Por Michel Goulart da Silva
Embora mais conhecida como um dos principais nomes do heavy metal, a banda Black Sabbath também se mostrou atenta a temas políticos e sociais de sua época. Criada no contexto da Guerra do Vietnã, os membros da banda, ainda jovens, viram sua geração sendo impactada pelos horrores que o circundavam. O processo de transformações econômicas, políticas e sociais parece ter sido um importante elemento que afetou sua percepção do mundo.
Os jovens de sua geração viviam os impactos da libertação sexual e se embrenhavam na contracultura, mas também viam amigos e parentes sendo arrastados para a guerra ou, no caso dos que ficavam, ao mundo da pobreza e do desemprego. Os quatro jovens que criaram Black Sabbath pareceriam encarar esse cenário em sua cidade. Birmingham, na Inglaterra, onde a banda foi criada, era “uma pequena e decadente cidade industrial, sobrevivendo à época em que a Europa já não se orgulhava dessa indústria”. [1]

Essa realidade parece ter forjado na banda um certo desencanto. Os quatro jovens trabalhadores de Birmingham pareciam estar desacreditados dessa utopia que muito ressoava na classe média. Nos anos 1960, “a celebração das drogas, dos sonhos e da imaginação procurava reduzir a pedacinhos uma realidade sufocante”. [2] Mas, apesar das lutas encampadas pela juventude, não se conseguia transformar essa realidade.
O rock expressou muito dessa percepção da realidade. Nos anos 1960, os astros do rock “haviam encantado a opinião pública com flores, desfiles e promessas de mudar o mundo. Black Sabbath avançou ao fim da procissão, ainda professando a necessidade do amor, mas avisando aos errantes que não haveria volta a um ingênuo estado de graça”. [3]
O desencanto parece ser a base que levou à criação de uma versão mais sombria do rock, com uma guitarra que expressava acordes tensos e um baixo que amplificava essas distorções. O heavy metal pode ser entendido “como um catalisador de oposição e contestação ao status quo vigente, cujo estilo de vida entra em confronto com os conceitos convencionais de legalidade e moralidade”. [4]
Observa-se nas letras da banda Black Sabbath não apenas imagens sombrias, como as de Lúcifer na música título do primeiro álbum, mas também do desânimo em relação à sociedade e mesmo à vida. Uma de suas músicas mais famosas, “Paranoid”, ainda que bastante agitada em sua harmonia e melodia, traz uma letra que pode ser interpretada como a descrição de um estado depressivo.
Contudo, ao mesmo tempo em que mostram o desencanto com a utopia, suas músicas não deixam de questionar a realidade e mesmo criticar a sociedade. Os temas políticos, embora sejam minoritários em meio à exacerbação de uma subjetividade sombria e mesmo depressiva, atravessaram a carreira da banda, em especial em seus primeiros álbuns. Um exemplo é Paranoid, de 1970.
Nesse álbum encontra-se aquela que talvez seja a mais explícita letra política da banda, na música “War Pigs”. Sua letra, escrita sob o impacto da guerra no Vietnã, “foi baseada em relatos que a própria banda ouvia enquanto tocavam em bases militares norte americanas na Alemanha, vindo de pessoas que tinham retornado da guerra, ou daqueles que tinham parentes que estavam lutando em nome dos Estados Unidos”. [5]
Nessa música, faz-se uma crítica direta aos líderes militares e políticos, comparando-os a “bruxas em missas negras”. Essa imagem associa os generais a figuras tradicionalmente vistas como maléficas e manipuladoras, destacando a perversidade de quem comanda guerras.
Generais reuniram seus exércitos
Assim como as bruxas durante as missas negras
Mentes malignas que tramam destruição
Feiticeiros que edificam a morte
Denuncia-se também a manipulação que se faz para justificar as guerras.
No campo, os corpos queimam
Enquanto a máquina de guerra continua funcionando
Morte e ódio à humanidade
Envenenando as mentes daqueles que sofreram lavagem cerebral
Na letra de “War Pigs” denuncia-se como os poderosos iniciam guerras, mas se escondem das consequências, deixando que os pobres lutem e morram em seu lugar.
Políticos se escondem
Eles só iniciaram a guerra
Por que eles deveriam lutar?
Eles deixam esse papel para os pobres, sim!

