Por Douglas Anfra

 

Muita bobagem temos visto sobre Cesare Battisti, como a “denúncia” assassina (e usual?) do editorial da Folha de São Paulo de que este guardaria docinhos na cama durante sua greve de fome.

Compreendo também que muitos sejam contrários a ações armadas, mas acho que deveriam entender em primeiro lugar parte do contexto italiano, não apenas como justificação antes de exercerem seus juízos, que tenho visto de pronto, confusos e infelizes em muitas das manifestações que observei. Primeiro tentemos tratar do que foi a ligação entre a Operação Gládio, a Democracia Cristã e a Máfia, a seguir do partido de Berlusconi, descendente da República de Saló dos extertores de Mussolini no norte da Itália e a seguir voltaremos ao caso da guerrilha (ou seria melhor apenas ações armadas?) na Itália.

1. A Democracia Cristã, a Máfia e a Operação Gládio

A democracia cristã começa sua hegemonia a partir de aristocracias, militantes antifascistas não comunistas e, principalmente, aproximação com a Igreja e, segundo consta, a introdução na Itália, durante a invasão aliada, de lideranças políticas da Máfia siciliana radicada nos EUA, como Lucky Luciano, preso nos EUA e que ganha asilo na Sicília no meio da guerra graças a um acordo secreto com o governo americano. Para quê? Para estabelecer conexões com a Máfia italiana e siciliana, que era inimiga de Benito Mussolini, mas que contaria, a partir de então, com a ajuda do governo italiano pós-fascista e pró-americano. Na ocasião, o sortudo Luciano considerava-se um “leal americano que era devotado à Sicília, à Máfia e aos Estados Unidos igualmente”. Ao mesmo tempo, no entanto, ambos, o governo italiano e a Máfia, eram inimigos dos comunistas. Deste modo, a Máfia garantia que durante a ação aliada não haveria greves para frear as operações. Albert Anastasia conduzia a Máfia nas docas, conseguindo assim uma influência na resistência que  ao mesmo tempo “minasse a resistência dos comunistas”.

Posteriormente Lucky Luciano seria recompensado com diversos cassinos na Cuba de Fulgêncio Batista, conforme narra a Biografia de Lucky Luciano na Wikipédia.

Mas como se minava esta resistência?

Matando lideranças sindicais e partidárias do sul da Itália (o chamado mezzogiorno) e abrindo caminho dentro e para a Democracia-Cristã, que se tornou a grande vencedora política do início do pós-guerra e guarda-chuva da Máfia. Mas trataremos a seguir de outra Máfia ainda mais perigosa, a partir da operação mãos limpas,  como pode ser vista no artigo “A cabeça de Cesare Battisti“, de Sebastião Nery.

Isto é, sabem porquê repentinamente se voltou a falar de Cesare Battisti?

Tudo começa no caso do Banco Ambrosiano, quando o banqueiro italiano Roberto Calvi aparece morto. A partir daí descobre-se que o Banco envolvia os seguintes grupos: um grupo clandestino de maçonaria chamado P2, as transações bancárias escusas do Vaticano e o caixa da Operação Gládio.

A Operação Gládio é um caso familiar da esquerda da América Latina: “Gladio (em português, “gládio”) é o nome dado a uma organização clandestina do tipo stay-behind (“ficar atrás”), constituída pelos serviços de informação italianos e pela OTAN à época da Guerra Fria, para contrapor-se a uma eventual invasão da Itália pela União Soviética.” (Nota da Wikipédia)

gladio-3A Operação Gládio é o equivalente europeu da Operação Condor,  que desta vez, durante sua duração, não matava apenas como nas operações da Máfia, mas perseguia esquerdistas em ascensão, inclusive em carreiras normais como  as do judiciário, sindical, etc., efetivando uma direitização dos quadros institucionais do Estado e da mídia e favorecendo a ascensão de quadros de confiança.

Sabem quem começa a carreira nesta época, com favores do Estado, e quem compra o antigo time de futebol cuja torcida era composta por antigos militantes antifascistas e seus descendentes e a editora que é dona de direitos de publicações de esquerda, e quem promove a carreira da neta de Mussolini como estrela? Berlusconi, ao qual voltaremos.

