“Uma revolução real é uma massa de contradições”: entrevista com um voluntário em Rojava

“Uma revolução real é uma massa de contradições”: entrevista com um voluntário em Rojava

em 4 mar

A revolução está avançando mediante formas de democracia popular, libertação das mulheres e algum tipo de economia solidária. Plan C entrevista Peter Loo

Em outubro de 2016 Peter Loo chegou a Rojava [1] para trabalhar voluntariamente como professor de inglês e participar do cotidiano daquela sociedade – era o resultado de mais de 14 meses de organização pelo Grupo de Solidariedade a Rojava do Plan C [2]. Atualmente ele está trabalhando na campanha do SYPG [Instituto pela Solidariedade e Unidade dos Povos, na sigla em curdo] em Qamishlo. Além de oferecer as suas habilidades diretamente, Peter tem viajado a vários lugares em Rojava e conversado com muitas pessoas sobre o quanto o futuro da região e de toda a Síria segue indefinido. Esta entrevista ocorreu em dezembro de 2016.

Grupo de Solidariedade à Rojava (GS): Olá, Peter. Temos muitas perguntas sobre suas experiências até agora, mas talvez você possa explicar um pouco a história para os leitores que não conheçam os detalhes.

Peter Loo (PL): Bem, devemos começar falando brevemente das origens da revolução. Muitos pulam essa parte, mas ela é fundamental para se entender a dinâmica da revolução como um todo. O Partido da Unidade Democrática (PYD, na sigla em curdo), que liderou a revolução, tem atuado no norte da Síria / Curdistão Ocidental (Rojava é o nome curdo para Oeste) desde 2003. Antes dele, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), a quem o PYD é filiado, tinha sido autorizado pelo regime a utilizar a região como base de organização contra o Estado turco, até a sua expulsão em 1998.

O primeiro protesto contra Assad ocorreu no início de 2011 e, na primavera, o PYD começou a concentrar esforços na organização da comunidade curda, formando comitês locais e unidades armadas de autodefesa (as precursoras do YPG e das forças femininas do YPJ). Essa deveria ser a base social da revolução. Em meados de julho de 2012, quando a luta social contra Assad transformou-se num conflito militar sangrento, que envolvia diversos poderes internacionais, aquelas unidades de autodefesa, reforçadas por guerrilheiros treinados pelo PKK, expulsaram as forças do regime de várias cidades no norte do país. As unidades de defesa do PYD tomaram o controle das principais estradas e expulsaram as forças do regime de lugares-chave com poucos confrontos e baixas.

A revolta teve uma geografia diferente: áreas de população predominantemente curda, onde o PYD estave se organizando, foram aquelas em que houve levante e expulsão das forças do regime. Em áreas sem maioria esmagadora curda, as forças de Assad conseguiram manter sua presença. Aqui em Qamishlo, onde estima-se 20% de apoio da população ao regime, ocorreram alguns duros combates mas o regime conseguiu manter o controle de muitos prédios públicos. Julho de 2012 marca o aparecimento de Rojava como uma força distinta no conflito sírio. Os cantões que se formaram declararam oposição a Assad (argumentando, no entanto, que ele deveria ser removido do cargo através de eleições, e não pela força), não como parte da constelação rapidamente fragmentada dos Rebeldes Sírios. É complicada a relação entre Rojava e o Exército Livre da Síria (FSA, na sigla em inglês) – as forças militares inicialmente formadas pelos rebeldes – havendo exemplos tanto de cooperação quanto de conflito entre Rojava e diferentes parcelas do FSA desde o início da revolução.

Este relato das origens da revolução como insurreição popular é contestado pelos mais críticos da Revolução de Rojava, que se recusam em juntar-se a uma revolta mais ampla contra Assad. No Reino Unido, de modo mais explícito, entre estes críticos estão Robin Yassin-Kassab e Leila al-Shami, autores de Burning Country. Neste livro, que só toca no tema de Rojava brevemente, os autores argumentam que a retirada das forças de Assad foi “aparentemente coordenada” com o PYD, cuja chegada ao poder já era um fato consumado, sendo acordado de antemão com o regime a liberação de tropas para o combate contra os rebeldes em outros lugares. Estas duas narrativas (fato consumado ou insurreição bem-sucedida) são conflitantes e eu não tenho uma resposta definitiva – talvez as coisas fiquem mais claras em poucos meses, à medida que for se delineando o futuro do relacionamento entre Rojava e o regime. No entanto, a tese do fato consumado não explica por que houve baixas militares nos primeiros dias, nem por que as hostilidades continuam acontecendo esporadicamente. Uma conspiração não parece provável. Em vez disso, [é provável que] ao reconhecer que a realidade política de Rojava havia se transformado com a insurreição, Assad renegociou sua posição política em relação a esta parte da Síria, possivelmente mantendo abertas as suas alternativas a longo prazo.

