Por Ex-Grinch

Esse Achado & Perdido faz parte do especial “Causos de trabalho”: uma seleção, feita pelo Passa Palavra, de threads relatando o cotidiano e curiosidades de diferentes trabalhadores, todas publicadas no Twitter em janeiro de 2019.

Algumas curiosidades do cotidiano de trabalho de um motorista de aplicativos. A thread completa tem 100 pontos e pode ser acessada na página do autor. Segue aqui boa parte dela:

1. Pra me sustentar e tirar um dinheiro pra pagar as contas, eu trabalho cerca de 10-12 horas por dia em média e já fiquei 90 dias sem tirar folga. O preço vem na forma de uma coluna destruída e vida social nula, e mesmo assim as contas nunca fecham.

2. 90% dos passageiros não sabem utilizar o aplicativo direito. Tipo, não saber que dá pra usar o mapa pra definir origem e destino.

3. A maioria dos passageiros do Uber acha que o motorista já sabe o destino e quanto vai dar a corrida. Não, nós não sabemos. O destino e o valor da corrida são surpresa pra gente, vamos no escuro.

4. Carregar mais de 4 passageiros é SEMPRE um transtorno. Força a suspensão do carro, arrasta o fundo nas lombadas, zoa o interior do carro… Eu sou um cara legal e na maioria das vezes levo, mas seria bacana se me dessem pelo menos 5 reais a mais por isso (eu nunca peço).

5. Já quiseram me pagar com quilo de carne, com manutenção de PC, com “influência”, com [produtos da] Hinode e com boquete. Um desses eu aceitei, mas não vou dizer qual.

6. Quer me ver feliz e radiante? Quando vou pegar gente saindo de festa de aniversário e me oferecem salgadinho/docinho/bolo. Inclusive, DICA: se tiver saindo de niver, principalmente à noite, separa uns salgadinhos pro motora. Geralmente a gente tá ali horas sem comer nada.

7. Respondendo a uma pergunta recorrente: a Uber cobra uma taxa nossa de 20 a 33% por corrida. A 99 cobra 13%, mas varia de cidade pra cidade e tem épocas que ela cobra só 5% ou 2%. Por isso muito motorista prefere a 99, mas tem muitos outros fatores envolvidos que muito motora não considera.

8. A maioria dos motoristas não gosta de entrar na periferia. É triste porque geralmente é onde mais precisam de transporte. E esses lugares nem são tão mais perigosos que os outros. Acho que na maioria das vezes é pura ignorância e preconceito.

9. Estou financeiramente quebrado porque uma passageira puxou meu braço enquanto eu dirigia e causou um acidente. Obviamente ela se isentou da culpa e eu tive que arcar com os danos.

10. De vez em quando aparece algum passageiro que me faz de motora particular e fica indo de um lado pro outro comigo como chofer. Melhores passageiros!

REUTERS/Paulo Whitaker

11. Um dos melhores passageiros que eu posso pegar são garotas de programa. São sempre comunicativas e divertidas.

12. Eu tive muita dor de cabeça na época das eleições e devo ter pego muita 1 estrela. Mas mudei uns 2 votos.

13. Um dia desses eu peguei uma mulher que tinha acabado de ser agredida pelo marido. Ela tomou um soco no rosto e estava somente com a cunhada dela (a irmã do agressor) no carro que estava dizendo pra ela “esquecer” e “deixar pra lá”. Quando a cunhada desceu, eu não consegui não me meter. Disse que ela não deveria deixar pra lá, que ela deveria denunciá-lo e que isso que ele fez era muito errado. Ele me contou parte da sua vida e eu disse que ela era muito mais forte do que ela pensava e que não deveria se sujeitar a isso porque ela era capaz de cuidar dela e da filha. Me ofereci para levar ela até a delegacia se ela quisesse e deixei meu telefone caso ela precisasse de apoio. Ela me agradeceu muito e me abençoou. Eu chorei muito naquela noite.

