Por Jan Cenek
Carlos Liscano (1949 – 2023) foi um escritor uruguaio. Escreveu poemas, ensaios, contos, traduções, manuais de espanhol (quando morou na Suécia), matérias jornalísticas (quando regressou a Montevidéu), peças de teatro e romances. Foi também artista plástico e militante político. Integrou o Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T). Preso político, ficou encarcerado por treze anos (1972 – 1985). No cárcere se definiu como escritor e iniciou sua produção literária. A escrita de Liscano é inseparável da vida do autor, “uma literatura de situações excepcionais”, para usar uma definição de Ernesto Sabato [1]. Na banca de um livreiro de rua encontrei El escritor y el otro, de Carlos Liscano [2]. À primeira vista, foi a semelhança do título do livro de Liscano com o de Sabato, citado anteriormente, que me chamou a atenção. Comprei, li e reli algumas vezes El escritor y el otro. Sacada de Liscano: antes de criar uma obra, é preciso criar o personagem escritor, no caso dele, o Carlos Liscano que assina os livros. Foi esse movimento que o Carlos Liscano preso político realizou no cárcere da ditadura civil-militar uruguaia, quando criou o personagem Carlos Liscano escritor. Daí a separação do escritor em relação ao outro (el escritor y el otro). Este último é o indivíduo real, no caso dele, o Carlos Liscano por trás do escritor. À época preso político, depois faxineiro, professor, tradutor e, mais recentemente, diretor da Biblioteca Nacional do Uruguai. O personagem Carlos Liscano escritor ter sido forjado pelo preso político Carlos Liscano na cadeia amplia a complexidade do processo. Foi publicado no Brasil um livro [3] reunindo ensaios, em português e espanhol, sobre El escritor y el otro, mas o texto completo do escritor uruguaio não está disponível em português. Por considerar que pode interessar aos leitores do Passa Palavra devido à força e ao humanismo da reflexão, digitei trechos do texto original em espanhol, traduzi o material utilizando o Google, revisei a tradução cotejando-a com o original e com sentido geral do livro El escritor y el outro. Compartilho, abaixo, em itálico. Preparei a postagem em duas partes, na primeira, este mês, reflexões de Liscano mais diretamente relacionadas à escrita, para o próximo mês, trechos relacionados à vida e à luta política. A numeração indicada é a mesma presente no livro de Liscano.
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A vida é o modo que cada um encontra para atravessar a solidão. Mas não é a mesma coisa atravessar a solidão sozinho e estar perdido nela. O perdido procura os seus. Sabe que, se conseguir voltar ao grupo, estará salvo. Talvez isso não seja verdade, mas ainda assim o alivia pensar que a qualquer momento aparecerá alguém para lhe fazer companhia.
O outro sabe o tempo todo onde está, sem alívio.
O escritor é uma invenção de seu criado. Como a todo criado, ninguém lhe reconhece importância. O criado, que conhece como ninguém a fraqueza e a miséria do seu amo, finge não ter nada a ver com ele; e embora saiba que muito poucos o conseguem, sonha em um dia dissolver-se em seu personagem, para voltar a ser apenas um.
O romance não avança. Não é que não vá a lugar nenhum, é que simplesmente não se move. Quase todos os dias releio o que escrevi e não consigo fazê-lo crescer. Mas, enquanto isso, vir a estes papéis é sobreviver. Vivo o dia somente para chegar a estes papéis e empurrá-los um pouco, um pouquinho. Isso me salva. Salva a noite, outra noite.
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Fazia oito anos que eu estava na prisão, lugar que sempre é para toda a vida. Tinha começado a escrever e não havia nada que justificasse aquela paixão, exceto que me ajudava a viver. E como somos humanos, ainda que nossa criação seja mentira, serve como verdade, se nos ajuda a viver.
Com os anos, percebi que essa espécie de modéstia que acabo de expressar nunca existiu. Eu me pus a escrever, eu comecei a escrever na prisão porque devia cumprir minha vida de escritor, contra o que fosse.