O importante a saber é que “a existência da Gladio – da qual apenas se suspeitava até as revelações feitas pelo membro da Avanguardia Nazionale, Vincenzo Vinciguerra, durante seu processo, em 1984 – só foi reconhecida pelo presidente do Conselho italiano, Giulio Andreotti, em 24 de outubro de 1990, quando se referiu a uma “estrutura de informações, resposta e salvaguarda”. A Gladio foi acusada de ter tentado influir na política interna italiana, usando a estratégia da tensão.” E o que é a estratégia de tensão ? Criar um medo da esquerda na opinião pública que só a direita resolveria, fazendo ascender seus quadros.

Assim, quando lembramos a bomba de 1980 sobre o juiz Mancuso, esquecemos o que foi na época, não uma luta contra a corrupta Máfia e coisas afim que, neste contexto, são muito menores que a patota em causa, nem a precaução pudente contra o terror, mas uma luta de reestruturação do Estado italiano que tinha de lavar a roupa suja, sem mobilizar a população à esquerda, pois todos os demais grupos estavam sujos. Sobrando mais para a Democracia-Cristão, por ter dado início ao problema. Digamos, porque a bomba estourou na mão deles.

Deste modo, facilitavam-se os atendados direitistas deste período que, estes sim, utilizavam bombas; e vejamos como isto ajudou a direita americana numa operação oculta da OTAN, que era próxima à Operação Condor e utilizava parte do dinheiro dos Contras.

Acompanhem a lista de atentados perpetrada pela patota que continua à solta, inclusive o banqueiro de Sua Santidade, que, salvo engano, deve ser o mesmo.

Complexo, diríamos, não? Mas onde entraria nosso amigo Cesare Battisti neste local de tanta gente nobre e santa?

Lembram-se que dizia da P2 italiana (maçonaria), e de Licio Gelli que faleceu trazendo à tona toda esta história? Vamos chamar mais um personagem.

O bonzinho homem que vemos representado nos filmes sobre as Brigadas Vermelhas: Aldo Moro. Pois é, ele era o líder desta operação que acabou somente em 1981 e chefe então do grupo P2, que funcionava como um tipo de Maçonaria paralela. A operação foi desbaratada na onda do Banco Ambrosiano, que mostrou mais claramente estas relações, isto é, que a Máfia e o Banco do Vaticano eram ligados ao grão-mestre do P2 (sim, com este título mesmo) no maior escândalo italiano do século vinte, que era a quebra do Banco Ambrosiano junto com o papa de então, João Paulo II. Eis o núcleo da operação Mãos Limpas.

O sequestro e o assassinato do Primeiro Ministro Aldo Moro em 1978 – o chefe dos serviços secretos de inteligência na ocasião, acusado de negligência, era igualmente “piduista”; Licio Gelli era seu sucessor e continuador de um mar de sangue e corrupção sem fim.

E quem eram outros membros desta organização? Jorge Videla, da sanguinária ditadura argentina, e os líderes da terrível organização fascista argentina Triplo A, como o próprio José López Rega, assim como Raúl Alberto Lastiri e Emilio Massera. Do mesmo modo, o banqueiro de Sua Santidade, através do Banco do Vaticano, também foi acusado de fornecer cobertura através de fundos americanos ao sindicato Solidarnosc, disputando-o internamente e colocando figuras de proa à direita no lugar de outras à esquerda, assim como, igualmente, ajudar a lavar o dinheiro dos Contras da Nicarágua. Veja aqui.

E assim aconteceu a Operação Mãos Limpas e voltemos ao artigo “A cabeça de Cesare Battisti” .

Nos dias seguintes, na Itália e na Inglaterra, apareceram assassinados vários outros ligados a Calvi. No meio da confusão estava Ortolani, um dos quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Quando, a partir de 90, a “Operação Mãos Limpas” chegou perto deles, o conde, olhando Roma lá de cima do Gianiccolo, me dizia:

– Isso não vai acabar bem.