14. Depois de 1 ano, eu conheço 90% da região metropolitana. E não é graças ao GPS.

15. Eu ODEIO pegar passageiro de classe alta. Salvo raras exceções, são gente esnobe que me tratam como bosta e ficam reclamando do atendente mexicano da Disney.

16. Já tive passageiro gender fluid que chorou e me agradeceu porque eu perguntei qual pronome ele gostaria que eu usasse. Fiquei muito sem jeito.

17. Já teve passageira travesti garota de programa que me deu 5 reais a mais porque “conversou comigo sobre outra coisa que não meu gênero e me olhou nos olhos”.

18. Já peguei vários venezuelanos no carro e suas histórias são sempre interessantíssimas, embora não variem muito.

19. Na minha opinião, dirigir na noite é muito mais de boa que de dia.

20. Me sinto mal quando vou pegar alguém que me diz que “7 motoristas cancelaram” ou manda mensagem “pelo amor de deus, não cancela” e eu percebo que é provavelmente pelo combo local/horário.

21. Certa vez fui pegar umas irmãs da igreja num lugar muito, muito perigoso. E elas disseram pra eu ir e confiar que nada ia acontecer com meu carro porque ele estava “ungido na graça do senhor”. No outro dia caiu uma manga e quebrou meu para-brisa.

22. Já fui parado pelo tráfico porque a área era controlada por ele. Mas segui as instruções, os traficantes me orientaram como chegar no lugar e foram muito gentis. É muito gentil abordar as pessoas com uma pistola na mão.

23. Me sobe um sentimento um tanto homicida quando alguém diz: “ah, trabalhar sentado é moleza”.

24. 6 em cada 10 corridas estão com o endereço de origem errado. Dificilmente as pessoas checam se colocaram ou se o GPS captou o endereço correto. Mas elas acham que fizeram e a culpa é sempre do motorista. Aí a pessoa já entra e pergunta: “se perdeu, foi?”. E o estresse está armado.

25. Já levei traficante que estava levando o filho pro pronto socorro, já levei moleque fugindo porque estava marcado de morrer pela milícia, já levei assaltante que acha muita sacanagem roubar [motorista da] Uber (essa semana até).

26. Tem outros apps no mercado? Tem, mas eu não uso e nem faço questão. Os valores não mudam muita coisa e a parada mais atrativa de um aí é que ele mistura Marketing Multinível. Eu o chamo carinhosamente de HinodeUber.

27. Tem uma coisa que eu vejo um total de ZERO pessoas fazendo é checar o perfil do motorista. Isso é muito útil e eu só vejo alguém vendo isso depois que já tá no carro. Aí eu recebo comentários como: “olha, você fala inglês. The book is on the table?”.

28. Me magoa um pouco quando a pessoa não senta do meu lado. Eu entendo, mas fico com o coração cheio de buraquinhos.

29. A coisa mais difícil, principalmente durante o final de semana, é parar pra comer ou mesmo ir ao banheiro. Já passei 7-8 horas sem comer ou ir ao banheiro porque TEMPO É DINHEIRO! Maldito capitalismo.

30. Eu tenho só o ensino médio (apesar de ser professor por profissão, não o sou por formação) e mesmo assim estou pagando meu carro e minha casa antes dos 30 anos, como motorista. Bendito capitalismo.

31. Tem dias que essa rotina acaba comigo, porque se eu passo 12 horas trabalhando e 8 horas dormindo, eu fico só com 4 horas pra brincar com meu filho, curtir a minha esposa, ler, jogar videogame, resolver problemas… Alguma coisa sempre fica de lado.

32. Alguns passageiros simplesmente não mandam ou não leem as mensagens que mando. A base do funcionamento do serviço é a comunicação; se ela não ocorre, o serviço acaba sendo precário.

33. Já tive que carregar cadeirante no colo pra poder colocar no carro. Fico triste que eles não disponham de um serviço especializado, me imagino no lugar da pessoa e eu não gostaria de ter um completo estranho me carregando no colo só pra eu ir no supermercado.

