Pride: Uma luta que uniu identidade e classe

Pride: Uma luta que uniu identidade e classe

em 6 nov

De repente ficou fácil se manifestar em Londres. A repressão tinha mudado de alvo. Por Ju e Simone

Estranhamente o governo de Margaret Thatcher e sua repressão policial pareciam ter dado uma trégua e a explicação para aquela calmaria suspeita estava estampada nos jornais. O efetivo policial havia sido deslocado para reprimir a mais longa greve dos mineiros na pacata cidade de Neath, a cerca de 300 quilômetros da capital inglesa. A greve dos mineiros da Inglaterra de 1984 a 1985 se notabilizou pela sua extensão e pelas diversas batalhas dos trabalhadores e sindicatos frente ao irredutível e inegociável governo de Thatcher. Depois de um ano de resistência, o sindicalismo inglês teve como saldo a transformação da sua relação com o governo e a sociedade.

Diante da notícia e ciente da repressão e do isolamento político e social dos mineiros, Mark Ashton (interpretado por Ben Schnetzer) convence o grupo ativista de Gays e Lésbicas de Londres a criar uma campanha de arrecadação de fundos em apoio aos trabalhadores e seus familiares. Após conseguir contato com os sindicalistas, Mark e o grupo viajam para a vila de Onllwyn e, a partir desse momento, dão início a um inusitado encontro geracional, estético e moral.

Baseado em fatos reais ocorridos no verão de 1984, Pride [Orgulho e Esperança, no Brasil] expõe o abismo entre as mentalidades que abarcam os que lutam por garantias dos direitos trabalhistas e os que buscam derrubar as opressões ligadas a gênero e sexualidade.

Como lutar por liberdade sexual ao lado de trabalhadores conservadores e preconceituosos? Como lutar por direitos trabalhistas e frear o desemprego e as prisões dos mineiros tendo como único apoio o coletivo de Gays e Lésbicas? Este é um dos aspectos que o filme apresenta. Assim, não faltam cenas simpáticas sobre o encontro dos modos de vida e o esforço por parte do movimento vindo de Londres para tornar os encontros dos mineiros e familiares mais alegres e dançantes. O que não significa que as contradições internas do movimento e do encontro com os trabalhadores mineiros sejam esquecidas.

A produção da BBC não empolga logo no início. Seria mais uma história de roteiro de superação para demonstrar que a união faz a força? Talvez. Mas isso não é suficiente para tirar a originalidade do roteiro que lhe rendeu o Bafta de melhor filme em 2014.

Em uma época de intensa fragmentação das lutas, do império do lugar de fala e da promoção de escalas de sofrimento como forma de legitimar ou não reflexões, este é um filme que inspira sobre a importância de agir evitando o isolamento cada vez mais frequente de lutas e lutadores, bem como não se deixar limitar e paralisar pelas fronteiras identitárias, que por vezes recaem no automatismo da ação.

Ao reconhecer uma situação comum aos gays e aos mineiros, a saber, a da repressão exemplar do Estado quando se luta por direitos e por liberdade sexual, o coletivo de Gays e Lésbicas seguiu com o propósito de manter o esforço e desenvolver ações que pudessem fortalecer e expandir as lutas dos dois grupos contra o sistema que lhes oprimia. Neste processo de luta e de aproximação entre gays e mineiros se desenrolam atitudes de solidariedade, ternura e cuidado necessárias ao desenvolvimento subjetivo e político dos indivíduos envolvidos na trama. Pride, portanto, revela o esforço dos dois grupos em fortalecer as lutas sociais contra o sistema opressor em detrimento da prevalência de sectarismos seja identitário ou de classe.


Comentários 48

    • João Bernardo

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      nov 10, 2016

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      Será que os meus olhos estão a falhar quando leio no final deste artigo «fortalecer as lutas sociais contra o sistema opressor em detrimento da prevalência de sectarismos seja identitário ou de classe»? E assim o Passa Palavra publica um texto em que uma afirmação prática de classe social é considerada como um «sectarismo» e colocada a par do identitarismo multiculturalista. Pior ainda, porque o contexto mostra a confusão de uma afirmação de classe com o seu contrário, o espírito corporativo, característico de um sindicalismo burocrático, como sucedia, e sucede, com o TUC e o Sindicato dos Mineiros. No meu último e derradeiro artigo publicado neste site ( http://passapalavra.info/2014/05/93844 ) escrevi, a encerrar, que «Para reconstruir uma esquerda anticapitalista ou, mais exactamente, para reconstruir o anticapitalismo no espaço que hoje se denomina “esquerda”, temos de partir quase do zero». Pensava então que se trataria de um zero Celsius, mas cada vez mais me convenço de que se trata de um zero Kelvin.

    • Ju e Simone

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      nov 11, 2016

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      João Bernardo, a frase que você destacou está mesmo inadequada com o que gostaríamos de salientar no texto. Ainda que o filme não faça uma discussão sobre o papel do sindicato na luta dos mineiros, refletimos sobre o seu comentário e reconhecemos que poderíamos ter trazido à reflexão elementos da burocratização sindical ou mesmo ter desenvolvido aspectos históricos que levaram o movimento dos mineiros à derrota. Portanto, não ignoramos a capacidade que tem qualquer sindicato burocratizado de prejudicar e frear a luta. O nosso propósito foi mesmo trazer o tema do apoio e da solidariedade entre os movimentos, para conseguirem resistir num contextto de intensa e permanente repressão. Se no plano ideológico os dois movimentos se diferenciam, no plano tático poderiam estabelecer alguma convergência ou são antagônicos, inconciliáveis? Mesmo cientes de que o multiculturalismo tem capturado e confundido ideologicamente a esquerda, é difícil ignorar que alguns temas por ele abarcados perpassam concretamente o cotidiano de lutadores antissistêmicos na atualidade.

    • Lucas

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      nov 11, 2016

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      O texto me havia interessado no filme, mas o comentário do João Bernardo me convenceu de que deveria assisti-lo.
      O filme é interessante e bem feito, valem as 2 horas de entretenimento com conteúdo, boas atuações, etc.
      Me pareceu que versa principalmente sobre as relações humanas necessárias e fruto da solidariedade verdadeira, aquela que não é apenas juntar grana e sair na foto, ou emitir uma declaração de apoio (tão típica das assembleias universitárias). É essencialmente a matéria humana com a qual se realiza a solidariedade política, mais que apoiar uma luta, apoiar os lutadores que a levam adiante. Nesse sentido, nas duas primeiras vezes em que aparece o Sindicato, este está colocado expressamente como um obstáculo à solidariedade. Outro obstáculo à solidariedade, este sim quebrado pelas relações humanas, é o conservadorismo das bases – creio que o filme ensina isso, desmistificando o voluntarismo ideológico.
      Mas se podemos ver com clareza estes obstáculos da solidariedade, o filme simplesmente ignora o motor da solidariedade, para mim é o ponto fraco e que merece mais debate. Todo o grande projeto realizado no filme por este grupo de ativistas parece ser movido pela força de vontade e constância de um militante dirigente gay com inspirações comunistas. Se por um lado a ideologia é um fator de solidariedade não menor, em nenhum momento do filme esse militante aparece como trabalhador. De fato, isso se aplica a toda a trupe de gays e lésbicas, menos para o casal que é dono de um comércio de livros. É como se os ativistas LGBT não fossem trabalhadores e tivessem um tempo livre grande para passar dias e dias num vilarejo com completos desconhecidos, sem nenhum outro projeto, individual ou coletivo, que tocar, além de, é claro, trabalhar ou coisa parecida. Essa configuração discursiva do filme também aparece na boca do dirigente, que quando discursa aos LGBTs ou mesmo à liderança da pequena comunidade de base mineira, se utiliza da retórica mais bem próxima do populismo: nos juntamos porque temos um inimigo comum, alianças estratégicas para combater o mesmo inimigo. Isso me levou a lembrar de outro filme parecido, mas yankee, o “Milk”, onde os gays californianos fazem aliança com, se me lembro bem, caminhoneiros para uma campanha de boicote. Aqui em “Milk” o caráter corporativo e pragmático é mais escancarado, a-ideológico, bem mais afinado com a lógica parlamentarista que inclusive é mostrada ao final do filme. “Pride”, neste sentido, está mais próximo de outro tipo de solidariedade, ainda que deixe algumas zonas cinzas. Os símbolos do comunismo aparecem aqui e ali (na van do grupo, nas bandeiras vermelhas na marcha gay). Mas a última aparição do Sindicato para mim não se entende bem: os ônibus do sindicato que chegam para apoiar a marcha gay no ano seguinte após a greve, haveria sido uma iniciativa das bases sensibilizadas, ou uma jogada de marketing para seguir aparecendo na mídia como combativos e solidários após a derrota numa greve de quase um ano? Aqui, mais uma vez, para mim ficou a dúvida aberta sobre o real sentido destas práticas.

    • Fagner Enrique

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      nov 12, 2016

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      Para mim, está mais do que claro que, cada vez mais, o identitarismo se afirma como o novo nacionalismo hegemônico, um nacionalismo compatível com a era da fragmentação da classe trabalhadora e da transnacionalização do capital, em que o Estado vai perdendo sua razão de ser e, portanto, sendo inviabilizado enquanto muleta para os grupos de esquerda; em suma, é o nacionalismo da era da globalização, e não “um” nacionalismo mas “o” nacionalismo. E, tal como ocorria com o nacionalismo das nações, no que se refere ao nacionalismo das identidades, existe uma esquerda classista-internacionalista que nutre a pretensão de fazer repercutirem, aí, práticas classistas-internacionalistas, ou que pretende trazer os nacionalistas-identitários moderados para o âmbito do classismo internacionalista; em suma, o nacionalismo identitário é visto como um campo onde atuar, nem que seja pelas bordas. É uma esquerda que – ao invés de pretender recomeçar do zero, como coloca João Bernardo, abrindo uma nova frente de atuação que possa servir de referência para aqueles que, depois de experimentarem as contradições do identitarismo, sejam projetados para fora dele – prefere a comodidade de atuar sobre estruturas já dadas, ou não vê a possibilidade de criar estruturas totalmente novas, ou é incapaz de fazê-lo. O problema é que as estruturas do nacionalismo identitário são, elas mesmas, estruturas que desestruturam, a todo momento, essa nova frente de atuação. Se não tivéssemos passado por tanta coisa; se não tivéssemos testemunhado o nacionalismo indentitário desestruturar o classismo internacionalista tantas vezes; enfim, se não tivéssemos sido precipitados nesta grave crise da esquerda, por conta, justamente, do identitarismo, poderíamos até esperar alguma coisa daqueles que transitam pelo campo nacionalista identitário. Mas o que a experiência nos demonstra é que não há nada a se esperar. A resposta, portanto, é atuar separadamente em relação aos identitários, o que é muito diferente de sectarismo (no que se refere às organizações de esquerda, sectarismo é fechar-se, em si mesmo, em relação à massa trabalhadora, não atuar separadamente no que se refere a outras orientações político-ideológicas). A resposta é seguir outro rumo, por mais difícil que seja. Sendo feita esta opção – ou, melhor, havendo consciência de que é esta a única opção; caso contrário, continuaremos a ser empurrados para o canto, para a margem, para a subalternidade, no campo da esquerda em geral, enquanto os identitários se afirmam hegemônicos –, poderemos nos concentrar no que realmente importa, que é promover o reencontro da esquerda com a classe trabalhadora, afirmando, por aí, uma nova esquerda. Não se pode assegurar que, assim, nossa posição classista e internacionalista não entrará em conflito com o identitarismo, porque isso é inevitável, em certos momentos, mas o foco deve estar em retomar uma interação orgânica com a classe trabalhadora, vitimada pela crise. O proletariado, ou grande parte dele, vendo a esquerda difundir uma linguagem, um discurso, que não responde aos seus interesses, acaba sendo empurrado para a direita e a extrema-direita. A eleição de 2016, nos Estados Unidos, é uma evidência disso; o Brexit, antes disso, também; o crescimento e fortalecimento da extrema-direita na Europa; fenômenos como o Estado Islâmico; tudo isso está relacionado.

