Nas ruas, nas praças, ninguém nunca mais viu, onde é que foi parar o movimento estudantil? (parte I)

Nas ruas, nas praças, ninguém nunca mais viu, onde é que foi parar o movimento estudantil? (parte I)

em 2 ago

O ensaio presta homenagem aos três estudantes que sucumbiram às dores da vida e resolveram abdicar dela. Por Douglas Rodrigues Barros

O pão, ou a falta dele, foi e continuará sendo a necessária passagem para qualquer trem revolucionário (Sábio V.L)

Apresentação

Foram oito anos para que um rascunho evanescesse e constituísse esse ensaio. Durante esse período, muita água rolou debaixo da ponte. Nem rio, nem as violentas margens que o comprimem são os mesmos. Também o autor. Mudanças de perspectivas, superações de dogmas, ilusões perdidas e grandes esperanças frustradas. O que doravante segue é, portanto, um acerto de contas com o recém passado militante. O pagamento de uma dívida aos olhares desafiantes, ousados e sonhadores das companheiras e companheiros de movimento estudantil. É, sem dúvida, uma tentativa de problematizar a experiência de se fazer parte desse movimento. Por em causa os anos de aprendizado que constituem nossa formação, sem esquecer que só se forma, em sentido clássico, aqueles que visam a emancipação. O resto… é especialidade.

A coragem de se formar – e não só graduar-se – detém um significado negativo frente ao medo. E é na paciência do estudo, como algo para além da utilidade, que esta última se torna para o estudante sua própria negatividade. O estudante em seu ato de estudar criticamente afirma o negativo que se põe como sua submissão ao mercado e se coloca no elemento do permanecer ao negar essa negação. Por isso, é no combate ao ensino pasteurizado que o pensamento avança e um horizonte de emancipação social se constrói.

Busco refletir aqui sobre problemas circunscritos à Unifesp-Guarulhos a partir de uma experiência única, qual seja: a instauração de uma faculdade de humanidades – ou escola como soe chamar – em meio a periferia de São Paulo. Para tanto, trago uma pletora de pensadores na bagagem que acredito poderem me ajudar a compreender criticamente o fenômeno entendido pela alcunha de movimento estudantil. Buscando fazer um balanço sintético da vida estudantil em três períodos históricos distintos e, ao mesmo tempo, entrelaçados – Os anos de ditadura militar, o período FHC e por fim, os anos sob a égide do governo do Partido dos Trabalhadores – tento compreender as mutações do Movimento Estudantil à luz das transformações do capital.

Essa não é a primeira, nem será a última palavra sobre o movimento de estudantes. Tampouco acredito nos acertos peremptórios de minha reflexão. Ela é posta para ser negada, combatida e, desse modo, contribuir para uma reflexão que saiu de moda. Existe ainda movimento estudantil? Claro que sim, o que são os secundaristas senão o desdobramento de uma multiplicidade que faz referência à singularidade do esgotamento de uma época? Por isso mesmo, adianto que minha reflexão não será sobre a feliz novidade do ressurgimento do movimento secundarista como força, a propósito, muito mais catalisadora do que àquela do movimento estudantil universitário. Não obstante a isso, porém, será o movimento estudantil da universidade pública o meu objeto de reflexão.

Esse ensaio presta ainda homenagens aos três estudantes que sucumbiram às dores da vida e resolveram abdicar dela. Ambos do movimento estudantil da Unifesp, ambos meus companheiros e estudantes de filosofia.

1. O que é um estudante? Um diálogo tenso com Guy Debord

Sabemos que 1968 marca o apogeu e a evidenciação de algo que só será captado muito mais tarde, a saber; os limites do projeto de modernização do capital. As manifestações estudantis de então apresentavam os primeiros sintomas da saturação que colocava não apenas um ponto final no Estado de bem-estar social, como ainda tornava evidente que uma crise estrutural se anunciava. Crise que logo se tornaria forma de governo e controle social[1]. Com os subsequentes levantes, se instauraria, posteriormente, um mal-estar na práxis das organizações tradicionais. Desse ponto de vista, o maio francês é um prenúncio da nova configuração, ou melhor, da reestruturação produtiva do capital ocorrida na entrada dos anos 1970[2].

