impessoal no Regime Senhorial, Séculos V-XV (Porto: Afrontamento, 1995, 1997 e 2002, 3 vols.) tive oportunidade de aprofundar historicamente alguns dos argumentos esboçados em O Inimigo Oculto quanto ao carácter ilusório do equilíbrio natural. Pude igualmente confirmar o carácter destrutivo das formas de exploração agrícola e pecuária praticadas durante a época anterior ao capitalismo industrial, que levaram a um catastrófico esgotamento de recursos, e o elevadíssimo grau de poluição tanto nos aglomerados urbanos como nas pequenas povoações. A minha crítica ao movimento ecológico ficava indirectamente confirmada.

Não esperava, no entanto, que o aprofundamento do estudo do fascismo me fizesse entender ainda mais plenamente o carácter nocivo da ecologia, até constatar, no Labirintos do Fascismo (Porto: Afrontamento, 2003; São Paulo: Hedra, 2022, 6 vols.), que a génese e o desenvolvimento da ecologia foram indissociáveis da génese e do desenvolvimento do fascismo clássico, com o qual ela se confundia num sistema ideológico único. Analisei essa questão nas págs. 913-926 da edição Afrontamento e nas págs. 191-256 do sexto volume da edição Hedra.

Porém, já em O Inimigo Oculto eu sublinhara que o eixo dominante do movimento ecológico havia surgido «como uma fusão das tendências políticas, até aí bem demarcadas, da direita e da esquerda» (pág. 154) e observara «a capacidade do movimento ecológico para fundir esquerdas e direitas» (pág. 194). Antecipara assim o que bastantes anos mais tarde viria a apresentar como o processo gerador do fascismo — a convergência ou cruzamento entre temas originários da esquerda e outros provenientes da direita. Do mesmo modo, e ainda em O Inimigo Oculto, ao considerar os déclassés como uma base social especialmente propícia à difusão das ideias ecológicas, eu enunciara uma analogia com um dos mais constantes apoios sociais do fascismo. Portanto, antes de saber que a ecologia é coeva da génese do fascismo e nasceu nos mesmos meios ideológicos e políticos, já eu a situara nesse campo. Todos os fascismos mitificaram o camponês, apresentado como protótipo da estabilidade social, a mesma estabilidade que de forma mítica preside à noção de «equilíbrio natural», embora o nacional-socialismo germânico tivesse ido mais longe, ou retrogredido até ao velho paganismo, e divinizasse a natureza. Depois, a censura imposta pelas potências vencedoras no final da segunda guerra mundial silenciou os ecológicos, do mesmo modo que silenciou todos os fascistas, e só regressaram à ribalta com a extinção da vaga de lutas autonomistas da década de 1960. Vi então que na década de 1970 a ecologia não havia nascido, mas ressuscitado de um passado ignominioso. E assim, o périplo no Labirintos do Fascismo levara-me ao ponto de partida de O Inimigo Oculto.

Finalmente, o ensaio Contra a Ecologia, publicado no Passa Palavra de Agosto até Outubro de 2013 (aqui), versou questões mais directamente económicas e socioeconómicas. A superação da crise deflagrada em 1974, em vez de comprometer a audiência da ecologia, muito pelo contrário a ampliou, tornando-se por isso necessário abrir um panorama mais vasto. Nesse ensaio, repleto de dados factuais, procurei mostrar que as soluções, com muitas aspas, propostas pelos ecológicos só viriam agravar os problemas, em grande medida inventados, que eles julgam detectar. Quem hoje sofre de pesadelos ao pensar nas catástrofes anunciadas deveria ler as profecias feitas pelo Clube de Roma e pelos demais apocalípticos que se seguiram. Durmam em paz, essas profecias nunca se realizaram.

Se querem ter pesadelos, pensem nas catástrofes ecológicas reais, como as provocadas pelos Khmers Vermelhos e a ruralização forçada no Cambodja ou pela introdução obrigatória da chamada agricultura orgânica no Sri Lanka sob a presidência de Gotabaya Rajapaksa. Estes são os exemplos mais gritantes, porque abrangeram países inteiros, mas não faltam experiências localizadas, igualmente funestas, como eu analisei em Contra a Ecologia. Os casos incómodos, porém, não são discutidos ou sequer lembrados. Como é habitual nas religiões, os fracassos, em vez de abrirem os olhos dos crentes, só lhes estimulam a fé.