Depende o que é acabar bem. O Ministério Público e a Justiça enfrentaram a aliança satânica, que vinha desde 45, no fim da guerra, entre a Democracia Cristã e a Máfia italiana. Houve centenas de prisões, suicídios. Nunca antes a Máfia tinha sido tão encurralada e atingida. Responderam com bombas detonando carros de procuradores e juízes. Mas os grandes partidos políticos aliados (Democrata Cristão, Socialista, Liberal) explodiram. O Partido Comunista, conivente, se desintegrou.

[…]

Recordando o assassinato de Pinelli pelo terrorismo do Estado
Recordando o assassinato de Pinelli pelo terrorismo do Estado

A “Operação Mãos Limpas” não teria havido se um punhado de bravos jovens valentes e alucinados, das Brigadas Vermelhas e dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) não tivesse enfrentado o Estado mafioso.

O governo, desmoralizado, usava a Máfia para eliminá-los. Eles reagiam, houve mortos de lado a lado, e prisões dos líderes intelectuais, como o filósofo De Negri (asilado na França) e o romancista Cesare Battisti (asilado na França). Estava lá, vi, escrevi, acompanhei tudo.

Foram eles, os jovens rebeldes das décadas de 70 a 80, que começaram a salvar a Itália. Se não se levantassem de armas na mão, a aliança Democracia Cristã, Partido Socialista, Liberais e Máfia, estaria lá até hoje. Berlusconi é o feto podre que restou, mas logo será expelido.” (Infelizmente, sic.)

[…]

O corrupto Chirac, a pedido de Berlusconi, retirou o asilo político de Battisti, que o Brasil agora lhe deu. Tarso Genro e Lula estão certos. O problema foi, era, continua político. O fascista Berlusconi (primeiro-ministro) é apoiado pelo desfrutável velhinho comunista Giorgio Napolitano (presidente), que se escondeu quando o juiz Falcone (assassinado) e o procurador Pietro (hoje no Parlamento)  fizeram a “Operação Mãos Limpas”

Não têm autoridade moral nenhuma. Por que não devolveram Caciolla, o batedor de carteira do Banco Central, quando o Brasil pediu?

As Salomés de lá e cá querem entregar a cabeça de Battisti à Máfia.”

Mas, infelizmente, talvez não estejamos mais falando de Máfia, mas de seus antigos inimigos que, para aplacar antigos adversários, ofereçam novo acordo com  sua cabeça a prêmio, simbolizando que nada mais os ameaça e que não serão mais investigados e nem lembrarão do que se passou, numa tendência mais clara e acomodada à direita. Voltando com nova cara, ressurgem dos escombros os herdeiros da República de Saló de Mussolini, como efetivando o que Pasolini satirizava em seu filme Saló, em que associava Sade (Aristocracia) e Mussolini. Mas com resultados semelhantes tal associação veio de um gosto mais popularesco.

A República de Saló não é devidamente tratada nos verbetes digitais italinos e portugueses da enciclopédia livre Wikipédia, que a pinta com bons olhos, mas pode-se olhar o verbete inglês que explica mais sobre o protetorado nazista que resistiu por pouco tempo no norte da Itália e que passos à deportação sumária de judeus para os campos de concentração [Lager] nazistas e que se disfarçava por medidas sociais controladas pelo Estado de Sítio. Como veremos, muitos ainda reinvidicam sua herança.

2. Sobre o Partido de Berlusconi

Me reservo a citar extratos de Anatomia do Fascismo, de Robert Paxton, São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2007. Apenas objetando algumas de suas observações que podemos afiançar pelo que temos visto até aqui deste lamaçal.

“O Movimento Sociale Italiano (MSI) teve uma existência mais significativa como o único herdeiro direto de Mussolini. Ele foi fundado em 1946 por Giorgio Almirante, que, depois de 1938, havia sido secretário editorial de uma revista anti-semita, La defesa della razza, e chefe de gabinete do ministro da Propaganda, na República Social Italiana de Mussolini, em Saló, em 1943-1945. Após um fraco desempenho de 1,9% dos votos em 1948, o MSI, a partir de então, alcançou uma média de 4% a 5% nas eleições nacionais, atingindo um máximo de 8,7 % em 1972, que não se beneficiou de uma fusão com os monarquistas e de uma reação ao “verão quente”de 1969. A maior parte do tempo, manteve um distante quarto lugar entre os partidos italianos.