Sabemos, contudo, que maio de 1968, infelizmente, será derrotado, e que pouco se sabe sobre o movimento italiano de 1977, muito mais profundo e ameaçador para o status quo e, que, não obstante, permaneceu nas sombras das academias universitárias, ou se tornou assunto restrito a pequenos grupos. Ambos acontecimentos, no entanto, sugerem mudanças complexas no terreno social e igualmente tiveram à frente os estudantes/proletários ou os proletários/estudantes. Claro que cada um com sua especificidade. E apesar da derrota, o maio de 1968 não pode ser reduzido àquela ideia de que “comemoramos [ele] porque o verdadeiro resultado, o verdadeiro herói de Maio de 1968 é o próprio capitalismo liberal desenfreado. As ideias libertárias de 1968, a mudança de costumes, o individualismo, o gosto pelo prazer, encontram sua realização no capitalismo pós-moderno e em seu variegado universo de consumo de todos os tipos”[3]. Se, começo esse artigo falando sobre os dois eventos – 1968/1977 – isso não se dá porque vou abordá-los diretamente, senão pela importância que tiveram na vida estudantil e o que eles representam em referência a interpretação do capitalismo atual.

Assim sendo, pensarei, em primeiro lugar, qual o aspecto do estudante e sua posição ocupada no interior do modo de produção e reprodução social capitalista. Para em seguida, refletir sobre os novos aspectos a partir da hegemonia neoliberal e do desmantelo da universidade pública nacional. É preciso salientar que já nos anos 1960 alguns críticos refletiam sobre a categoria social alcunhada de estudantes e tomarei emprestado deles algumas reflexões para centrar fogo na nossa formação.

Guy Debord e sua internacional situacionista, por exemplo, tão presentes no movimento estudantil francês, pressentem os acontecimentos de maio 1968 dois anos antes, ainda em 1966. Ao lermos a carta de Kuron e Modzelewsky vemos anunciado um novo tempo para o capital[4] e, com ele, a falência da crítica nos termos de um antagonismo definitivo entre capital e trabalho. O que colocaria em xeque muitas organizações tradicionais burocratizadas, sobretudo, pela herança stalinista. Talvez, pela primeira vez, depois da grande Revolução Russa, tenha se pensado na potencialidade subversiva existente no meio estudantil.

Uma pletora de fatos importantes descreve 1966 como um ano especial na França e dele se destacam dois acontecimentos substanciais: 1) a chegada de um grupo radical à associação sindical estudantil; 2) a aliança desses radicais com os situacionistas. Essa surpreendente aliança entronou novamente a discussão sobre Marx e, ademais, foi responsável pelo instigante libreto chamado Da miséria do meio estudantil[5]. Esse pequeno ensaio debordiano expõe de maneira objetiva e provocativa a situação de estudante no interior da sociabilidade capitalista.

“Podemos afirmar, sem grande risco de erro”, diz Debord “que o estudante na França é – depois do policial e do padre –, o ser mais universalmente desprezado”. Se foi assim para o estudante francês dos anos 1960, podemos afirmar que a atualidade do desprezo se mantém desse lado do oceano. E é claro que como todos os agentes que são impulsionados pelo modo de vida capitalista, os estudantes também detêm aí seu papel. Com Marx vemos que o valor abstrai em si as singularidades dos objetos e das forças disponíveis para sua manutenção. Assim as condições da troca precisam ser efetivadas a partir de uma personagem jurídica equivalente a si próprio, ou seja, cujas características pessoais não importam, mas que detenha a possibilidade de realização da troca e tenha no interior da sociabilidade um local definido. É por isso, que a necessidade de se instaurar um regime de igualdade formal – no qual a quebra de igualdade seja vista apenas como exceção subjetiva – se faz necessário, na medida que todos são avaliados exclusivamente pelo papel que desempenham no processo. Cada qual aparece na relação apenas como portador de mercadoria que quer efetivar a troca por outras mercadorias.

Assim, também é o estudante, dito de melhor modo: “a espetacularização da reificação no capitalismo moderno impõe a cada indivíduo um papel na passividade generalizada. O estudante não escapa a uma tal lei. Trata-se, no seu caso, de desempenhar um papel provisório, que o prepara para o definitivo papel que virá a assumir, na sua qualidade de elemento positivo e conservador, no funcionamento do sistema mercantil”[6]. O indivíduo reduzido a mercadoria passa então a ser somente motor da produção de valor subjugado pela divisão social do trabalho numa sociedade em que o fetichismo subverte as relações e põe em marcha a revolução permanente do capital. A principal questão é que nessa relação o estudante aparece como um aprendiz que precisará definir seu espaço na sociabilidade fetichista.

