Na última sexta-feira, 10 de abril, a Avenida Paulista foi palco de um encontro inusitado. À assembleia dos professores da rede estadual convocada pela Apeoesp (sindicato oficial da categoria) em frente ao Masp, somou-se uma manifestação de indígenas. Alunos, professores e apoiadores de comunidades guarani de São Paulo, Vale do Ribeira e Itanhaém se juntaram à mobilização para denunciar que as escolas indígenas estão enfrentando a mesma precarização vivida por toda educação no estado, com a faixa: “aldeias pelas escolas, escolas pelas aldeias”.
A data do ato foi simbólica. Exatamente um mês antes, em 10 de março, a Escola Estadual Indígena Djekupé Amba Arandy, na Terra Indígena Jaraguá, zona norte de São Paulo, foi interditada pela Defesa Civil. Desde então, 250 alunos e professores guarani vem tentando manter as aulas de forma improvisada em um centro de convivência da aldeia. No entanto, o espaço não possui água filtrada, portas nos banheiros, nem ventilação adequada. [1]
Longe de ser um simples acidente, a interdição da escola era um desastre anunciado. Os guarani do Jaraguá denunciavam as condições precárias do prédio há anos. Em 2021, pais e alunos realizaram um protesto, impedindo que engenheiros da Secretaria de Educação deixassem a escola até que o governo garantisse que realizaria a reforma do local. [2]
De lá pra cá, o Governo Estadual deu início à construção de uma nova unidade escolar na T.I. Jaraguá. A obra, no entanto, já custou 3,5 milhões e não tem previsão de conclusão. A primeira etapa está prometida para o segundo semestre. Mas como ficam as aulas até lá?
Além dos problemas de espaço físico, a educação na aldeia já vinha sendo afetada pelas mesmas medidas desestruturantes que o Governo aplicou em toda a rede estadual como falta de merenda, fechamento dos cursos de EJA, do ciclo noturno e das salas de leitura.
Os últimos eventos da rede estadual de São Paulo parecem testar os limites do sucateamento da educação pública: baseado em uma plataforma de avaliação aplicada de forma duvidosa no final do ano passado, mais de 40 mil professores (foram demitidos)não puderam assumir aulas em 2026. São professores “categoria O”, isto é, subcontratados a partir de processos seletivos temporários — sem estabilidade na carreira ou vínculo com as unidades escolares, esses trabalhadores já representam mais de metade do corpo docente desde a pandemia. [3] E enfrentam, agora, uma demissão em massa.[4]
Para o absurdo da situação, a reação das entidades sindicais foi, no mínimo, tímida: moveram uma ação judicial (que agora obteve resultado) e agendaram dois dias de paralisação com assembleia para abril. Não é de se surpreender que, em tal cenário de desagregação e desmobilização, com uma minoria de trabalhadores estáveis nas escolas, a adesão ao chamado tenha sido realmente baixa.
Nesse contexto, a organização das comunidades escolares guarani foi uma surpresa positiva, já que sacudiu o marasmo e apontou novos caminhos. A possibilidade de uma mobilização real que fugia do script, contudo, parece ter assustado a burocracia da Apeoesp. Temendo perder o controle da situação, os diretores sindicais se prontificaram em tratar a presença indígena como um “movimento social” diferente da luta dos professores, associando sua participação a um “paralelismo sindical” arquitetado pelos setores de oposição. Mas, afinal, quem dá aula nas escolas das aldeias? A tentativa de confusão se esclareceu quando o microfone foi cedido a uma professora indígena.[5] Exemplo vivo da precarização, pois ela precisou assumir suas aulas de forma voluntária (!) para compensar o fechamento da sala de leitura.
Se o plano inicial do sindicato era encerrar o ato após o fim da assembleia na Av. Paulista, a mobilização indígena forçou que recalculassem a rota: com o término da votação, os guarani e professores seguiram em caminhada até a Secretaria Estadual de Educação. O caminhão de som da Apeoesp tentou acompanhar o trajeto e tentou atropelar os manifestantes para assumir frente, mas não conseguiu e teve que ficar no fundo.
Com baixa adesão, a assembleia votou por um “calendário de mobilizações”. O próximo ato está marcado para dia 2
Nesse processo de mobilização, um pequeno coletivo vem se formando em busca de caminhos para se organizar de forma autônoma, para além da estrutura do sinidicalismo estatal. Os “Professores Autônomos Contra o Estado”[6]formaram-se em diálogo com trabalhadores da educação que tentam desenvolver experiências no mesmo sentido na prefeitura e na rede privada de São Paulo, com os coletivos EMA (Educadores Municipais Auto-organizados) e A Voz Rouca.[7]
Enquanto isso, nas aldeias, as comunidades escolares guarani preparam os próximos passos da luta para conquistar uma solução não só para sua escola, mas também para todas as escola estaduais como indicava a bandeira de ordem: Aldeias pelas Escolas, Escolas pelas Aldeias.

O ato de sexta-feira, 10/04




