A nossa autonomia vale bem mais do que uma manchete positiva no jornal. E é essa autonomia que está em jogo. Por Grouxo Marxista

Com essa nova onda de protestos contra o aumento da passagem, que está a sacudir o Brasil inteiro, um novo assunto entra em pauta juntamente com a questão do transporte público: a questão do “vandalismo” e da “violência” nas manifestações.

Trata-se de uma questão crucial para qualquer movimento que tenha expressão na rua, mas sobre a qual não se reflete muito. Contra ou a favor, costuma-se vir com alguns discursos mais ou menos prontos para garantir ou deslegitimar a luta frente à ofensiva midiática. Questões sobre quem iniciou a violência, se a polícia ou os manifestantes, acusações de policiais infiltrados, acusações de gangues infiltradas ou de ‘elementos isolados’. Todos conhecem o esquema.

Em minha opinião, precisamos ir além da defensiva frente à mídia e discutir o que é que estamos a fazer nas ruas que ocupamos. E quando falamos de violência, o que queremos dizer? O que os nossos inimigos querem dizer? Quais as implicações da exigência da contenção da “violência” dos manifestantes?

A violência no sistema de transporte

Em Goiânia e outras cidades, sem dúvida, a violência ou a possibilidade de violência é constante na utilização diária do sistema de transporte. Desde a condução desumana em ônibus lotados, sobre o que falarei mais, passando pelas possíveis quedas nos terminais e ônibus – chegando até à presença ostensiva constante de seguranças privados armados e de policiais infiltrados. A cereja do bolo se vê nos policiais militares que sempre ficam ostensivamente nos terminais de ônibus em horário de pico para prevenir ‘tumultos’. Se você pular catraca e for visto, desagradar o segurança, tentar manifestar um desagrado ou ‘filmar sem autorização’, muito possivelmente tomará uma porrada ou uma leve ameaça com um cano na cabeça.

Não é à toa, então, que muitos usuários do transporte encaram os ônibus e terminais como a encarnação da violência e do poder que é exercido contra eles pelo Estado e pelas empresas. Porque a realidade que muitos vivenciam é a de que esses são os instrumentos utilizados para praticar essa sujeição. Não é raro um usuário dar um chute e arrebentar uma porta de ônibus quando ele está muito lotado. É uma forma que se encontra de manter a dignidade, de não baixar a cabeça. Inclusive, acerta o alvo de forma mais eficaz e sensata do que as outras formas usuais de violência individual passiva: a praticada contra outros usuários e contra o motorista do ônibus.

Para muitos usuários, o momento de entrada no ônibus é o momento que representa a anulação da sua individualidade e a inserção uma massa informe, passiva, sujeita aos caprichos de um conjunto de gente que não compartilha da sua situação. A regra é o sentimento de raiva, de impotência, frustração.

São raros os momentos em que essa anulação é revertida. Um desses momentos primordiais é o das revoltas nos terminais. Algumas vezes, quando há um atraso excessivo dos ônibus, os passageiros paralisam a entrada e saída de ônibus. Aí, existem duas instâncias da atividade. Na primeira, se reivindica uma alteração imediata, como a chegada de dois ou três ônibus em todas as linhas para abarcar de forma humana as pessoas aglomeradas. Na segunda, quando a revolta é maior, inicia-se uma quebradeira generalizada tanto do terminal quanto dos ônibus presentes. Jovens, velhos, mulheres e homens, todos participam igualmente das ações. De qualquer forma, sempre que um terminal é paralisado os participantes são caracterizados como vândalos violentos e reprimidos brutalmente. A repressão se inicia ali, com a paralisação do terminal. A quebradeira ou não dos ônibus é um ponto a mais na radicalização, mas não é o fundamental. Geralmente, depois das paralisações, o serviço melhora sensivelmente por alguns meses.