A partir deste início a revolução se expandiu geograficamente – dois dos três cantões estão diretamente conectados (Kobane e Cizire), e segue a luta para conectá-los ao cantão de Efrin – como também se expandiu socialmente. Foi instituído um sistema político baseado na descentralização (o confederalismo) e na construção das “comunas” em nível local, um sistema econômico que prioriza cooperativas e assegura localmente as necessidades básicas das pessoas, e uma gigantesca transformação das relações de gênero em curso. Esta é uma das mais empolgantes lutas políticas que têm ocorrido no mundo atualmente, tanto em termos de escala quanto de conteúdo, ainda mais impressionante tendo em conta o conflito que continua a se desenrolar na Síria e a hostilidade vinda dos países vizinhos.

GS: Depois retomaremos o tema da relação entre a revolução e o regime. Então a revolução começou como um movimento liderado pelo PYD, apoiado principalmente por curdos?

PL: Exatamente. Depois do que podemos chamar de fase insurrecional da revolução – eliminando o regime do controle efetivo – a fase seguinte foi a de uma consolidação política e da implementação de um programa político. Este programa tem três eixos centrais: um sistema de democracia de base (que se dá numa relação com partidos políticos formais e uma forma de sistema representativo), conhecido por confederalismo democrático; uma revolução feminina; e um programa ecológico (de longe o aspecto menos desenvolvido até o momento). Conseguir apoio a este programa, para além do PYD e da comunidade curda, foram as tarefas imediatas da revolução.

Muitos pequenos partidos políticos formam agora uma parte ativa da revolução, trabalhando juntos no interior do Movimento por uma Sociedade Democrática (TEV-DEM, na sigla curda). Obviamente, nem todos apoiam esse processo. O Conselho Nacional Curdo (ENKS), uma coalizão de 16 partidos dominada por Massoud Barzani, presidente do Governo Regional Curdo (KRG) do Iraque, tem sido um declarado opositor de muitos dos desenvolvimentos em Rojava. Barzani não compartilha da visão política do PYD, modelando o KRG no rumo de Estado petroleiro, a exemplo de Dubai, e implementa atualmente um embargo total a Rojava, em cooperação com o seu aliado, a Turquia, o que tem gerado todo o tipo de problema. Em função destas tensões, Carl Drott, da Universidade de Oxford, disse que “às vezes parece que a única política consistente do Conselho Nacional Curdo [ENKS] é opor-se a qualquer coisa que o PYD faça”.

Ainda mais importante é que a revolução tem priorizado a conquista da confiança e do apoio de todas as comunidades aqui em Rojava. Estas comunidades (árabe, síria, chechena, armênia, turcomana, etc.) estão cada vez mais participando, em maior número, conforme o tempo vai passando, e veem as ideias de revolução – e seus benefícios – sendo postas em prática, tanto quanto veem que não há um retorno do regime. As razões para apoiar a revolução variam dos mais motivados politicamente, que desejam um Curdistão livre ou a crença nas políticas de Öcalan [o líder do PKK, preso na Turquia] e sua visão de confederalismo, ao desejo menos abstrato de paz, segurança e garantia de serviços básicos, que a revolução está proporcionando. Todos aqui amam profundamente o YPG e o YPJ e esse apoio se estendeu à aliança militar – as Forças Democráticas Sírias – que eles construíram com outras milícias progressistas (de diferentes etnias) da região.

A revolução começou dentro da comunidade curda e a conquista de apoio no interior de outras comunidades é uma prioridade central. Isso inclui trabalhar com milhares de refugiados árabes que fogem do conflito por toda a Síria e que estão sendo impedidos pela Turquia de viajar para a Europa. Parte do meu trabalho aqui com o TEV-DEM gira em torno da construção desse apoio entre as comunidades. A comunidade assíria [também chamada de siríaca], por exemplo, está fortemente dividida entre o regime e a revolução, sendo que cada facção tem as suas próprias unidades militares e policiais. Atravessando os bairros assírios estas divisões são bastante nítidas, uma rua cheia de retratos de Assad e bandeiras do regime, a seguinte com pontos de controle pró-revolução com slogans revolucionários nos muros.

GS: Vamos abordar a espinhosa questão da relação entre o regime e o PYD. Resumindo, o que está acontecendo?

