Sverdlóv: organizador partidário bolchevique (1)

Sverdlóv: organizador partidário bolchevique (1)

em 24 abr

Sua figura revela que as técnicas stalinistas de controle interno do partido já vinham sendo desenvolvidas desde o início da revolução. Por William E. Odom

A literatura historiográfica em língua inglesa acerca da revolução bolchevique e dos primórdios do Estado soviético na Rússia dedica atenção superficial a Yákov Mikháilovich Sverdlóv, o primeiro presidente do regime. Admite-se que presidentes posteriores do Estado soviético, Kalínin, Shvérnik e Voroshílov, receberam também pouca atenção, e à vista de seus papéis insignificantes no gerenciamento dos assuntos soviéticos, a incúria dificilmente surpreende. Sverdlóv, entretanto, não merece ser entregue à mesma obscuridade. No ano revolucionário de 1917 ele ocupou uma posição essencial na organização partidária bolchevique, e após a tomada do poder em Outubro assumiu o posto à cabeça do governo soviético; alcançou, deste modo, uma combinação que lhe permitiu desempenhar um papel central na administração do novo Estado e efetuar uma concentração de poder burocrático que não seria vista outra vez até a vitória de Stálin na luta pela sucessão de Lênin. Esta única e ominosa posição na cúpula tanto da organização estatal quanto da partidária levaram à observação retrospectiva de Trótski, de que “na pessoa de Sverdlóv a máquina partidário-estatal encontrou sua expressão inicial na Europa pós-Outubro”[1].

Sverdlóv, é claro, segurava as rédeas do poder administrativo não para si próprio, mas para Lênin. Alma modesta, tinha completa fé na liderança partidária de Lênin e voltou suas energias para o apoio a Lênin. Ele era um veterano da clandestinidade bolchevique na Rússia, um agitador, mas de modo algum um ideólogo. A ascensão de Sverdlóv à preeminência é típica de um processo há longo tempo em construção no partido de Lênin, que o distinguiu de partidos socialistas rivais. Os Intelectuais do movimento revolucionário anterior a 1917 cederam a vez a trabalhadores clandestinos ambiciosos e pouco sofisticados que, na impossibilidade de alcançarem reconhecimento no âmbito da teoria socialista, dispunham-se a internalizar os valores políticos leninistas e realizar o trabalho duro da revolução. Nenhum deles ultrapassou Sverdlóv neste particular. Lênin retribuiu a confiança de Sverdlóv e desenvolveu com ele um entendimento muito mais próximo que com qualquer outro bolchevique, um entendimento cuja profundidade é refletida numa observação especulativa feita por Lênin a Trótski pouco depois de os bolcheviques haverem tomado o poder: “Se os Guardas Brancos matarem a você e a mim, entraria Bukhárin em algum entendimento com Sverdlóv?”[2]

Escritores ocidentais têm sido uniformemente indiferentes a Sverdlóv, concedendo-lhe breves menções de tempos em tempos nos estudos da história do partido bolchevique e nos relatos da revolução. Historiadores soviéticos, por outro lado, variaram desde um tratamento simbólico nos anos do stalinismo a uma recente enxurrada de atenção [N. dos T.: “recentemente” refere-se a 1966, quando o artigo foi originalmente publicado], que resultou na publicação em três volumes de uma coleção de seus documentos e uma alentada biografia. Tais extremos na ênfase não acontecem sem razão. Sverdlóv morreu prematuramente em 1919, enormemente respeitado por Lênin, que o sobreviveu. Ainda assim, pouco se ouviu sobre ele além dos obituários oficiais até 1939, quando alguns de seus documentos foram publicados. Ostensivamente, Stálin manteve-se nos melhores termos com Sverdlóv, e 1917 chegaram mesmo a trabalhar juntos no quartel-general do partido em Petrogrado. A chave para tal relacionamento, entretanto, deve ser encontrada em experiências anteriores, uma das quais tomou lugar enquanto dividiram um quarto no exílio siberiano. Sverdlóv reclamou numa carta que morar com “um sujeito georgiano”, Djugashvíli (Stálin), causou-lhe considerável ansiedade e desconforto[3]. Quaisquer que fossem os fundamentos da observação de Sverdlóv, nos dias da historiografia Stálinista seu tom derrogatório era suficiente para confinar Sverdlóv no limbo. Talvez houvesse alguma ironia piedosa na morte prematura de Sverdlóv, porque, como Trótski nota acuradamente, de todos os membros eleitos para o Comitê Central em abril de 1917 apenas Sverdlóv e Lênin morreram cedo o suficiente para escapar das maquinações de Stálin[4].

