Por Rafael Uzcátegui

Traduzido do original em espanhol

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela é condenável sob muitos aspectos. Pela primeira vez, o país é bombardeado em seu próprio território por um governo estrangeiro. Mas em politica as aparências costumam enganar. Com a pouca informação disponível — e observando os acontecimentos e o comportamento dos atores — a trama do conflito venezuelano parece ter dado um giro inesperado: um golpe interno dentro do chavismo, facilitado pelo “imperialismo”.

Os acontecimentos continuam se desenrolando, mas até o momento de escrever esta nota há quatro fatos que permitem levantar uma hipótese preliminar: o ataque em si; as declarações de Trump; as declarações de Delcy Rodríguez e a decisão do Tribunal Supremo de Justiça.

1. O ataque: força esmagadora, defesa inexistente

Após meses de assédio e pressão, a depois de ataques contra lanchas que deixaram mais de 100 vítimas, o exército dos Estados Unidos atacou a Venezuela na madrugada de sábado, 2 de janeiro. Não existe um informe oficial das perdas. Segundo relatos, foram bombardeados várias instalações militares em Caracas, La Guaira, Aragua e Miranda, com foco especial em Forte Tiuna, onde se encontrava Nicolás Maduro.

Até agora, o governo não publicou as cifras de mortos e feridos. O jornal The New York Times fala em ao menos 40 falecidos, entre militares e civis. Se especula que a maioria das baixas ocorreram durante a captura de Maduro.

O mais chamativo não é somente o ataque, mas a ausência de resposta militar venezuelana. Embora se houvesse anunciado a possibilidade de um operativo de extração, a reação foi nula — para não dizer inexistente —: não há imagens de fogo defensivo nem sinais de resistência sustentada. Alguns analistas ironizaram que “os helicópteros gringos passearam como se estivessem em casa”. A jornalista especializada Sebastiana Barráez afirmou que, na ocasião, metade do pessoal militar estava de “licença natalina”. Trump, por sua vez, assegurou que não houve perdas de equipamento nem incidentes com o pessoal estadunidense durante a operação.

2. Trump: a confissão implícita de um novo roteiro

O segundo ato foi a coletiva de imprensa de Donald Trump, em que confirmou a captura de Nicolás Maduro e de Cilia Flores. Nela soltou frases que, juntas, soam menos a propaganda e mais a indícios de um acordo: disse que havia “falado longamente com Delcy Rodríguez”, que “Rodríguez faria tudo o que eles dissessem”, que “governaria a Venezuela durante um tempo”, e concluiu rejeitando María Corina Machado com uma frase deliberadamente humilhante: “uma mulher inteligente, mas sem apoio dentro da Venezuela”.

Para além do tom, a mensagem central foi clara: Trump elegeu Delcy como interlocutora e como peça de transição.

3. Delcy: anti-imperialismo de fachada, omissões cruciais

Depois, falou Delcy Rodríguez. Usou, é claro, o jargão anti-imperialista típico do chavismo e disse que a Venezuela “não seria uma colônia”. Mas seu discurso teve outro foco: exigir uma prova de vida de Maduro e exibir uma pasta com um suposto decreto de “estado de comoção exterior” — uma peça cujo texto ninguém conhece — para solicitar ao TSJ uma interpretação.

E, sobretudo, seu primeiro discurso estava cheio de omissões e reviravoltas difíceis de ignorar:

  • Desconvocou as mobilizações que outros porta-vozes chavistas haviam chamado contra o ataque, e pediu “calma” e para “ficar em casa”.
  • Não deu cifras de mortos e feridos nem falou da magnitude das perdas.
  • Se afastou da narrativa de “ataque à população” e, apesar de algumas frases duras, soou inusualmente condescendente com os Estados Unidos logo após uma agressão em larga escala.

Em uma situação assim, o que não se diz costuma dizer mais do que o que se fala.

4. O TSJ: o atalho para não convocar eleições

Por fim, a decisão do Tribunal Supremo de Justiça. Meses antes, Nicolás Maduro havia falado de acionar um “decreto de estado de comoção exterior” em caso de agressão. Seu conteúdo, até agora, se mantém em segredo. O relevante, no entanto, não é mistério: sua utilidade política. Este decreto, supostamente, incluiria uma fórmula para definir quem exerce as funções presidenciais em caso de ausência do mandatário.

Delcy pediu uma “interpretação” ao TSJ e o tribunal respondeu com agilidade: nomeou-a “presidente encarregada”.