Foi o tempo da inocência literária, quando escrever significava avançar, e não havia perguntas sobre por que e para que era necessário avançar. Era a pré-história, o ser ainda não diferenciado, sem distância entre o indivíduo e o escritor. O escritor que ainda não havia sido inventado, mas já estava dominado pela fé de que tudo consistia em realizar a obra predestinada. Inocente e iludido, escolhia o caminho e avançava sem precauções, sem ver que caminhava em direção à dúvida, à angústia, à dupla vida perpétua. Porque em literatura nunca se avança. Aprendem-se técnicas, armadilhas, mas sempre se está no mesmo ponto, cavando o mesmo buraco, procurando o que qualquer um sabe que não se encontrará ali, mas convencido de que não há outra coisa que valha a pena senão continuar cavando. Porque o que se quer é deixar testemunho para além da morte. Porque esse trabalho obstinado e condenado à derrota já foi feito por muitos e nada conseguiram. Mas sabendo, ao mesmo tempo, que o trabalho inútil de escrever é a única coisa que pode dar sentido à vida. Porque no futuro haverá uma noite em que, da massa escura do céu, seremos capazes de lançar uma linha invisível em direção à Terra, em direção a esta mesa, e sentiremos que tudo junto acaba por ter significado. Pelo menos uma noite, uma noite única, a vida encontrará seu significado. Para isso se vive, para isso se escreve. Para chegar a esta noite, sozinho, num nono andar, não feliz, mas por algumas horas em paz.
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A escrita ensina a falar consigo mesmo. Não tenho certeza de que ensine a falar com os demais.
O livro não existe antes de ser escrito. Porque materialmente não existe. Porque sequer existe na minha cabeça. Porque é a experiência de escrever o livro que faz com que eu seja eu. Porque sou um ao começar e outro ao terminar o livro. Porque quando escrevo vou avançando sobre o que não sei. Porque parto do não saber e, se tiver sorte, chego a saber algo novo. Isso é o que mais me seduz.
Ao mesmo tempo, sei que não se escapa da prisão da linguagem. Não posso saber além do que expressam as palavras que conheço e que são o meu mundo, mas delas é possível extrair formas praticamente infinitas. É fascinante não saber o que sairá antes de concluir o livro. Mas isso não é tudo. Em cada imersão a gente volta a se dissolver, deixa de ser. Porque na vida a gente domina a linguagem para os assuntos práticos, para a reflexão do mais imediato. Mas para escrever é preciso desarmar todas as posições, afundar, deixar-se afundar, ouvir o rumor das palavras. Para isso é preciso deixar de ser, apenas estar. Creio que algumas vezes consegui voltar com algo dessa viagem. O resto tem sido contemplação do ponto que tudo une, que é a linguagem.
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O fundamental do trabalho para me tornar escritor, creio hoje, abril de 2000, consistiu na tarefa negativa de renunciar. Renunciei a ser outras coisas, todas as que não fossem ser escritor.
Não creio que isso seja uma necessidade. Entendo que talvez seja possível ser escritor sem renunciar a nada. Mas para mim tem sido assim. Não tenho outra vida, não sei me imaginar de outro modo. Embora não o preveja, minha cabeça vê o mundo em função da letra escrita. Escrever é um modo de olhar. Isso não me faz feliz, nem melhor, nem me deixa contente. É como é, não tenho outra vida.
O que mais me surpreende hoje, ao lembrar os primeiros escritos da prisão, é saber que cinco, dez, vinte pessoas reconhecem em mim um escritor chamado Liscano. Aquele delírio próprio de preso virou realidade. Mas ninguém vê em mim o outro, aquele que fui, que continua sendo.
Ainda, vinte anos depois, sinto a inclinação absurda por esta atividade solitária que é escrever. Nunca duvidei de que ia escrever uma obra que justificasse o considerar-me a mim mesmo escritor. Não consigo expressar com palavras, mas tenho uma ideia muito definida sobre a escrita, a minha obra e a obra que gostaria de escrever. Tenho também uma ideia muito clara de que deixei pelo caminho parte daquilo a que um homem normalmente aspira: uma família, filhos.
