O subcomandante Marcos expõe a existência de mais de um tipo de feminismo. Por Passa Palavra

Nos artigos críticos a um determinado tipo de feminismo excludente e seus impactos nas lutas sociais, o Passa Palavra procurou apontar exemplos de como a organização das lutas em torno da questão da situação concreta das mulheres pode levar a impulsionar as tendências antissistêmicas ou promover o seu contrário, o reforço das formas capitalistas.

Num dos comentários ao artigo O feminismo no espelho dos comentários, foi indicado por Luiz, em 14 de agosto, um “vídeo bem ilustrativo do modus operandi dessa corrente do feminismo nas lutas sociais. Neste caso no movimento indígena chiapaneco”.

É possível que não se tenha dada a devida atenção ao vídeo, no qual o subcomandante Marcos expõe a existência de mais de um tipo de feminismo. Certo feminismo, “que vem de cima, do centro à periferia”, e que reproduz práticas machistas e capitalistas e tem servido para que suas promotoras ganhem algum protagonismo político que lhes permite viajar para palestras, lançar livros, ocupar cargos governamentais etc. E esse tipo de feminismo, como não leva em consideração as práticas organizativas concretas das comunidades em luta, procurou impor uma doutrina, “libertá-las”, buscou mandar nas mulheres zapatistas retirando-lhes sua autonomia.

Reproduzimos abaixo a intervenção do subcomandante Marcos.

Escutar o amarelo. O calendário e a geografia da diferença

“O perigo [email protected] diferentes está em logo parecerem-se muito entre si”. Dom Durito da Lacondona

A luta das mulheres, do centro à periferia?

Se antes falamos que no pensamento de cima existia um abismo entre teoria e realidade e da concomitante bulimia teórica que virou moda em uma parte da intelectualidade progressista, agora queremos nos deter nesse ponto da geografia pretensamente científica que é o centro onde a pedra conceitual, ou seja, a moda intelectual cai e se iniciam as ondas que afetarão a periferia.

Acontece que essas teorias e práticas surgidas no centro se estendem até a periferia afetando não só os pensamentos e práticas nesses lugares, mas também, e, sobretudo, impondo-se como verdade e modelo a seguir.

Já se falou do surgimento de novos atores ou sujeitos sociais, e se mencionou as mulheres, jovens e outros amores.

Pois bem, sobre estes “novos” protagonistas da história cotidiana, surgem novas elaborações teóricas que, sempre no centro emissor, se traduzem em práticas políticas e organizativas.

No caso da luta de gênero, ou mais especificamente, no feminismo, sucede o mesmo. Em uma das metrópoles surge uma concepção do que é, de seu caráter, de seu objetivo, de suas formas, de seu destino. Daí se exporta para pontos da periferia, que por sua vez, são centros de outras periferias.

Esse translado não se dá sem os problemas e “engarrafamentos” próprios das distintas geografias.

Tampouco se dá, paradoxalmente, em termos de equidade. E digo “paradoxalmente” porque um dos traços essenciais dessa luta é sua demanda de equidade, de equidade de gênero.

Espero que as companheiras e companheiros que levantam essa luta, e que estão me escutando ou lendo, desculpem o reducionismo e simplismo com que estou tocando este ponto. Não que eu queira salvar meu machismo, tão natural e espontâneo, na verdade, é porque não estamos pensando, na hora em que tratamos disto, nos esforços que levam adiante. Não dizemos que seus projetos não sejam questionáveis. São-no e em mais de um aspecto, mas estamos falando de outra luta de gênero, de outro feminismo: o que vem de cima, do centro à periferia.

Nos próximos dias, as mulheres zapatistas celebrarão um encontro onde sua experiência e palavra terá um espaço exclusivo, assim não me aprofundarei mais nesse tema. Contudo, quero contar-lhes a breve história de um desencontro.

Nos primeiros meses posteriores ao início de nosso levante, um grupo de feministas (assim se autodenominaram) chegou a algumas das comunidades zapatistas.

Não, não chegaram a perguntar, a escutar, a conhecer, a respeitar. Chegaram falando o que as mulheres zapatistas deviam fazer, chegaram para libertá-las da opressão dos machos zapatistas (começando, evidentemente, por libertá-las do Sup.), a dizê-lhes quais eram seus direitos, a mandar, portanto.

Cortejaram quem consideravam as chefes (por certo, com métodos muito masculinos, diga-se de passagem). Através delas tentaram impor, de fora, na forma e conteúdo, uma luta de gênero que sequer se detiveram em averiguar se existia ou não e em que grau nas comunidades indígenas zapatistas.