Trata-se, portanto, de uma forma de luta coletiva que é ativa, quebra o regime de sujeição das empresas, impõe novas regras de uso dos meios de transporte e conquista objetivos práticos comuns elaborados na experiência cotidiana do uso do transporte coletivo. Coloca medo nas empresas e dá a experiência de interferência na gestão do transporte. Por isso, é sempre alvo de uma repressão policial duríssima e uma condenação universal dos meios de comunicação. O problema é que com a heterogeneidade social que compõe o espaço da luta concreta, ela não costuma se enraizar em nenhuma forma organizativa permanente ou se expressar em um discurso político à altura da radicalidade das ações empreendidas. Acontece e passa – mas fica a experiência na memória popular.

As manifestações de rua

“Espaço público é o espaço que pertence a ninguém. Tudo aquilo que pertence a ninguém pertence ao Estado.” [1]

Tanto na periferia quanto no centro, há uma constante: a polícia tem o domínio incontestado e arbitrário da rua e dos espaços públicos em geral. A qualquer momento, mas especialmente à noite, é possível ser detido, sofrer baculejos vexatórios e mesmo apanhar apenas por mostrar um comportamento que polícias consideram suspeito. A polícia costuma dispersar aglomerações de estudantes de colégio público de nível médio e fundamental após as aulas por “razões de segurança” ou “prevenindo o tráfico”. Na prática, a polícia também gerencia o nosso ‘livre direito de ir e vir’ em conjunto com as câmeras de segurança, seguranças privados das empresas e outras instituições repressoras. Contra esse gerenciamento há inúmeras formas de resistência ativas ou passivas que incluem a ocupação de alguns espaços públicos, as intervenções nos muros, os confrontos mesmo. Isso sem falar da ditadura exercida pelos carros contra os pedestres. Mas isso é assunto para outro artigo. Por agora, quero tratar da forma de luta que está em destaque no momento: as manifestações de rua. Vou falar a partir das experiências que tivemos em Goiânia.

As manifestações contra o aumento da passagem, aqui, são os momentos, para muitos, de reapropriação direta do espaço público. Por alguns minutos ou horas, a rua que pertencia ao policial, ao carro, ao agente de trânsito, pertence ao coletivo de pessoas em luta que ocupa esse espaço, unidas em objetivos práticos comuns. O espaço deixa de pertencer a ninguém e passa a ter a cara do movimento e da contestação. Agora, não precisamos mais ficar se escondendo da polícia, baixando a cabeça e desviando o olhar. Podemos gritar com orgulho que a rua é nossa e que queremos isso ou aquilo outro e partir para um confronto aberto com a ordem.

Existem algumas formas de enquadramento dessa reapropriação direta. Ele se dá em dois níveis: internamente e externamente. A nível externo, temos a polícia a ameaçar com a violência, impor condições de uso da rua, procurando os ‘líderes’ que negociam para facilitar o controle. De outro lado, a imprensa tenta enquadrar o discurso da manifestação nas suas formas pré-estabelecidas também, sempre procurando as ‘lideranças’, as ‘chefias’. Temos, assim, uma ação do Estado e das empresas a condicionar as condições de luta.

Internamente, temos algumas condições técnicas e políticas: se há carro de som, a maneira como se usa o carro de som e a maneira como se organiza a manifestação. Há uma tensão permanente entre os planos feitos pelos grupos organizadores e as ações espontâneas que acontecem durante a manifestação. Há também uma luta permanente pela democratização das falas no microfone, que depende da maior passividade ou atividade dos manifestantes e da abertura dos responsáveis iniciais pela manifestação. Esses responsáveis iniciais são, via de regra, os mais vulneráveis a todo tipo de assédio por parte dos meios de repressão, especialmente os midiáticos. Isso não acontece à toa.

Para a polícia e para os meios de comunicação, uma manifestação sem lideranças, sem instituição por trás, sem um controle estrito de trajeto e do que é dito para o público, sem uma polícia interna da manifestação que a controle, é uma manifestação inaceitável, uma anarquia, uma baderna. Esses elementos expressam que se trata de um movimento que, mais amplamente, não se sujeita à disciplina e às regras de organização que garantem a ordem capitalista. Trata-se de algo perigoso, porque não há um grupo controlador, um comando que pode ser cooptado ou destruído para acabar com o “distúrbio”. Se não há líderes, eles têm que ser criados. Pois, quando não há líderes, trata-se do momento da verdade para os dois lados.