Outro exemplo são duas músicas do álbum Master of Reality, de 1971. Em “Children Of The Grave” faz-se um apelo à juventude, diante das ameaças atômicas em meio à Guerra Fria.
Revolução em suas mentes
As crianças começam a marchar
Contra o mundo que têm de viver
E todo ódio que está em seus corações
Elas estão cansadas de serem empurradas
E apenas ouvir e obedecer
Elas enfrentarão o mundo até que vençam
E o amor venha a fluir
Procura-se mostrar como os atos de resistência do presente podem impactar nesse futuro, ainda que persista a dúvida de se conseguirão transformar a realidade.
As crianças do amanhã vivem
Nas lágrimas que caem hoje
O Sol se erguerá amanhã
Trazendo a paz de alguma forma?
O mundo tem que viver
Na sombra do medo atômico?
Elas conseguirão ganhar a batalha pela paz
Ou irão desaparecer? Yeah
Para que se conquista esse mudo, a música faz um chamado à ação.
Então crianças do mundo
Ouçam o que eu digo
Se vocês querem um lugar melhor para viverem
Espalhem as palavras hoje
Mostrem ao mundo que o amor
Ainda está vivo e vocês devem ser fortes
Ou vocês crianças do hoje
Serão as crianças da sepultura
Na música “Into the Void”, retrata-se um futuro sombrio para a humanidade, muito parecido com uma distopia. O desenvolvimento tecnológico, em suas contradições, é pensado a partir de seu impacto sobre a vida no planeta.
Motores de foguetes queimam o combustível muito rápido
Subindo ao céu à noite, eles explodem
Pelo universo, os motores gritam
Esse poderia ser o fim do homem e do tempo?
De volta à terra a chama da vida queima lentamente
Em todos os lugares, miséria e aflição
A poluição mata o ar, a terra e o mar
O homem se prepara para encontrar seu destino

Essa exploração dos céus deixa para os sofrimentos, mas não os apaga, permanecendo entre as pessoas.
Motores de foguetes queimam o combustível muito rápido
Subindo ao céu à noite tão vasto
Metal ardente atravessando a atmosfera
A terra permanece com preocupação, ódio e medo
Com as batalhas cheias de ódio e enfurecidas
Foguetes que voam em direção ao Sol incandescente
Pelos impérios do vazio eterno
Liberdade para o suicídio final
Essas são alguns exemplos que mostra seu olhar sobre a realidade. Em suas músicas, Black Sabbath “cantava as crianças sem pai e o absurdo do mundo”. [6] Em meio ao desencantamento com a utopia e a persistência do sofrimento e da exploração, não deixam de denunciar os problemas que os afetavam. São a expressão de preocupações daquela geração de jovens, que não enxergavam o futuro, diante tanto da ameaça da guerra como da pobreza deixada pela exploração capitalista.
NOTAS
[1] CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 13.
[2] JACOBY, Russell. O fim da utopia: política e cultura na era da apatia. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 235.
[3] CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 17.
[4] CERBELERA NETO, Diogo Ramos. O heavy metal sob a ótica da criminologia cultural: o cenário underground e seus aspectos criminológicos. In: Paulo Silas Filho; Matheus Belló; Gabriel Teixeira Santos. (Org.). Heavy Metal e Criminologia. Londrina: Thoth, 2020, p. 48.
[5] KELLES, Monique Pena. “War Pigs”: heavy metal e criminologia: um diálogo possível. In: Paulo Sillas Filho, Matheus Beló Moraes, Gabriel Teixeira Santos. (Org.). Heavy Metal e Criminologia. Londrina: Thoth, 2020, p. 160.
[6] CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 18.
Ilustramos este artigo com fotografias de Vo Anh Khanh (1936-2023).