    • RefugiadoOnLine

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      nov 12, 2016

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      É uma pena, mas na cabeça de uma parte da esquerda “classista” tudo se passa como se o fenômeno do “multiculturalismo” fosse de ordem ideológica apenas, ou um desvio epistemológico que, num movimento autônomo em relação à realidade concreta, minou a base das velhas categorias universais. Contrário aos próprios preceitos do marxismo, essa esquerda acredita fielmente que os adeptos do “multiculturalismo” são simples idiotas ideológicos, gente intelectualmente limitada que não sabe ler e interpretar a realidade conforme a linha mais correta, mas pouco dizem sobre processos históricos e as relações materiais que deram, e dão ainda, suporte a esse fenômeno no plano das ideias. É a mesma coisa que se faz em relação aos neopentecostais: creem que podem atribuir a enorme expansão destas igrejas à cretinice inata das pessoas que depositam sua fé na lorota contada pelos pastores, no que não se distinguem muito da crítica de direita. Talvez essa esquerda faça isso porque praticamente se resumiu também a uma existência meramente ideológica, bravos e seletos combatentes da superestrutura. Ao invés disso, talvez fosse mais frutífero nos perguntarmos por que as ideias sobre identidade e a salvação via Jesus fazem mais sentido para os trabalhadores, hoje, do que o discurso sobre a luta de classes. Estariam assim contribuindo muito mais com a luta de classes do que simplesmente lamentando a perda da perspectiva classista-internacionalista e atribuindo-a à imbecilidade das pessoas. Essa esquerda parece se esquecer também que, infelizmente, a história não é um jogo de videogame que se possa “resetar” e começar do zero (o que é uma pena, pois mtas vezes também eu gostaria de fazer isso), da mesma forma que os indivíduos concretos não são tipos puros que possam ser catalogados e distribuídos deste ou daquele lado da linha que separa classistas e identitários, para, aí sim, dar-se início a novas frentes de atuação, sem contaminações. Para o bem ou para o mal, o mundo concreto é muito mais complexo do que isso.

    • Fagner Enrique

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      nov 13, 2016

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      RefugiadoOnline refugiou-se na rede e refugiou-se, também, de uma leitura cuidadosa? Onde é que afirmaram, acima, que o multiculturalismo é um fenômeno de ordem ideológica, apenas, ou um mero desvio epistemológico? Se afirmamos que o identitarismo é o novo nacionalismo, característico da era da globalização, entendida como movimento duplo, de transnacionalização do capital (que é, logicamente, uma relação material) e fragmentação dos trabalhadores (outra relação material), estamos afirmando, claramente, que existem processos históricos-materiais dando suporte aos discursos identitários. Reflitamos, porém, sobre uma das afirmações de RefugiadoOnline, de que “as ideias sobre identidade e a salvação via Jesus fazem mais sentido para os trabalhadores”. Ora, no que se refere às ideias sobre identidade, será mesmo? A vitória de Trump, nos Estados Unidos, que representa uma derrota do multiculturalismo, da mesma forma que uma derrota da esquerda classista, aponta para outra conclusão. O Brexit, vinculado a uma política anti-imigrantes, representa, ao mesmo tempo, uma derrota do multiculturalismo e da esquerda classista. E não se trata de Estados Unidos e Grã-Bretanha, apenas, mas de toda a Europa e muito além. Numa conjuntura de enfraquecimento da luta de classes perante as lutas identitárias e, ao mesmo tempo, de agravamento da situação econômica, em plena globalização, a classe trabalhadora encontra, no velho programa nacionalista estatista, de tendências xenofóbicas, racistas etc. (não que o identitarismo não tenha, também, suas tendências racistas…), e não no programa democrático multiculturalista, uma resposta para a questão do desemprego, da piora das condições de vida etc. É por isso que vemos a União Europeia, de caráter democrático e multicultural, em crise. Um nacionalismo substituído por outro. O nacionalismo antiglobalização substituindo o nacionalismo pró-globalização, ou o nacionalismo próprio ao contexto da globalização. É exatamente isso que estamos vivendo. Mas, bem, deixemos aqueles que se refugiam online falar sobre quem, supostamente, combate no plano da superestrutura.

    • Emerson Martins

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      nov 17, 2016

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      Embora a crítica que o João Bernardo fez seja correta, não acredito que isso diminua a importância do texto. Ao confundir classe com corporativismo o texto não faz mais que usar o termo classe tal como a quase totalidade da esquerda o compreende. Não à toa, muitas vezes a própria crítica ao multiculturalismo recai numa noção corporativista de classe.
      Em contrapartida, o próprio texto é uma tentativa de estabelecer uma política realmente de classe, pois parte da compreensão de que existem diversas divisões entre os trabalhadores (de sexo, raça, orientação sexual, etc) e que não se pode desprezá-las em nome de uma fictícia “unidade da classe trabalhadora”. A unidade real dos trabalhadores, sua conformação enquanto classe, só é possível assumindo essas diferenças. E a história da aliança entre um coletivo de gays e lésbicas e um sindicato é apenas o exemplo concreto dessa possibilidade.

    • Caio Martins

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      nov 18, 2016

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      A intervenção do João Bernardo sobre a última frase é certeira – afinal, se há uma via de ação política que não seja nem sectária, nem identitária, é a ação de classe. E parece ser isso que tinham em vista a Ju e a Simone ao escreverem um texto sobre a convergência entre o movimento de gays e lésbicas e uma luta trabalhista, um momento de unidade… de classe. O problema está, aliás, só nessa frase, pois logo no parágrafo anterior as companheiras não poupam críticas ao multiculturalismo.

      Entendo que o problema da última frase foi resolvido pelo Emerson: ali “classe” aparece associada ao corporativismo, ao campo meramente sindical. Essa é uma concepção restritiva, que não dá conta da ação de classe como um universal negativo. Mas o problema é maior que a última frase do texto, o problema é que essa é uma concepção amplamente difundida na esquerda (e de pessoas em geral), que associa luta de classes com sindicalismo nos marcos fordistas-keynesianos, por assim dizer. Se perdermos esse problema de vista, temos ainda o risco usar “classe” para tratar de uma coisa, e nosso interlocutor pensar que estamos falando de outra.

      Pra terminar: Emerson diz que só é possível a unidade real dos trabalhadores assumindo suas cisões internas. Nosso grande problema está nesse “assumindo” aí. Porque não dá pra escamotear. Mas não dá pra virar uma simples afirmação; aí vence o identitarismo, isto é, a cisão sai reforçada. A questão é como superar. Me parece, e o texto é sobre um caso que vai nesse sentido, que são as lutas comuns e coletivas de classe que produzem o movimento necessário para essa superação.

    • João Bernardo

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      nov 23, 2016

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      Vejo nestes comentários que há quem considere que o identitarismo contribuiria para que a classe trabalhadora ultrapassasse os seus preconceitos morais e o seu conservadorismo social, ou seria mesmo a condição desta ultrapassagem. Esses comentadores e comentadoras juntam assim duas perspectivas inconciliáveis, porque uma pretende desenvolver uma acção baseada na divisão da sociedade em classes, uma divisão horizontal, e a outra esforça-se por promover uma divisão vertical, supraclassista, integradora das várias classes sociais e de todas as correntes políticas.
      Ora, a classe trabalhadora tem sempre uma realidade económica, mas ainda só raramente, em períodos de lutas muito amplas e gerais, conseguiu assumir uma realidade sociológica e cultural própria. Conseguiu-o quando as divisões no interior da classe trabalhadora foram superadas graças à noção de que aquilo que os trabalhadores têm em comum — o facto de serem explorados — é mais forte do que aquilo que os distingue, seja o sexo ou a percentagem de melanina ou outra coisa qualquer. Afirmar uma identidade baseada nas distinções, neste caso, distinções resultantes de preferências sexuais, é impedir a construção de uma identidade baseada na condição comum de trabalhadores. O identitarismo é o oposto da luta de classe, por isso a esquerda identitária já não se diz anticapitalista, mas «anti-sistémica». O termo não é inocente e difundiu-se graças aos nacionais-socialistas alemães quando combatiam o que denominavam «o sistema» da república de Weimar, do mesmo modo que hoje, na Europa e nos Estados Unidos, a extrema-direita radical e os fascistas se dizem também «contrários ao sistema». Precisamente enquanto uma esquerda obtusa se convence de que o capitalismo está em crise, a hegemonia alcançada pelos identitários e a troca do anticapitalismo pelo anti-sistémico mostram que quem está em crise é a esquerda.
      Seria talvez proveitoso se aqueles comentadores e comentadoras reflectissem um pouco perante as imagens do homossexual Milo Yiannopoulos a falar à imprensa depois do massacre de Junho deste ano no bar de Orlando, com a bandeira do arco-íris por detrás. Ou reflectissem sobre a identidade sexual de Florian Philippot. Ou de Pim Fortuyn. Ou de Eduard Limonov. Talvez isso vos ajude a entender para que serve o identitarismo. Se não ajudar, nada vos ajudará.