O problema é que a Constituição não contempla a figura de “presidente encarregada”, “provisória” ou “interina” em caso de ausência do presidente. O artigo 233 estabelece que se há ausência absoluta antes de se completar 4 anos de mandato, o vice-presidente assume para convocar novas eleições em 30 dias (e juramentar o candidato eleito, conforme o cerimonial). Com a simulação do “decreto de comoção”, Delcy evita o ponto decisivo: não declara a ausência absoluta e não convoca eleições.

Dito de forma simples: o TSJ fabricou uma saída para conservar o poder sem passar pelo trâmite constitucional.

O pano de fundo: uma facção preparada para administrar a continuidade.

Delcy Rodríguez e seu irmão Jorge Rodríguez têm sido peças-chave da cúpula chavista há anos. Jorge é conhecido pela inteligência fria, capacidade de manobra e talento para negociar: ele representou o governo em diversos processos, incluindo o Acordo de Barbados. Também construiu pontes com empresários, partidos “opositores” e setores da sociedade civil qualificados como “normalizadores”.

Nos último meses, também promoveu nos Estados Unidos uma operação de posicionamento — incluindo entrevistas à imprensa — para apresentar Delcy como uma figura “confiável” e “moderada”. Se for assim, então o que ocorreu não seria um acidente: seria a fase operacional de um plano.

Conclusão: não é a “clássica invasão” imperialista; é algo mais confuso

Teremos mais informações nas próximas horas, mas até o momento tudo aponta para uma situação surpreendente: uma facção do chavismo teria entregado Maduro para conservar o controle do poder, com apoio ou aval dos Estados Unidos.

Se neste momento você está genuinamente indignado pela incursão estadunidense — e com razão: o precedente é terrível —, não se converta num idiota útil das oligarquias de esquerda. Isto não se parece com a imagem de uma “invasão imperialista” tradicional. Parece mais uma reacomodação interna, uma substituição controlada ou uma continuidade disfarçada. Uma traição negociada.

Não acredite em mim. Pesquise, compare, junte os pontos, faça perguntas. E, sobretudo: pense por si mesmo.

3 COMENTÁRIOS

  1. A contra-revolução será um show midiático

    《1. Até agora, tudo parece um cenário dos anos 70-80, quando os bravos fuzileiros navais americanos bombardeavam um país latino-americano a partir de helicópteros e não lhes acontecia nada. O que, claro, é estranho.
    2. Se os helicópteros” voam sobre Caracas a uma velocidade lenta e vulneráveis a tudo, até ao fogo de metralhadoras, e os helicópteros de ataque disparam mísseis de forma descontrolada contra alvos importantes, então parece que a Venezuela não tem defesa aérea. Não havia sequer ninguém que pudesse disparar contra os helicópteros de forma organizada, para não falar de interceptar mísseis de longo alcance. 》
    https://t.me/barantchik/32727

    《As primeiras respostas para perguntas sobre a Venezuela:
    1. O exército não respondeu e não responderá por acaso: está fora de cena – em resultado de traição (ver 2️)
    2️. Maduro – é tudo. O dólar ainda decide. Como é habitual para o país mais rico do mundo – os EUA compraram a traição dos oficiais.
    Trump : “Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala à Venezuela e ao seu líder, o presidente Nicolas Maduro, que, juntamente com a sua esposa, foi capturado e retirado do país”.
    3️. Não haverá invasão dos EUA. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, informou que a operação militar contra a Venezuela foi de carácter limitado e foi utilizada como cobertura para a detenção de Maduro.
    4️. A China está fora de cena.
    5️. O mundo também está fora de cena. Os EUA voltaram a exibir com sucesso os seus músculos, sem se envolverem em confrontos sangrentos. Trump recebeu um presente em forma de Maduro. Interessante é saber qual foi o custo político de tal presente, e se foi prometido?》
    https://t.me/vizioner_rf/15663

    《O ministro da Defesa da Venezuela acordou
    O ataque dos EUA à Venezuela é desonesto e covarde, e ameaça a paz na região, afirmou o ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino López, que dormiu durante o rapto do Presidente Maduro pelas forças especiais norte-americanas.
    “Face a este ataque desonesto e covarde, que ameaça a paz e a estabilidade na região, expressamos a nossa mais veemente condenação”, afirmou o corajoso ministro da Defesa no seu discurso em vídeo.
    No entanto, ele não mencionou o que fez pessoalmente durante a noite e pela manhã.》
    https://t.me/barantchik/32730