Alessandra Mussolini, lado 1
Alessandra Mussolini, lado 1

O MSI alcançou seus melhores resultados após os “sustos vermelhos”: em 1972 empatou com os socialistas na disputa pelo terceiro lugar entre os partidos de nível nacional, com 2,8 milhões de votos; e em 1983 sua votação total alcançou quase o mesmo patamar, depois de os democrata-cristãos, em 1979, terem aceito votos comunistas, numa “abertura para a esquerda” que, segundo esperavam, iria reforçar suas maiorias. O partido, entretanto, continuou politicamente isolado. Quando o governo fraco de Fernando Tambroni, em 1960, contou com votos do MSI para completar suas maioria, veteranos da resistência antifascista fizeram manifestações até Tambroni renunciar. Nos trinta anos que se seguiram, nenhum político italiano convencional ousou quebrar a quarentena do MSI.

Alessandra Mussolini, lado 2
Alessandra Mussolini, lado 2

O MSI se saiu melhor no Sul, onde as lembranças das obras públicas fascistas eram positivas e onde a população não havia passado pela guerra civil de 1944-1945 entre a Resistência e a República de Saló, que se limitou ao norte do país. Alessandra Mussolini, neta do Duce, formada em Medicina, ocasionalmente artista de cinema e pin-up famosa de revistas pornográficas, representou Nápoles no parlamento eleito em 1992, como deputada pelo MSI. Como candidata à prefeitura de Nápoles, em 1993, conquistou 43% dos votos. Fora do Sul, o MSI teve um bom desempenho entre os jovens de sexo masculino que não encontravam lugar na sociedade e em todas as regiões com a exceção do Norte, onde [prevalecia] um movimento separatista regional, o Lega Nord [1] (pp.290-291)

[…]

“Na Itália, os democratas-cristãos (DC) ocupavam o poder de forma ininterrupta desde 1948. Durante quarenta anos nenhuma alternativa séria havia-se apresentado ao eleitorado italiano. A cisão comunismo/socialismo havia enfraquecido a esquerda a tal ponto que todos os partidos não-comunistas de oposição preferiam buscar participação na hegemonia dos DC a se arriscar na impossível tarefa de formar uma minoria alternativa.

Gianfranco Fini
Gianfranco Fini

Quando os democratas-cristãos e alguns de seus parceiros menores foram manchados pelo escândalo, na década de 1990, não havia uma maioria alternativa entre os [variados] partidos de oposição. Novas personalidades vieram a preencher esse vazio, afirmando ser “externas à política e não-partidárias”. A mais bem-sucedida dessas figuras foi o magnata da mídia Silvio Berlusconi, o homem mais rico da Itália, que rapidamente formou um novo partido que recebeu o nome de Forza Italia, o mesmo nome de uma torcida de futebol. [Entre muitas outras propriedades, inclusive a maior parte da mídia italiana, Berlusconi era dono do time de futebol Milan A.C.]. Berlusconi montou uma coalizão com dois outros movimentos externos à política tradicional: a Liga Norte, separatista, de Umberto Bossi e o MSI (que agora se chamava Alleanza Nazionale, proclamando-se pós-fascista). Juntos, esses partidos ganharam a eleição parlamentar de 1994, tendo conseguido preencher o nicho vago de alternativas plausíveis aos desacreditados democratas-cristãos. O ex-MSI, com 13% dos votos, foi premiado com cinco pastas ministeriais. Essa foi a primeira vez, desde 1945, que um partido que descendia diretamente do fascismo participou de um governo europeu. A Forza Italia de Berlusconi ganhou novamente as eleições de 2001 e, dessa vez, o dirigente da Alleanza Nazionale, Gianfranco Fini, foi vice-premier.” (p.300)

Eis parte da barca furada em que os italianos se meteram e para a qual querem mandar de volta Cesare Battisti.

E, por fim, como se deram as ações armadas na Itália? Mesmo que saibamos que a ação isolada de grupo pouco pode no contexto da luta de classes, que não são apenas grupos sociais específicos, há algumas características que definem um grupo de ação neste contexto conturbado que apresentamos da Itália. Vejamos alguns tópicos que talvez possam ajudar a entender esta situação complicada.