PL: Bem, como eu disse antes, a revolução não expulsou o regime em todos os lugares. Aqui em Qamishlo, o regime ainda tem uma presença. Por exemplo, quando Aleppo foi “liberada” recentemente, em alguns bairros foram estrondosas as celebrações pela vitória de Assad, e o regime ainda paga os salários de alguns funcionários públicos, como os professores. Ocasionalmente surgem conflitos nas cidades em que o regime ainda se faz presente, como Qamishlo e Hasseke.

Como eu disse antes, a revolução aqui se constituiu como uma força independente do movimento rebelde mais amplo (ele mesmo muito diversificado) contra Assad. Ela tem contado com o apoio de movimento sociais internacionais, partidos políticos progressistas, e também, de modo mais controverso, com o apoio de grandes Estados, como os EUA e (às vezes) a Rússia. Estes têm, em certa medida, impedido Assad ou, especialmente neste momento, o Estado turco, de esmagá-la, mas a situação ainda é perigosa. Quanto ao regime, não está claro no momento qual a orientação dele frente à Rojava, e vice-versa. Neste momento, nenhum dos lados tem força militar suficiente para derrotar facilmente um ao outro. Com a derrota dos rebeldes, que basicamente estará assegurada com a reocupação de Aleppo, isso poderá mudar. Por exemplo, as YPG e YPJ no extenso bairro curdo de Aleppo, Sheiq Maqsoud, que o defenderam dos ataques rebeldes (como também ajudaram as forças de Assad em alguns pontos do combate), agora se retiraram de lá, deixando somente a Asayish (uma força policial) no bairro.

Esta “relação” com o regime tem sido criticada por muitos. No início do levante sírio o potencial de uma aliança mais ampla entre curdos e árabes parecia possível, mas falhou por várias razões. Estas incluem um chauvinismo árabe latente, um sub-produto de décadas de governo colonial em Rojava pelo regime, que foi um fator na falta de vontade – tanto do regime quanto dos rebeldes – de ver a autonomia curda estabelecida. A ascensão da proeminência de forças islâmicas do lado rebelde também bloqueou uma aliança em larga escala entre a revolução de Rojava e os rebeldes. Alianças têm sido feitas com algumas forças nas regiões que compõem os cantões, como as SDF [Forças Democráticas Sírias], mas uma ampla aliança com as maiores facções do lado rebelde não aconteceu. Essa aliança perdida, se alguma vez foi possível, provavelmente influenciou de modo significativo o resultado do resto do conflito.

GS: Temos visto uma rápida expansão dos cantões de Rojava, particularmente em áreas de significativa população árabe. Você pode nos contar das suas experiências em torno do modo como os diferentes grupos étnicos têm se incorporado na revolução, e como ela tem sido recebida?

PL: Desde 2015 as áreas controladas pelos cantões se expandiram de forma massiva por meio de suas ofensivas contra o ISIS. É inegável que uma das razões para isso é a construção de um sistema contínuo e conectado de cantões. Tais ofensivas, em geral feitas por militares curdos em áreas predominantemente árabes, provocaram alguns problemas. Em dezembro eu tive a oportunidade de visitar o front em Salouk [próximo a Al-Raqqa]. À medida que a ofensiva em Raqqa ia empurrando as linhas de frente para mais adiante, as pessoas iam podendo retornar às suas aldeias. De modo geral, junto aos aldeões com os quais estive, percebi um amplo apoio às SDF, que eles contactaram. Entretanto, nem todos esses aldeões concordam com o rumo dos acontecimentos – muitos, nos disseram, tinham sido ou ainda eram apoiadores do ISIS. Visitamos um Tabur (unidade militar) que tinha sido alvo de um ataque suicida no princípio do ano; o sujeito que fez isso era um visitante frequente, morador da aldeia vizinha.

Na medida em que a área controlada pelo sistema confederado se expandia, algumas mudanças aconteceram para acomodar o crescente número de integrantes não-curdos. Já comentei que as SDF constituem uma coalizão militar multiétnica, que implicou em um passo positivo para a revolução. O atual nome oficial da região, Federação Democrática do Norte da Síria, é uma indicação do projeto multiétnico que a revolução tenta construir. Tempos atrás vimos a fala de um dos co-presidentes da confederação, Mansur Salem, que é um árabe sírio, e ele enfatizava como a construção deste apoio multiétnico é um desafio político chave para a revolução.

GS: Até que ponto a ideologia da revolução tem sido apreendida pelas pessoas comuns?