    • Emerson Martins

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      nov 23, 2016

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      João, talvez algumas situações concretas ajudem a nos compreendermos. Você diz que as divisões no interior da classe trabalhadora foram superadas quando a compreensão de que aquilo que os trabalhadores têm em comum é mais forte do que aquilo que os distingue. Queria entender como isso se aplicaria num caso onde um chefe assedia uma funcionária ou humilha um negro. Nesse caso, esses funcionários estão sendo maltratados não por aquilo que eles tem em comum com os outros, mas pelo que os distingue (seja o sexo ou a cor da pele). Nesse caso, uma ação coletiva dos trabalhadores contra os patrões não se dá, imediatamente, em defesa de uma condição comum, mas de uma condição particular do outro. É só de maneira mediada que essa ação pode ser compreendida como defesa de uma condição comum, pois de fato um ataque racista contra um trabalhador enfraquece todos os outros trabalhadores. Nesse mesmo sentido, como combater os preconceitos que existem entre os próprios trabalhadores e que podem bloquear sua unificação? Foi nesse sentido que eu disse que era preciso assumir nossas diferenças. Mas não para consolidá-las, mas para que a luta contra o racismo, o machismo, etc., seja assumida por todos os trabalhadores como no velho lema: “mexeu com um mexeu com todos”.
      Enfim, não tenho respostas prontas, mas no dia-a-dia precisamos improvisar algumas respostas pra dar conta dos dilemas que a luta coloca. Então gostaria de saber como você considera esses casos pra eu entender melhor sua posição.

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      nov 23, 2016

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      Emerson, você perguntou ao João Bernardo, então de antemão já pesso desculpas pela intromissão, pois não posso evitar de responder colando aqui o trecho de um texto que aborda exatamente essa questão prática:

      “[…] Sem dúvida é essencial a solidariedade entre mulheres (ou negros), se acolhendo mutuamente, se reconhecendo e compartilhando os problemas que só elas (ou eles) sofrem e modos de se contrapor a eles. Porém, fechadas em si mesmas, isto é, enquanto lutas identitárias, elas são necessariamente punitivistas e como tais meramente reivindicam o reforço do aparato repressivo do Estado, quando não a repressão direta ganguista. Por exemplo, na prática o que o feminismo indentitário propõe para transformar a sociedade? Mais repressão. A repressão é a única praxis social possível das lutas identitárias. Não estou dizendo que elas poderiam exigir outra coisa fora a repressão, mas sim que não se pode esperar das lutas identitárias, enquanto tais, a menor possibilidade de ir além do status quo, no qual a repressão (recompensas e punições) é a única praxis possível.

      As mulheres são a esmagadora maioria dos que ganham um salário mínimo ou menos no Brasil. E são elas que são a maioria dos que continuam ganhando a mesma coisa pelo resto de suas vidas… Como tratar disso? Há duas maneiras. Uma é pela via identitária e consiste simplesmente em protestar por novas leis e por fortalecer ainda mais a repressão para implementá-las, “empoderando” ainda mais a classe dominante. A outra é pela solidariedade que surge pela confiança mútua entre homens e mulheres, negros e brancos, que é o único modo de romper o poder da classe dominante e seu aparato repressivo, confiança mútua fundada justo na dissolução de privilégios (de sexo, raça, etnia…), confiança na solidariedade dos outros se alguém sofrer essas violências identitárias. Obviamente esta é uma perspectiva de classe, de autonomia do proletariado. (Aliás, “privilégio” vem de “privus legis” – lei privada. )

      É claro que no contexto “dado” de desconfiança e competição generalizada em que sobrevivemos, nesta guerra de todos contra todos em que o apelo a uma violência ainda mais ameaçadora (gangue, gerente, polícia e/ou Estado) é sempre a única “garantia”, os identitaristas sempre argumentarão que é uma “ingenuidade hipócrita” esperar encontrar solidariedade e confiança mútua entre os proletários, ou esperar que eles recusem suas migalhas de privilégios (“meritocracia”). Os identitaristas tem razão, pois diante do sofrimento da violência identitária, não há tempo para esperar a solidariedade ainda hipotética de classe, não restando saída exceto apelar à classe dominante (ao poder) como único recurso disponível para reduzir o sofrimento.

      Porém, esse contexto, esse status quo, é insuportável e absurdo. Verdadeira hipocrisia é aceitá-lo. É preciso buscar tornar materialmente sem sentido o apelo à “violência mais ameaçadora” (gangue, gerente, polícia e/ou Estado). E, para isso, não se trata de defender “fatos”, mas de afirmar uma posição (que não é uma “militância” ou “trabalho de base”, que sempre desembocam em ganguismo, mas, pelo contrário, relações de igual para igual no cotidiano, na rua, no trabalho, no ônibus): favorecer a solidariedade, a confiança mútua, a recusa à privilégios, propor “a cada um conforme suas necessidades” contra a competição (minando a correspondente “meritocracia”, método de dominação daqueles que detém a “violência mais ameaçadora”, ou seja, a classe dominante), ou seja, favorecer tudo que contribua para a autonomia do proletariado, e o “desapoderameno” da classe dominante…” http://humanaesfera.blogspot.com.br/2014/12/breve-opiniao-sobre-lutas-identitarias.html

    • Eugênio Varlino

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      nov 24, 2016

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      A questão do Emerson foi dirigida ao JB, mas como somos todos camaradas e sou intrometido…

      Emerson, sobre o que vc colocou penso o seguinte: a moça pode ser assediada por ser mulher, o negro pelo estereótipo racista secular que vê no negro um ser inferior, assim como o aleijado por ter pernas defeituosas, o débil por ter as funções cognitivas comprometidas, o Leonardo por ter tatuagem, a Madalena por ser crente e usar saia, o Zequinha por usar a camiseta pra fora da calça. Você está aceitando os preconceitos ao tomar esses exemplos como “condições particulares”, definidoras da identidade de cada indivíduo dentro da classe em sua totalidade, e vc não faz isso por ser preconceituoso, mas por aceitar o padrão de “olhar” para as particularidades dos indivíduos, suas “identidades” e “diferenças” de tal ou tal modo, um padrão já hegemônico na sociedade devido à sequência de derrotas das lutas sociais anticapitaliatas, em especial o 68 e seu pós, e devido, pura e simplesmente, ao fato de que tais discriminações são sentidas na pele cotidianamente, e por isso tem legitimidade na própria construção do “eu” dos indivíduos que se consideram (e são, mas sempre foram) muitas coisas para além de “trabalhadores”. Daí o perigo do identitarismo: ele não é uma teoria e prática que versa sobre questões falsas, não trata de mentiras e sim de discriminações que de fato existem. Nada mais fácil e palpável do que um negro identificar-se vítima de racismo ou uma mulher de machismo. A questão é que diferentes todos somos, e o que empolga a resistência contra discriminações de raça, gênero, sexualidade etc pode ser a luta pelo respeito à diferença ou a luta pela igualdade do discriminado enquanto membro de uma mesma classe explorada. No primeiro caso está plantada a semente da fragmentação, afinal se a pauta é o específico de cor ou sexo pq eu, de fora deste específico, obrigatoriamente vou me engajar? No limite fica posto que no futuro esses casos de discriminação de gênero sejam combatidos tão somente pelas mulheres da empresa, e o racismo só pelos negros etc. E não é disso que se trata toda a balela sobre o lugar de fala e sobre o “protagonismo dxs oprimidxs”? A semente da fragmentação, nesse caso, é tbm a semente do fascismo e, com certeza, a fruta será mais uma vez a contrarrevolução permante, preventiva, corroendo as lutas sociais desde dentro. Os trabalhadores podem resistir coletivamente a ataques discriminatórios contra indivíduos mulheres negros etc da classe pautados na unidade de classe e na própria fraternidade. Não faz falta a teoria dos privilégios ou o protagonismo ou o reconhecimento e acento nas “diferenças”. Abstratamente, o acento na desigualdade de classe já é um bom cimento para a luta, mesmo contra opressões e discriminações. Se hoje os trabalhadores muitas vezes não se organizam ou lutam pautados na comunidade de classe, mas sim na comunidade de gênero e demais particularismos, isso se deve à vitória da contrarrevolução por dentro, além da moléstia que é o racismo, machismo etc dos próprios camaradas contra outros camaradas. Mas aí, levando o debate nesse sentido, me fica a nítida impressão de que vc e João Bernardo não divergem sobre este tema tanto quanto possa parecer, pois em ambos os casos a preocupação é a mesma, a luta anticapitalista; de um lado há a preocupação com o como fazer luta nas condições ideologicas e políticas dadas, ou seja, a preocupação com o manejo do identitarismo (uma ideologia que mobiliza, portanto vista como algo com potencialidade explosiva, e ao mesmo tempo uma ideologia contrarrevolucionaria que infesta a classe e a divide subjetiva e objetivamente em miríades identitárias), e do outro lado há a preocupação – historicamente fundamentada – em que a classe se preserve do fascismo rejeitando totalmente tais teorias e práticas identitárias. A questão, me parece, é a de que enquanto anticapitalistas devemos optar sempre por práticas de união de classe pautada no combate à exploração, que é comum a todos, rejeitando toda abordagem de luta que traga consigo o germe da fragmentação, mesmo se tal abordagem já goza de legitimidade por parte dos próprios trabalhadores e trabalhadoras. Essa legitimidade atesta nossa derrota histórica (a derrota de quem pretende fazer política de classe orientada ao fim da exploração do tempo de trabalho/valor), mas não é irreversível e a prática classista pode e deve oferecer respostas práticas também para as opressões, mas não nesta chave identitária. O stalinismo instituiu uma dissociação hierárquica entre questão de classe e questões particulares, é preciso combater tal herança. O Capitalismo é um sistema totalizante, seu centro está na exploração do valor e para mantê-la foi erigida uma complexa e secular estrutura não só de exploração, mas de dominação e opressão. Esta deve cair junto daquela, mas não se deve perder de vista que enquanto aquela, a estrutura econômica de exploração do tempo de trabalho é um pilar de sustentação, esta estrutura de dominação é mais plástica, mais maleável, ou seja, é possível um Capitalismo sem racismo e sem machismo, mas não um Capitalismo sem exploração. Isso não significa hierarquizar uma luta como primária e outras como secundárias, terciárias etc., mas deve-se ter essa diferença qualitativa em mente para que possamos lutar com mais realismo e nossas lutas não acabem reforçando as estruturas do sistema, como o fazem as lutas identitárias (e não só elas).

    • Lucas

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      nov 24, 2016

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      “mexeu com um mexeu com todos”.
      Em dado momento do filme um casal de mulheres se une à organização de “LGBTs em solidariedade aos mineiros”, para não muito depois reclamarem por um espaço seguro e formarem então um racha no grupo, fundando o “Mulheres em solidariedade…”. Classismo e identitarismo são modalidades de resposta frente a um mesmo problema. O filme mostra esse racha de forma cômica, mas é a própria configuração ideológica de seu discurso que coloca os habitantes da cidade não como trabalhadores mas sim como gays, lésbicas, nazistas, conservadores, etc., e os habitantes das pequenas comunidades como trabalhadores que parecem ter parado no tempo.
      Oras, se um chefe humilha um trabalhador por ser negro — o problema está no ataque do explorador sobre o explorado ou na cor de pele do explorado? O corolário de uma das respostas é o direito de todos a serem igualmente explorados. O grande desafio, ao meu ver, não são casos como estes, mas sim, por exemplo, o ataque e perseguição à minorias nas ruas e em ambientes onde o pertencimento à classe é menos óbvio do que num lugar de trabalho — potencializado pelo fato de que cada vez menos os trabalhadores urbanos estejam vinculados à organizações de classe, por mais burocráticas que fossem.