Nem sequer pararam para ver se as haviam escutado e entendido. Não, sua missão “libertadora” estava cumprida. Voltaram a suas metrópoles, escreveram artigos para jornais e revistas, publicaram livros, viajaram com despesas pagas ao estrangeiro dando conferências, tiveram cargos governamentais etc.

Não vamos questionar isto, cada um consegue suas férias como pode. Só queremos recordar que não fizeram coisa alguma nas comunidades nem trouxeram benefício algum às mulheres.

Este desencontro inicial marcou a relação posterior entre as mulheres zapatistas e as feministas, e levou a uma confrontação subterrânea que, claramente, as feministas imputaram ao machismo vertical e militarista do EZLN. Isto chegou até o ponto em que um grupo de Comandantas se negou a um projeto sobre direitos da mulher. Acontece que queriam dar uns cursos, planejados por cidadãs, ministrados por cidadãs e avaliados por cidadãs. As companheiras se opuseram, queriam ser elas quem decidisse os conteúdos, quem ministrassem o curso, quem avaliassem os resultados e o que se seguia.

O resultado vocês poderão conhecer ao assistir ao Caracol da Garrucha e escutarem, dos próprios lábios das zapatistas, essas e outras histórias. Talvez lhes ajudassem a entender melhor levar a disposição e o ânimo de compreender. Talvez, como Sylvia Marcos no Israel das beduínas, entenderiam que as zapatistas, como muitas mulheres em muitos cantos do mundo, transgridem as regras sem descartar sua cultura, se rebelam como mulheres, mas sem deixar de ser indígenas e também, não há como esquecer, sem deixar de ser zapatistas.

Faz uns anos, um jornalista me contou que havia encontrado na estrada uma senhora zapatista e lhe havia dado “carona” até o povoado. “Andava com uniforme ou calça ou botas?”, perguntei-lhe preocupado. O jornalista me esclareceu: “Não, carregava água, camisa bordada e estava descalça. Ainda levava seu filho carregado no xale”. “Como soube então que era zapatista?”, insisti-lhe. O jornalista me respondeu com naturalidade: “é fácil, as zapatistas param diferente, caminham diferente, olham diferente”. “Como?”, reiterei. “Pois, como zapatistas”, disse o jornalista e sacou seu gravador para perguntar-me sobre a proposta de diálogo do governo, as próximas eleições, os livros que tenho lido e outras coisas igualmente absurdas.

Contudo é necessário assinalar que essa distância tem diminuído graças ao trabalho e compreensão de nossas companheiras feministas da Outra Campanha, particularmente e de maneira destacada, nossas companheiras da Outra Jovel.

Segundo minha visão machista, em ambos os lugares entendeu-se a diferença entre umas e outras e, portanto, iniciou-se um reconhecimento mútuo que acabará em algo muito diferente, que seguramente poderá abalar não só o sistema patriarcal em seu conjunto, mas também nós que apenas estamos entendendo a força e o poder dessa diferença, e que nos leva a repetir, ainda que com outro sentido, o “Vive le difference!”, Viva a diferença!

Dessa tensão que, paulatinamente, se converte em liga e ponte, resultará um novo calendário e uma nova geografia. Um e uma onde a mulher, em sua igualdade e em sua diferença, tenha o lugar que conquiste nessa sua luta, a mais pesada, a mais complexa e a mais contínua de todas as lutas antissistêmicas.

Confira aqui o vídeo:

4 COMENTÁRIOS

  1. Olá companheiros e companheiras, li há algum tempo os artigos do Passa Palavra sobre o feminismo, e reli agora, com essa publicação do Sub. Marcos, que resume muito bem a crítica a um certo tipo de feminismo.

    Como sabemos, a discussão rendeu bastante, acho principalmente porque o artigo de vocês parece reduzir o feminismo em dois,
    o que inclui e o que exclui, como se os coletivos feministas auto-organizados fosse composto por mulheres que temem ou rechaçam homens. As nuances são muitas, o feminismo não é só um ou dois, e se as mulheres sentiram a necessidade de se auto-organizarem, é porque as questões ligadas ao machismo não tiveram a devida atenção nas organizações políticas formadas por homens e mulheres, e também por casos de violência de gênero – alguns em que as organizações de esquerda não tomaram atitudes para acolher a vítima, ou mesmo para educar ou repudiar o agressor.

    Acho que alguns grupos feministas erra em algumas práticas, mas acho que isso decorre também de muitos erros em grande parte das organizações políticas, que perpetuam práticas sexistas e teimam em considerar a questão de gênero de menor valor.