PL: Visitantes que chegarem em Rojava com expectativas em torno de uma experiência revolucionária transcendental ficarão desapontados. Dado o trabalho incrível que tem acontecido, e o que toda a grande mídia tem produzido para a audiência ocidental, isto não é surpreendente. No entanto, para além do front, o caminho pelo qual a revolução tem se manifestado pode muitas vezes ser extremamente sutil, e menos desenvolvido do que se espera ou deseja.

Eu já falei como a expansão dos valores revolucionários no interior de outras comunidades é um trabalho em andamento. Um outro exemplo é que, enquanto os níveis mais altos do sistema confederado, sobretudo nas cidades, estão bem desenvolvidos, o nível mais baixo, a comuna – instituição de nível comunitário, nos bairros, onde ocorre a participação mais direta nas assembleias políticas e nos comitês políticos temáticos – não está tão desenvolvida, como se poderia pensar de fora. As razões para isso retomam as origens e dinâmicas da fase insurrecional da revolução, como discutido anteriormente.

Contrariando a intuição, temos os níveis mais altos desse sistema político buscando ativamente expandir a participação política das bases. Muito trabalho tem sido feito para ampliar numérica e geograficamente as comunas. Isto requer encontrar recursos físicos e educar as pessoas nas comunidades locais quanto aos valores da revolução e os modos (às vezes complicados) pelos quais o sistema funciona. Mas talvez o elemento mais visível da revolução, por aqui, seja o papel das mulheres na sociedade.

GS: Esta era a minha próxima questão. A imagem muitas vezes projetada da revolução enfatiza a libertação feminina e o papel do YPJ em liderar o chamado para a mudança nas relações de gênero. O quanto isso impacta o cotidiano em Rojava? É uma parte de fato essencial do movimento?

PL: Uma crítica da esquerda na Europa, como exemplificado em um recente artigo de Gilles Dauvé Rojava: reality and rhetoric, é a de que a revolução das mulheres em Rojava se limita às mulheres das YPJ. Se for assim, então Rojava não pode ser visto como um lugar onde há uma revolução das mulheres. Afinal, o Estado de Israel recruta mulheres em suas tropas e [Muammar] Gaddafi era famoso por utilizar guarda-costas mulheres. A história está cheia de exemplos em que as mulheres desempenham um papel significativo em lutas sociais ou conflitos militares, apenas para retornarem a posições sociais subservientes ao final das hostilidades. No entanto, não é aqui que a revolução das mulheres em Rojava termina. Nem para no ponto em que assegura um mínimo de 40% de representação feminina em todos os comitês e na igualdade no número de porta-vozes (o que, isoladamente, vai mais longe do que a maioria dos estados ocidentais).

De modo subjacente a todos estes resultados claramente visíveis está o lento, paciente desenvolvimento do movimento político das mulheres: educação política para que as mulheres possam desenvolver as suas habilidades e a confiança de organizadoras futuras, formas de (re)educação e intervenção contra os homens que abusam, a atividade dos comitês de mulheres em todos os níveis do sistema confederado, e o incansável trabalho do Kongreya Star (Congresso Estrela), que é a expressão organizada do movimento de mulheres aqui.

Uma vez mais, este não é um processo livre de problemas; estas mudanças estão sendo produzidas sobre uma sociedade extremamente conservadora, onde a violência contra a mulher, os assassinatos por questões de honra, os casamentos forçados, uma diferença salarial incrivelmente alta, bem como as mais rotineiras características do patriarcado eram extremamente comuns antes da revolução. O movimento está trabalhando duro para envolver a todos, para ser firme e tomar atitudes imediatas onde estas são necessárias ou agir mais a longo prazo onde assim for mais efetivo.

Como tudo aqui, compartilham-se muitas características dos movimentos ocidentais, mas mantêm-se também muitas diferenças. Os fundamentos políticos do movimento das mulheres aqui é chamado por todos de Jineologia, que significa a ciência da mulher. Öcalan é, sem surpresa, o teórico chave da Jineologia, tendo apresentado amplos argumentos sobre as raízes históricas do patriarcado que sucedeu uma sociedade matriarcal pacífica. O capitalismo é visto como inerentemente patriarcal e Öcalan, que, uma vez mais, é o ponto de referência central para o movimento, defende que “a necessidade de reverter o papel do homem tem importância revolucionária”.