    • João Bernardo

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      nov 24, 2016

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      A questão crucial aqui é uma, e uma só. O nosso objectivo é o de fortalecer a especificidade de cada identidade, eventualmente tão numerosas quantas as pessoas que desejem assumir uma identidade? Ou o de lutarmos para que essas identidades sejam futuramente consideradas irrelevantes, tal como consideramos hoje irrelevante o facto de alguém ser alto ou baixo, careca ou cabeludo? Trata-se de uma alternativa e não é possível conjugar os termos. Não é possível, como pretende o título deste artigo, «unir identidade e classe».
      Um comportamento e uma cultura dos trabalhadores enquanto classe não é um dado de partida. A situação é mais complexa ainda, porque a classe trabalhadora define-se, antes de mais, no plano das relações sociais de exploração, e a sua forma orgânica vai-se modificando à medida que se vão transformando os sistemas de exploração. Não se trata de uma progressão linear, mas de uma espiral. Nesta perspectiva, um comportamento e uma cultura dos trabalhadores enquanto classe serão algum dia o resultado de um longo processo de formação, com numerosos vaivéns. Tomando o exemplo proposto por um dos comentadores, o que me preocupa não é quando os patrões e os chefes incomodam moças, ou, já agora, incomodam rapazes, e humilham pessoas com outras cores de pele. O que me preocupa é quando são os colegas a fazê-lo. Isto situa a questão no interior da classe trabalhadora, e o problema só é resolúvel através de pressões, disputas e confrontos, incluindo os confrontos físicos, no interior desta classe. O identitarismo, pelo contrário, constitui uma forma de fraccionar ou diluir a classe, assumindo que a identidade é a mesma nas várias classes sociais. Daí o apelo que fiz no final do meu comentário anterior, mas será que alguém se deu ao trabalho de usar o Google para ver quem são aqueles quatro personagens que referi? Quando um comentador me diz que «talvez algumas situações concretas ajudem a nos compreendermos», por que não começarmos por reflectir naquelas quatro situações bem concretas? Lembrei-me agora de outro caso, e não podia ser mais concreto. Posso narrá-lo depois, se alguém se mostrar interessado.
      O identitarismo transpõe o tema do nacionalismo para a época actual, em que a transnacionalização do capital atenuou ou mesmo deixou sem significado as velhas fronteiras nacionais. E assim como todo o nacionalismo supõe um imperialismo, activo ou potencial, também os identitarismos supõem um expansionismo próprio, o empowerment, o empoderamento. É precisamente por isso que um dos comentadores pode escrever que «a repressão é a única praxis social possível das lutas identitárias». Essa repressão é o resultado mais imediato do empoderamento, enquanto imperialismo identitário. E a legitimação ideológica não mudou. No caso dos nacionalismos justificava-se o projecto imperialista pelo facto de essa nação ter estado antes submetida por outras. No caso do identitarismo, pelo facto de essa identidade ter sido oprimida ou subestimada. O empoderamento é sempre um projecto de domínio sobre outros. Chegou-se assim a uma situação em que uma solidariedade ampla entre trabalhadores é recusada com o argumento de que «retira o protagonismo» às pessoas que se reivindicam de uma dada especificidade. Esta é uma consequência imediata do empoderamento, e confirma que o identitarismo actual não pode ser senão antagónico à constituição futura de um comportamento comum de classe trabalhadora. É por este motivo que a nova direita radical e o renovado fascismo estão a empregar os mesmos argumentos identitários contra o identitarismo dito «de esquerda».
      Com efeito, a confusão entre classe e identidade torna-se mais grave ainda na esquerda, ou seja, naquilo a que, por uma funesta perversão dos termos, continua a chamar-se esquerda. Herdaram-se os velhos termos mas desnaturou-se-lhes o significado, de modo que a dicotomia explorado / explorador se encontra agora confundida com a dicotomia identidade / outros. Isto sucede no feminismo, sucede no movimento negro e está a generalizar-se a todas as variadíssimas identidades, que proliferam exponencialmente. Ora, assim como o identitarismo transpõe para a época actual os temas do nacionalismo, e assim como o empoderamento constitui uma transposição do velho imperialismo, também essa confusão entre identidade oprimida e classe explorada actualiza o antigo nacional-bolchevismo, a corrente política geradora de um fascismo de esquerda.
      Há já mais de seis anos o Manolo e eu publicámos neste site uma série de cinco artigos intitulada «De volta à África». Um desses artigos ( http://passapalavra.info/2010/07/26128 ) estudava o caso de Marcus Garvey. Contra os militantes operários de esquerda, que lutavam por uma unificação da classe trabalhadora independentemente da cor da pele e das origens culturais, e contra a própria NAACP, Garvey pretendia acentuar a clivagem entre os operários negros e os operários brancos e unir os operários negros e os capitalistas negros num mesmo movimento político e económico, a Universal Negro Improvement Association, UNIA. Garvey foi um dos grandes precursores do identitarismo, e a este respeito devo recordar também Theodor Herzl e o sionismo. Num artigo em que mostrei a conversão dos sionistas de perseguidos em perseguidores ( http://passapalavra.info/2010/06/24723 ) estava a assinalar o inelutável percurso de todas as modalidades de identitarismo. Só que Marcus Garvey teve a clareza de considerar o seu movimento como fascista e reivindicou-se mesmo de ter sido ele o criador do fascismo. Esta clareza falta aos identitários actuais. O fascismo mais perigoso não é o dos nostálgicos que rapam a cabeça e esticam o braço, mas o daqueles que transpõem para as actuais condições económicas e sociais os temas centrais do fascismo. É o que sucede hoje com o multiculturalismo e o identitarismo.

    • Mariana

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      nov 25, 2016

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      Camaradas
      Não tenho muito o que acrescentar a discussão posta aqui. Só queria ressaltar que dei uma googlada na lista feita por João Bernardo e é estarrecedora. Fiquei de fato mal depois de ver alguns vídeos do tal Milo Yiannopoulos. E um tanto mais certo de que o identitarismo é um problema central. Desde sempre suspeitei, intuitivamente até, do tal empoderamento e do reforço de identidades estanques que recusam o Outro de saída e assim ou eliminam ou subjugam esse Outro por ser o negativo de si mesmo (a eliminação ao Outro se faz pela criação de comunidades (mônadas?) culturais em que se alija a voz do diferente, acredito que muitos aqui já tiveram diante de “comunidades” assim). Com os atuais desdobramentos de Trump a Temer, passando por Bolsonaro, a crítica ao identitarismo, a meu ver, deve ser levada com a radicalidade que lhe cabe. Os pressupostos fascistizantes estão por todos os lados nessa “tendência”, mas, não se pode simplesmente eliminá-la com os velhos chavões. É preciso mostrar como sua postura naturalista (isto é, de uma análise teórica rasteira, positivista e irracionalista – os ingredientes do fascismo) reforça a ordem existente. E, nesse ponto, ou nos debatemos sobre o que é o conceito de classes (de novo e sempre até a sua total eliminação) (pois, me parece que muitos aqui colocam a consciência de classe como igual a consciência identitária), ou nessa confusão tudo tende a ser igualado. Veja bem nesse mesmo site há uma recente tradução sobre gangues, palavra que fora hipostasiado na análise anacrônica e, que por fim, acaba, a despeito das intenções de seu autor, colocando tudo no mesmo saco.

    • Fagner Enrique

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      nov 26, 2016

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      João, eu estou interessado nesse outro caso que você mencionou, e que poderia narrar depois. Por favor, narre-o.

    • ulisses

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      nov 27, 2016

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      FESTINA LENTE
      JB, ao que consta, não costuma fazer-se de rogado.
      Aguardemos, pois…

    • João Bernardo

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      nov 28, 2016

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      Já que as multidões o exigem, vou contar a tal história. Em Portugal, durante a revolução, fui um dos colaboradores do jornal Combate ( https://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/ ). Fizemos centenas de entrevistas com trabalhadores de empresas em luta, com o objectivo não só de divulgar as lutas como também de facilitar os contactos entre trabalhadores de diferentes empresas. Quando estava a escrever aquele meu comentário lembrei-me de uma entrevista que fiz em 1975, com mais um ou dois camaradas, numa fábrica no norte do país, uma das muitas que nessa época estavam em autogestão. Tratava-se de uma empresa de têxtil ou de confecções, não me recordo exactamente, e, como era comum nesses ramos, o pessoal era exclusivamente feminino. Da entrevista e das conversas com as operárias ficaram-me na memória dois aspectos.
      Antes de mais, era notória a indignação que todas as operárias daquela fábrica sentiam contra as antigas chefes. Os patrões (se bem me lembro, os proprietários eram dois) tinham tornado suas amantes umas operárias jovens e bonitas e haviam-nas promovido a lugares de chefia. Não era a questão moral que indignava as antigas companheiras de trabalho dessas moças, mas o facto de elas serem profissionais inexperientes e, portanto, incapazes de ocupar cargos de responsabilidade, dando ordens estúpidas e, além disso, sendo arrogantes e prepotentes, porque sabiam que tinham os patrões na mão. Então, essas moças haviam sido vítimas de assédio? Ou eram beneficiárias do assédio? Eu sei qual é a resposta que as feministas hoje dão, mas também sei qual era a resposta que aquelas operárias davam.
      Outro aspecto me veio à memória a propósito deste artigo e do debate em curso. Uma das dificuldades com que deparavam as empresas em autogestão consistia em evitar que os antigos patrões pagassem a grupos de meliantes para roubar as máquinas. Quando se tratava de empresas grandes, que laboravam toda a semana em sistema de 8×3, o problema não se punha. Mas quando havia só um ou dois turnos, os trabalhadores tinham de se revezar para formar grupos que dormissem nas instalações e as ocupassem nos domingos. Ora, aquela empresa situava-se numa zona industrial e havia em redor diversas outras fábricas e armazéns. As operárias disseram que os trabalhadores dessas empresas, todos homens, se mostravam solidários e por vezes iam lá dormir à noite também. Perante isto, perguntei se os maridos as apoiavam na luta e se encarregavam das tarefas domésticas quando elas tinham que se ausentar. Aquelas que eram casadas foram unânimes em afirmar que os maridos lhes davam todo o apoio e que muitas vezes, quando faziam piquete à noite, os maridos iam lá dormir com elas. Eu não duvido que os maridos fossem solidários, porque naquela época revolucionária a unidade da classe trabalhadora era muito forte. Mas também não duvido que o ciúme contribuiria para que eles acompanhassem as mulheres nos piquetes da noite. Afinal, com os homens das fábricas em redor a prestar solidariedade, como saber o que se passaria nos sacos-cama e nos colchões improvisados? E as operárias, por seu lado, como saberiam o que os maridos faziam enquanto elas estavam no piquete?
      É assim, de uma maneira complexa e eivada de contradições, que a custo se vai formando a consciência da classe. No seu comentário, Mariana alertou para um aspecto de grande importância, ao escrever que «me parece que muitos aqui colocam a consciência de classe como igual a consciência identitária». Penso que este caso, ocorrido há mais de quarenta anos num pequeno país em revolução, serve para ilustrar a diferença entre uma suposta identidade e uma consciência de classe em formação.