    No evento “Há Machismo na Esquerda?”, sábado, foram importantes as falas da Amelinha Telles, ressaltando a importância de as mulheres (mulher como ser social, não biológico) serem protagonistas dessa luta. Claro que sem excluir os homens, mas um processo de transformação que chegue à igualdade entre os gêneros só vai acontecer com o protagonismo delas.

    Abraços!

  2. Márcio,

    É curioso que, entre outras críticas, os artigos do Passa Palavra foram acusados de cometer dois equívocos de abordagem excludentes entre si. A primeira acusação dizia que os artigos colocavam todos as variantes do feminismo num mesmo saco, supostamente ignorando as nuances e a diferenças entre eles. Outra linha de acusação dizia que os artigos operavam numa dicotomia, reduzindo-os a dois tipos: o que inclui e o que exclui.

    Eu prefiro pensar que as categorias “que inclui” e “que exclui” devam ser entendidas como meras tendências que coexistem e conflitam-se entre si nas práticas concretas; dois modelos extremos que, enquanto tais, dificilmente serão encontrados em sua forma pura (apesar de que há pessoas que parecem mesmo ser caricaturas). Não consigo concordar, então, com a observação de que os artigos afirmassem a existência de apenas um ou dois tipos de feminismo.

    Esta é uma metodologia de abordagem bastante comum e aceita sem qualquer objeção quando se trata de analisar diversos temas das lutas sociais, mas, não sei por que, neste caso gerou um monte de confusão.

    Abraços!

  3. A carta abaixo acrescenta mais elementos para a discussão:

    http://feministaspelacultura.noblogs.org/post/2013/08/26/manifesto-fora-do-eixo-machismo/

    2. Arranjos sexistas: clube das luluzinhas e clube dos bolinhas

    Quando um(a) integrante da casa/coletivo apresenta dificuldades ou questionamentos pessoais ou sobre o processo e precisa de esclarecimentos, este(a) integrante geralmente é levado a procurar o “seu gestor” ou “gestora”, direcionado para aquele de mesmo sexo. Acredita-se que esta política interna fortalece as relações entre os semelhantes. Entretanto, esta crença fortalece um modelo sexista, com a formação do clube dos bolinhas X o das luluzinhas.

  4. Eu acho engraçada a perspectiva do pessoal que trabalha simplesmente com a sociologia. Eles afirmam um pressuposto (de que não há diferença biológica), que para mim ficou claro que é fruto de uma crença pessoal, e o assumem até que a ciência prove o contrário.

    Mas aí é preciso discutir uma premissa da ciência. Ela não trabalha com provas, ela trabalha com hipóteses e probabilidades. Quando dizemos vulgarmente que algo foi cientificamente provado, o que ocorre é que uma hipótese foi cientificamente testada e que há uma probabilidade extremamente insignificante de termos que rejeita-la por não funcionar como um “padrão”. Construímos o conhecimento científico na base da inferência. Melhor apostar no que tem grandes chances do que deixar à base da sorte (mais ou menos assim que funciona). Por exemplo, para o teste de medicamentos, a ciência adota um corte de 0,001 como intervalo de confiança para aprovar ou não aquela droga. Ou seja, se apenas 0,001% ou menos for explicado pelo acaso e todo o restante (99,999%) for tido como “padrão” de resposta nas experimentações, o medicamento é aprovado como eficiente. Então quer dizer que está provando que esta droga cura a doença tal, por exemplo? Não! Seu caso pode estar dentro dos 0,001.

    Então, se agarrar a uma tese até que a ciência PROVE o contrário é loucura, pois a ciência jamais provará nada, pois em qualquer equação há um fator intrínseco inexcluível: o caos, a entropia, o acaso…

    Se reconhecemos que há diferença biológica nos órgãos genitais, no corpo, na produção de hormônios etc. etc., e se é o cérebro o órgão central que regula todo o funcionamento dessas diferenças, por que não haveria diferença biológica no cérebro também?

    Pensando na teoria da evolução (que é uma teoria, apesar dos milhões de indícios nos sugerirem ser uma verdade), se há papéis biológicos diferentes na reprodução e no cuidado parental da nossa espécie, certamente existem aí também diferenças biológicas que predispõem cada gênero a adotar um papel diferente.

    Enfim… acho que há uma relação múltipla entre biologia e cultura (coisas que não andam dissociadas nunca) afetando a questão dos gêneros.

