Criar uma força política plural contra o conservadorismo e o aliancismo negociante deve ser a estratégia fundamental do movimento encabeçado pelo MPL daqui para a frente. Por Luiz Fernando Ribeiro

A onda de protestos, ainda em ascendência, que tomou conta das principais capitais do Brasil, grandes cidades no exterior, e aos poucos vai dando sinais  de avançar inclusive pelo interior brasileiro, tem criado um rebuliço, no mínimo interessante, no conjunto de segmentos que compõem nossa pantanosa sociedade. De certa forma, as grandes forças políticas e midiáticas ainda estão a reboque dos fatos. Mas não nos enganemos, aos poucos suas sutis estratégias — que vão do apaziguamento progressivo do protesto à redefinição de suas pautas, até à divisão interna do movimento — vão sendo colocadas em ação. Mas é claro que o atendimento das reivindicações não faz parte de suas pautas.

Nas primeiras manifestações, no início da semana passada, duas formas de desprezo e tratamento político foram dadas ao caso: a primeira pelo governo/polícia e a segunda pela mídia. Numa ação repentina, ignorando o potencial dos protestos e o conteúdo das reivindicações, a maneira tradicional de resolver esses problemas foi posta em exercício: o governo/polícia bateu e a mídia criminalizou e avalizou socialmente. O momento síntese foi a fala do sabichão Arnaldo Jabor. Como se sabe, tal opção foi um desastre. Não significa que foi retirado de cena, pois ele continua sempre ali e pode voltar a qualquer momento. Por enquanto em doses homeopáticas, mas logo adiante poderá voltar com força máxima.

No entanto, esse bloco complexo de força contra os protestos é mais denso do que aparentemente se apresenta. Os governos/polícias correspondem a duas forças opositoras (não antagônicas), liderados pelo PSDB e PT. Se no primeiro momento a tática do PSDB fez-se valer pela força da tradição, em seu fracasso foi o modus operandi petista que foi posto em ação. Na mudança da estratégia de intervenção imediata, realizada pelo governo/polícia, a mídia foi rapidamente modificando também sua forma de intervenção, é claro que a seu modo.

É preciso negociar, dialogar, ouvir os manifestantes!, dizia o bloco petista, fazendo uma profunda defesa da democracia da mansidão, ao mesmo tempo em que ficava boquiaberto com o estardalhaço feito pela até então restrita “extrema esquerda”. — Precisamos controlar esse movimento ao nosso modo! Primeiro abrimos os canais de negociação, depois partimos para a divisão interna do grupo e, por fim, incutimos neles o perigo desses protestos fortalecerem a extrema-direita e permitirem um retrocesso sem igual na história do Brasil. Tarefa que ficou a cargo dos segmentos mais à esquerda do PT: os internos e os “externos” (Consulta Popular, CUT e alguns movimentos), todos orgânicos à linha mestra do Partido e seus governos.

A mídia, que não é boba nem nada, foi na onda, mas ao seu modo. Logo começou a cobrir as manifestações em tempo real e, sem saber muito ao certo o que fazer, foi procurando aos poucos remodelar a pauta de reivindicações: redução dos impostos (os que lhe interessam), o fim da corrupção (a estatal, omitindo a predominante privada). Quanto à forma, também foi dando seus contornos: pacífica, de branco e sem vandalismo. Ora dando uma conotação oposta ao Governo Federal, ora dando-lhe crédito. Começou a declarar o caráter apartidário do movimento, ocultando as organizações que estão à frente do processo. E esse tem sido um ponto crucial de sua ação: retirar o caráter organizativo do movimento e ocultar o papel das organizações que estão à frente.

Na segunda-feira, 17 de junho, os protestos chegaram a um nível nacional, tanto nas ruas como nas redes sociais. Com ações em vários estados. Fernando Henrique Cardoso se pronuncia contra o tratamento violento. Lula, em seguida, descartando a intervenção policial, diz no facebook que “Não existe problema que não tenha solução. A única certeza é que o movimento social e as reivindicações não são coisa de polícia, mas sim de mesa de negociação”. E ninguém pode negar que ele é um gênio da “negociação”.  Mas o Tarso Genro (que escreveu Lenin: Coração e Mente), na defesa do Estado Democrático de Direito, não titubeou em dar umas cacetadas nos manifestantes em Porto Alegre. Já o prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo, anuncia na manhã de terça-feira uma redução na tarifa do transporte público municipal, para ganhar de antemão a simpatia do movimento, que marcou o ato para quinta-feira próxima. Porque fazer as mudanças estruturais, que são necessárias à horrível condição dos transportes aqui em João Pessoa, está longe de suas intenções. Mas é certo que já tem a adesão de uma parte dos manifestantes.

Na madruga de terça-feira, o Jornal da Globo (que é um dos espaços mais reacionários da emissora), dedicou mais da metade do seu tempo para cobrir e emitir sua opinião oficial sobre os eventos. Quanto à cobertura, destacou o caráter “pacífico” da maioria dos manifestantes, mostrou as pautas que lhe interessam e procurou isolar os “extremistas radicais”, que provocaram atos de “vandalismo” e “violência”. No que tange à opinião, houve uma retratação pública de Arnaldo Jabor, agora alinhado à “nova” estratégia política da emissora, e por fim a presença de um especialista em segurança pública. Claro que não era da segurança do cidadão, mas da segurança contra os protestos: a segurança do Estado Democrático de Direito, da ordem. Parte da estratégia petista foi finalmente assumida pela Globo, sempre divida com sua arrebatadora paixão pelo PSDB.