    • A vida, é Drury's...

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      nov 29, 2016

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      Pois é… Fico imaginando a luta identitária “movendo a história”…

      Como se organizaria o “empoderamento” da “identidade” de Madeleine Albright em face do “empoderamento” da “identidade” de Condoleezza Rice e o “empoderamento” desta em face do “empoderamento” da “identidade” de “Colin Powell”… E Como se daria o “empoderamento” do povo “eleito” em face a outros povos? E o Ilari lari lari ê ô ô ô da Turma da Xuxa (afinal, Turma da Xuxa também é identidade…)? E etc, etc, etc…?

      No lugar do grito de protesto “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” o quê gritaríamos? “Ovolactovegetarianos do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser uma picanha na brasa!”? “Cientologistas do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos juízos!”? “Frutofilistas do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos… (CENSURADO PELA MORAL E BONS COSTUMES DOS SEM MORAL E BONS COSTUMES)” etc, etc, etc

      Acho que tem muita esquerda “fora do eixo” procurando uma “identidade” para poder se “endireitar”…

    • João Bernardo

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      dez 3, 2016

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      Se eu fosse escrever hoje um artigo chamar-lhe-ia «o desaparecimento do ser humano». Já não basta o facto de a esquerda ter liquidado o conceito de classe trabalhadora, esquecendo as relações sociais de exploração ou até pretendendo que a exploração desapareceu na era da produção imaterial, ou seja, a produção de objectos que não caem com a força da gravidade, como se Newton tivesse alguma coisa a ver com o assunto. Já não basta o facto de a esquerda ter adoptado como seu o nacionalismo que antes caracterizara exclusivamente a direita, apelando para a soberania política e o proteccionismo económico. Como se isto não fosse suficiente, soma-se-lhe a proliferação de identidades, que tão bem ironizou o comentário anterior. O identitarismo reproduz todos os aspectos nocivos do nacionalismo, somando-lhe outro, a possibilidade de se multiplicar sem limites. Então, hoje, que a esquerda ou adoptou de braços abertos essa proliferação de identidades ou pretende conjugá-la com a noção de classe trabalhadora — como se a formação de uma consciência de classe trabalhadora não exigisse a superação e a negação dessas identidades — onde encontramos então, hoje, os seres humanos? Muitas vezes os encontramos entre os cidadãos comuns, com quem devemos aprender. E sempre, sempre, os encontramos na arte. Não me refiro à indústria cultural de massas, mas à arte. Nas instalações de Ai Weiwei encontramos não uma identidade, mas o ser humano. Ou quando Yuja Wang toca a sonata em si menor de Liszt ou Mitsuko Uchida toca a Hammerklavier de Beethoven, é aí que podemos aprender que as identidades são ficções e é aí que devemos descobrir as raízes para pensar hoje de novo o ser humano. Ou, se tiverem coragem para tanto, mergulhem nas telas de Francis Bacon e vejam como alguém que sofreu uma tão pesada carga de «identidade» conseguiu desvendar o mais profundo do ser humano. É aí que devemos procurar as lições, ou a ler André Gide.

    • Fernando Paz

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      dez 3, 2016

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      Não deve ser uma tarefa fácil mergulhar nas telas de Francis Bacon, ainda mais para os pobretões que moram no interior do Brasil e que muito dificilmente conseguirão, por exemplo, apreciar as telas originais com a Muriel ou o Lucian retratados; o que ajudaria e muito num mergulho desses. Mas penso também que deve haver uma literatura que apresenta as chaves do castelo para os interessados em compreender a obra de Francis Bacon. Estou certo? Você tem algo para indicar?
      Obrigado.

    • Fernando Paz

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      dez 4, 2016

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      Caro João Bernardo,
      Meu comentário anterior é dirigido a você. Por falta de atenção minha faltou indicar isso anteriormente.

    • João Bernardo

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      dez 4, 2016

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      Fernando,
      Mesmo para os pobretões, morem eles, ou morem elas, as pobretonas, no interior do Brasil ou de outro qualquer país, existe uma coisa chamada Google imagens. Por que não experimentar esse recurso? Quanto à literatura sobre o assunto, ela é secundária e de nada vale sem se ver e, como se diz em Portugal, ver com olhos de ver. Já agora, e como antídoto à self-pity (não é preciso saber inglês; procura-se no Google e fica-se a saber o significado da expressão), devemos lembrar que foram muitíssimo poucos os artistas que antes da época moderna puderam ver obras de outros artistas que morassem noutros países. Conheciam-nas só por reproduções, divulgadas por gravuras a duas cores. E isto não os impediu de mergulhar nas obras alheias e de lhes responder com obras próprias. Foi assim, com estas dificuldades e sem lamúrias, que se construiu uma arte universal. Em Sabará, uma cidadezinha de Minas Gerais, existe uma pequena igreja, da Nossa Senhora do Ó, onde ao lado de um dos altares se encontra uma pintura que imita laca chinesa. Ali, no meio das serras mineiras, um artista tomou conhecimento de gravuras que lhe chegaram da outra extremidade do império, de Macau, e foi assim, sem se lastimarem nem sequer terem acesso ao Google imagens, que os artistas de Minas Gerais se inseriram na arte universal e a enriqueceram na escultura, na arquitectura, na música. Mas é claro que isto foi só para desviar do assunto. Porque o principal, o único eixo de toda esta questão, é que mesmo no interior do sertão é possível recusar-se a ficar confinado nas redomas das «identidades» e é possível aceder ao ser humano.

    • |

      dez 4, 2016

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      Caro João Bernardo,
      Fiquei a pensar sobre a arte contemporânea. Na visita a Bienal de São Paulo pode-se ver que as temáticas que hoje se discute no que hoje chamamanos de esquerda estão em destaque, as questões de mulheres, negros, indígenas, LGBTs, aparecem de forma clara. Seriam as artes reforçando as identidades?
      Não me parece que seja necessariamente esse o caso. Tanto na arte quanto na política, há aqueles que identiificam especifidades e pretendem ficar nelas, reforçando-as, transformando as em identidades em oposição às outras limitam-se e perdem os horizontes. Há também aqueles que ignoram as particularidades e pretendem estabelecer uma ordem única e inquestionável, como Jdanov.
      Penso ainda que há, aqueles como nós, que procuram observar as particularidades superando-as em prol do universal.

    • José Barata

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      dez 4, 2016

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      “Não acreditamos que a melhor forma de combater o fogo seja com fogo; a melhor forma de combater o fogo é com água. Vamos combater o racismo não com racismo, mas com solidariedade. Dizemos que não vamos lutar contra o capitalismo com capitalismo negro, vamos vencer ele com socialismo. Vamos combater porcos reacionários e procuradores reacionários com todos nós nos unindo e fazendo uma revolução proletária internacional.” — Fred Hampton (Integrante dos Panteras Negras assassinado pelo FBI durante o governo Nixon, em 1969)

    • Lucas

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      dez 5, 2016

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      Legume, talvez mais do que a arte contemporânea em geral, deva-se interpretar essa composição da Bienal pela natureza mesma desta instituição e suas formas de curadoria.

    • João Bernardo

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      dez 5, 2016

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      Felizmente que a citação de Fred Hampton recordou o centro deste debate, a pretensão de «unir identidade e classe». No mundo das palavras é sempre fácil conciliar o inconciliável, e isso é muito útil para aqueles e aquelas que pretendem dançar ora com um pé ora com o outro e sentar-se em dois bancos ao mesmo tempo. A realidade, porém, tem o fatal inconveniente de mostrar que o inconciliável é inconciliável, e quem quiser sentar-se em dois bancos ao mesmo tempo ou cairá com a bunda no chão ou terá de escolher qual o banco em que, no final, acabará por se acomodar.
      Não há afirmação de identidade sem exclusão, não há exclusão sem empoderamento e não há empoderamento sem afirmação de supremacia. Em tempos que já lá vão o Passa Palavra publicou um artigo, «Entre o Fogo e a Panela» ( http://passapalavra.info/2010/08/27717 ), que inaugurou uma época. Os leitores interessados em prosseguir uma reflexão na perspectiva desse artigo poderão observar que a multiplicação de identidades suscitou uma multiplicação de burocracias, visto que cada identidade tem os seus próprios corpos gerentes. É aqui que se insere a objecção do Legume. Eu ia replicar-lhe, mas Lucas poupou-me esse trabalho; a organização da Bienal não é uma resposta, porque faz parte do problema. E pergunto a mim mesmo se a proliferação de burocracias identitárias não serve de chamariz para aqueles que, esforçando-se por conciliar o inconciliável, aspiram a sentar-se ao mesmo tempo em dois ou três ou quatro bancos.
      Tudo isto é muito sério, tanto mais que, se o discurso das identidades actualizou o discurso das nações, o discurso das nações modernizou-se agora, legitimando-se com os argumentos da identidade. Por favor, leiam este verbete: http://pt.metapedia.org/wiki/Ideal_Identit%C3%A1rio e em seguida leiam este: http://pt.metapedia.org/wiki/Causa_Identit%C3%A1ria Em vez de ser antagónico do fascismo, o tema das identidades serve-lhe de justificação. É neste terreno comum — ou será mais apropriado designá-lo como pântano comum? — que o fascismo se renova, encontrando-se com aquilo que ilusoriamente insiste em se chamar «esquerda». Quem quiser estudar a matriz do neofascismo identitário deve concentrar a atenção na Rússia de Putin. Mais modestamente e sem irmos tão longe, peço-vos que leiam com atenção este artigo, que me parece esclarecedor: http://www.causanacional.net/index.php?itemid=54 Acessoriamente, os mais atentos não deixarão de ter observado, na coluna da direita do último texto, a presença do Rock Anti-Sistema. Já na minha segunda intervenção neste debate eu notei que Ju e Simone, no afã de conciliarem o inconciliável, haviam mencionado os «lutadores antissistêmicos». É que os conceitos não são inocentes. Têm uma história e acarretam consequências. Diluindo a classe trabalhadora numa federação de identidades, o anticapitalismo desaparece e é substituído pelo anti-sistema, os temas da velha esquerda são substituídos pelos temas do fascismo. É esta toda a dimensão do que está aqui em jogo.