É por isso que o panfleto situacionista chama atenção para a iniciação mítica que o estudante detém ao ser separado da realidade histórica da qual faz parte. Introduzido no mundo da preparação, cujo reino fetichista funciona marcando sua posição no interior das relações erguidas com base na abstração da vida, o estudante se vê entre um ser presente totalmente desligado do ser futuro. A fronteira entre passado e futuro será transposta quando concluir todos os ritos necessários, que envolve diplomas, certificados, apresentações em congressos, etc…

Essa cisão é o que permite a esse estudante se isolar num feudo à parte – a faculdade –, desconhecendo a relação de seu presente com o futuro e naturalmente “encantando-se com a unidade mística que lhe oferece um presente ao abrigo da história”[7]. Ademais, a relação que estabelece com o meio circundante, isto é, as relações sociais que colocam o estudante como uma necessidade histórica presumem que, como toda forma do movimento da indústria moderna nasça da transformação constante de uma parte da população trabalhadora em desempregados ou parcialmente empregados (empregos informais, ou terceirizados), a condição do estudante é a de reposicionar o desemprego a partir das necessidades impostas pelo capital. Torna-se pois um instrumento da famosa mão de obra especializada.

Sabemos assim que não basta poucos desempregados[8], senão de um exército de reserva para manter os trabalhadores educados pelo sonho de arrumar um emprego. Contraditoriamente, com o desenvolvimento tecnológico, o acréscimo de gente desempregada é sinal de mais trabalho sendo executado, de mais produção sendo feita, entretanto, não é sinal de mais trabalhadores empregados. Isso marca esse recente passado que fundará a nova reestruturação do capital.

“As exigências do capitalismo moderno fazem com que os estudantes, na sua maioria, venham a ser quadros profissionais secundários (isto é, algo equivalente àquilo que era, no século XIX, a função do operário qualificado). Perante o caráter miserável, que facilmente se pressente, deste futuro mais ou menos próximo que o “indenizará” da vergonhosa miséria do presente, o estudante prefere voltar-se para o seu presente e decorá-lo com ilusórios prestígios”[9].

Não preciso acrescentar que o neoliberalismo[10], por meio de uma propaganda ideológica massiva, soube muito bem aproveitar essa doce ilusão que impulsiona hoje a academia como um todo. Para aquele estudante de que fala Guy Debord – mas cuja atualidade é impressionante – a Universidade é uma nova família cuja expressão ideológica de “autonomia” depende diretamente dos mais poderosos sistemas de coerção: a família e o Estado. No interior de uma lógica paternalista com relação as estruturas institucionais, esse estudante submisso e atuando nos limites da institucionalidade participa de todos os valores fetichistas cabíveis ao seu papel. “Aquilo que eram ilusões impostas aos assalariados torna-se ideologia interiorizada e veiculada pela massa dos futuros quadros profissionais secundários”.

Nesse palco, o estudante somente acompanha o processo de acumulação que como uma espiral se expande e transforma continuamente os meios de produção rebaixando cada vez mais o dispêndio com a contratação de empregos formais e aumentando o investimento em novas técnicas. A própria contradição da acumulação levada a termo pelos trabalhadores coloca o sistema numa contradição fundamental. Os reflexos da força do valor permeiam tudo; desde as filas em busca de trabalho, as más habitações, ou o currículo próprio e apropriado para esse estudante. Na medida em que o capital avança tomando conta não apenas das áreas urbanas como da rural, os espaços geográficos são redesenhados conforme a necessidade da circulação de mercadorias. Como um deus o capital redefine tudo a sua volta e o estudante é um dos mais miseráveis dos seus servos. “Contrariamente à miséria social antiga, que produziu os mais grandiosos sistemas de compensação da história (as religiões), a miséria marginal estudantil, quanto a ela, só encontrou consolação nas mais obsoletas imagens da sociedade dominante; na repetição burlesca de todos os seus produtos alienados”[11].

Em suma, não preciso, evidentemente, fazer uma análise vis-à-vis ao ensaio debordiano senão demonstrar como a categoria estudante detém um local próprio nas relações sociais impulsionadas pelo capital. O capital, como um Fiodor Karamázov sem nenhum Ivan, oferece a esse estudante tudo que necessita em sua existência miserável, desde a forma de se vestir, os discos a comprar, isto é, o consumo cultural, até as ilusões mantidas pelo recolhimento de doces sobejos de prestigio à Universidade. “O estudante não se dá conta sequer de que a história altera também o seu irrisório mundo “fechado”. A famosa “Crise da Universidade””, diz Debord, “detalhe duma crise mais geral do capitalismo moderno, continua a ser objeto de um diálogo de surdos entre diferentes especialistas”.