No entanto, algumas partes dessa teoria são mais problemáticas para algumas feministas do Ocidente. Por exemplo, a abordagem jineológica do gênero parece essencialista, em que características definidas são atribuídas aos gêneros. Feministas queer acharão esta ideologia bastante desafiadora. As políticas de sexualidade também são bastante diferentes daquelas do Ocidente, são praticamente proibidas as relações sexuais entre quadros militantes, e no resto da sociedade é forte a ênfase na abstinência até o casamento. Em muitas entrevistas, quando a diversidade sexual é abordada, a resposta padrão parece ser algo na linha do “nunca encontramos gays em Rojava”. No entanto, isso é algo que esperançosamente deverá ser abordado com o tempo, e já ouvi relatos de palestras sobre políticas LGBT ocorrendo em algumas áreas.

GS: É um bom ponto sobre a Jineologia não ser derivada diretamente do feminismo ocidental. Pode-se dizer o mesmo sobre os movimentos apoistas em geral?

PL: Sim, com certeza. Muitos debates sobre o PKK construídos a partir da tentativa de responder se eles são ou não uma organização anarquista têm circulado em alguns meios porque falharam em analisar o próprio movimento. Do mesmo modo que o PKK nunca foi, historicamente, uma organização marxista-leninista tradicional, não é, hoje, um movimento anarquista. O PKK e suas organizações irmãs se autodefinem como “apoistas” – um movimento construído essencialmente em torno de Abdullah Öcalan e sua obra, digamos, bastante eclética. Os movimentos baseados em sua visão política são contraditórios, especialmente desde o desenvolvimento do “novo paradigma”, desde a prisão de Öcalan em 1999. Este paradigma mudou substancialmente muitas partes da visão política do PKK. Ainda que o PKK tenha renunciado formalmente ao desenho de um Estado curdo independente e substituído-o por seu modelo de confederalismo democrático, ele ainda é um movimento hierárquico com disciplina rígida para os quadros e um culto à personalidade em torno do próprio Öcalan. Sua concepção de revolução não se deixa mapear entre aquelas sustentadas pelos movimentos revolucionários clássicos, sendo:

”…nem a ideia anarquista de abolição imediata do Estado, nem a ideia comunista de tomar o Estado inteiro imediatamente. Com o tempo, organizaremos alternativas para cada parte do Estado geridas pelo povo, e quando elas forem exitosas, aquela parte do Estado se dissolve.”

De particular importância é o fato de que sua crítica do capitalismo – ou, em sua própria terminologia, da modernidade capitalista – apesar de bastante opaca (uma opacidade que não é propriamente ajudada pela falta de obras do movimento traduzidas para o inglês), certamente não é tão fundamental quanto aquelas oriundas da tradição marxista. Embora o movimento apoista corresponda a muitos dos valores das tradições socialista e anarquista, ele é um tanto distinto e diferente.

Houve um artigo escrito por dois outros voluntários internacionais que se autodefinem como anarquistas no site do Plan C há pouco tempo. O artigo apresenta alguns pontos importantes e úteis sobre as complicações da prestação de solidariedade aqui, e por esta razão deveria, definitivamente, ser lido. Eles mostram um ponto (incontroverso) de que o trabalho em Rojava não é neutro. As escolhas a respeito de como e com quem trabalhamos aqui fortalecerá alguns grupos, indivíduos e dinâmicas ao invés de outros, e precisamos estar atentos a tal fato.

Leio esta afirmação como se usasse o argumento implícito, comum a muitos na esquerda antiautoritária, de apoiar o povo ou os movimentos sociais ao invés de partidos organizados. Um problema particular com esta perspectiva é que o movimento apoista transcendeu os limites de seus partidos políticos e é, também, um movimento social de massas com elementos de auto-organização que ultrapassam os partidos. Argumentaria que a esquerda revolucionária precisa apoiar o PYD e os movimentos apoistas por todo o Oriente Médio ao invés de um “povo” sem alinhamento político, mal-definido e, potencialmente, ficcional. Eles são uma força progressista muito grande, talvez a maior no Oriente Médio, e a maior parte de suas políticas se assemelha muito fortemente com as nossas. A demonstração de um compromisso sério com um trabalho de solidariedade prática e real, que uma vez ultrapassada a fase da simples escrita de artigos começa a se tornar muito desafiadora, ajuda a construir a plataforma a partir da qual é possível entabular debates com estes movimentos. Há partes da visão apoista que adoraria debater criticamente com eles (por exemplo, definições e críticas ao capitalismo), mas isto só acontecerá com alguma relevância quando se possa demonstrar algum tipo de “folha corrida”.

GS: Voltando às comunas, qual sua importância?