A questão da violência nas manifestações

Observando a cobertura da mídia a respeito das manifestações, é fácil perceber que os meios de comunicação não têm nenhuma objeção séria à violência em geral. A violência policial é um dado do destino, quase sempre provocada pelos ataques das manifestações. A mesma coisa ocorre com a maioria dos defensores não oficiais permanentes da não violência: o argumento, via de regra, é que qualquer coisa que ‘saia do controle’ frente à polícia ou ao patrimônio ‘justifica’ as violências policiais e ‘deslegitima o movimento’. A violência que advém dos seguranças privados, do próprio sistema de transporte e dos policiais que gerenciam a rua não é culpabilizada, é naturalizada. Cabe pensar: concretamente, qual a diferença fundamental entre o comportamento que ‘justifica’ a violência policial e essa violência mesma?

A diferença é uma, bem simples: a violência policial que nós percebemos, via de regra, vem de um comando centralizado; é uma violência fria, sistemática. A violência policial é a própria representação da ordem e da (re)imposição da disciplina capitalista na rua. E ela tem um aparato tecnológico à altura das suas aspirações. A violência, quando vem dos manifestantes, é completamente diferente. Trata-se de uma violência que não obedece a comandos, que é ‘espontânea’ (o que não quer dizer que não haja pensamento e organização por trás) e que, fundamentalmente, desafia o domínio que a polícia e o Estado afirmam ter sobre os espaços quando descem o cacete nas manifestações. É uma violência improvisada. É uma violência que diz “o poder que está aí não manda como os seus comandantes pensam, as regras mudam, elas podem mudar”. É por ser improvisada que às vezes ocorrem excessos, que devem sem dúvida ser discutidos.

E aí há uma questão fundamental. É absolutamente impossível, ainda mais em manifestações contra esse sistema de transporte degradante, conter a violência por parte dos inúmeros grupos que compõem os manifestantes, a não ser que se estabeleça uma polícia interna da manifestação, que se encarregue do controle. O próprio processo de imposição e legitimação dessa polícia interna implica na constituição de novas hierarquias, de gestores da luta de rua e no apassivamento do conjunto da manifestação. O que é possível fazer sem esse tipo de recuo é discutir abertamente sobre o tema e diferenciar os tipos de violência possíveis. Ampliar a organização da luta pela base. E não conter.

Os poderes estabelecidos percebem como violência tudo aquilo que quebra a ordem vigente. A paralisação total das ruas por manifestantes é violência. Os congestionamentos, não. A resistência ativa dos manifestantes é violenta. A ação da polícia dificilmente é considerada assim, exceto quando ‘extrapola’, ou seja, não segue o protocolo. Pular a catraca é violência. Restringir o direito de ir e vir pela catraca, não.

Quando pedem que os organizadores e os manifestantes sejam pacíficos, independentemente das circunstâncias, na verdade estão pedindo que eles se enquadrem. A questão não é violência ou pacifismo. A questão é: que tipo de movimento está a se manifestar? Um que ameaça à ordem ou um que reforça a mesma?

A grande ameaça à ordem, a grande violência não está na quebra de um ônibus ou de uma vidraça pura e simplesmente. Ela está na possibilidade de uma ação coletiva ativa, uma ação que faça com que os indivíduos participantes não sejam uma massa atomizada e passiva como é a massa que se anula no ônibus. Os ônibus e vidraças quebrados simbolizam essa nova disposição de luta. Ao perceberem que a repressão física e a calúnia nos meios de comunicação, ao contrário de enfraquecer, só vêm reforçando o movimento, os gestores e pretendentes a gestores irão tentar fazer com o que o próprio movimento se enquadre por si mesmo nas regras estabelecidas para conseguir legitimidade. Não devemos aceitar essa chantagem. A nossa autonomia vale bem mais do que uma manchete positiva no jornal. E é essa autonomia que está em jogo. Devemos criar os nossos próprios termos de legitimidade, em diálogo com os nossos iguais, e não com os nossos inimigos de classe.