É difícil explicar, mas é mais ou menos isso. Quando me dou conta de que comecei um livro, é como se me ocorresse uma explosão na cabeça. De repente descubro um universo novo, começo a entender outra vez a literatura, o ofício de escrever.
Escrever é uma experiência com a linguagem, quer dizer, consigo mesmo. É uma experiência das minhas palavras comigo, que as escrevo. Não posso saber que palavra terminará esta frase antes de escrevê-la. Escrevo-a, está dita, e agora? Não mudo nada? Não, não mudo nada do mundo; mas sim, mudou minha relação com a palavra, a consciência de falar e de escrever. A consciência da escrita, ou seja, da linguagem, impede ser aquele que se seria se não fizesse essa reflexão sobre o que constitui o ser humano: a palavra.
Escrevo para deixar de ser o que sou. Porque se escrevo me transformo. Porque saio em campo aberto sem saber para onde vou. Porque se escreve para chegar a um lugar que não se previu. Quer dizer, não chegar nunca, estar sempre mais aquém, estar em outra parte. Mas sempre tentando, a viagem com a palavra. Porque se não falo, ainda que seja sozinho, ainda que seja para dentro, não existo. Se falo, sou, mas como não chego a dizer com exatidão o que penso, então o fato de falar me transforma em outro, mas nunca naquele que quero. A busca continua. Porque a escrita põe em questão aquele que escreve, dissolve-o por um instante na infinitude da linguagem, não o deixa voltar a ser o que era. Porque o escritor luta contra a morte, e ao escrever recebe a constância da morte. Porque a morte é a não palavra.
Em anos de reflexão primitiva, solitária e simples, na prisão, acreditei que se trata mais de criar uma literatura do que de escrever uma obra. Chegar a esse ponto da reflexão é difícil porque é absurdo. Como um indivíduo isolado formula isso? Como se pode ser capaz de tanta soberba?
Chegar ao ponto de dizer a si mesmo que se será autor de uma literatura é uma espécie de loucura. Essa vaidade poderia formular-se assim: é preciso escrever tudo, absolutamente tudo, e eu devo fazê-lo. É como se todas as situações, todos os objetos pedissem para ser escritos, apesar de se saber que tudo já foi escrito, e sem dúvida melhor, pelos mestres que admiramos.
A gente se senta e observa esse universo que explode na cabeça e fica paralisado. Chega à conclusão de que é preciso abandonar tudo e dedicar-se a essa tarefa: escrever o Universo, a única coisa que tem sentido.
Mas depois se volta ao prático: é preciso comer, tomar banho, se barbear, cumprir com o trabalho e toda a servidão. Assim, da euforia à sensação de fracasso, depois de muitas horas solitárias criando o escritor, de muito tempo se permitindo brincar, mentindo em solidão: chega um dia em que, sem saber como, o personagem escritor está criado. É o momento em que a gente percebe que há quem reconheça a voz que conta, e se reconhece nela. Então já o outro, aquele que queria ser escritor, não existe. O personagem domina tudo. Não há diálogo possível entre o inventado e o outro.
Porque se trata é de criar o escritor e não a obra. Criado o escritor, a obra se fará sozinha. Porque o escritor se cria escrevendo, mas muito mais refletindo sobre o trabalho de escrever, sobre a vida que se escolhe. Porque ser escritor é escolher uma vida, um modo de estar no mundo, de ver as coisas. Porque se o indivíduo não escreve, não será escritor. Mas não basta escrever. Em algum momento de sua atividade, a reflexão se imporá: o quê, por quê, para quê?
Notas
[1] Ernesto Sabato. O escritor e seus fantasmas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.
[2] Carlos Liscano. El escritor y el otro. Montevideo: Editorial Planeta, 2016.
[3] Liliana Reales e Roberto Ferro (organizadores). Carlos Liscano: ficções do eu e do outro. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2013.