PL: Num nível local elas são importantes para resolver problemas menores, lançar luzes sobre problemas mais amplos, e funcionar como a correia de transmissão local das ideias da revolução. Além de tocar as assembleias e comitês locais, os elementos mais baixos do sistema servem como centros de mobilização do povo para a autodefesa, ou para manifestações e passeatas. Quando vamos a eventos políticos, costumamos sair em grandes comboios de ônibus saindo do Mala Gel (Casa do Povo – basicamente, um centro social) de nossa vizinhança, e quando organizamos eventos as comunas locais são um recurso vital para nos conectarmos diretamente com o povo. Ainda não vi o suficiente deste sistema complexo para avaliar até que ponto as ideias básicas deste sistema são ouvidas nos escalões mais altos do sistema federal por meio dos vários delegados eleitos e comitês temáticos.

É até engraçado, encontrei um marxista-leninista europeu aqui que estava convencido de que os anarquistas tinham entendido a revolução de modo totalmente equivocado, e que as comunas tinham um papel bastante periférico em tudo o que acontecia. Para ele, a revolução era dominada pelo PYD, com o YPG e o YPJ fornecendo a força por trás dele. Quando ele encontrou um dos partidos marxistas-leninistas internacionais aqui fazendo um trabalho comunitário consistente, promovendo e realmente construindo comunas, toda sua atitude mudou completamente. Talvez alguns na esquerda estejam um pouco otimistas sobre até que ponto o sistema de comunas está desenvolvido, mas ele definitivamente existe e cresce; o que não podemos fazer é confundir nossos desejos com a realidade.

GS: A questão econômica. Uma das perguntas mais importantes para muitos na esquerda é: que tipo de economia está sendo construída?

PL: O Norte da Síria, historicamente, foi deliberadamente subdesenvolvido pelo regime sírio e tratado como uma colônia interna. Colonos árabes eram encorajados a se mudar para a região e, junto com a exploração das reservas de petróleo encontradas na área, o outro setor principal, a produção agrícola, foi estritamente planejada e gerenciada. O que é hoje o cantão de Efrin teve suas muitas florestas substituídas por plantagens de oliveiras, enquanto nos anos 1970 o regime espalhou o rumor de que uma praga que afetava a produção de tomates estava se espalhado desde a Turquia, visando estimular a conversão completa da produção agrícola do cantão de Cizire para o cultivo de trigo. No inverno, é uma experiência bastante sombria dirigir nos campos vazios sem fim que compõem o interior do cantão de Cizire. Agora estão em curso esforços para diversificar a produção agrícola, tanto por razões ecológicas quanto econômicas.

Assim, a revolução não herdou muito em termos de meios de produção em larga escala. As poucas instalações existentes de grande produção foram socializadas. Creio que estes são uma fábrica de concreto, os poços de concreto, e, desde a campanha de Manbij, a barragem de Tishrin. Aqui em Qamishlo há, aproximadamente, 60 “fábricas”, com um tamanho máximo de 20 empregados. Algumas delas são privadas, algumas funcionam como cooperativas. A vertente comercial e logística da vida em Rojava também é de pequena escala. Quando o regime foi desalojado, pouco havia em termos de sistemas logísticos de larga escala que poderiam ser socializados – sistemas de transporte, ou os sistemas de logística integrados que as grandes redes de supermercado possuem. O minúsculo sistema ferroviário está fora de serviço e o regime controla o aeroporto em Qamishlo, que só mantém uma rota interna irregular para Damasco.

Janet Biehl, conselheira de desenvolvimento econômico no cantão de Cizire, em uma grande entrevista discute as “três economias” que funcionam paralelamente em Rojava. Você pode lê-la, mas, em resumo, há uma “economia de guerra”, uma “economia aberta” (ou seja, economia privada) e uma “economia social”. No momento, a economia de guerra – com pão e petróleo subsidiado, por exemplo – domina, com a economia social das cooperativas despontando como uma esperança futura. Obviamente o perigo é se/quando terminar o embargo e o investimento privado for permitido – sobretudo para infraestruturas dispendiosas como refinarias de petróleo e indústria pesada – que a economia social seja completamente abandonada.

Eu não gostaria de me aventurar em uma previsão quanto ao futuro da economia aqui, embora os desafios futuros pareçam bastante claros, mas eu posso dizer que é decepcionante que alguns na esquerda não estejam apoiando o que acontece aqui em razão da persistência da propriedade privada, da produção de commodities e do assalariamento. Isso é um tipo de purismo do “tudo ou nada”, que em geral vem de um lugar abstrato, aparentemente distante do reconhecimento das dificuldades de mudança social real. Nenhuma revolução até aqui conseguiu abolir as relações capitalistas – e muito menos no espaço de poucos anos, durante uma guerra por procuração internacional, ao mesmo tempo em que sofre um embargo! Embora a crítica apoista da modernidade capitalista seja claramente não-marxista, aqui em Rojava esta estratégia econômica é amplamente progressista – ainda que haja pontos de interrogação quanto ao seu futuro – e isso merece a nossa solidariedade.

