Todos os professores da escola se reuniram e decidiram que iam dar um basta nas pressões que a gente anda sofrendo. Professor Anônimo entrevistado por Passa Palavra

Um ano depois da implementação do Pacto Pela Educação em Goiás e do fim da greve por conta da titularidade, como analisado aqui por outros Professores Anônimos, recomeçam algumas mobilizações da base do professorado nas escolas. O caso que relatamos a seguir se deu em uma escola da região central da capital, que está em boas condições de funcionamento e estrutura física, e onde, com as mudanças na gestão, os professores vêm enfrentando pressões crescentes no ambiente de trabalho escolar.

Passa Palavra: Você trabalha no quê?
Professor Anônimo: Dou aula no Estado faz mais ou menos três anos. Estou no fim do estágio probatório.

PP: O que aconteceu na sua escola?
PA: Todos os professores da escola se reuniram e decidiram que iam dar um basta nas pressões que a gente anda sofrendo.

PP: O que vocês fizeram?
PA: Chegamos na diretora e falamos assim: “Se vocês têm o direito de convocar reunião toda hora interrompendo as nossas aulas, nós também temos. Vamos reunir daqui a uma hora e discutir os problemas com o trabalho que a gente anda tendo”. Aí nós dispensamos os estudantes uma hora mais cedo e fomos conversar com a diretora.

PP: O que vocês conversaram com a diretora da escola?
PA: Chegamos nela e falamos que ela ia ter que retirar todas as últimas “obrigações” que eles andam cobrando sem parar da gente. Principalmente, a cobrança de relatórios de absolutamente tudo que a gente faz e os planos de aula detalhados diários. Se ela não retirasse, a gente simplesmente não ia fazer mais também. Falamos que a gente não se importava em perder essa merreca de bônus do reconhecer que tão oferecendo a esse preço tão alto.

PP: Qual foi a reação da diretora?
PA: A diretora desabafou que a Secretaria anda tratando os diretores “que nem cachorros”. Que eles ficam cobrando o tempo todo coisas que nem sempre ela entende direito, que uma vez ela não viu um e-mail e ligaram para ela ameaçando destituí-la se ela não se retratasse da omissão que ela cometeu ao não cumprir o que estava naquele e-mail, entre outras coisas. E que já que a gente tinha decidido não fazer, ela não tinha condição de impor isso. Depois começou a reclamar de uns professores que faltavam muito, mas aí já tinha acabado a reunião.

PP: O que levou a que acontecesse essa “manifestação”?
PA: Então, a gente vem sofrendo muita pressão o tempo todo das coordenações e direções de escola. As coisas vão se acumulando. Essa exigência diária dos relatórios completos, cortaram o tempo de recreio como tempo de hora-aula, a gente não pode faltar um dia que está o coordenador cobrando [exigindo] explicações e falando que a gente vai perder o bônus… mas o estopim foi há alguns dias atrás. Veio uma técnica da Secretaria da Educação e ficou dando bronca [ralhando] na gente, falando que a gente tinha que escrevinhar tudo o que a gente fazia, que acabou a vida boa de não precisar escrevinhar as coisas… e aqui tem professores que dão aula faz mais de vinte anos, é um absurdo vir esse pessoal cobrar da gente como que temos que dar e planejar as aulas. Então, com essa vinda da técnica a gente meio que resolveu dar um basta e chamamos essa reunião.

PP: Quem ficou mais à frente dessa chamada e da reunião?
P.A.: Foram os professores mais velhos, mais experientes, com melhor condição econômica. A maioria já tem carro bom, realmente não precisa desse bônus. São professores dedicados a dar aula, não são preguiçosos, mas também não aceitam qualquer coisa. Tem umas professoras aqui, por exemplo, que não aceitaram mudar para o regime integral. Elas iam ganhar mais 3 mil reais, mas iam trabalhar o dia inteiro. Não aceitaram. Eu estou no probatório, não posso me expor muito, não falei muito na reunião, mas… pensei que pelo menos os relatórios com certeza eu não vou entregar.