O grande perigo do movimento está na possibilidade de que as coisas saiam do controle do Estado e, na verdade, entrem no controle do maior número de pessoas. O grande perigo para o movimento está na possibilidade de que, ao controlar os excessos e a “violência” em nome do ‘objetivo maior’, o resultado seja a criação de novos gestores.

 Nota

[1] Retirado de Último Aviso ao Partido Imaginário Sobre o Espaço Público (https://tiqqunista.jottit.com/final_warning_to_the_imaginary_party)

Os leitores portugueses que não percebam certos termos usados no Brasil
e os leitores brasileiros que não entendam outros termos usados em Portugal
encontrarão aqui um glossário de gíria e de expressões idiomáticas.

18 COMENTÁRIOS

  1. Em São Paulo, antes de a multidão começar a andar, tanto o PSOL quanto o PSTU se apresentam em blocos tentando hegemonizar o ato. Aparecem uniformizados, com bandeiras, instrumentos musicais e megafones impondo o ritmo, os cantos e as falas. Não há nenhuma abertura para que alguém que não seja do grupo possa usar o megafone. Há, claramente, uma tentativa de apropriação da luta.

    A meninada da brigada do capuz é justamente a que mais sai fora do controle e tem sido demonizada tanto pelo Estado quanto por gente que quer ficar sob o controle comportado dessa gente que pretende tomar o controle da luta.

  2. É e não é. Na verdade a ideia era filmar os policiais vandalizando pra depois culpabilizar os manifestantes; entretanto, aqui no Rio de janeiro está muito forte essa auto-repressão por parte dos próprios manifestantes. Eu mesmo sofri várias repressões e vi camaradas sendo fisicamente agredidos por optarem por formas mais “radicais” de protesto, como quebra de vidors de bancos e de pontos de ônibus. É a velha tradição autoritária da esquerda, e preocupa muito, porque se trata de uma imposição de formas de luta em pró de uma lógica pós-moderna de luta, pretensamente “pacifista”, anti-partidária (pessoas com camisas de partido hostilizadas, várias bandeiras tomadas e rasgadas, em atos claramente fascistas, por parte dos próprios manifestantes). Quero ver onde esse pessoal pensa que vai chegar com essa ojeriza a toda forma de centralização e direcionamento das lutas, que nem reivindicações definidas claramente têm. É uma espécie de fazer tabula rasa de toda a história de erros e acertos da esquerda, como se devêssemos nos inventar a partir do nada em cada luta que surgir no horizonte.

  3. Marcos,
    Aqui no Rio os partidos tem tido participação, mas não, ou ao menos, nem sempre, nesse sentido de apropriação da luta. Quinta-feira o ato com mais de 5 mil pessoas chegou na candelária e o Partido e seu mega-fone tentou encerrar o ato; então um rapaz, provavelmente anarco, tomou literalmente o microfone e sugeriu que seguissemos para a Assembléia Legislativa. O pessoal do Partido fez então uma votação na hora, sem intervenção defendendo as opções, e o prosseguimento do ato até a Alerj ganhou por unanimidade. Logo depois da vitória, um dos rapazes do Partido pegou o microfone e começou com um discurso de “vamos decidir” (sendo que acabava de ser decidido) então o mesmo rapaz puxou o fio do microfone com tal força, que estragou o microfone. A partir dali a manifestação seguiu até a Alerj sem o microfone do Partido ditando os gritos, etc., e se virou muito bem. Uhuu.

  4. Quanto mais pessoas presentes no ato mais “espontânea” pode se tornar também a recusa e a oposição de muitos manifestantes à violência de cunho “vândala”. Por que isso? Oras, para além dos “black blocks” e de alguns punks, a massa “espontânea” não é toda formada por pessoas que acreditam no método de quebrar vidraças de bancos ou queimar veículos, exemplos de violência “espontânea” incontrolável. Igualmente incontrolável é a postura “espontânea” de muitos manifestantes de se colocarem contra estas práticas ditas radicais, enquanto se focam na radicalidade de se tomar as ruas, desobedecer a política e defender-se dela, de parar a cidade em recusa ao aumento da passagem. Não são apenas os partidos que fazem essa crítica, são muitos manifestantes não-organizados, “espontâneos”.