3. O que foi a ação armada na Itália?

Vejamos alguns elementos retirados do artigo “Por baixo da calçada, a dinamite”: Luta armada em Itália e na Alemanha durante a década de 70”, de José Nuno Ramos. A ação armada na Itália deve ser compreendida em seu contexto, onde:

a) As ações não eram compostas de elementos estritamente estudantis desligados de questões específicas da sociedade, mas, como vimos, ligados à resistência num contexto de repressão política, sindical e estudantil em geral, contra a atuação de máfias que agiam de modo compacto, ligadas ao Estado;

b) 71% dos 1700 atentados na Itália dos anos 60 aos 70 foram realizados por grupos de extrema-direita que, como vimos, eram ligados à Operação Gládio ou grupos claramente neofascistas, que assassinavam principalmente lideranças de esquerda, mas igualmente jornalistas e juízes que tropeçassem em algo que não deviam;

c) Tudo isto se dava em pleno cenário de aumento da repressão social de manifestações políticas públicas:

gladio-1“Em 1975, a publicação da Legge Reale autoriza as forças policiais a disparar sobre manifestantes desarmados em caso de desordem pública, desencadeando um ciclo de confrontos, prisões e mortes. A 1º de Fevereiro de 1977, durante uma manifestação à frente da sede do Movimento Social Italiano (como resposta a um ataque da extrema-direita à universidade de Roma), a polícia dispara sobre os manifestantes, ferindo quatro pessoas. A indignação com os acontecimentos leva à ocupação de várias faculdades. […]”

A 21 de Abril, uma tentativa de reocupação da universidade de Roma leva a polícia a entrar no campus com tanques. O governo decreta então a proibição de todas as manifestações a ocorrer durante o mês de Maio de 1977. Por quebrar a ordem ministerial, uma manifestação feminista em invocação do terceiro aniversário da derrota do referendo que propunha a proibição do divórcio é desmobilizada por disparos da polícia. Uma manifestante é morta. No dia seguinte, durante uma manifestação de repúdio, um grupo de 20/30 pessoas separa-se da maioria e dispara sob o dispositivo policial, matando um agente.” Eis parte contexto que vimos anteriormente ao tratar da Operação Gládio.

d) As organizações de esquerda não se utilizavam de bombas, evitando vitimização de civis como na Alemanha, nomeavam alvos específicos e não utilizavam de tortura, apesar de seu uso pelo Estado;

e) São válidas até hoje as confissões realizadas sob tortura naquela época e delações de membros que se encontravam no exterior, que podem obviamente, ser falsas, em troca da própria vida;

f) O terror que a justiça e as articulações caçaram foi o de extrema-esquerda, que constituiu a minoria das ações e que não começou este cenário, conforme se sabe graças aos dados que vazaram da Operação Gládio.

Agora pensemos melhor sobre se é justo ou não enviar Cesare Battisti para a Itália para expiar pelo vazamento de dados sobre o acordo entre a política e a Igreja italiana, para fazê-los aceitarem a oferta dos antigos fascistas donos do monopólio da mídia atual.

Nota

[1] Nas eleições parlamentares de 1992 a Lega Nord recebeu quase 19% dos votos do norte (8,6% nacionalmente), aproveitando-se do ressentimento dos pequenos empresários quanto ao peso social representado pelo Sul da Itália, expresso em termos que se aproximavam do racismo. Ver Hans-Georg Betz, “Against Rome: The Lega Nord”, em Hans-Georg Betz e Stefan Immerfall, eds., The New Politics of the Right: Neo-Populist Parties and Movements in Estabilished Democracies, Nova York: St. Martin’s Press, 1998, p. 45-57.

