Por Jan Cenek

Filme bom fica passando na cabeça da gente. O mesmo vale para a fotografia e as artes em geral. A exposição São Paulo, Multiplicidade – do arquiteto e fotógrafo Leonardo Finotti – é um exemplo. São dez séries produzidas pelo artista: são paulo vertical, habitar mendes da rocha, marketscapes, necropoli[s]tics, pelada, re:favela, latinitudes, diálogos tropicais, veracidade e brutiful. Agrupadas e exibidas em conjunto, as séries criam uma interessante leitura visual da capital paulista. A exposição São Paulo, Multiplicidade, fica em cartaz na Caixa Cultural de SP até 26 de abril de 2026. A curadoria é de Agnaldo Farias.

 

A crítica especializada destacou que a mostra é um “panorama consistente sobre as relações entre arquitetura, cidade e modos de habitar na capital paulista”; que “o artista constrói narrativas sobre permanência, transformação e tensão urbana”; que Finotti “tenciona a relação entre forma construída e uso cotidiano, entre monumentalidade e precariedade”; que não se “busca a imagem definitiva da cidade, mas múltiplas aproximações que revelam sobreposições de escalas e temporalidades”; que a cidade é um “conjunto de narrativas simultâneas”. É por aí. “São Paulo é como o mundo todo” – cravou Caetano Veloso na canção Vaca Profana, com a precisão poética que lhe é peculiar.

 

Na primeira visita que fiz à exposição de Leonardo Finotti, foi uma foto da série latinitudes que mais me chamou a atenção. Trata-se de um registro aéreo de Bogotá, e não de São Paulo. No primeiro plano, a antiga arena de touradas (Plaza de Toros de Santamaría), ao fundo modernas torres residenciais e as montanhas dos Andes. A cor das construções é semelhante, mas o contraste entre elas é perceptível. Algumas décadas separam as construções da arena e das torres. O registro aéreo da Plaza de Toros de Santamaría, em Bogotá, sintetiza as principais características que a crítica especializada identificou no trabalho de Leonardo Finotti: a relação entre arquitetura e modo de habitar, a permanência e a transformação, a sobreposição de temporalidades. São características que aproximam Bogotá de São Paulo, estabelecendo um diálogo possível. Mas não foi a qualidade estética do registro aéreo Plaza de Toros de Santamaría, em Bogotá, que me atraiu. Ocorre que aquele ângulo de visão é um dos possíveis para quem visita o mirante da Torre Colpatria, no centro da cidade, perto da antiga arena de touradas, do planetário e da Carrera Séptima. A foto me remeteu a imagens conhecidas e a boas lembranças. Curiosos labirintos da memória.

 

O leitor deve estar se perguntando sobre o futebol e o cemitério, presentes no título da coluna. Então, vamos lá. É que na série pelada, Finotti fez fotos áreas dos terrões (campos de futebol de várzea) nas periferias de São Paulo. Já na série necropoli[s]tics, o artista registrou, com drone, a abertura de covas no maior cemitério da América Latina, Vila Formosa, no bairro homônimo, durante vários dias, no início da pandemia de Covid-19. Vista com alguns anos de distância, a abertura de covas faz lembrar a escalada de mortes, que a mídia noticiava diariamente, nos primeiros e mortíferos meses da pandemia.

 

Curiosos labirintos da memória. À primeira vista, a foto de Bogotá me chamou mais a atenção do que os terrões da periferia e o cemitério. Apesar do amor que sinto pelo futebol de várzea e dos funerais que acompanhei no cemitério Vila Formosa, inclusive para me despedir grandes amigos, naqueles dias em que ficamos sem chão. Como se uma visita a uma torre em Bogotá fosse mais marcante que o enterro de um amigo. No segundo contato, quando voltei à exposição São Paulo, Multiplicidade, foi a incômoda semelhança entre as fotos aéreas do cemitério e dos campos de futebol de várzea que me deixou intrigado: como se o crescimento da cidade tivesse algo de mórbido, estando relacionado, inclusive, com a agonia do futebol.

 

Vistos por cima nas fotos de Leonardo Finotti, o cemitério Vila Formosa e os campos de futebol de várzea são incomodamente semelhantes. O solo exposto tem o mesmo tom avermelhado. São as entranhas abertas da megalópole. Que cresce e avança sobre os terrões, o mesmo ocorrendo com o cemitério Vila Formosa: como se a cidade fosse abrir covas nos campos de futebol de várzea, ou organizar peladas entre as sepulturas.

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