O bloco liderado pela perspectiva eleitoral do PSDB também foi aos poucos, ao seu modo, procurando tirar proveito da situação. É preciso dar um caráter anti-governo-federal ao protesto. Incluíram as vaias à presidenta Dilma no Mané Garrincha durante o início da Copa das Confederações no sábado, para dar um caráter único aos contratempos. Têm logrado algum êxito, mas nem tanto. Não conseguem abrir mão do impulso à porrada, e em Minas Gerais foi lenha a receita. Já a “esquerda” do PT, sempre ocupada em impossibilitar que se crie uma alternativa ao seu “projeto”, saiu alvoroçada em difundir a fantasiosa ideia do terror maniqueísta, que divide o Brasil entre o bem e o mal. O bem são eles, como convém, e o mal é o PSDB.

Nesse momento, criar uma força política plural contra o conservadorismo e o aliancismo negociante deve ser a estratégia fundamental do movimento encabeçado pelo Movimento Passe Livre (MPL) daqui para a frente. Avançar na inter-relação com a classe trabalhadora e desvencilhar-se das armadilhas da direita e dos vícios cooptantes da “esquerda”, ora hegemônica, são táticas fundamentais para o avanço das lutas sociais no Brasil. Não negligenciar as forças políticas-econômicas contra as quais se está lutando. Com o Estado e os meios de comunicação na mão, esse pessoal tem muito gás para queimar. O leque das armadilhas é vastíssimo, tanto os da direita como os da esquerda estatizada são nocivos. O primeiro destrói o movimento por fora, o segundo corrói por dentro.

Seguimos adiante, sem medo, porém sempre atentos!

8 COMENTÁRIOS

  1. Caro Gustavo,
    As tentativas da direita estão muito claras: isolam grupos “radicais”, e tentam distanciar o extraviar a adesão da classe trabalhadora da pauta efetiva do MPL, ao passo que infiltram agentes para modificar o rumo e a forma das mobilizações. Quanto as tentativas da “esquerda” (do complexo PT), elas perfazem a trajetória histórica desse partido, principalmente nos últimos 15 anos. Como podes ler mais detalhadamente em http://passapalavra.info/2012/02/52448, publicado aqui no passapalavra. As tentativas mais recentes, e ligadas as ondas de protestos, são possíveis de se verem no terror que vem sendo criado com a possibilidade da direita tomar o comando, e por vezes até com ameaças de golpe conta o governo federal. Veja a apelação desse militante do MST que escreveu no Brasil de Fato: http://www.brasildefato.com.br/node/13274 . Não são tentativas imediatas, são permanentes.

  2. Interessante este video: http://www.youtube.com/watch?v=XX7WFH2ToBc

    Um policial se recusa a cumprir uma ordem, que tinha a ver com reprimir a manifestação, e então o comandante toma-lhe a arma e o manda ir embora. Talvez o policial não tenha aceitado a ordem por medo da sua integridade física…

    Esta outra notícia é da semana passada:
    BASTIDORES: cisão no comando explica recuo no uso da Tropa de Choque
    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,bastidores-cisao-no-comando-explica-recuo-no-uso-da-tropa-de-choque,1043265,0.htm

    Provavelmente a virada da direita em deixar o uso da policia e tentar aparelhar as manifestações se deu também pela tensão e conflito que deve ter sido instaurado dentro das redações dos jornais após eles terem sido vítimas também da ação da polícia. E sem o controle das redações, ou seja, sem o acobertamento da mídia ficaria desgastante reprimir as manifestações

    O fato é que os conflitos e cisões dentro dos aparelhos de controle costumam ter um papel nada desprezível no desenrolar das lutas e nos seus resultados.

  3. Se essa notícia é verdadeira, a história se repete…

    “Com assessores, secretários municipais e até guardas-civis metropolitanos encurralados na Prefeitura, Haddad foi buscar sossego em casa, no bairro do Paraíso, zona sul de São Paulo. A trégua, porém, durou pouco. Por volta das 22h, o prédio do prefeito já estava tomado pelos manifestantes, que o chamavam de “covarde” e “ladrão”.

    “O coro assustou não só o petista, mas sua família. Segundo pessoas próximas, a filha do prefeito, Ana Carolina, de 13 anos, chorou com medo de que o apartamento fosse invadido. Os vizinhos ameaçaram chamar a polícia. Foi aí que ele resolveu ceder. ”

    http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,dilma-e-lula-pressionam-e-haddad-cede,1044490,0.htm

  4. Em 1907, Georges Sorel assinalava:
    “Nada se assemelha mais a um representante da burguesia do que um representante do proletariado.”

  5. a lUTA NÃO ACABOU AINDA … Não comemorem ou suspendam a luta agora que a massa está na rua. Unificar a todos contra os governos todos, a nivel nacional, parando tudo, rumo à greve geral….

    TARIFA ZERO JÁ ! MANTER AS RUAS TOMADAS e NÃO SUSPENDER A LUTA.

    Vitória parcial não resolve a parada. Não façam festa por 0,20…. TARIFA ZERO unifica toda a população a nivel nacional.

    Manter as ruas tomadas bloqueando o transito em varios pontos até ter TARIFA ZERO no país todo.

    Até a Vitória (de verdade e completa)

    ps.- Não permitam que a rede Globo determine a cor da sua roupa ou da sua bandeira. Ja vimos esse filme no fora Collor, com a direita querendo impor suas bandeiras e banir os que estão lutando desde sempre (esquerda socialista, vermelha).

  6. Adorei este movimento não permitir bandeiras de partidos políticos, isso permite que surjam novas lideranças. É preciso sepultar as lideranças atuais, infiéis à nação brasileira, ou seja, ao povo que habita esse país.
    Viva o Brasil!

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