  5. Sem dúvida muitos manifestantes não-organizados também fazem essa crítica. A minha preocupação é que muitas vezes não é apenas uma crítica. É uma política repressiva que é utilizada sem que se discuta abertamente a respeito.

    A questão é que a recusa dos manifestantes em quebrar uma vidraça ou um ônibus (carro até agora, no Brasil, eu não ouvi falar) pode se expressar de várias formas. Uma delas é o boicote ou a não participação. Uma outra é denunciar pra polícia. E há outra ainda: a repressão física seguida da entrega à polícia. A não participação e o diálogo franco e aberto é necessário. Inclusive sobre o direcionamento que é dado à violência. Mas a denúncia e a repressão são atitudes que apenas contribuem com o enquadramento da luta.

    Eu não me lembro de ver ninguém forçando uma outra pessoa a pichar uma vidraça ou quebrar um ônibus. Quebra quem quer, quando pode. Os manifestantes que são partidários mais constantes do confronto não ficam denunciando os “pacíficos” pra polícia ou deslegitimando a sua participação no movimento.

    E não, a polícia não vai pra cima da manifestação porque algum ato de vandalismo provoca ou justifica. Ela não é “espontânea”. A polícia vai pra cima quando vem a ordem.

    É um absurdo e um preconceito dizer que são os black blocks ou os punks que quebram ônibus ou vidraças. Tanto contra os punks, quanto contra o que você chama de “massa”. Na minha cidade, pelo menos, os trabalhadores “espontaneamente” já quebraram cem vezes mais ônibus que qualquer grupo de extrema esquerda nos últimos dez anos. As insurreições sempre foram organizadas e executadas por trabalhadores. As barricadas já foram um símbolo das movimentações dos trabalhadores.

    Sem dúvida, parar a rua, desobedecer a polícia e parar a cidade são todos atos radicais que contribuem pra uma transformação social mais ampla. Mas a forma como se para a rua, a forma como se desobedece a polícia e se defende dela, a forma de parar a cidade, nada disso está pré-estabelecido. Quanto mais houver um debate aberto sobre as táticas a serem usadas, que não seja pautado pela necessidade de legitimidade aos olhos da “opinião pública”, mais poderemos avançar pra que essas diferenças de opinião não se tornem motivos de racha ou brechas pelas quais as práticas partidárias podem se inserir.

  6. Caro Franklin,
    além do comentário de Grouxo Marx, com o qual concordo, a minha opinião sobre sua posição é a seguinte:
    quando você diz “se colocarem contra estas práticas ditas radicais, enquanto se focam na radicalidade de se tomar as ruas” você impõe um modelo do que seja “tomar as ruas”. Os que estão a pixar os muros, a quebrar vidraças de bancos e pontos de ônibus, também estão tomando as ruas, e mais: do mesmo modo que ocupar as ruas é sair da calçada e se reapropriar de um espaço dominado, eles estão se apropriando dos espaços da cidade que nunca poderiam utilizar para expressão popular, já que são espaços monopolizados pela lógica capitalista de propaganda mercadológica. É muito comum esses manifestantes atirarem pedras contra letreiros e placas com propaganda de Coca-cola, etc., do mesmo modo que pixam Macdonald’s e demais lugares que simbolizam a privatização da vida e do espaço que poderia ser público, mas não é. Há quem nomeie essa rebeldia como “ressentimento”, mas não me parece ser isso. Presenciei alguns deles gritando “O Rio é nosso porra” logo antes de quebrar os vidros de pontos de ônibus, o que me parece muito sintomático dessa significação de reapropriação do espaço.
    Ao definir o que pode ou não ser feito num protesto de rua, você e esses manifestantes desorganizados e “espontâneos” a que vc se refere, se aproximam daquela esquerda autoritária a que me referi, a qual esconde seu autoritarismo e posicionamento num véu liberal e “democrático”, que me parece ser bastante típico em camadas médias e frações pequeno-burguesas, de onde, aliás, costuma crescer o fascismo.

  7. Uma questão de (des)ordem sobre a ordem das questões: discutir a forma (da violência) abstraindo o conteúdo (objetivo da ação), e vice-versa, é onanismo conceitual. É a velha questão dos ovos quebrados e da omelete : Lênin ou Panait Istrati?