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A oposição entre a humanidade e a natureza, evocada nos movimentos ecológicos, se pode ser útil na linguagem corrente, é sobretudo ilusória. O que chamamos natureza resulta de uma ininterrupta acção humana, que modificou profundamente as plantas e os animais e até o perfil da geologia. Aliás, com um pequeno número de excepções, cada vez mais raras, não existe hoje nenhuma espécie vegetal ou animal que não tenha sido alterada, de forma directa ou indirecta, pelos processos de domesticação devidos à acção humana. A natureza que nós vemos é aquela que ao longo de muitos milénios nós criámos. Esta intervenção na natureza é uma condição da sobrevivência da espécie, o que ocorre com todos os seres vivos, e a relação estabelecida entre quaisquer animais e a natureza não é menos destruidora do que a devida à humanidade. Basta pensar que a selecção das espécies corresponde a uma enorme extinção de espécies. O ser humano, no entanto, distingue-se dos restantes animais por viver em sociedades que fabricam instrumentos, e destas características resultam duas consequências.

Por um lado, comparar o uso e o fabrico de instrumentos em diferentes épocas exige que se distingam claramente a tecnologia, enquanto sistema estruturado e correspondente ao modo geral de organização de uma sociedade, e as técnicas, enquanto elementos de uma estrutura. A institucionalização dos grandes organismos socioeconómicos que na terminologia marxista se denominam modos de produção requer sistemas tecnológicos próprios, que nos seus moldes gerais são específicos do modo de produção em que se geraram e podem apenas admitir mudanças internas, sem que seja possível a uma tecnologia transitar para outro modo de produção. As técnicas, no entanto, podem ser isoladas da tecnologia em que se inserem e ser assimiladas por outra tecnologia. A analogia a que eu sempre recorro é a de uma língua, enquanto sistema, e as palavras enquanto elementos dessa língua, que podem ser assimiladas por uma língua diferente. Neste caso os estrangeirismos não se conservam na forma original e são alterados consoante as regras da nova língua em que se inseriram, tal como uma técnica gerada numa tecnologia pode ser adoptada por outra tecnologia, que então a modifica. Basta pensar na domesticação do fogo ou na invenção da roda para verificar como uma técnica pode servir de elemento a diferentes tecnologias, adaptando-se a cada uma delas.

Por outro lado, a vida em sociedades que fabricam instrumentos é uma característica originária e definidora da espécie humana, que lhe multiplica a capacidade de acção. Assim, não só é ilusória a oposição estabelecida pela ecologia entre humanidade e natureza, como é igualmente errado imaginar que o capitalismo tivesse agravado e ampliado a acção humana sobre a natureza. Essa acção deve ser avaliada exclusivamente no contexto da relação entre os seus efeitos e os resultados aproveitáveis.

Os pequenos grupos humanos primitivos, mantendo-se no limiar da sobrevivência ou por vezes não conseguindo sequer sobreviver, provocavam efeitos muito vastos sobre a natureza proporcionalmente à dimensão desses grupos e proporcionalmente aos resultados aproveitáveis que obtinham. Ora, é certo que a sociedade industrial inaugurada pelo capitalismo exerce sobre a natureza efeitos que, considerados isoladamente, parecem colossais, sobretudo porque o capitalismo herdou do mercantilismo uma metodologia científica que serviu de quadro à produção industrial e a fez progredir de maneira exponencial e cada vez mais rapidamente. Mas a actual acção humana sobre a natureza só deve ser avaliada tendo em conta o enorme aumento do output extraído da natureza, que permite o crescimento da população e o prolongamento da esperança média de vida. Além disso, ou precisamente por isso, o capitalismo é o primeiro modo de produção que consegue antecipar os efeitos secundários nocivos de certas intervenções na natureza e, portanto, corrigir ou pelo menos limitar esses efeitos. Em conclusão, as consequências prejudiciais que a sociedade industrial possa exercer sobre a natureza, que ao olhar desatento dos ecológicos parecem gigantescas, em termos relativos são mínimas.