    《Em Caracas, tal como em toda a Venezuela, a situação é tranquila – não existem acções militares ou de guerrilha. Foi imposto um toque de recolher nas cidades. Os militares e a polícia controlam a situação. Mas o exército dos EUA não é atacado.
    Por seu lado, os EUA interromperam as acções militares na Venezuela. A operação terminou, pois Maduro foi capturado e está agora nos EUA, onde será julgado.
    Assim, vemos um “acordo secreto” – os americanos chegaram a um acordo com as forças de segurança (militares, serviços secretos), incluindo o Serviço de Segurança de Maduro, e estes, sem grande esforço, entregaram o presidente. A intervenção militar dos EUA na Venezuela terminou em poucas horas. 》
    https://t.me/barantchik/32731

    《Os helicópteros MH-47 Chinook são grandes e barulhentos. Voavam à lua cheia (o pior momento para operações especiais) sobre uma cidade de milhões com defesas aéreas, mísseis antiaéreos e canhões antiaéreos.
    Ninguém lhes disparou. Nem os militares. Nem a guarda presidencial. Nem sequer com uma arma. A única coisa que ameaçou os heróicos soldados americanos foi uma avaria técnica do helicóptero.
    A capital do país reagia à captura do presidente como se fosse uma mudança de letreiros numa loja.
    Não foi uma operação militar para capturar um Presidente. Foi um transporte organizado de um prisioneiro com efeitos teatrais.
    Não é sobre Noriega, que (também de modo teatral) foi capturado após uma operação militar real (perdendo vários helicópteros).
    É sobre o mundo mediático de hoje.》
    https://t.me/vizioner_rf/15667

  2. A China está fora de cena?

    E se ao invés da velha geopolítica e da perspectiva dos campos de influência (de que tanto se tem falado nesses dias) a gente buscar saber pelo menos um pouco da situação econômica? Tem sido fácil falar de “roubo do petróleo venezuelano”, a expropriação ou roubo é sempre um dado a ser levado em conta no mundo capitalista, mas desde o debate entre Marx e Proudhon a gente sabe que o que move o capitalismo não é roubo, mas produção e extorsão de mais-valia. Se somos mesmo anticapitalistas, temos de admitir que o midiático Trump pode ter sido sincero ao dizer que a recuperação da indústria petrolífera venezuelana vai gerar muitos recursos para o país.

    A Venezuela tem uma dívida significativa com a China, cerca de 10 bilhões de dólares, contraída por meio de investimentos pesados feitos desde a época do Chávez. A torneira foi fechada nos últimos anos pela queda do valor do petróleo e pela falta de pagamentos do governo Maduro.

    A recuperação da indústria petrolífera pelas empresas ianques pode muito bem resolver esse problema com os chineses, que recebem 80% de “toda a produção venezuelana”, mas “toda a produção venezuelana” representa apenas 1% da produção mundial! Anos e anos de corrupção na PDVSA, a petrolífera estatal (os sindicalistas que denunciam estão presos ou desaparecidos), geraram esse cenário curioso no qual o país que detém as maiores reservas mundiais de petróleo extrai bem pouco de sua capacidade, pela grande defasagem da sua indústria.

    O petróleo venezuelano é ou era apenas uma garantia para os investimentos chineses, afinal a China recebe muito mais petróleo da Rússia, da Arábia Saudita, do Iraque, e até do Brasil, além do que há de se considerar também que o país tem diversificado como nenhum outro as suas fontes energéticas.

    Por tudo isso, é possível que a China não esteja “fora de cena”, e dado que nada nos indica que na passagem de 2025 para 2026 o capitalismo tenha deixado de ser a mola mestra do desenvolvimento econômico mundial, se as petroleiras estadunidenses puderem desemperrar as extrações venezuelanas, o capital global se beneficiará com novas oportunidades de acumulação e expansão.

  3. Análise de Sirantos Fotopoulos:

    A alegação de que o ataque dos EUA à Venezuela se resume ao petróleo não é falsa, mas é analiticamente vazia. O petróleo é o mecanismo pelo qual o controle político, a legitimidade e a coerção são exercidos. Tratá-lo como uma simples apropriação de recursos reduz uma complexa reestruturação do poder a uma caricatura do imperialismo do século XX.