  8. Sobre as manifestações os P2 não sacam nada, mas no que toca à pele dos policiais, que está em jogo, não se enganam:

    “A avaliação da polícia o é que o Movimento Passe Livre tem intenções “sinceras” ao defender a redução da tarifa de R$ 3,20 para R$ 3,00 e não tem orientações violentas. Mas, como não aceita lideranças, permite que esse tipo de comportamento violento explore o movimento.

    A inexistência de lideranças é considerada o pior pesadelo para a polícia porque não há alvos claros. Outra dificuldade é separar a ação política dos atos criminosos.”

    http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1295714-servico-secreto-da-pm-diz-que-psol-recruta-punks-para-protestos.shtml

  9. Lênin = ovos quebrados sem omelete. Istrati = critica a falta de omelete.
    A questão é: quem (quando, onde & como) faz a omelete?

  10. Não sei se alguém já respondeu, mas é mentira essa história de que o MPL vai fotografar, segurar e denunciar “vandalos” ou “punks”. O MPL nunca declararia um absurdo como esse que saiu no iG – muito menos incriminando punks e anarquistas, até porque há vários deles no nosso coletivo. A declaração nesse sentido que saiu na Folha foi dada pelo Maurício, dirigente do MES-PSOL, que não é militante do MPL.

    A imprensa tem publicado vários absurdos nesses últimos dias…

    Abraço
    Caio, militante do MPL

  11. Caio, obrigado pelo esclarecimento! É importante o MPL produzir contra-informação, pois uma notícia como aquela pode inclusive dar ideia a alguém… o que seria péssimo para o movimento.

    Abç!

  12. Grouxo,
    a mesma falta de crítica dos manifestantes que querem reprimir a violência dos companheiros também é praticada pelos que a promovem. Não seria esse justamente o ponto fraco de toda “espontaneidade”, a falta de crítica? Se trata de uma violência crítica ou apenas da reprodução de um modelo de insurreição focalizado e contextualizado (afinal, usuários depredando as estações é algo que acontece quando há problemas no exato momento, como atrasos ou mal funcionamentos. Não são os mesmos que convocam protestos com hora marcada e repetem aí o mesmo comportamento).

    Não há dúvida: deter companheiros e entregá-los para a polícia é exagerado e paranóico. Mas cuidemos também para que não seja algo baseado num ideal de “liberdade individual” de quebrar o que quer que seja. Se você quer fazer frente a algo em uma assembléia, pede-se a voz e faz-se uma defesa. Numa manifestação é diferente. Se um pequeno grupo achar que matar um policial encurralado é o mais correto a se fazer, como “fazer a crítica no momento” sem tirar o direito de cada companheiro de fazer o protesto como lhe pareça melhor? (certo, o exemplo é exagerado e ecoa a pauta da grande midia, e no entanto quando falamos de violência, violência das multidões, comportamento de massas, é disso que se trata, de descontrole e crítica interna, para o bem e para o mal).

    Pablo, a sua romantização da espontaneidade também é uma forma de se dizer como se pode ou não se pode tomar a rua. A opinião será pessoal sempre, o problema é realmente quando um partido ou organização toma para si de maneira institucionalizada a “ordem” da coisa, ou quando indivíduos e organizações agem de maneira irresponsável, querendo um protagonismo que se dissocia completamente da coletividade que compõe o protesto. Não é disso que se trata, mas sim de uma crítica interna: se de repente nos protestos os manifestantes começarem a “espontaneamente” cantar o hino nacional, vamos achar isso algo lindo e maravilhoso por ser assim sem controle? Eu não.
    Um outro problema que aparece no seu comentário é justamente o que é tratado em outro texto publicado hoje aqui (http://passapalavra.info/2013/06/79281). Estamos lutando contra o aumento do ônibus. Como exatamente quebrar vidraças de agências bancárias e atirar pedras na Coca Cola ajuda nisso?
    O que faltaria é justamente uma discussão mais interessante a respeito dos VALORES e DESVALORES da violência em todas as suas vertentes (organizada, “espontânea”, repressiva, destrutiva, etc). Espero que após os atos se animem estas discussões na extrema-esquerda, pois temos que juntos refletir o tema para não cairmos nem no romantismo nem no aparelho repressor interno.