34. Tenho um elogio escrito no app e guardadinho no meu coração. Uma mãe de um filho autista estava num dia particularmente difícil pros dois, ele estava com uma crise complicada, chutou minha cara, o pé chegou a bater no painel, veio o caminho todo berrando e chutando os bancos, mas eu fui o caminho todo calmo, chamando o garoto pelo nome, dizendo que ia ficar tudo bem. E quando ela foi sair e se desculpar, eu disse pra ela que não tinha porque pedir desculpas, que uns dias são melhores que outros e que o filho dela parecia ser uma criança adorável.

35. Depois de um tempo dirigindo por apps, você percebe que o GPS tem uma função primordial: Te fuder.

36. A dieta de um motorista tem que ser uma coisa pensada com calma e [deve ser] balanceada. É por isso que eu almoço miojo de segunda a sexta e janto um x-tudo com uma coca 1 litro às sextas e aos sábados.

37. Me convidaram para fazer parte de um grupo de WhatsApp de motoristas de aplicativos. Mas como 80% dos motoristas são bolsominions eu preferi evitar a fadiga.

38. Todo dia eu quase mato alguém que atravessa a BR correndo, no escuro, embaixo de uma passarela.

39. Saí pra trabalhar ainda há pouco com planos de voltar quase pela manhã. Só que no meu caminho não tinha uma pedra, mas tinha uma cratera. Destruiu meu pneu e minha roda e acabou com minha noite de ganhos. Ser motorista de aplicativos no Brasil é pagar IPVA pra ter prejuízo.

40. Na época [da treta] Uber vs táxis, uma vez eu tive problema ao pegar uma passageira num supermercado. Os taxistas começaram dizer: “cuidado moça, Uber é tudo estuprador, esse aí tem cara”. Eu fiz votos de pacifismo, então só queria sair logo. Infelizmente, minha passageira queria treta, ela chamou o gerente, começou a fazer barraco, disse que eles estavam constrangendo ela e me caluniando… Acho que ela era advogada. Eu estava agradecido que ela estava tomando minhas dores mas na hora eu só estava: “moça, por favor, vamos, eu tenho mais corridas…”

41. Nunca tive problemas com Detran ou com outros órgãos de fiscalização, mas já suspeitei que a PM queria plantar alguma coisa no meu carro.

42. Tem condomínio que pede CPF, RG, comprovante de residência, antecedentes criminais, cópia da arcada dentária, uma gota de sangue e uma foto 23×17 de biquíni pra entrar. Mas se o morador liberar a entrada antes, aí basta o RG.

43. O passageiro tem o DIREITO de escolher ir pelo caminho que desejar, DESDE QUE esse caminho não seja perigoso ou vá quebrar o carro. Dito isso, teve uma passageira que fez questão de pegar um engarrafamento de 2 horas, chovendo, e ela pediu para desligar o ar porque estava meio febril.

44. Eu tenho absoluta convicção que se eu consigo trabalhar como motorista de aplicativos durante 1 ano ininterrupto em Belém e ter 1 multa e 3 acidentes, eu consigo ser presidente de um país pequeno.

45. Fico muito na dúvida se meu carro batido impacta na avaliação dos passageiros.

46. Não gosto de pegar pessoas em supermercado. Não cancelo por causa disso nem trato mal ninguém, nunca; mas não gosto de ter que sair do carro pra ajudar as pessoas a desembarcar as compras. Me sinto vulnerável quando faço isso.

47. Uma vez, tirando as compras do passageiro numa via completamente escura, vieram dois caras numa moto e passaram devagar. Eles pararam mais adiante e fizeram que iam voltar. Minha passageira correu pra dentro de casa e se escondeu e eu fiquei abandonado e desesperado pra ligar o carro. Não sei se iam nos assaltar, mas se iam, desistiram e foram embora. Fiquei magoado de ter sido abandonado.