    O problema é quando trazemos preconceitos da ciência vulgar para as relações de gênero, dizendo que se cérebros são diferentes, os intelectos também o são. Acho que a capacidade intelectual entre homens e mulheres é equivalente, isso pra mim é indiscutível.

    Uma coisa que me fez pensar para além dos gêneros foi a pesquisa do inglês, que independente do sexo, a quantidade de testosterona influencia nas preferências. Quanto mais testosterona, menos interesse em relações sociais, empatia, em se colocar no lugar do outro, e mais interesse em entender sistemas, máquinas etc. Então, se uma criança do sexo feminino prefere máquinas a se relacionar com outras crianças, então que a sociedade não lime essa sua vontade individual. Se um menino prefere desenvolver sua empatia, sua emotividade e não se interessa por sistemas ou engenharias, que ele tenha o poder de exercer a sua vontade.

    Aí tocamos numa coisa que acho central na discussão entre gêneros: as relações de poder! Acho que a luta contra o machismo e pela igualdade dos gêneros deve se restringir unicamente ao direito de PODER. Se uma mulher quer ser engenheira, que socialmente ela tenha todos os meios e a liberdade para PODER ser engenheira. Se um homem quer ser bailarino, que ele tenha todos os meios e a liberdade para PODER ser bailarino. Se a luta estiver restrita a isto, tanto faz se a origem das preferências é biológica ou cultural.

    O problema é que vejo várias compas de luta apegadas a um discurso de ocupação de nichos do homem, dizendo que DEVEMOS nos tornar engenheiras, DEVEMOS nos tornar químicas, DEVEMOS nos tornar policiais, mas nunca dizem que DEVEM se tornar garis que se penduram nos caminhões de lixo pela limpeza pública. Não acho que deva ser um MÉTODO DE TRANSFORMAÇÃO exigir (entenda, exigir!!!) a ocupação dos cargos onde majoritariamente há homens. Acho que se há o interesse individual para ocupar certos cargos ou ofícios, que haja sim uma luta para que o machismo não faça resistência a isto.

    Acredito na luta feminista como uma luta pela igualdade de poder, da livre escolhe de seus ofícios, numa luta contra o capital, pois não existe capitalismo sem machismo, como ele não existe sem o racismo. Acredito na luta feminista como uma luta muito maior, pois não importaria a uma mulher ser Secretária de Saneamento Urbano bem sucedida enquanto seu filho está pendurado durante a madrugada nos caminhões de lixo, pelas esquinas perigosas dos centros urbanos realizando um trabalho de alto risco e em péssimas condições de trabalho, tudo isto legitimado pelo nicho profissional ocupado por sua mãe.

    Também não adianta vermos mulheres solteiras que foram abandonados por homens escrotos ocupando e conquistando duramente o mercado de trabalho, e deixando seus filhos em casa com uma outra mulher, com cargo de babá, que trabalha arduamente para receber um salário indigno, enquanto esta deixa sua filha de doze anos sozinha em casa para poder trabalhar. Não seria injustiça diferente se a mulher trabalhasse e o marido ficasse em casa, impelido por uma ideologia desigual, cuidando das crianças e dos afazeres domésticos.

    Nas assembleias populares da frente pelo Passe Livre em Salvador, vi mulheres exigindo que houvesse representação feminina na comissão que apresentaria e argumentaria as propostas do movimento numa audiência pública. Isto chegou a gerar tumulto e um desgaste na assembleia. Para todos nós, tanto fazia se homem, mulher, branco ou preto… queríamos sugerir nomes que tivessem conhecimento sobre o tema, um respaldo técnico para argumentação sobre mobilidade urbana, destino das finanças, fraudes em licitações, monopólios das empresas de transporte, engenharia de tráfego etc. Se tivéssemos várias mulheres com esse conhecimento, que a comissão fosse repleta de mulheres. E por que não há tantas mulheres com este conhecimento? É por alguma preferência biológica? É por alguma influência cultural? Não importa. Se há mulheres que querem se aprofundar neste ramo do conhecimento e que sofrem resistência do machismo, que apoiemos estas mulheres em sua luta.

    É louvável uma mulher ser presidente do país? Para muitas mulheres, isto é um bom exemplo. Mas sinceramente, tanto faz ser uma mulher ou um homem que irá legitimar toda a injustiça, desigualdade, insegurança, corrupções… Quantas outras mulheres sofrem com a política da atual presidente? Milhões! E sofreriam igualmente se o presidente fosse homem! Enfim… a luta pela igualdade do gênero deve ir para além do gênero, pois esta desigualdade de poder só existe para legitimar a nossa forma desigual de organização social.

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