7 COMENTÁRIOS

  1. “Cesare nos explicou então que o governo italiano hoje está composto por todos aqueles que ele um dia combateu na Itália. E nos contou o caso de quando teve embate físico com Ignazio La Russa, atual ministro da defesa italiano, quando este era da juventude fascista no Movimento Social Italiano. Ele de um lado da rua, com seu movimento e La Russa do outro, com o dele. Foi esse mesmo ministro que ameaçou se acorrentar em praça pública em protesto caso a decisão do Brasil seja pelo refúgio.”

    http://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2009/11/14/essa-semana-conheci-cesare-battisti/

  2. Deixo outras indicações:

    Reeferência explícita sobre a morte de militantes de esquerda pelas mãos da Aliança Satância (Máfia mais Democracia Cristã) no pós segudna guerra:

    “O principal líder no período da II guerra Mundial que foi Calógero Vizzini, “Dom Caló”.[…]. No pós-guerra a Máfia foi encarregada de cumprir outras tarefas muito específicas. Durante o período de 1945-55 foram assassinados quarenta e três membros de partidos de esquerda na Sicília. Essa atividade não ficava restrita à Máfia. O famoso salteador Salvatore Giuliano foi o responsável por pelo menos dez mortes de encomenda”(reproduzido de Guaracy Mingari: Estado e Crime organizado, p. 51-52)

    E outra frase muito boa do Pantaleone:

    “nenhum regime conservador pode ter interesse em levar avante a moralização política até suas ultimas conseqüências, pois isto significa desqualificar e destruir politicametne toda a classe política sobre o qual se apoia”

    FONTES:

    GLADIO OPERATION: Verbete so wikipédia contido In: http://www.mega.nu:8080/ampp/gladio.html
    LUCKY LUCIANO. Verbete do wikipédia contido em: http://en.wikipedia.org/wiki/Lucky_Luciano
    MINGARDY, Guaracy. Estado e Crime Organizado. São Paulo: IBCCrim, 1998.
    NERY, Sebastião. A Cabeça de Battisti. In: http://diasdekali.blogspot.com/2009/02/sebastiao-nery-cabeca-de-battisti.html
    PANTALEONE, Michele. Máfia: 1943-1962. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, s/d.
    RAMOS, José Nuno. Por baixo da calçada, a dinamite: A luta armada em Itália e na Alemanha durante a década de 70. In:
    PAXTON, Robert Owen A Anatomia do Fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007.
    STILE, Alexander . Excellent Cadavers. Pantheon. New York, 1995.
    THE SOCIAL REPUBLIC OF SALÓ. In: http://en.wikipedia.org/wiki/Italian_Social_Republic

  3. Mais um detalhe:
    Como podemos lembrar há também deste número de mortos em atentados as 23 pessoas de relevo mortas entre 1977 e 1994 diretamente citados nos casos sobre a máfia confessados pelos “arrependidos” chefes da máfia como Buscetta e Totó Riina, chefe da Corleone. O perdão que lhes foi concedido comprou uma paz principalmente com parte da direita de quem era rival.

    A rivalidade da Máfia com os facistas na Itália que parece ter acabado agora, começou durante a gestão de César Mori, o prefeito de ferro que para combater a Máfia chega a queimar cidades interias, propriedades, reféns, etc, conseguindo “apaziguar” a ilha e baixar o preço dos imóveis graças a ausência do preço de proteção (mas o que eram os impostos ao Estado Facista Mussoliniano ?). Além disso, obviamente, Mussolini aproveitava a ocasião para afastar os lideres políticos com a legitimidade do combate à máfia.

  4. Caro Douglas,

    sabendo agora do recente resultado do STF favorável à extradição de Battisti, me comprometo a traduzir seu artigo, muito detalhado, para os compagni italianos, que expressam opinião bem diferente desta nossa, aqui. A alegação básica é a de que, além de Berslusconi, também a “esquerda” de lá quer a extradição de Battisti. A questão é, portanto, sempre política. Aparentemente, os principais concorrentes de Berlusconi não querem ameaçar “sujar” sua imagem na defesa de Battisti: um caso que serviu de bode espiatório a muita gente, e continua servindo, às custas de uma grande injustiça. De fato, assistimos ao quanto a política, em seu braço mais público, é propagandística, ou seja, disputa no seio da opinião pública, e não conforme à justiça e valores éticos. Seu artigo deixa claro como a raposa transforma-se no coelho, o cordeiro no leão, e assim por diante, num passe-de-mágica, ao gosto do ilusionista.

  5. Letícia,

    o movimento do qual Cesare Battisti fez parte se chocou frontalmente contra o Partido Comunista Italiano, por isso não é surpresa que os ex-comunistas que formam a “esquerda” institucional italiana também queiram a cabeça de Battisti.

    É o saldo do tal compromisso histórico.

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