Parece miopia recusar-se a apoiar porque o capitalismo ainda funcionará de alguma forma em um futuro próximo. É interessante que muitas vezes apoiamos lutas sociais não-comunistas até o ponto em que elas alcançam condições de mudar o mundo de forma significativa, ponto esse em que muitos de nós retiramos o nosso apoio. Precisamos ter uma visão de longo prazo das mudança social, que a reconheça como um processo contraditório e complicado. Somente pelo fato de que a revolução aqui não está, imediatamente, implantando o comunismo, não significa que não devamos apoiá-la.

GS: Qual o perfil político dominante dos voluntários internacionais? Que tipo de expectativas eles trazem, e de que modo estas são confirmadas ou subvertidas?

PL: Em geral, as pessoas que chegam aqui são uma mistura entre os muito otimistas e aqueles que esperam por algo mais realista. Em um momento, baseado apenas na cobertura feita pela internet, parecia que a maioria dos voluntários eram aventureiros, liberais bem intencionados, ou mais ainda pessoas de direita querendo somente combater o ISIS.

Evidentemente há muitos voluntários da diáspora curda, mas, além destes, a maioria dos voluntários que eu conheci aqui, ou dos quais ouvi falar, são pessoas de esquerda. Há uma presença relativamente grande de camaradas turcos, membros de organizações marxistas-leninistas e maoistas, por exemplo. Os outros voluntários são principalmente da Europa e da América do Norte, e a maioria está em unidades militares. Isso inclui um dedicado Tabur internacional – o Batalhão Internacional da Liberdade -, que as pessoas em casa provavelmente conhecem por meio das ótimas fotos da sua “Brigada Bob Crow”, formada por voluntários anglófonos.

Devido às barreiras linguísticas e às dificuldades de viajar para cá e encontrar uma ocupação em que se possa ser útil, não há muitos voluntários estrangeiros na sociedade civil. Esperemos que isso fique mais fácil com o passar do tempo. No momento, se as pessoas quiserem se voluntariar aqui, devem pensar sobre as habilidades que têm ou que podem obter antes de vir. Por exemplo, se estiverem interessadas em treinar para atuarem como professores de inglês como segunda língua, esta é uma ótima maneira de ser útil aqui, pois a demanda por estas aulas é enorme.

GS: O que você acha que a presença de voluntários internacionais acrescenta ao movimento?

PL: Por vezes, habilidades específicas bastante demandadas aqui, por exemplo, médicos. Se não isso, ao menos os voluntários trabalham como uma conexão entre Rojava e o resto do mundo. As pessoas aqui sabem que não estão sozinhas, e o resto do mundo começa a descobrir um pouco mais sobre o que está acontecendo aqui. Esta é, certamente, uma grande responsabilidade para aqueles que têm habilidade de relatar e retratar toda uma revolução com base em suas experiências. Aqueles dentre nós que têm feito isso, precisam tentar ser honestos quanto ao que vimos, quanto ao que pensamos, e em relação aos limites de nossa experiência pessoal.

Não é surpresa, mas é decepcionante ver críticas à maioria dos voluntários como ‘aventureiros orientalistas’, ‘islamofóbicos enrustidos’, ou ‘fantasiados com um complexo de herói’, críticas estas que surgiram em alguns setores da esquerda. Enquanto alguns se encaixam neste perfil, este não é o caso da maioria – em especial os camaradas politicamente ativos que têm respondido às chamadas por voluntários. O YPG também está tomando medidas para filtrar este tipo de voluntário. É surpreendente como até mesmo o que eu tomaria como um valor histórico incontroverso do movimento comunista – o internacionalismo – é bombardeado por aqueles que também se veem como parte da esquerda. Parece que aqui e agora há mais voluntários de esquerda de estruturas pré-existentes, ou talvez eles estejam apenas utilizando melhor os canais de mídia. Seja como for, repetir com insistência o ponto de que se trata de uma luta progressista que precisa de apoio da esquerda internacional, e que se vê como parte de um movimento internacional, é intensamente importante e é uma tarefa política na qual todos podemos nos envolver.

GS: O que você considera ser o impacto mais significativo da revolução até agora?