48. Se o [motorista do] Uber for macaco velho, rei das quebradas que nem eu (e você pode ter uma noção disso pelo número de corridas no perfil) ele tem portais dimensionais de uso exclusivo espalhados pela cidade, basta o passageiro confiar nele.

49. Não sei como os outros motoristas fazem, mas eu geralmente abasteço durante a corrida. Eu peço: “o/a senhor/a se importaria se eu parasse para abastecer?”. Teve uma vez que uma moça disse que se importava. Eu disse: “Entendo. Então a senhora se importaria de empurrar o carro comigo, porque a gasolina está pra acabar?”. Ela concordou de abastecer, mas suspeito que eu tenha pego 1 estrela nessa viagem.

50. Meus vizinhos acham que, por eu ser motorista, faço plantão. Ligam pro meu apartamento perguntando se eu posso fazer uma viagem. Explico que, naquele momento, eu não tô trabalhando mas tal horas estarei. “Porra, Yuri, toda vez que a gente liga pra tua casa tu nunca tá trabalhando!”.

51. Tem uma garota de programa que de vez em quando faz viagem comigo. Criamos até certa amizade, pois as viagens são sempre longas. Um cara queria quebrar o meu carro porque a viu se despedindo de mim com um beijo no rosto e quando ele está na cidade quer ser exclusivo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Dê uma motorista de Uber de Porto Alegre:

    “- uma das questões que gera mais insegurança emocional sobre trabalhar com a uber é o fato de o motorista não saber o destino das corridas quando aceita
    – sim, é isso mesmo: eu aceito a corrida, vou até o passageiro e somente descubro pra que lado vamos quando inicio a corrida
    – para driblar isso, há uma estratégia: você põe em modo avião, inicia a corrida, vê o destino, força o encerramento do app e tira do modo avião, aí se o destino te parecer perigoso ou ruim, cancela
    – com o aumento do número de assaltos e assassinatos do final de 2018 pra cá, o número de motoristas que passou a utilizar essa estratégia aumentou substancialmente, eu mesma passei a fazer isso em todas as corridas, o que toma tempo e é uma chatice mas diminui a i nsegurança
    – tivemos um grande protesto no início do ano, 24 horas de paralisação e um ato em frente às sedes da 99 e uber com 18 bonecos representando os corpos dos 18 motoristas assassinados comprovadamente em trabalho, em corridas agendadas pelos apps (houveram outras mortes de motoristas mas que naquele momento específico não estavam com o app ligado, houve também um colega encontrado morto no carro em decorrência de um infarto fulminante – outra hora, podemos falar do turno de trabalho excessivamente longo e estratégias insalubres que usamos para suportá-lo)
    – a 99pop respondeu a esse protesto acelerando a instalação de câmeras nos veículos, o que de qualquer modo é destinado a um grupo restrito de motoristas
    – a uber, dois dias depois do protesto, responde com uma “promoção”: motorista ganha seis reais a mais (baixou pra cinco) por três corridas na continuidade, sem desligar o app nem usar modo avião,iniciadas em determinado ponto da cidade
    – em seguida, passa a punir motoristas que seguem usando a estratégia modo avião con suspensão ou exclusão da plataforma
    – na sequência, atualiza o app e o truque do modo avião para de funcionar

    Sério, observar as estratégias de precarização trabalho e “modernização” das relações trabalhistas tem me fascinado: abertamente você é tratado como merda e precisa gostar, inclusive se sentindo independente, autônomo, livre e ousado por tomar no cu de modos diferenciados a cada dia que passa, isso até ser substituído por carros autoguiados.”

  2. Mais um causo:
    Uma vez busquei um casal que estava indo para uma festa. Os dois bem descolados, começaram a discutir Bauman dentro do carro e como tinha muito trânsito, logo chegaram a debater o resultado das eleições. Eu, que até então estava calado, vendo que os dois tinham opiniões de esquerda, logo entrei no papo. Os dois imediatamente pararam de falar e resmungaram um pro outro que odeiam motorista enxerido! Devo ter ganho poucas estrelas nessa corrida

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