    • Legume

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      dez 5, 2016

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      João Bernardo,
      Creio que me expressei mal, nao pretendi fazer uma objeção. Apenas quis destacar que este problema está muito mais espalhado do que nos círculos esquerdistas. De fato me parece que está instaurada uma proliferação de burocracias.

    • Matemática

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      dez 7, 2016

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      luta identitária x luta de classes = A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivaler à riqueza dos 99% restantes.
      luta identitária ÷ luta de classes = A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivaler à riqueza dos 99% restantes.
      luta identitária – luta de classes = A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivaler à riqueza dos 99% restantes.
      luta identitária + luta de classes = A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivaler à riqueza dos 99% restantes.
      luta identitária – luta identitária = A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivaler à riqueza dos 99% restantes.
      luta identitária + luta identitária = A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivaler à riqueza dos 99% restantes.

      Moral da história (ou da matemática…) = a ordem dos fatores não altera o produto…

    • João Bernardo

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      dez 7, 2016

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      Legume,
      Registo que não se tratava de uma objecção, tanto melhor. Mas aproveito para acrescentar uma coisa. Em comentários anteriores invoquei razões históricas que impedem a «união de identidade e classe». Pretendo chamar agora a atenção para uma razão no plano lógico. A contradição entre os trabalhadores e os capitalistas não é simétrica, porque, se o objectivo dos capitalistas é o de desenvolverem o processo de exploração e acumularem capital, o objectivo último dos trabalhadores é o de porem fim ao processo de exploração e não o de passarem a ser eles os exploradores, convertendo os capitalistas em novos explorados. Com as identidades, porém, a oposição processa-se em pares simétricos, já que a afirmação de uma identidade se faz contra a outra, mediante a exclusão e o empoderamento, e reciprocamente. Por isso os neofascistas podem convergir com a política de identidades. Recordo-me de um exemplo flagrante, passado na extrema-esquerda brasileira. Há algum tempo atrás, uma estudante universitária, participante destacada num conhecido movimento social baseado sobretudo em algumas universidades, e ao mesmo tempo feminista e activista do movimento negro, divulgou no seu facebook esta imagem: http://66.media.tumblr.com/85bac867d60a93018b51a13f81fda5fb/tumblr_no8l3w6VNK1urcns3o1_1280.jpg Quando alguém, que é homem e branco, verberou aquela abominação, a estudante afundou-se ainda mais no lodaçal e, invocando a sua dupla identidade de mulher e de negra, respondeu que só aceitava críticas de irmãs de género e irmãos de cor. Haverá talvez quem diga que se trata de um caso extremo. Mas a vantagem dos casos extremos é a de mostrarem aquilo que está presente noutros casos, embora de maneira diluída. Não é a libertação dos seres humanos que preocupa essa gente, mas apenas a inversão das opressões. E é por este motivo que nunca se poderá «unir identidade e classe».

    • Fagner Enrique

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      dez 8, 2016

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      A única forma de neutralizar os argumentos identitários é recorrendo à história. A única forma de neutralizar as práticas identitárias é estimulando as lutas centradas nas relações de classe, isto é, fazendo a história, que é necessariamente formada de conflitos (isso significa que não se pode não entrar em conflito com os identitários, se se adota uma perspectiva ideológica e prática de classe). Pois bem, vamos, por exemplo, aos argumentos identitários. Tomemos, por exemplo, aquelas pessoas que, a partir do movimento negro (ou muito além do movimento negro), veiculam argumentos de caráter identitário. Tomemos o exemplo daquelas pessoas que pretendem analisar o problema do negro na sociedade atual pelo viés da escravidão negra, mas abordando-o não do ponto de vista das relações de classe (entre escravos e senhores de escravos) mas, isto sim, do ponto de vista das relações entre pessoas com cores de pele diferentes, entre ocidentais (do ocidente / Mal Absoluto) e não ocidentais (as pobres vítimas da história universal). Essas pessoas talvez gostassem – embora, pensando bem, muito provavelmente odiassem – saber da pesquisa de um historiador chamado Robert Davis, que pesquisou a escravidão branca por parte de muçulmanos negros no norte da África. Segundo esse senhor, senhores muçulmanos negros escravizaram, entre 1530 e 1780, entre 1 milhão e 1,25 milhão de europeus brancos. Para Davis, “muito do que tem sido escrito dá a impressão de que não havia muitos escravos e minimiza o impacto que a escravidão teve para a Europa. Muitos relatos olham apenas para a escravidão em um lugar, ou apenas por um breve período de tempo. Mas quando você adota uma visão mais ampla e de longa duração, o massivo escopo da escravidão e seu poderoso impacto tornam-se claros”. Ainda segundo o mesmo autor, “a escravidão era uma possibilidade muito real para qualquer um que viajasse no Mediterrâneo, ou que vivesse ao longo do litoral de lugares como Itália, França, Espanha e Portugal, e mesmo tanto ao norte quanto a Inglaterra e a Islândia”. E ainda, segundo o mesmo senhor, “uma das coisas que tanto o público quanto muitos acadêmicos têm tendido a tomar como dada é que a escravidão sempre foi de natureza racial – que apenas negros foram escravos. Mas não é verdade. Não podemos pensar na escravidão como algo que apenas pessoas brancas fizeram com pessoas negras” (tudo isso está disponível, em inglês, aqui: https://researchnews.osu.edu/archive/whtslav.htm; mas quem não sabe ler inglês pode ler uma notícia disponível aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/reuters/ult112u32556.shtml). É, portanto, a história tornando a realidade menos simplista e menos simplória, tal como é vista pelos identitários, mas uma história escrita por um historiador que teve o interesse, o bom senso e a honestinade intelectual necessários para examinar fatos que certos intelectuais, militantes, e certas pessoas comuns, “cidadãos e cidadãs ordinários”, por assim dizer, não tiveram o interesse de examinar, nem o bom senso e nem a honestidade intelectual. Tive acesso a essa outra escrita da história, mais atenta à inelutável complexidade da vida humana, digitando algumas palavras no Google. Será que aqueles que veiculam argumentos de caráter identitário, a partir do movimento negro, ou da esquerda em geral, ou ainda mais além da esquerda, têm o interesse, o bom senso e a honestidade intelectual necessários? Bem, estou fazendo esse comentário porque sou professor, não da universidade mas do ensino fundamental e médio. E, enquanto estudo para elaborar aulas para meus alunos – aulas às quais eles, na maior parte das vezes, mas nem sempre, comparecem com desinteresse, pois estão pensando em outras coisas –, não me prendo aos livros didáticos, nem ao que se diz por aí, e procuro pesquisar no Google (porque no sertão onde moro não existe uma biblioteca sobre a qual se possa dizer “nossa, mas que biblioteca magnífica!”); e, quando não faço isso, encomendo livros pela internet, esta linda ferramenta que agora nos une (ou deveria unir) em comunhão com o saber. Outro dia, dando uma aula sobre a independência do Brasil, falei um pouco sobre Maria Quitéria – quem se interessar, pode pesquisar sobre ela no Google também, como fiz – e uma aluna me disse: “nossa, mas eu pensava que as mulheres sempre foram donas de casa, no livro não fala isso”. Respondi “pois é, mas o livro didático não é tudo”, e fiquei pensando comigo mesmo: por que será que eliminaram da história do Brasil, nesse livro didático, uma personagem como Maria Quitéria?

    • Emerson

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      dez 9, 2016

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      O comentário do Fagner trouxe uma informação interessante pro debate. No entanto, ele acaba por deixar escapar um elemento importante: embora seja patente que a escravidão não foi um mal exclusivo dos negros, também é um fato que o escravismo, pelo menos no Brasil, discriminava os escravos pela cor da pele [vou me restringir ao Brasil pra diminuir o risco de falar besteira]. O próprio exemplo que ele trouxe mostra que o tráfico de escravos no norte da África não distinguia entre raças. No artigo da Wikipedia sobre a pirataria da Barbária há inclusive uma menção a brasileiros que haviam sido capturados pelos piratas: “Entre os 365 cristãos resgatados estavam os ‘brasileiros’ padre Romão Furtado de Mendonça, natural do Rio de Janeiro, de 27 anos, Miguel de Sequeira, homem negro, marinheiro, natural do Pará, de 57 anos; Esperança, mulher negra, natural do Maranhão, de 25 anos; e Manuel Tapuia, natural do Pará, de 14 anos, todos eles com um ano de cativeiro.” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Piratas_da_Barb%C3%A1ria). Ou seja, os piratas do norte da África escravizaram brancos, negros, e quaisquer outros que ousassem cruzar o seu caminho. Inversamente, no Brasil não há registro de escravos brancos. Talvez a única coisa que se assemelhe a isso sejam os colonos, muitos dos quais eram mantidos em regime análogo à escravidão por meio de dívidas. Nesse sentido, o modelo de escravidão que tivemos não pode ser simplesmente assimilado às outras formas de escravidão que existiram na história, pois a nossa deu origem a uma ideologia racial que sustenta o mito da superioridade da raça branca. No entanto, alguns debatedores parecem não levar isso em conta quando comparam a discriminação racial com uma suposta discriminação contra carecas, o que seria cômico se não fosse trágico.
      Por outro lado, recentemente um ativista norte-americano publicou o artigo “Black representation after Ferguson” (https://libcom.org/library/black-representation-after-ferguson-%E2%80%93-john-clegg). Lá, o autor critica a literatura acadêmica que explica a desigualdade racial como resultado de duas formas de racismo: a atual discriminação racial (que inclui desde empregadores que ignoram candidatos negros, até a polícia) e a discriminação racial do passado. A partir disso, os debatedores acadêmicos forjaram conceitos como “supremacia branca” e “racismo institucional”, que acabam por obscurecer o mecanismo que reproduz a desigualdade racial. Segundo o autor, ao contrário do que pretendem esses pesquisadores, “a relação causal entre desigualdade racial e racismo pode hoje ser invertida: enquanto no passado foi o racismo – embutido na política de Estado e nos códigos informais – que levou à desigualdade racial, agora a própria desigualdade racial é uma das principais causas de racismo”. Ou seja, se no passado a escravidão e as leis segregacionistas cumpriram o papel de jogar os negros na pobreza, hoje é o próprio funcionamento normal do capitalismo que perpetua essa condição, o que leva o autor a concluir que “a desvantagem herdada pelos negros só pode ser superada desafiando as condições fundamentais do mercado capitalista”.
      Foi nesse sentido que afirmei que era preciso assumir nossas diferenças, não como algo insuperável, mas como ponto de partida para uma ação comum que não termine por reproduzir as desigualdades internas aos trabalhadores. Assim como Castoriadis mostrava como os trabalhadores lutavam para nivelar os salários, reduzindo assim a desigualdade entre as diversas categorias profissionais, de maneira semelhante defendi que a conformação dos trabalhadores em classe depende da luta intransigente contra as discriminações racistas, sexistas, etc, que fragmentam os trabalhadores. Ora, isso não tem nada a ver com juntar identidade e classe, isso tem a ver com a necessidade de assumir que o combate ao racismo, ao machismo e aos demais preconceitos é uma tarefa de todos os trabalhadores (bem longe do “lugar de fala” portanto). Por isso condordo com o João Bernardo quando ele afirma que “o problema só é resolúvel através de pressões, disputas e confrontos, incluindo os confrontos físicos, no interior desta classe”.
      Acredito que a melhor crítica que se pode fazer ao multiculturalismo é mostrar que ele fracassa justamente onde ele diz atuar. Pois ao atuar fragmentando os trabalhadores, impedindo que negros, gays e mulheres somem suas forças numa ação comum, ele leva todos à derrota, conseguindo no máximo uma satisfação psicológica, mas sem questionar a base dessas discriminações. Mas o que tenho visto ultimamente nos meios militantes sob a alcunha de combate ao multiculturalismo mais parece uma reclamação do tipo “racismo reverso” do que uma concepção classista da realidade. Não é a toa que estejamos perdendo de lavada pros identitários.