PP: O que você acha que vai acontecer agora?
PA: Eu realmente não sei… mas acho que a educação no estado é um barril de pólvora prestes a explodir. A gente não está aguentando mais. Se os professores mais velhos de escolas boas estão se mobilizando assim, sei não… acho que vai acontecer alguma coisa maior logo logo.

9 COMENTÁRIOS

  1. ESTOU CANSADO, ESTAMOS CANSADOS COM A ENRROLAÇÃO, FALTA DE COMPROSMISSO E DESRESPEITO DESSE ´´GOVERNO´´ A ÚNICA VERDADE DITA SOBRE A EDUCAÇÃO É O FATO DOS PROFESSORES TEREM SIDO ROUBADOS E CONTINUAM SENDO ROUBADOS. ESSA É A ÚNICA VERDADE! CANSADO, CANSADO, CANSADO, ENTEDIADO, ENTEDIADO, ENTEDIADO, SACO CHEIO, SACO CHEIO, O QUE MAIS?NÃOSEI! TUDO DE RUIM QUE VOCÊ PENSAR.

  2. Concordo com o Euripedes que os professores estão cansados com as condições de trabalho e que isso se intensificou com a retirada dos direitos no ano passado, acarretando prejuízo financeiro.

    Mas o que percebi pela entrevista é que a exploração do professor está se intensificando, com um controle maior do processo e do tempo de trabalho por coordenadores e técnicos da secretaria de educação. A pouca autonomia que o professor tinha para fazer seu planejamento e executá-lo, de acordo com as condições que ele percebia no cotidiano de sala de aula, foi também retirada.

    Talvez não seja a hora de aprofundar o debate para tentar ver se o problema é apenas o roubo ou se há algo mais amplo no Pacto pela Educação, apresentado como solução para todos os problemas educacionais?

  3. É interessante notar como os professores mais velhos são hostis às novas funções que a Secretaria de Educação de Goiás pretende lhes fazer acumular: esses professores rejeitam, aliás, a própria noção de “educador”, dizendo “eu não sou educador, eu sou professor, eu ensino matemática, ou história, ou biologia, não sou obrigado a educar ninguém, educação é trazida de casa”. Isso porque os tais educadores acabam tendo que ser, ao mesmo tempo, professores, psicólogos, assistentes sociais, policiais, salvadores da pátria e daí por diante. Nas reuniões com representantes da Secretaria, a pauta das reuniões sempre inclui problemas com drogas (que são um problema de polícia e de saúde pública), alunos que chegam ao ensino médio analfabetos (problema que não cabe a um professor de ensino médio resolver), problemas físicos da escola (que deveriam ser da responsabilidade da Secretaria), falta de recursos didáticos (os professores têm que aprender a trabalhar sem eles) etc. Também se requisita dos professores que eles participem de “trabalhos coletivos” (aos sábados!), nos quais eles têm que “diagnosticar” quais são as dificuldades dos alunos e traçar estratégias para superá-las: o problema é que o Estado já aplica “provas diagnósticas”, mediante as quais é possível identificar tais dificuldades e elaborar estatísticas sobre elas, mas o professor não recebe em mãos um material desse tipo. Resultado: o professor tem que comparecer à escola, nos sábados, para tentar adivinhar quais são as dificuldades dos alunos, que ele na maior parte das vezes acaba de conhecer, pois o ano letivo acaba de começar e as primeiras avaliações bimestrais sequer foram aplicadas. Tudo isso deixa os professores mais velhos indignados. Já os professores mais jovens são mais abertos às novas funções que lhes são impostas, afinal, muitos deles não têm opção: muitos aceitam a denominação de “educador”, encarando a sua profissão como o remédio para todos os males da educação (e da sociedade) brasileira e não encarando a postura da Secretaria criticamente, como se deve. Assim, aceitam acumular funções, ser professor, psicólogo, assistente social, pai, responsável, policial etc. Outra coisa, que também não foi abordada na entrevista, nem nos comentários, é o fato de que há uma grande quantidade de professores “contratados”, muitos deles jovens, os quais estão sujeitos a uma situação extremamente precarizada, pelo fato de que não encontram estabilidade no emprego, tendo que engolir muitos dos desmandos da Secretaria. No ano passado, conheci uma professora que, após a greve, trabalhou em vários dias de reposição da greve e depois foi informada de que não receberia o salário correspondente a esses dias, embora não fosse mais obrigada a trabalhar nas próximas reposições. Resultado: a professora não poderia acionar a justiça do trabalho, caso contrário jamais seria contratada novamente, e teve que engolir o fato de que trabalhou vários dias de graça. Muitos desses jovens “contratados” não têm alternativa alguma, já que as escolas particulares geralmente contratam somente professores com uma certa experiência (e nessas escolas as condições também são de precariedade e de abuso por parte dos gestores ou dos donos das escolas), já que os “processos seletivos simplificados”, para seleção de professores “contratados”, também exigem também experiência profissional para a contratação imediata (reproduzindo no âmbito da educação pública o procedimento das escolas privadas) e já que não se abrem novos concursos há um bom tempo. Além do mais, saem das faculdades tendendo a aceitar que realmente lhes cabe resolver todos os males sociedade brasileira, e, assim, são mais aptos a aceitarem os esforços acumulados que a Secretaria lhes impõe, já que estarão contribuindo para um bem maior. Afinal, a imprensa insiste continuamente que a tarefa de sanar as deficiências da sociedade brasileira cabe à educação. Felizmente, parece que, ao entrarem em contato com os professores mais velhos, muitos desses jovens passam a encarar as coisas mais criticamente, e a greve e as mobilizações do ano passado são uma demonstração de que os jovens professores também estão dispostos a entrar em conflito com a Secretaria, mesmo que eles corram um risco muito grande ao fazê-lo. Só o futuro nos dirá se as reativação da luta vislumbrada pelo entrevistado irá ocorrer realmente.