Aqueles críticos do capitalismo que atribuem à sociedade industrial uma acção exclusivamente destrutiva sobre a natureza são análogos aos seus correligionários que resumem a exploração dos trabalhadores à mais-valia absoluta. Estes não vêem que a tendência de crescimento do capitalismo exige a melhoria das qualificações da força de trabalho e que, com o aumento de produtividade assim obtido, os capitalistas conseguem uma taxa de lucro sempre crescente. Do mesmo modo, aqueles ecológicos não vêem que a correcção ou a limitação dos efeitos secundários devidos à sociedade industrial fazem parte intrínseca do desenvolvimento dessa sociedade e lhe asseguram condições para que possa manter-se e prosperar.

Por isso eu considero com precaução as actuais discussões em torno das questões climáticas. Não as recuso em bloco, mas tento situá-las num contexto que lhes dê uma perspectiva mais ampla e a muitíssimo mais longo prazo. Para começar, o clima neste planeta tem evoluído e tem-se transformado independentemente da acção humana e antes mesmo de o homo sapiens existir, tal como continuou a modificar-se independentemente de haver ou não indústria. O sol não é imutável, sofre ciclos e alterações que se reflectem no nosso clima e o condicionam, e o movimento das placas tectónicas pode também influenciar o clima. Por outro lado, se pretendermos proceder a comparações baseadas em medições exactas, convém recordar que as estatísticas, do clima como de tudo o mais, são uma invenção recente e datam só dos alvores do capitalismo. Para o caso — pouco provável — de haver mais de dois leitores do Passa Palavra interessados pela história da música, a Ária do Catálogo (aqui sobretudo até ao minuto 2:03), na célebre ópera Don Giovanni, de Mozart, mostra como dois anos antes da Revolução Francesa a estatística era ainda uma curiosa novidade. Finalmente, é impossível determinar com qualquer exactidão mínima o começo da era industrial no que diga respeito à emissão de CO2 , porque quando o capitalismo se iniciou, no final de século XVIII, os centros industriais eram muito escassos e localizavam-se apenas nalgumas regiões da Grã-Bretanha, do norte da França e entre a França e os Estados alemães. Foi só ao longo do século XIX que a indústria se expandiu gradualmente pela Europa e pelas Américas e depois, ao longo do século XX, pelo resto do mundo. Não se consegue detectar um antes e um depois neste processo gradual. Em conclusão, tudo isto deveria inspirar prudência quando se consideram responsáveis pela totalidade das alterações climáticas as emissões de CO2 — apresentadas como o alter ego químico do capitalismo.

Confrontam-se aqui duas formas opostas de conceber o capitalismo. Uma considera que o sistema capitalista se destruirá a si mesmo. Outra, que eu partilho, considera que esse sistema só poderá ser destruído pela luta generalizada da classe trabalhadora enquanto classe, quando — ou se — as relações sociais igualitárias geradas naquela luta forem capazes de sustentar e generalizar um novo modo de produção. É este o âmago da luta de classes.

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Há quem, apesar de admitir que existe actualmente uma ecologia de direita, ao mesmo tempo insista que existe uma ecologia de esquerda. Ora, é este precisamente o problema. Tal como recordei há pouco, já em O Inimigo Oculto eu considerara que no movimento ecológico se juntam a direita e a esquerda, e ao longo de muitas e muitas páginas e em sucessivas versões do Labirintos do Fascismo eu tenho defendido que o fascismo não se confunde com a extrema-direita, onde geralmente a esquerda e os conservadores gostam de o situar, mas existe fora do tradicional leque político, num cruzamento ou convergência entre temas de esquerda e temas de direita. Sendo assim, o facto de direita e esquerda se encontrarem hoje na ecologia significa que ela é um lugar onde permanentemente se constitui e reconstitui o fascismo. Dito de outra maneira, não há uma ecologia de esquerda, há pessoas de esquerda em plataformas ecológicas. E é precisamente isto que mantém vivo o cruzamento entre esquerda e direita, num contexto gerador do fascismo.

