Apesar do fim

O vídeo é um registro das impressões de trabalhadores e trabalhadoras de um bairro da periferia de São Paulo seis meses após a posse de Jair Bolsonaro.

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Carolina Catini e Renan Oliveira

Em outubro de 2018, quando se encerrou a disputa eleitoral, fizemos o vídeo Depois do fim. Passados seis meses de posse do governo Bolsonaro voltamos a conversar com trabalhadores e trabalhadoras do Grajaú sobre a atual situação.

Em ambos os vídeos, perguntamos quais eram as expectativas de moradores do extremo sul de São Paulo, suas impressões sobre alguns elementos da conjuntura e sobre suas condições de vida.

O acirramento do debate eleitoral se reflete no primeiro vídeo, marcado por posições antagônicas, mas que nem sempre ficaram presas aos discursos hegemônicos. Se é verdade que as defesas e os lamentos com a vitória eleitoral de Jair Messias Bolsonaro se pautavam em discursos midiáticos e de redes sociais, elas se complementavam pela urgência das situações concretas da vida.

“Um tiro final” foi a síntese de um trabalhador que apostava na novidade do bolsonarismo, e a “revolta do povo” explica a vitória eleitoral para um ex-metalúrgico, que um dia esteve em lutas junto ao PT no passado. As gestões petistas foram atacadas pela avaliação negativa das condições em que se vivia nas periferias naquele momento, seja pelas “torturas” nas filas dos hospitais seja pelo desemprego massivo, ou defendidas pela continuidade de políticas voltadas aos negros, mulheres e “desfavorecidos”. Enquanto muitos preferiram falar do que consideravam uma apatia individual gerada pelo Bolsa Família em contraposição à suposta dignidade do trabalho, o senhor Geraldo se abstém de falar da política eleitoral e decide falar somente da dor pela perda de seu filho que, desesperado com o desemprego prolongado, cometeu suicídio.

Para realizar o vídeo Apesar do Fim, passamos pelos mesmos lugares, entrevistamos novamente alguns moradores, e algumas outras pessoas que quiseram dar depoimentos sobre a atual conjuntura. A falta de perspectiva é presente entre a maioria, que vê no desemprego, no trabalho intermitente e na ampliação da concorrência, a tendência de produção de uma guerra de todos contra todos, exacerbada pela possibilidade de liberação do porte de armas. Mesmo diante da precariedade, aparece também o discurso empreendedor em sua coerência com o desejo de um controle policialesco, rígido e hierárquico da competição.

A corrupção é naturalizada como condição da política institucional. E em meio à metáforas para interpretar o Brasil e a política nacional, aparece uma noção de classe para demarcar quem paga a conta das reformas em curso e dos cortes de financiamento da educação. Ao mesmo tempo, quando há alguma expectativa de mudança, ela se apresenta com externalidade, e não como algo que está nas mãos de quem se vê em situação de emergência.

Este vídeo amador e de registro das impressões de trabalhadores e trabalhadoras de um bairro da periferia de São Paulo foi gravado nos dias 26 e 27 de maio e editado nos primeiros dias de junho de 2019.

 

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