  4. A farsa por trás das medidas educacionais do Estado devem ser postas a tona,pois a força midiática é muito intensa. A sociedade nem imagina o que se passa por trás dos muros da escola, concordo com o camarada Fagner, quando ele diz em “salvadores da pátria”, muitos professores são totalmente deslocados de suas áreas e pressionados por resultados. Conheço experiencias assim, uma professora graduada em Geografia ministrava aulas de Ed. Física e outra com formação em Biologia e ministra Língua Portuguesa e por coincidência ambas são contratadas e precisa muito do emprego e por isso submete a estas aventuras. A onde está preocupação com o ensino imbuídas nas cobranças por parte do grupo gestor? Sera que o próprio grupo gestor reconhece essa preocupação? Pois eles compactua com determinas situações. Esse tipo de atitude por parte dessa escola citada na reportagem acima, precisa ser disseminada. Precisa-se pensar qual a educação( ensino ) que esta sendo construída dentro das escolas e como o professor participa desse processo?

  5. Sou professora e estou indignada e revoltada com esse tal pacto pela educação. No meu ponto de vista não é pacto pela educação e sim pela escravização dos profissionais da escola. No ano passado não recebi o vergonhoso bônus, porque me recusei a fazer os planos, mas a pressão é tão grande e as escolas dizem tanto amém que acabam por impor a nós a execução dessa tarefa desnecessária.
    achei um absurdo ter um profissional “técnicos ” para olhar cabeçalho de plano quinzenal. Esse profissional não olha a parte pedagógica dos planos, sua função é olhar se as datas e o número de aula estão corretos. Será que o governo acha que vai melhorar a qualidade do ensino jogando esses profissionais dentro das escolas ao invés de voltar a funcionar os laboratórios? Outro dia me desabafei com a técnica e a tutora da escola que trabalho, eu disse a elas que nós estamos só preenchendo papéis e que não estamos tendo tempo para elaborar uma boa aula.
    Outro fator importante que deve ser ressaltado é colocar responsabilidade e compromisso nos alunos e nas famílias. Se fizerem isso, aí sim o ensino vai ficar excelente. A nossa clientela é totalmente descompromissada e irresponsável, e nós não somos milagreiros para reverter a situação.
    Não sei qual a vantagem de colocar tantas disciplinas no currículo do ensino médio, se a capacidade deles de aprender as quatro operações em matemática é visível, tem que diminuir a quantidade no currículo para tentar aumentar a qualidade, mas pessoas pensantes incomoda os governantes, é melhor uma sociedade “burra” e “tapada” para manipular melhor. Estou revoltada com essa situação e por mim ninguém faria esses tais planos, é uma forma excelente de dizermos que somos necessários na sociedade e não ter a necessidade de entrarmos em greve.