É nesta perspectiva que devem ser avaliadas as lutas sociais surgidas por pretextos ecológicos. Há muitos na actual extrema-esquerda a imaginarem que tudo o que faça barulho antecipa a sonhada revolução. Como se iludem! Um processo revolucionário anticapitalista não resulta de uma soma de lutas parciais e desviadas. Esse processo só ressurgirá quando — ou se — a classe trabalhadora (considerada economicamente) conseguir de novo lutar enquanto classe (considerada sociologicamente).

Os fascismos desenvolveram também movimentos de massas, e aliás tiveram uma componente sindicalista, mais ou menos importante consoante os casos, mas sempre presente. O mesmo sucede hoje com movimentos de protesto inspirados apenas, de maneira explícita ou velada, por uma visão mística da natureza que se insurge contra tudo o que a transforme. Uma paisagem, em vez de ser vista como algo de perecível numa estética de mudanças permanentes, é considerada pela generalidade dos ecológicos como uma marca sagrada e atemporal. A essa sacralização da natureza está inseparavelmente ligado o culto da tradição, ambos característicos do fascismo. É notável que a esquerda hoje julgue que seja revolucionário defender modos de vida tradicionais, quando, por um lado, esses modos de vida e essas paisagens surgiram graças à liquidação dos modos de vida e das paisagens anteriores e, por outro lado, constituem um poderoso obstáculo à formação de uma classe trabalhadora sociologicamente unificada.

Aliás, naqueles protestos instigados pela ecologia os laços com o fascismo são ainda mais profundos, porque a síntese mística operada por Mestre Eckhart, assim como inspirou remotamente a dialéctica hegeliana e, por aí, a de Marx, foi também a grande inspiradora de Alfred Rosenberg, nomeadamente em O Mito do Século XX, a obra máxima da ideologia do Terceiro Reich. Tal como escrevi no final da quinta parte do Manifesto Incómodo (aqui), «é no interior do próprio movimento ecológico que o fascismo ressurge, inevitavelmente gerado pela visão mística de uma natureza supra-humana. Assim, além de contribuir para a formação do fascismo por oferecer um quadro propício ao cruzamento entre os extremos políticos, a ecologia contém em si mesma, pela sua origem e pelas concepções que a definem, o gérmen de um fascismo».

E a descendência não se esgotou no Terceiro Reich, porque aquele misticismo da natureza, roçando o paganismo, preside também à New Age e às suas sucessoras do ocultismo actual, intimamente ligadas à ecologia. Vemos que sobre esta base o desenvolvimento do fascismo não é ocasional nem efémero.

Ao longo da década de 1920 e da primeira metade da década de 1930 os comunistas esforçaram-se por atrair os fascistas radicais, sob o pretexto de que, se não o fizessem, estariam a entregá-los à condução do fascismo conservador — e não me refiro a uma só corrente, mas a um amplo leque de matizes no interior do Komintern, desde Togliatti e Gramsci até Ruth Fischer e Maslow, e Thälmann que os continuou. Só o 7º Congresso do Komintern, em 1935, reconheceu o trágico erro e corrigiu o rumo. No terceiro volume da edição Hedra do Labirintos do Fascismo segui essas peripécias com o possível detalhe. Aprenderia alguma coisa quem lesse aquelas páginas, mas, mesmo sem as ler, todos nós hoje sabemos qual foi a conclusão.

E agora ouço de novo a esquerda invocar o mesmo argumento a respeito dos activistas de direita em várias correntes ecológicas. O problema consiste em saber quem, afinal, atrairá e quem será atraído.

(Nota) O primeiro comentador sacou de uma inevitável citação, que por aí circula na mesma tradução errónea. Onde a edição brasileira menciona «um progresso na arte de saquear não só o trabalhador, mas também o solo», na versão francesa do Livro I, inteiramente revista pelo próprio autor, o que lhe confere a autoridade de obra original, lê-se «un progrès non seulement dans l’art d’exploiter le travailleur, mais encore dans l’art de dépouiller le sol». Ou seja, enquanto Marx distinguia entre explorar o trabalhador e esgotar o solo, o tradutor brasileiro coloca-os a ambos no mesmo plano.

Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Mark Rothko (1903-1970).

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