    A indústria petrolífera da Venezuela foi nacionalizada na década de 1970 sob governos pró-EUA e anticomunistas. Esse ato não rompeu os laços com o capital global; reorganizou a extração por meio do Estado. Quando Chávez chegou ao poder, ele não aboliu essa estrutura. Ele a renegociou. Os royalties foram aumentados, a PDVSA consolidou o controle majoritário e o Estado reivindicou uma parcela maior das rendas. Mas o modelo subjacente — extração para os mercados globais, mediada pelo capital e dependente da participação estrangeira — permaneceu intacto.

    Essa continuidade é importante porque a Venezuela sob Chávez e, posteriormente, sob Maduro, nunca abandonou o capitalismo, nem tentou fazê-lo. Os mercados foram preservados, a propriedade privada permaneceu dominante fora do setor petrolífero, o capital estrangeiro continuou a operar e a economia permaneceu extremamente dependente das exportações de commodities. O Estado expandiu seu papel como gestor e distribuidor, mas não desmantelou o sistema que administrava. O que mudou não foi o modo de produção, mas a alocação política do excedente.

    É por isso que a representação do chavismo como um projeto que expulsou o capital estadunidense é um mito. Algumas empresas saíram após renegociações contratuais, mas outras permaneceram. A presença ininterrupta da Chevron é uma prova decisiva disso. O petróleo continuou a fluir porque a lucratividade permaneceu possível e porque o próprio Estado precisava desse fluxo para sustentar receitas, legitimidade e gastos sociais.

    Os Estados Unidos permaneceram o principal parceiro comercial da Venezuela no setor petrolífero durante boa parte desse período. A ruptura decisiva não ocorreu com Chávez, mas com a escalada das sanções em 2019. Essas sanções não causaram o colapso; elas o instrumentalizaram. Ao congelar ativos e bloquear transações, a escassez foi transformada em poder de barganha.

    A operação da Chevron sob licenças especiais destrói o mito de que a Venezuela era uma utopia socialista robusta. As sanções são apresentadas como instrumentos morais, mas exceções são criadas sempre que interesses estratégicos o exigem. Apelos à soberania soam igualmente vazios. A Venezuela continua a convidar empresas americanas, chinesas e russas para extrair recursos. A disputa nunca foi sobre acabar com a exploração, mas sim sobre quem a administra.

    O que esclarece o momento e a forma do ataque é que ele funciona como um meio de encerrar o regime de sanções, em vez de perpetuá-lo. As sanções haviam atingido os limites de sua utilidade: restringiam a produção venezuelana, distorciam os mercados e forçavam as refinarias americanas a depender de alternativas mais caras ou menos compatíveis. As refinarias da Costa do Golfo foram construídas e calibradas ao longo de décadas para processar o petróleo bruto pesado da Venezuela, e a restrição contínua desse fornecimento criou ineficiências que nem a retórica nem as licenças temporárias conseguiram resolver completamente.

    O contexto do ataque não se resume apenas a manobras geopolíticas e dominação hemisférica, mas também ao fato de que a Venezuela ainda deve às petrolíferas americanas ConocoPhillips e ExxonMobil mais de dez bilhões de dólares referentes a expropriações e indenizações arbitrais passadas, o que abre uma nova oportunidade para o capital americano recuperar ativos e exigir o pagamento.

    Ao orquestrar uma ruptura política decisiva na Venezuela e apresentá-la como um ponto final, em vez de uma escalada, o governo Trump cria as condições para suspender as sanções por completo, reivindicando uma vitória. Dessa forma, evita uma humilhação americana e, simultaneamente, garante uma humilhação venezuelana. O petróleo pode voltar a fluir em larga escala para as refinarias americanas sem a contradição de reverter abertamente o curso das ações ou admitir que as próprias sanções se tornaram um obstáculo aos interesses energéticos dos EUA. O espetáculo da força, portanto, serve a um propósito prático: restaurar um fluxo estável de petróleo bruto pesado sob um novo arranjo político que permite que os negócios continuem como de costume.

    O ataque se alinha a uma estratégia americana reconhecível — a aquisição hostil de empresas — onde a disrupção é usada não para desmantelar uma empresa, mas para trazê-la de volta sob uma gestão confiável e submissa.

    A remoção de Maduro se encaixa perfeitamente nessa continuidade. Representa uma reconfiguração da autoridade, não uma ruptura com o modelo econômico existente. A economia do petróleo permanece; apenas sua imagem política muda. A constante é um sistema no qual as elites negociam o controle enquanto a população arca com os custos. O petróleo não é a única razão. O petróleo é o canal através do qual o poder do capital americano é imposto, reordenado e legitimado.

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