  6. Trabalho há 3 anos da Secretaria de Educação de Goiás e nenhuma das cobranças acima me assustou quando comparado à minha experiência. A escola que trabalho, no entorno do DF, funciona com 4 turnos, uns 47 alunxs por sala de aula, um quadro predominante de professores contratados (que dão aula de história e cursam faculdade de física, por exemplo), a escola não tem salas suficientes, não tem biblioteca, o laboratório nem sequer funcionou algum dia, o telhado é furado, não temos vice-diretor, nem coordenador de turno, nem professores bem qualificados; além do mais sentem muito medo de perder seus empregos (ainda mais num estado tão fascista como goiás); já houveram casos de alunxs que foram reprovados e no outro ano estavam matriculados na série posterior, foram “passados” de ano. Assim, o Estado de Goiás aparece como uma grande indústria escolar de produção de mão-de-obra desqualificada. É esse o discurso do governo, “avançar”, só de série, só nas estatísticas.
    É comum que muito professorxs contratadxs trabalhem “de graça” para o Estado. Conheci uma professora que trabalhou alguns meses para depois ser contratada e nunca recebeu por esses meses; e mais comum ainda é que esse tipo de contratado não pode falar nada. Estamos com os nervos à flor da pele e ainda não compreendo por que não nos organizamos com nós e para além de nós.

  7. Aqui no estado do Paraná temos coisas bem parecidas com o que anda acontecendo em Goiás. Eu fiz inscrição no Processo Seletivo Simplificado (PSS), ano 2013, aquele em que o professor vai dar aulas mesmo sem ser concursado, sem ter carteira assinada e etc. (coisas da famosa precarização do trabalho), para a disciplina de história. Só que para o núcleo de educação no qual eu me inscrevi não houve contratação alguma nesta disciplina até agora. Fui ao mesmo núcleo na esperança de obter uma boa notícia, mas o que um funcionário me disse foi o seguinte: “Aula de história não tem, mas tem pra matemática, física e química, você topa?”

  8. Isso quando não é da seguinte forma: viram pra você e dizem, “tem algumas aulas de história, mas você vai ter que pegar também essas aqui de geografia, naquele outro colégio”. Às vezes, usam um só professor para dar aulas de várias disciplinas em vários colégios diferentes, para cobrir o déficit de cada colégio, mesmo que ele só seja formado devidamente em uma delas. É melhor pagar um só contratado do que dois ou três. Já que a educação é a salvação das crianças do Brasil, que as afastará de tudo o que há de mal, seria bom que o professor dominasse bem a disciplina que ensina.

  9. Fagner Enrique,
    Verdade. Eu mesmo já passei por isso aqui no Paraná, em 2007. Pra conseguir pegar 20 horas em história fui obrigado a pegar também 20 horas em geografia. O funcionário do núcleo me pressionou dizendo que só abriria um contrato para aquelas 40 horas. Portanto não poderia me dar somente as 20 horas de história. Sorte a minha que tudo era na mesma escola, pena que divididas nos turnos matutino e noturno. Detalhe, nem o mínimo que eles dizem exigir por força de lei (120 horas na formação acadêmica comprovadas no histórico escolar) eu tenho em geografia. Com geografia eu tive coragem de tentar fazer algo que preste, mas com matemática, física ou química eu não vou arriscar, a farsa seria tamanha que ninguém merece.

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