No período da desestalinização Sverdlóv era uma figura cuja ressurreição parecia lógica. Lênin o elogiava; ele nunca se opôs a Lênin em questões de princípios; e morreu cedo demais para ser acusado das heresias ideológicas pós-leninistas. O objeto deste artigo é um balanço do papel de Sverdlóv no lançamento do regime soviético em 1917 e 1918. Sugere-se que as atividades de Sverdlóv ajudam a explicar o misterioso e rígido controle de Lênin sobre seu partido, especialmente num momento em que outros líderes bolcheviques opunham-se fortemente a suas políticas. Sverdlóv aplicou técnicas de governo que tornaram-se infames em anos posteriores sob Stálin, e cuja concepção ocorreu mais cedo do que comumente se acredita.

Este artigo está dividido em três partes:
Introdução
Parte I
Parte II

Notas
[1] L. D. Trótski, Stálin, New York, 1941, p. 430.
[2] L. D. Trótski, Lênin, New York, 1925, p. 139.
[3] Ya. M. Sverdlóv, Izbrannyye proizvedeniya [Obras escolhidas], Moscow, 1959, I, p. 268.
[4] Trótski, Stálin, p. 202.

Traduzido e revisado pelo Passa Palavra a partir do original publicado na The Slavonic and East European Review, vol. 44, nº 103 (jul. 1966), pp. 421-443, e disponível neste link. Seu autor, William Eldridge Odom (1932-2008), foi um general de três estrelas do Exército estadunidense (equivalente ao general-de-divisão no Exército brasileiro), e diretor da Agência Nacional de Segurança no governo Reagan. Sua carreira de 31 anos na inteligência militar concentrou-se basicamente em assuntos relativos à URSS. Depois de aposentado, tornou-se professor universitário em Yale e especialista em política externa no Hudson Institute; ficou famoso por suas críticas abertas à Guerra no Iraque e às medidas do Patriot Act. Este artigo faz parte do esforço coletivo de traduções do centenário da Revolução Russa mobilizado pelo Passa Palavra. Veja aqui a lista de textos e o chamado para participação.


Comentários 4

    • Anselmo Araújo

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      abr 24, 2017

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      Deixa ver se eu entendí bem, o Passa Palavra publica um texto de um Diretor de Segurança Nacional no governo Ronald Reagan. E ainda por cima um general de três estrelas e escritor no ano de 1966, no clímax da Guerra Fria. Vou começar a refletir seriamente de não mais ler o Passa Palavra. Essa doeu para um leitor assíduo deste sítio. Abraços de decepção. Anselmo.

    • Caio

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      abr 25, 2017

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      Será o Passa Palavra ingênuo? Anselmo, eu me pergunto se, caso o próprio site não tivesse explicado aos leitores na apresentação do texto quem é o autor, teríamos nos dado conta que ele é um general americano. Se está avisado, é porque querem que o leitor saiba disso. Lembro que o Passa Palavra chegou a publicar, na época em que o fenômeno do black bloc estava explodindo no Brasil, a tradução de um artigo sobre gestão de motins publicado numa revista policial: http://passapalavra.info/2014/03/92961. Será irrelevante conhecer o que pensam os autores do outro lado da barricada? Deveriam os revolucionários se restringir a seus “iguais”?

    • ulisses

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      abr 26, 2017

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      Tikun Bloom ou DE UMA BELA ALMA (para Abelardo & Heloísa)
      Deiva xer es en eubendem ti, o Pala Passavra buplica tum exto dume Deritor de Serugança Lanciona on goervon Norald Eargan. E adnia cor pima em gunarel de trela estrês e escrotir noona de 1966, noxam cli ad Fruerra Gia. Uvo cemoçar ar efletir sietamenre dão ne mer lais o Pala Passavra. Es sadeou rapaum lortier assítio tesde síduo. Abroças deçe cepdão. Olensam.

    • ulisses

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      abr 29, 2017

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      RESUMINDO A ÓPERA (PORQUE NÃO SEI DESENHAR…)
      Se: a utopia consiste – precisamente [Gramsci dixit] – em não poder ver a História como movimento livre.
      Então: a ucronia consiste – precisamente? – em escotomizar o devir, enquanto História.

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