    • Legume

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      dez 9, 2016

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      Me parece que não são os comentadores aqui que estão a inventar identidades, os argumentos e a especialização cada vez maior delas se encontra por aí na esquerda e nas rede sociais.
      Também não me parece que alguém aqui esteja a negar as especificidades que a classe trabalhadora sofre por questões sexuais ou de melanina, a questão é justamente como superar elas.
      Olhando para a história da escravização de pessoas no período colonial convém lembrar que se eram os europeus que compravam escravos eram os africanos que capturavam e vendiam. É indubitável que isso deixou profundas marcas na estrutura do Brasil, ou dos EUA, e me parece acertada acertada a reflexão de que a estrutura do capitalismo nestes países perpetua o racismo.
      Mas convém sair do provincianismo de pensar o racismo apenas como contra negros, como há inúmeros exemplos nos 5 continentes. Parece-me que para romper com todos os racismos necessita uma atuação de classe.

    • Fagner Enrique

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      dez 11, 2016

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      Estranho… Se deduz, por um lado, que, como resultado da situação de classe subalterna dos negros no Brasil e colônias europeias, desenvolveu-se a discriminação racial contra os negros… Mas, por outro lado, se deduz que os africanos escravizavam brancos na África, e sabemos que também escravizavam negros, tal como os brancos também escravizavam brancos eslavos (aliás, “escravo” em inglês é… “slave”), mas não os discriminavam? Um dos capítulos de um dos volumes de história da África publicados pela UNESCO (não estou com os livros em mãos agora, mas posso colocar a referência depois) nos ensina que os portugueses encontraram justificativas religiosas para escravizar os negros, pois, ao mesmo tempo em que conseguiriam mão de obra, os escravos seriam convertidos ao cristianismo e, portanto, salvos. O modo como os muçulmanos lidavam com a questão da conversão ao Islã era, certamente, diferente, mas, por outro lado, eles discriminavam os não muçulmanos como “infiéis”, de modo muito semelhante aos cristãos. Será, então, que eles realmente não discriminavam os brancos cristãos? Aplicando a lógica do último comentário de Emerson, é de se cogitar que sim, a não ser que, para cada caso, uma lógica diferente.

    • Fagner Enrique

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      dez 11, 2016

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      O referido trecho de um dos volumes da História Geral da África publicada pela UNESCO é o seguinte:

      “Portugal foi atraído inicialmente para a África Negra pelo ouro, que era anteriormente exportado pelos países islâmicos. Não obstante, eles não tardaram a perceber que a África possuía uma outra mercadoria, também fortemente procurada pelos Europeus: os escravos. Ainda que a escravidão na África fosse diferente da escravidão praticada pelos europeus, a tradição de exportar escravos para os países árabes era muito antiga em grandes partes do continente, em particular do Sudão. Nos séculos XV e XVI, esta tradição pareceu ter ajudado, em certa medida, os portugueses a conseguir, regularmente, escravos em uma grande parte da África Ocidental, notadamente, na Senegâmbia, parceira econômica, de longa data, do Magreb. Os portugueses, que penetravam cada vez mais profundamente nas regiões do sudeste da África Ocidental, aplicaram, com sucesso, as práticas comerciais utilizadas na Senegâmbia. Compreendendo o caráter indispensável da cooperação dos chefes e dos mercadores locais, dedicaram­‐se a interessá­‐los ao trato de escravos. Os portugueses não ignoravam que isto pudesse resultar em uma intensificação dos conflitos entre os diversos povos e Estados africanos, os prisioneiros de guerra tornando­‐se o principal objeto deste comércio, mas eles deixaram muito cedo de se opor às objeções morais, pois, como muitos outros na Europa, eles acreditavam que o tráfico abria aos negros o caminho para a salvação: não sendo cristãos, os negros haveriam de ser condenados por toda a eternidade se eles ficassem em seus países. Logo, um outro argumento foi enunciado: os negros são descendentes de Ham, que foi amaldiçoado, e, por isso, são condenados à escravidão perpétua. Estas motivações ideológicas não devem ser subestimadas. Devemos acrescentar aqui que os escravos negros começaram a aparecer na Europa em uma época em que o tráfico de escravos brancos provenientes da zona do Mar Negro, havia praticamente ceifado, época esta em que se começa a identificar o escravo ao negro, sendo, então, desconhecidos os outros representantes da raça negra”.

      (MALOWIST, M. A luta pelo comércio internacional e suas implicações para a África. In: OGOT, B. A. (org.). História Geral da África: África do século XVI ao XVIII. Brasília: UNESCO, v.5, 2010. p. 8)

      Bem, mas estamos ainda debatendo apenas a questão do negro na sociedade contemporânea, e a questão do modo como a história é escrita tendo em vista os dilemas do negro na sociedade contemporânea, e não começamos sequer a tratar das questões de gênero…

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      dez 13, 2016

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      Fagner, a história de Maria Quitéria é um dos elementos fundadores da “nacionalidade baiana”. Na Bahia se aprende a biografia dela nos primeiros anos do ensino fundamental, e é uma das heroínas celebradas nos festejos do 2 de Julho; o cortejo desta festa popular que rememora a expulsão dos portugueses da Bahia em 1823 tem início junto à estátua em sua homenagem no Largo da Soledade, em Salvador (ver clicando aqui. Se duvida, veja suas representações em estatuária e monumentos Bahia afora clicando aqui.

    • Fagner Enrique

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      dez 14, 2016

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      Manolo, não duvido. O que pretendi foi compartilhar minha perplexidade com um livro didático específico que oculta da História do Brasil uma personagem como Maria Quitéria, que desestabiliza a imagem que parte do feminismo se esforça para difundir sobre o papel da mulher na História. E pretendi também compartilhar essa experiência, de um professor respondendo à perplexidade de uma aluna que se deu conta de que as coisas não são tão simples quando encaramos a História de diversos pontos de vista.

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      dez 14, 2016

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      Fagner, concordaremos em discordar. Maria Quitéria foi exceção, e tomar a exceção como normalidade não é regra muito prudente para compreender os hábitos e costumes de determinada sociedade em determinado tempo. Qualquer dos relatos de viajantes que passaram por Salvador entre os séculos XVIII e XIX, assim como os relatos históricos e memórias de aristocratas, e também inventários, processos-crime, anúncios de jornal, tudo, tudo, literalmente tudo, indica que as mulheres baianas deste período eram literalmente trancadas em casa. Mesmo a arquitetura do período revela este isolamento: os quartos das mulheres e moças ficavam mais ao fundo da casa, depois da sala de estar, separada que era esta última da sala de visitas por um corredor com outros quartos, geralmente de criados. Os muxarabis eram costume até serem proibidos pelo primeiro código de posturas municipais, em meados do século XIX, e era por detrás deles que as mulheres enclausuradas podiam ver a rua sem serem vistas pelos passantes. Isto para falar das mulheres urbanas, que das mulheres sertanejas pouco ficou registrado. Mas o fato de Maria Quitéria ter vivido seus últimos anos em Salvador, esquecida e miserável, enterrada por caridade na Igreja de Santana, apenas a enquadra nesta urbanidade de que falei.

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      dez 14, 2016

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      Diga-se, em correção, antes que me esqueça: as mulheres e moças “de família” de Salvador ficavam presas em casa. As ganhadeiras, estas estavam rodando a cidade inteira a trabalhar, a pregoar, a incomodar e, algumas, a conspirar.

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      dez 14, 2016

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      No que diz respeito à escravidão branca nas Américas, que dizer dos indentured servants que afluíam às colônias britânicas até praticamente as vésperas da revolução americana, e até a década de 1840 no caso caribenho? Quem pesquise descobrirá que entre metade a dois terços dos brancos chegados à região entre o norte da Virgínia e Nova Jérsei neste período eram indentured servants. O indenture era um contrato, o que implica em servidão voluntária, mas não foram poucos os sequestros, pelo menos até o início do século XVIII. A diferença entre a escravidão tal como a conhecemos e o indentured labor estava em que o indentured servant era contratado por um tempo determinado, que orbitava entre cinco a sete anos, e depois estava livre. Mas enquanto vigia o indenture, escravos e indentured servants eram tratados com igual desumanidade. Quem leia o documentadíssimo Capitalismo e escravidão de Eric Williams perceberá, a partir da decadência do sistema de indenture, como o racismo na América do Norte tem um forte componente econômico: foi preciso ir paulatinamente “denegrindo o negro” para que sua escravização, economicamente mais viável que o sistema de indenture já em meados do século XVII, se tornasse palatável, malgrado a obstinada resistência quacre e a solidariedade antiescravista da arraia-miúda trabalhadora branca na metrópole britânica.

    • Fagner Enrique

      |

      dez 15, 2016

      |

      Manolo, não estou tomando uma exceção por regra. Estou refletindo sobre como, por períodos limitados e em situações e lugares excepcionais, outras relações se desenvolveram, comprometendo discursos atualmente baseados numa redução deliberada ou irrefletida da realidade, que a empobrece e a distorce. Claro que as mulheres estavam, a maior parte delas, sujeitas a essa situação que você descreve (me pergunto, porém, se e de que modo essas mulheres resistiam, contestavam, desobedeciam, negociavam, driblavam, superavam, mesmo que com grandes limitações, esse quadro, e se e em que medida essas mulheres optavam por aderir e participar da imposição desse quadro, e também se e em que medida os homens ou certos homens optavam por contestar esse quadro, porque é esse tipo de questão que serve para nos proporcionar uma visão mais acurada da realidade social, que de simples não tem nada). Penso que a constatação da regra não diminui o valor da busca pela exceção, ainda mais entre nós, que tentamos desenvolver lutas anticapitalistas, novas relações sociais, nadando contra a corrente, correndo o sério risco de desenvolvê-las num tempo e espaço limitadíssimos, morrendo depois na miséria e no esquecimento. Enfim, pessoalmente prefiro uma concepção da História que vê, na aparente estabilidade, na rigidez e no peso das regras estabelecidas, um conjunto de tensões capazes de levar à transformação social.

