Ao contrário do que por vezes se difunde, os sectores das chamadas “indústrias criativas” não são meros produtores de “trabalho imaterial”, mas regem-se por princípios económicos da produtividade capitalista. Por João Valente Aguiar.

Leia aqui a 1ª parte do artigo.

5. As Indústrias Criativas como exemplo de expansão dos mecanismos da mais-valia relativa para o campo da estética e da criatividade

Não me parece indiferente ou aleatório o facto de várias instâncias supranacionais controladas pelas classes dominantes considerarem a arte contemporânea, o ensino artístico, a criatividade e as Indústrias Criativas como preocupações centrais. Desde o britânico Department for Cultural Media and Sports (DCMS), a empresa de consultadoria KEA European Affairs, a Fundação Kauffman até à União Europeia (UE) ou à ONU, para estas instituições tem sido relativamente consensual a importância do sector das Indústrias Criativas e todas elas têm definido este conjunto de ramos de actividade da seguinte maneira. O núcleo central das Indústrias Criativas é constituído pela arte propriamente dita: dança, artes plásticas, escultura, fotografia, etc. Por seu turno, o primeiro círculo ou anel em seu redor agrega áreas como o cinema, a edição, a difusão musical ou os videojogos. O segundo círculo relaciona-se mais intimamente com o design (de moda, de publicidade, de produtos ou de interiores), a publicidade ou a arquitectura, ao passo que o terceiro círculo inclui aplicações mais a jusante como, por exemplo, no seu papel na produção de computadores pessoais, de leitores de ficheiros electrónicos de música e imagem ou de telemóveis. Apesar da natural e justa destrinça entre os diversos anéis importa atender a uma postura que busque integrar e dar conta da fluidez assinalável entre todos eles, nomeadamente no respeitante ao seu carácter primordialmente centrífugo.

O estudo de alguns tópicos relacionados com as Indústrias Criativas e com a sua força de trabalho tem a ver com o facto de que se trata de uma exemplificação emblemática de um sector economicamente dinâmico, com elevados níveis de produtividade e onde a força de trabalho sofreu fenómenos contraditórios de precarização laboral, de desenvolvimento de novos estilos de vida, de flexibilidade de funções e de tarefas profissionais, de uma maior qualificação académica e profissional e a adopção de um ideário e de práticas empreendedoristas. O seu valor económico está longe de ser despiciendo: «o valor acrescentado gerado pelo Sector Cultural e Criativo na Europa em 2003 é estimado em 654 mil milhões [bilhões] de euros pelo relatório The Economy of Culture in Europe, o que representa cerca de 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) europeu. O contributo do sector para o total de riqueza gerada na Europa ultrapassa, desse modo, o das actividades imobiliárias (2,1%), indústria alimentar (1,9%), indústria têxtil (0,5%) e indústria química e de plásticos (2,3%)».

O mesmo relatório estima ainda que o sector absorve «2,5% da população activa da UE-25 – valor que sobe para 3,1% com a inclusão do emprego gerado pelo turismo cultural – e sublinha que o sector aumentou os seus efectivos, entre 2002 e 2004, enquanto o emprego, em geral, diminuía na Europa» (Mateus, 2010, p.93). Entre 1996 e 2005 as exportações de serviços criativos e culturais cresceram a uma média de 8,8% ao ano (face aos 6% de outros produtos), passando de uma quota de 17%, do total de exportações, para 21%. (idem, p.102).

Além de evidenciar a importância e a novidade das Indústrias Criativas (um entre vários outros sectores como as biotecnologias, as nanotecnologias ou a robótica/cibernáutica), importa frisar que, no toyotismo, o empreendedorismo enquanto conjunto de ideias e de práticas é-lhe indispensável e inseparável. De facto, o empreendedorismo relaciona-se intimamente com as necessidades que o toyotismo manifestou em colocar o saber subjectivo, as competências pessoais extra-escolares e o envolvimento afectivo com a produção capitalista. Ou seja, e de um modo relativamente simples, no plano dos comportamentos e das atitudes esperadas no local de trabalho (e mesmo no mercado de trabalho) o empreendedorismo é o equivalente cultural e ideológico do toyotismo.