  13. Gostei dessa parte:

    “Aí há uma questão fundamental. É absolutamente impossível, ainda mais em manifestações contra esse sistema de transporte degradante, conter a violência por parte dos inúmeros grupos que compõem os manifestantes, a não ser que se estabeleça uma polícia interna da manifestação, que se encarregue do controle. O próprio processo de imposição e legitimação dessa polícia interna implica na constituição de novas hierarquias, de gestores da luta de rua e no apassivamento do conjunto da manifestação. O que é possível fazer sem esse tipo de recuo é discutir abertamente sobre o tema e diferenciar os tipos de violência possíveis. Ampliar a organização da luta pela base. E não conter.”

    Acho que ontem aqui em SP, não por coincidência quando não havia presença da PM, que tava na toca com o rabo entre as pernas, isso se viu muito bem, e pra mim de forma muito positiva. Sem a pressão da PM, o ato pode seguir em sua multiplicidade doida, e aqueles que queriam agir de forma mais incisiva o fizeram, ao menos nas partes que vi, se destacando do resto da manifestação. Mesmo no Palácio parece ter acontecido isso. Perfeito, cada um age como acha correto e cada um assume as consequências de seus atos, foi genial.

    O que acho ruim é alguém querer proceder de forma violenta em um contexto em que isso não é consensual e depois utilizar-se do conjunto dos manifestantes, que podem discordar dessa prática, para se proteger, como às vezes acontece. Acho que quem quer ir pro pau tem que ou convencer as pessoas ou se destacar… Mas no fim, o que fica claro mesmo é que sem a polícia é que nem o nosso futebolzinho de cada dia, não precisa de juiz, deixa que a gente resolve dentro das nossas regras.

  14. Ótimo texto, com algumas ressalvas de menor importância. Estava discutindo agora há pouco com um colega de trabalho, e chegamos a um ponto preocupante: o “esvaziamento” do movimento organizado (leia-se: da classe média) com a adesão do, digamos, “populacho”, que inevitavelmente aumentaria o grau de violência (como os saques em sp e a depredação de ônibus ontem num terminal da periferia de goiânia – que os jornais locais noticiaram mal e porcamente, como sempre). Há uma tendência (chamemos de “tendência toddynho”) de dizer que este “vandalismo”, que é espontâneo, “queima” o movimento, quando na verdade o legitima – no sentido, fique claro, de que os protestos fazem com que a população perda o medo endógeno dos agentes repressores, praticamente onipotentes nas periferias, e reajam à violência que sofrem diariamente. Esta reação violenta levada aos centros e às manifestações estudantis faria com que o movimento se reprimisse, agindo como polícia ou pior, como delator. Ou seja: quando “o morro descer”, a classe média, os anarquistas de ipanema, os comunistas de pinheiros e os libertários do bueno pedem o penico, pois tem medo do povo.

    Mas a questão agora não é só essa: não conseguimos encontrar nada sobre a manifestação de amanhã em goiânia fora das redes sociais (que são bloqueadas aqui no trabalho). Isso é péssimo não somente porque algumas pessoas (como nosotros) não conseguem discutir e participar, mas também porque os feices da vida são naturalmente o espaço da superficialidade e impedem uma discussão mais séria (com textos como esse, por exemplo).

  15. Não é bem assim Mário. Nas escolas estão sendo fixados cartazes convocando os estudantes e muitos deles estão discutindo o assunto e se mobilizando para a manifestação de amanhã que, a julgar pelas adesões nas redes sociais, será bem maior do que as anteriores. A coisa, entretanto, parece estar progredindo mais no boca a boca. Mas eu só posso falar alguma coisa sobre o que está acontecendo nas escolas. Fora delas, não sei ao certo. Agora, em se tratando de manifestações impulsionadas pelos estudantes, é natural que estes, que são jovens e acostumados a organizar todo tipo de evento pelas redes sociais, restrinjam-se mais ou menos a elas.

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