    • Bananinha

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      dez 15, 2016

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      “Não é a consciência dos homens que lhes determina o ser; ao contrário, seu ser social determina sua consciência” (Karl Marx)

      Tendemos a interpretar o passado a partir da “realidade” presente.

      No passado banana era simplesmente banana. Hoje banana pode ser banana e banana orgânica…

      A long long time ago in a galaxy far away…

      Os soldados espartanos viviam espartanamente. Eram o “orgulho e raça” de Esparta. As mulheres atenienses viviam ateniensemente. Eram o “orgulho e raça, de Atenas” (Chico Buarque). Na produção social de sua existência, o soldado espartano ( e seu modo de vida, na paz ou na guerra…) entrava em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a um dado grau de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais… assim como na produção social de sua existência, a mulher ateniense entrava em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a um dado grau de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais…

      Muito, muito tempo depois…

      Uma mulher, um negro, um índio, um gay, um vegano, um malufista, um petista, um anarquista, um lobisomem, um vampiro e (até mesmo ou principalmente) um zumbi, entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a um dado grau de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais…

      Por mais que se produzam e se vendam bananas orgânicas, ou não (elas são ou não “orgânicas” a partir do ponto de vista do presente, pois no passado não eram vistas como orgânicas ou não…), elas continuam sendo… bananas… Serão bananas (orgânicas ou não) produzidas para serem vendidas, e por mais “orgânicas”, ou não, que elas acreditem ser… elas não se determinam como isso ou aquilo , elas são determinadas como isso ou aquilo…

      Que a força esteja convosco!

    • Lucas

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      dez 15, 2016

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      pois é, senhora bananinha, e a grande conclusão deste determinismo materialista é que tal determinação pouco ou nada tem a ver com a auto-realização da classe trabalhadora enquanto sujeito da revolução comunista. O que leva muitos a deixarem de lado esta hipótese, passando a militar o direito de ser pintadinha, prata, já um pouco passada, ou até bananada — que é basicamente a adaptação do indivíduo ao sistema socio-econômico atual. Me parece que o que esse determinismo objetivista acaba trazendo de volta à praia é a enorme importância que a ideologia tem na luta dos trabalhadores, seja para desarticulá-la, seja para forjar classe.

    • Bananão

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      dez 18, 2016

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      A condição de trabalhadores assumida a cada nova geração é fixada de antemão. Ela é uma condenação. No final dos anos de 1970 e na década seguinte e hoje ainda, tantas milhares de mãos anônimas escreveram pelas paredes de Paris “metro, boulot, dodo”, viajar entre a casa e o emprego, trabalhar, dormir — o circuito fechado que constitui o padrão capitalista para a vida de qualquer trabalhador, a integração durante 24 horas por dia nos processos do capital (João Bernardo – Economia dos Conflitos Sociais – p 107 – versão eletrônica).

      O que nós precisamos, e hoje mais do que nunca, perante tantos desafios novos, é a lucidez de um frio raciocínio. Precisamos de deitar fora, sem compaixão nem apegos sentimentais, tudo o que, herdado do passado ou justificado por hábitos arreigados, se revele prejudicial ou apenas inútil. Precisamos de traçar com rigor a linha que divide os interesses dos trabalhadores e os interesses dos capitalistas, e esta é uma tarefa tanto mais difícil quando não se trata de uma demarcação regular e estável, mas, pelo contrário, de uma linha sinuosa e oscilante, reconstruída em cada momento. Os apelos ao coração e à ética só confundem onde seria necessário esclarecer (João Bernardo – Transnacionalização do capital e fragmentação dos trabalhadores: ainda há lugar para os sindicatos?)

      “A condição de trabalhadores assumida a cada nova geração é fixada de antemão. Ela é uma condenação. No final dos anos de 1970 e na década seguinte e hoje ainda, tantas milhares de mãos anônimas escreveram pelas paredes de Paris “metro, boulot, dodo”, viajar entre a casa e o emprego, trabalhar, dormir — o circuito fechado que constitui o padrão capitalista para a vida de qualquer trabalhador, a integração durante 24 horas por dia nos processos do capital” (João Bernardo – Economia dos Conflitos Sociais – p 107 – versão eletrônica).

      “O que nós precisamos, e hoje mais do que nunca, perante tantos desafios novos, é a lucidez de um frio raciocínio. Precisamos de deitar fora, sem compaixão nem apegos sentimentais, tudo o que, herdado do passado ou justificado por hábitos arreigados, se revele prejudicial ou apenas inútil. Precisamos de traçar com rigor a linha que divide os interesses dos trabalhadores e os interesses dos capitalistas, e esta é uma tarefa tanto mais difícil quando não se trata de uma demarcação regular e estável, mas, pelo contrário, de uma linha sinuosa e oscilante, reconstruída em cada momento. Os apelos ao coração e à ética só confundem onde seria necessário esclarecer” (João Bernardo – Transnacionalização do capital e fragmentação dos trabalhadores: ainda há lugar para os sindicatos? – introdução versão internet)

      Creio que há diferença entre determinismos e determinantes. Se o primeiro, determinismo, parece indicar uma inexorabilidade, o segundo, determinante, parece indicar uma prevalência, mas não uma imutabilidade. Entendo que na luta de classes há determinantes impostos pela classe historicamente dominante em cada modo de produção, mas passíveis ou de transformação, ou de ruptura, ou mesmo de superação. Entendo que Marx falava num sentido de determinantes, e não de determinismos.

      Admitir e reconhecer estes determinantes (especialmente os determinantes materiais) é uma das condições para que os trabalhadores, possam não apenas se organizarem na luta, como também conhecer e reconhecer seus próprios interesses, interesses esses de toda ordem, não apenas econômico.

    • Lucas

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      dez 19, 2016

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      bananão, já que você veio cheio de João Bernardo pra cima de nois, você teria aí na manga algum parágrafo ou texto a respeito de que tipo de conceito seria esse de “interesse”, nesta perspectiva? Pois conhecer e reconhecer algo de si mesmo, dizendo de algo alheio, coletivo, mas ao mesmo tempo do qual se faz parte, as vezes me soa mais como psicanálise do que como teoria revolucionária. Não digo isso como uma forma de diatriba, mas entre admitir e reconhecer determinantes de um tipo para conhecer e reconhecer interesses de toda ordem, sinto que no fundo ignoro o que tal interesse (próprios dos trabalhadores) significa — especialmente se tratando de uma palavra tão corrente e banalmente aceita em seus usos pragmáticos cotidianos (o que certamente ajuda a que seja usada com um suposto significado compartilhado, armadilha fácil).

    • Sempre Banana

      |

      dez 19, 2016

      |

      “Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos.”
      LESSING (…)
      (…) Ó Preguiça, tem piedade da nossa longa miséria! Ó Preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas!” Paul Lafarge – O direito à Preguiça (http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/direitopreguica.pdf)

      Como sou trabalhador este é um dos meus “interesses”: o Direito à Preguiça!

      Como sou trabalhador, também é meu “interesse” acabar com o capitalismo e “substituí-lo por uma nova sociedade, onde os meios de produção sejam propriedade colectiva, os próprios trabalhadores organizem o processo de trabalho e as comunidades tenham o direito de manter as suas próprias culturas, línguas e maneiras de viver, sem prejuízo das conquistas sociais conseguidas noutras lutas e noutras épocas” (disponível em http://passapalavra.info/2009/02/121 )

      Assim, Lucas, você talvez tenha razão quando diz que meu discurso parece mais psicanalítico do que revolucionário. Em minha análise (segundo você, a análise psicanalítica e, quem sabe, talvez psiquiátrica…) busco a consciência daquilo que, embora oculto (na inconsciência), manifesta-se no meu cotidiano – “metro, boulot, dodo” (JB, op.cit)” – ou seja, a minha “de” e “na” classe (trabalhadora). Bem verdade que nem tudo aquilo que imagino como consciência seja de fato consciência ou consciente, e, muito menos, que minha consciência “na” classe seja uma “consciência de classe”…

      Porém, na minha psicanálise psiquiátrica, se me fosse permitido o uso de “frases feitas dos textos clássicos” (já que é um “o cômodo refúgio” analítico ou um “mero artifício retórico” – em psicologia “projeção é um mecanismo de defesa no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo, sejam pensamentos inaceitáveis ou indesejados, sejam emoções de qualquer espécie, são atribuídos a outra pessoa…”- Wikipedia) eu diria (importante ressaltar que este espaço não dita regras “EXPLÍCITAS” de redacção, dada a existência no projecto de espaços diversificados para os DIFERENTES tipos de contributo): “A teoria sem a prática de nada vale, a prática sem a teoria é cega” (Lenin – “Lenin”?… tá… apelei… mas foi o que deu pra tirar da “manga”…). Por isso eu entendo que a teoria revolucionária e práxis revolucionária não podem se constituir e se efetivar sem consciência de classe (ainda que “Freud explique”, ou não…).

      Mas, na República das Bananas, a posição de Bananinha ou Bananão em nada altera sua condição de banana… orgânica ou não…

    • ulisses

      |

      dez 20, 2016

      |

      WITH(OUT) preconceito
      Talvez fosse uma boa ideia examinar a diferença entre conceito e ideologema.

    • Lucas

      |

      dez 20, 2016

      |

      No esteio do pensamento evolucionista, penso eu que não caberiam dúvidas de que os trabalhadores estariam interessados em acelerar o inevitável processo de demolição do capitalismo, já que mais além dele estava o Eldorado. Com o trauma soviético veio a integração e o escapismo — não havendo Eldorado, pintemos os viadutos com tons de ouro; não havendo Eldorado, o mais importante segue sendo o viver no mato, mesmo sem o ouro.
      Onde é que fica o interesse nessa história? É mostrar que o Eldorado segue existindo, que na verdade esse pessoal tomou o caminho errado e terminou em Pindamonhagaba? Ou será mostrar que existe um Eldorado dentro de cada um de nós? E em qualquer um destes casos, que relação existe, de fato, entre o que vivemos todos os dias e a concretização de um Eldorado qualquer? É mais importante que o nosso Eldorado seja uma necessidade objetiva do tempo, e que nossa missão é acelerar o inevitável, ou que ele seja uma possibilidade artificialmente criada e completamente dependente da ação humana, sendo nossa missão um ato extremamente inventivo e dependente da imaginação?
      Pois se existe uma boa motivação para lutar cada um por seu particularismo, é a total descrença de que haverá qualquer grande mudança no mundo [não se trata justamente disso o rebote do identitarismo fascista de que estão falando nos comentários acima?]

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