Por conseguinte, o empreendedorismo é o cimento prático-ideológico que agrega milhões de trabalhadores assalariados (por conta própria ou por conta de outrem) ao trabalho no capitalismo numa base de dedicação, de criatividade e de envolvimento cognitivo e emocional com a produção de novos produtos e serviços. Evidentemente, o empreendedorismo não é aplicável a todos os trabalhadores e o seu fulcro centra-se sobretudo em profissões tendencialmente mais “criativas”, mais qualificadas e, consequentemente, relacionadas com os mecanismos da mais-valia relativa. Ao contrário do que por vezes se difunde, os vários sectores das chamadas “indústrias criativas”, por exemplo, não são meros produtores de “trabalho imaterial”, mas regem-se por princípios económicos de racionalização, de contabilização do trabalho e de elevação da produtividade. Por isso, o empreendedorismo é uma componente de todo esse amplo processo económico.

6. A performatividade do trabalhador qualificado no toyotismo

A transformação do trabalhador num empreendedor autónomo ao mesmo tempo que o individualizou acabou também por o integrar numa comunidade muito mais vasta.

O papel da formação de um self performativo para uma maior optimização e eficácia do mercado (da força) de trabalho implica a adopção de uma cultura empreendedor(ist)a pelos trabalhadores que também é fomentada pelo desenvolvimento de ambientes criativos. Subsequentemente, a formação do self performativo no e para o mercado (da força) de trabalho relaciona-se, por um lado, com uma maior optimização das competências do trabalhador para encontrar emprego e se adaptar a novos ambientes de trabalho e, por outro lado, para imprimir uma maior dose de cooperação colectiva, de criatividade e de complexidade ao seu desempenho profissional. Elementos estes que permitem uma hora de trabalho desdobrar-se em várias componentes temporais internos àquela e que, por esse motivo, permitem a ampliação da produtividade.

Com efeito, em paralelo com o vector da fragmentação da classe trabalhadora em agentes empreendedores individuais, verifica-se a existência de uma comunidade empresarial que congrega trabalhadores, proprietários, gestores e supervisores numa perspectiva organicista/instrumental de cada uma das peças da empresa. Por outras palavras, a formação de uma comunidade ideológica supraclassista surge no plano meso-social (dentro de cada organização ou empresa) como o corolário da formação de um conjunto de trabalhadores pró-ativos, empreendedoristas e performativos em prol da optimização dos recursos disponíveis e, com isso, ampliando o campo de negócios da respectiva empresa. Nesse sentido, o empreendedorismo estabelece residência – simbólica e ideológica – em várias classes sociais (da burguesia dirigente e proprietária até aos gestores e supervisores, sem esquecer trabalhadores produtivos e empregados comerciais), sem com isso perder o seu lastro de classe.

7. O empreendedorismo como hetero-organização toyotista

O processo de recomposição ocupacional e profissional da classe trabalhadora e da retracção política e social da classe trabalhadora nos países capitalistas mais desenvolvidos não é uma mera decorrência estética. Todavia, a estética penetra este processo de dois modos fundamentais. Por um lado, a performatividade imputada e esperada no quadro do empreendedorismo incorpora uma componente estética tanto para a produção de novos produtos e reorganização de processos, como no empenho devotado a uma acção capaz de constante inovação de processos e de colher interesse estético nos detalhes dos actos mais rotineiros. Ou seja, a formação do self do trabalhador no capitalismo toyotista não vive sem uma constante mobilização da criatividade e da afectividade.

Por outro lado, a transformação do carácter colectivo da classe trabalhadora numa comunidade simbólico-ideológica não deixa de ser, num sentido lato, um processo com propriedades estéticas. Se as relações de trabalho se mantêm hierarquizadas e estruturadas em torno das funções economicamente antagónicas do capital (direcção, gestão e supervisão da força de trabalho) e do trabalho (produção e circulação de valor), importa relembrar que a produção simbólico-ideológica revela toda a sua importância nas sociedades contemporâneas, especialmente quando esta agrega dimensões organizacionais, motivacionais, comportamentais e, naturalmente, culturais.