PL: Para os povos da região, a revolução os libertou da dominação do regime de Assad e do ISIS. E também houve progressos massivos em termos de libertação feminina e democracia direta. Internacionalmente a revolução deu um forte impulso às lutas ao norte da fronteira, em Bakur, na Turquia[3] e aos revolucionários mais distantes. Embora nós precisemos ter cautela, há muitas lições para se tomar dessa revolução. No mínimo, Rojava serve como um lembrete que a revolução é sempre uma possibilidade onde os revolucionários estão organizados, comprometidos e preparados para arriscarem as suas vidas.

GS: Algum comentário final?

PL: A revolução aqui não esboça a fantasia perfeita de alguns revolucionários do Ocidente. Não foi o levante espontâneo da maioria esmagadora do povo, não aboliram o Estado (se é que isso é possível) ou o capitalismo, e ainda há problemas para resolver. Apesar do fato de que não se trata de comunismo pleno aqui e agora, esta revolução precisa ser aplaudida e apoiada. Como todas as revoluções, esta não emergiu totalmente formada, mas tem sido feita rapidamente em face de toda a oposição que sofre. Ao contrário de muitas revoluções, esta é bem difícil de definir; etiquetas como “anarquista” ou “revolução sem estado” obscurecem mais do que revelam. O que sabemos é que esta revolução está avançando mediante formas de democracia popular, libertação das mulheres e algum tipo de economia solidária. A vida em Rojava é melhor para mais pessoas do que na maior parte do Oriente Médio.

Para aqueles que temem que os revolucionários tenham poder de verdade para fazer a transformação ao invés de manterem a “resistência” para sempre, gostaria de citar Murray Bookchin (cuja influência na luta aqui é certamente exagerada por alguns):

“Os anarquistas podem reivindicar a abolição do Estado, mas alguma coerção, de algum tipo, será necessária para prevenir o retorno do Estado burguês em força total com um terror desenfreado. Para uma organização libertária, pelo medo extravagante de criar um ‘Estado’, se abster de tomar o poder quando puder fazê-lo com o apoio das massas revolucionárias, trata-se de uma confusão, no melhor dos casos, e um total vacilo, no pior”

Aqueles que tomam uma posição ultra-esquerdista em Rojava, e loucamente a rejeitam, mostram-nos mais sobre as fraquezas de suas próprias políticas do que da revolução que vem se fazendo aqui. Uma revolução real é uma massa de contradições que precisam ser enfrentadas. Que a revolução esteja fazendo isso sem recorrer à ditadura de um partido político, isso faz dela uma revolução particularmente importante para que a esquerda libertária a esteja apoiando.

Existem outras formas de a esquerda manifestar solidariedade com Rojava e com a luta ampla que ocorre aqui na região do que escrever artigos e compartilhar coisas no facebook. Informar-se sobre o que está acontecendo aqui é importante, claro, mas devem ser muito maiores as obrigações das organizações políticas que apoiam a revolução e daqueles que têm capacidade. Por exemplo, no Reino Unido o Grupo de Solidariedade a Rojava do Plan C trabalha com estruturas lideradas por curdos que organizam discussões e demonstrações, tem arrecadado dinheiro para coisas como um ônibus escolar e suprimentos médicos, e agora está enviando voluntários para o trabalho civil.

Existem alguns dedicados grupos de solidariedade aos curdos no Reino Unido que também fazem um grande trabalho. Quando comparado a campanhas de solidariedade de longa duração, como a solidariedade aos palestinos, por exemplo, as campanhas de solidariedade aos curdos ainda estão engatinhando. A intensificação massiva da contrarrevolução na Turquia cumpre um papel tanto dentro quanto fora de suas fronteiras, provavelmente atingirá o Iraque este ano, fazendo desta solidariedade algo ainda mais importante. Efetivas estruturas de solidariedade nacional precisam ser estabelecidas ou reunidas, atuando juntas em nível internacional. É meio clichê, mas não devemos esquecer o slogan “a solidariedade não é uma palavra, ela é uma arma”.

Peter Loo é membro do Plan C e atua no Grupo de Solidariedade a Rojava.

[1] ‘Rojava’ é utilizado aqui em vez de Federação Democrática do Norte da Síria – o título oficial da região – tanto por abreviar como por corresponder ao nome mais familiar no Ocidente [ver aqui].

[2] O Plan C é uma organização britânica anticapitalista, cuja plataforma pode ser vista aqui [em inglês].

[3] Bakur é como os curdos chamam o Curdistão do Norte, o mesmo que Curdistão turco.

Traduzido por Passa Palavra a partir do original disponível aqui.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*



Passa Palavra


Copyleft © 2017 Passa Palavra

Atualizações RSS
ou Email