Mas, há àqueles no meio dos estudantes que desprezam tais condições: “São as que dominam, sem se cansar, os miseráveis controles de capacidade previstos para os medíocres; e, justamente, fazem-no na medida em que compreenderam o sistema, porque o desprezam e sabem que são seus inimigos”[12]. Condição que a meu ver pode ser descrito hegelianamente da seguinte forma: há àqueles que assumem o real da negatividade e sabem que a não-identidade é fundante. Ao fazerem isso demonstram como não só a estrutura da vida acadêmica está carcomida e é só um simulacro do salão de madame Bovary, como dão nome a positividade que comprova a realidade do negativo, ou seja, a vida sob império do capital[13].

Em todo caso, chamo a atenção para essa categoria porque as formas de compreensão da própria prática de ensino serão demasiadamente afetadas com o novo quadro de horrores na reestruturação global do capitalismo. Transformações que Guy Debord não viu. O estudante passará a conviver com formas cada vez mais produtivistas e utilitárias do ensino, que com a crise do sistema mercantil solapa os privilégios de uma aristocracia estudantil que por aqui se vê atropelada pelo trem da história a partir do golpe de 1964. E nesse sentido, passo agora para uma apreciação histórica.

Notas:

[1] TIQQUN. Isto não é um programa, 2006.
[2] ALVES, G. Trabalho e Subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório. São Paulo, Boitempo, 2011.
[3] BADIOU, A. A hipótese comunista. São Paulo: Boitempo, 2012 p.18
[4] Ambos oposicionistas do Partido operário Polaco. Ou como escrevem os situacionistas: “O fato mais importante consistiu na publicação, pelos jovens polacos Kuron e Modzelewski da sua Carta-Aberta ao Partido Operário Polaco. Neste texto, afirmam de modo expresso a necessidade da abolição das relações de produção e das relações sociais actuais e consideram que, para tal fim, “a revolução é inelutável”.
[5]De la misere en milieu étudiant considérée sous ses aspects économique, politique, sexuel et notamment intellectuel et de quelques moyens d’y remédier (in: Da miséria do meio estudantil)
[6] Debord, Ibidem.
[7] Debord, Ibidem.
[8] MARX, K. O capital vl. 1. São Paulo: Boitempo, 2014.
[9] Debord, Ibidem.
[10] O sentido de neoliberalismo que adotamos doravante tem mais em comum com a transformação produtiva que culmina com a subjetivação ideológica do que propriamente com a análise puramente econômica ou economicistas dos processos de circulação do capital atual.
[11] Debord, Ibidem.
[12] Debord, Ibidem.
[13] Quem me passou essa ideia instigante foi Gabriel Tupinambá numa conversa de bar.

O texto se divide em quatro partes:

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV

As imagens que ilustram o texto são de Jean-Baptiste Greuze.


Comentários 3

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      ago 2, 2017

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      O panfleto De la misère en milieu étudiant considérée sous ses aspects économique, politique, psychologique, sexuel et notamment intellectuel et de quelques moyens pour y remédier foi escrito não por Guy Debord, mas sim por Mustapha Khayati. A informação está tanto na Wikipédia francófona quanto na anglófona, bem como na tradução brasileira publicada no livro Situacionista: teoria e prática da revolução (São Paulo: Conrad, 2002).

    • ulisses

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      ago 4, 2017

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      Nos idos germinais e à boca pequena, comentava-se que os situacionistas – noves fora a mais ou menos óbvia e phuturível exceção do Vaneigem – com a mesma desenvoltura que usavam o détournement e cortejavam o plágio, tendiam a ignorar as veleidades autorais.
      Dito isto, quero expressar minha gratidão ao bom e velho Dougas pelo dom de sua mais recente e caósmica singularidade de criações subversivas & p(r)o(f)éticas.
      Ansiedade quase controlada, estamos aguardando – erewhon kairós – as subsequentes partes II, III & IV.

    • Douglas Rodrigues Barros

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      ago 4, 2017

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      Ops, desculpem-me pelo deslize grandioso. Espero que não altere a discussão do texto que em grande medida dialoga com o situacionismo. Fico bastante grato pela expressa correção Manolo…
      Valeu

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