Temos assim que o empreendedorismo consome um papel duplamente relevante: como ponto de encontro entre dimensões socioeconómicas e socioculturais, demonstração evidente da complexidade dos fenómenos sociais; e, por via da junção de disposições e de práticas pró-activas, como plataforma de cruzamento/conciliação ideológica e prática de dinâmicas classistas antagónicas no plano económico. No caso aqui em mãos, o empreendedorismo alcança um grau superior de organização do universo empresarial ao obliterar a relação de classe – no plano discursivo e ideativo – e ao substituí-la por uma relação comunitária de partilha de interesses. Uma putativa partilha de interesses que não se concretiza primordialmente numa óptica repressora ou impositiva mas, corolário da estética imanente ao empreendedorismo, por intermédio do empenho e de um comprometimento afetivo, criativo e performativo do trabalhador a todos os níveis da sua vida, do consumo ao trabalho, do mercado de trabalho ao desempenho laboral diário.

Em suma, separados e fragmentados no espaço económico concorrencial do mercado de trabalho, o empreendedorismo coloca os trabalhadores todos juntos no âmbito da transversalidade das práticas laborais esperadas e no âmbito da agregação exclusivamente simbólico-ideológica de trabalhadores, empresários, gestores e supervisores numa única comunidade empresarial.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu denominaria esta rede de processos de violência simbólica. Da minha parte direi tão simplesmente que isto representa a capacidade espantosa de recuperação institucional do capitalismo (e da classe dos gestores) em apreender dinâmicas de criatividade, de entusiasmo e de colaboração colectiva que a classe trabalhadora tinha apresentado em lutas sociais nos anos 60 e 70, portanto anteriores à substituição do fordismo pelo toyotismo e à promoção do empreendedorismo. Se todo este processo social e cultural de profunda reconversão – linguística, simbólica, semântica e prática – de temas libertários de auto-organização da classe trabalhadora em novas modalidades de hetero-organização não tem o seu quê de estético, então não sei que maior efeito estético se poderia atingir na modulação das sociedades contemporâneas.

8. A hetero-organização é (uma) estética

Para terminar, uma última exemplificação do papel de estruturação social desenvolvido por processos de estetização. Recorro a um dos autores que mais tem abordado estas temáticas, no caso, Fredric Jameson. Segundo este autor, a obra de arte congenitamente congregaria uma tensão entre o ideológico – a dominação de (uma) classe – e o utópico – a emancipação em torno de um “valor universal inconsistente” com os privilégios de classe. Jameson procura resolver a tensão por meio de uma contradição onde o ideológico e o utópico não apenas se confrontariam entre si dentro de uma obra de arte, mas se embrenhariam e entrelaçariam mutuamente.

«Toda a ideologia em sentido forte é utópica na sua própria natureza uma vez que exprime ou projeta a unidade de uma comunidade e que essas comunidades são elas próprias figuras para a concreta vida coletiva de uma conseguida sociedade utópica ou sem classes. A referida unidade entre o ideológico e o utópico aparece como a antecipação da lógica de uma comunidade por vir» (Jameson 1983: 298).

Jameson antevê a resolução do conflito tensional entre utopia e ideologia na possibilidade histórica de uma “sociedade utópica ou sem classes”. Portanto, uma “comunidade por vir” presente em cada obra de arte e que comportasse a visão de uma sociedade sem classes. Todavia, sabendo que a dialéctica das classes comporta dois eixos fundamentais:

a) A burguesia [2] é a classe que nega discursivamente a existência das classes sociais tendo como interesse objectivo manter a (sua) sociedade de classes. Portanto, a dialéctica da burguesia na sua actuação quotidiana resume-se a uma negação da sua afirmação presente.

b) O proletariado é a classe que afirma a existência real das classes tendo como interesse último e objectivo superar a(s) sociedade(s) de classes. Portanto, a dialéctica do proletariado na sua acção prática autónoma resume-se a uma afirmação pela sua negação futura.

E, por conseguinte, sabendo que a dialéctica das classes no capitalismo nada tem de inevitável mas tudo de conflitual, estrutural e mutuamente articulável, se Jameson considera que a “comunidade por vir” presente numa obra de arte comporta uma sociedade utópica ou sem classes, porque essa mesma “comunidade por vir” sem classes não possa ser, no plano discursivo e simbólico-ideológico, precisamente uma comunidade prático-simbólico-ideológica empresarial? Jameson na sua dialéctica da utopia e da ideologia apenas equaciona o lado enunciativo de cada um dos eixos da dialéctica das classes no capitalismo, mas não os efeitos condicionadores da burguesia sobre o conjunto da classe trabalhadora. Afinal não é a burguesia a mais intransigente defensora de uma sociedade sem classes no plano simbólico-ideológico? Não será esse o maior poder utópico da ideologia dominante no capitalismo: fundar um simbólico comunismo das oportunidades individua(l)is(tas) e performativas de cada um, de modo a obstaculizar o objectivo político da sociedade sem classes inscrito na tradição dos oprimidos? Haverá maior operação estética?

Separados escreve-se tudo junto.

Nota

[2] Entendo aqui a burguesia como a agregação dos gestores empresariais e estatais com os capitalistas proprietários. Na realidade trata-se de duas classes capitalistas. Por uma questão de facilidade de exposição decidi focar-me no seu campo comum de acção.

Bibliografia

BERNARDO, João (2003) – Labirintos do fascismo. Porto: Edições Afrontamento.
COSTA, António Firmino et al. (2006) – Social classes and values in Europe. Portuguese Journal of Social Science. 5(2): 95-117.
JAMESON, Fredric (1983) – The Political Unconscious. London: Methuen and Company.
LISBOA, Eugénio (2009) – Indícios de oiro II. Lisboa: INCM.
MATEUS, Augusto (2010) – O sector cultural e criativo em Portugal – Relatório Final. Lisboa: Ministério da Cultura.
SAVAGE, Mike; LEROUX, Brigitte; ROUANET, Henry; WARDE, Alan (2008) – Class and cultural division in the UK, Sociology 42, 1049-1072.

A imagem do destaque é de Gilbert & George. As internas são de Cindy Sherman e de Andy Warhol.

1 COMENTÁRIO

  1. http://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/colunas/1190457-o-movimento-dos-fazedores-e-o-espirito-do-faca-voce-mesmo.shtml

    O empreendedorismo faça-você-mesmo capturando tudo – e colocando tudo na conta do milagres das novas tecnologias.

    Não precisa ser muito crítico para desconfiar da seguinte ideia, com a qual o autor encerra o texto:

    “Isso não significa, é claro, que a produção de massa vai simplesmente desaparecer. Mas da mesma forma que a internet aboliu a passividade do expectador e do ouvinte e fez da interação e da mistura (do Remix) a base da cultura contemporânea, essa nova revolução industrial pode fazer da colaboração social em rede o principal fundamento da criação de riqueza das sociedades atuais”.

    A produção em massa, tudo bem, não irá mesmo desaparecer – não é o ponto de questionamento. O que, aí sim, merece a maior atenção e discordância do mundo diz respeito ao fato de que “a internet aboliu a passividade do expectador e do ouvinte e fez da interação e da mistura (do Remix) a base da cultura contemporânea, essa nova revolução industrial pode fazer da colaboração social em rede o principal fundamento da criação de riqueza das sociedades atuais”. As relações e conflitos sociais, segundo essa perspectiva adotada pelo autor do texto, estão ausentes e não são decisivas para tal revolução da interação contra a passividade.

    Discordo, frontalmente, dessa argumentação – e acho que o texto do João Valente Aguiar permite, mesmo tratando de uma outra dimensão desse fenômeno, a compreensão do que realmente está em jogo nessas perspectiva “imateriais” de empreendedorismo.

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