Por Nicolas Lorca

As lutas do movimento negro no Brasil são datadas desde antes da libertação dos escravos. Nas primeiras décadas do século XX, diversas organizações do movimento negro surgiram e se espalharam pelo país. Sem sombra de dúvidas, três organizações foram fundamentais para a construção das lutas do movimento negro contemporâneo: a Frente Negra Brasileira (FNB), o Teatro Experimental do Negro (TEN) e o Movimento Negro Unificado (MNU).

A Frente Negra Brasileira surge no início do século XX, marcando significativamente o movimento negro no Brasil. Suas lideranças defendiam o nacionalismo extremado, e o ódio aos imigrantes e à democracia liberal faziam parte do bojo ideológico dessa organização. O caráter conservador da mobilização racial dos anos 1930 é bem conhecido, assim como sua hostilidade à democracia liberal, mas adquire maior expressão quando lembramos a movimentação anarquista no começo do século, inclusive com a famosa greve de 1917.

Posteriormente, outro movimento se destaca. Nos anos de 1940, surge no eixo Rio de Janeiro-São Paulo o Teatro Experimental do Negro. Esse movimento tinha por objetivo discutir as relações raciais e a interpretação do negro nas artes. O Teatro Experimental de Abdias Nascimento propunha essa formulação da representação do negro na sociedade. Em contrapartida, Solano Trindade — que até então era integrante do Teatro Experimental — propunha uma perspectiva que antielitista que se voltasse para questionar os problemas sociais e a desigualdade social na realidade brasileira. Nesse sentido, Tridade propunha a construção de um movimento negro anticapitalista, que não estivesse vinculado às instituições e que pautasse diretamente a desigualdade social. Por causa das contradições políticas do TEN, Trindade rompe em 1950 e funda o Teatro Popular Brasileiro (TPB).

Depois disso, no auge da ditadura militar surge o MNU. Em 1974, a emergência das lutas sociais, o racismo e a violência racial colocam num plano político a tentativa de se contrapor à democracia racial. O MNU foi, sem dúvidas, um movimento que influenciou o movimento negro brasileiro na contemporaneidade. Após a redemocratização, diversos coletivos e organizações do movimento negro surgem, reproduzindo as mesmas dinâmicas e perspectivas.

O movimento negro, sobretudo na contemporaneidade assume um caráter dualista no sentido 1) de retornar as antigas perspectivas do movimento negro brasileiro e 2) construir uma luta contra o racismo. O movimento negro no Brasil, em sua gênese, conta com enormes deformidades — se tratando de um movimento, reivindica-se de esquerda — e um largo vínculo institucional.

Tendo isto em vista, o presente artigo busca compreender a história do movimento negro no Brasil desde suas origens e suas influências na contemporaneidade. Dessa forma, recorre-se a bibliografias referentes à temática, buscando elencar de forma crítica as tendências, as vitórias e as derrotas.

Da Frente Negra ao Teatro Experimental

A Frente Negra Brasileira surge no início do século XX, com um programa destinado a discutir a desigualdade racial e a violência na qual os negros estavam inseridos. Antes de sua institucionalização em 1931, a FNB acumulou mais de 100 mil membros e se espalhou pelas principais capitais brasileiras. No entanto, no decorrer desse processo, nota-se uma aproximação maior com o nazifacismo e do patrianovismo.

Em 1936, a FNB transformou-se em partido político e pretendia participar das próximas eleições, a fim de capitalizar o voto da “população de cor”. Influenciada pela conjuntura internacional de ascensão do nazifascismo, notabilizou-se por defender um programa político e ideológico autoritário e ultranacionalista.

A FNB surge num contexto bastante específico de nossa história: a Era Vargas. A proposta inicial desse movimento — que pretendia lançar-se como partido político — era a de que a questão racial precisava ser pautada radicalmente e que a condição do negro na sociedade brasileira era demasiadamente dura. No entanto, o interior desse “partido político” era extremamente contraditório. O caráter conservador da mobilização racial dos anos 1930 é bem conhecido, o seu apoio declarado ao nazifacismo, o tratamento hostil com os imigrantes europeus (sobretudo os imigrantes italianos) e a sua proximidade com o movimento integralista. Regina Pinto nota que: “[…] não era apenas o presidente [da FNB] que demonstrava simpatia pelos regimes totalitários, então em franca ascensão na Europa. Vários líderes negros, ligados à [FNB], certamente influenciados pelas ideias nacionalistas e patrinovistas, também expressaram-se favoravelmente em relação a esses regimes”[1].

A perspectiva programática do FNB — corroborando ainda com o que fora mencionado acima — não deixou de se instrumentalizar e aliar-se à extrema-direita brasileira, se identificando, sobretudo, com o nazifascismo. A respeito disso, Domingues argumentou que: “[…] influenciada pela conjuntura internacional de ascensão do nazifascismo, notabilizou-se por defender um programa político e ideológico autoritário e ultranacionalista. Sua principal liderança, Arlindo Veiga dos Santos, elogiava publicamente o governo de Benedito Mussolini, na Itália, e Adolf Hitler, na Alemanha. O subtítulo do jornal A Voz da Raça também era sintomático: ‘Deus, Pátria, Raça e Família’, diferenciando-se do principal lema integralista (movimento de extrema-direita brasileiro) apenas no termo ‘Raça’“[2].

A posição conservadora e demasiadamente conturbada da FNB compatibilizou-se fundamentalmente com as propostas de “criação de uma nação negra” e “supervalorização da cultura negra” e as propostas Pan-Africanistas de “retorno à África”[3]. Essas propostas estavam em clara oposição à ideia de “branqueamento social” por meio da qual o governo brasileiro defendia a imigração.

Nesse escopo, surgem as primeiras tentativas de se construir cidades e territórios majoritariamente negros. Em Porto Alegre, por exemplo, surgem as “colônias” negras, onde o que vigorava era uma espécie de “ajuda mútua” entre os “homens de cor”. A União dos Homens de Cor é um exemplo de entidade de ajuda mútua. Fundada em Porto Alegre em 1943, estruturou-se em mais de 10 estados em apenas cinco anos. O grupo organizou-se como movimento negro no processo de redemocratização na década de 40, quando surgem outras entidades como o Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento. Lutavam contra a discriminação racial e buscavam formas de ascensão social, através da educação e da assistência social[4]. Em seu estatuto, a União dos Homens de Cor afirma seguir um sonho.

Com o advento do Estado Novo a Frente Negra foi diluída, mas as organizações do movimento negro não deixam de existir completamente. A mobilização racial volta a ter um momento relevante nos anos de 1940 e 1950, marcada indubitavelmente pelo TEN. Em torno do TEN foram organizados diversos seminários e congressos, além da atividade teatral propriamente dita, no eixo São Paulo-Rio de Janeiro, sob a liderança de Abdias do Nascimento[5].

A trajetória do TEN conta ainda com enormes contratempos e divergências, sobretudo na forma e a quem o teatro era voltado. Fundamentalmente, seus criadores advinham da elite negra paulista e carioca e, embora pautassem a questão racial, esta ainda era bastante limitada.  Dentro dessa divergência, surge, em contraposição, o TPB, idealizado por Solano Trindade. A proposta de Trindade era, em certa medida, combater o elitismo do TEN e construir um debate que abarcasse a questão de classe. Nesse momento, surge, pela primeira vez, um debate que avance para além da questão racial e que compreenda minimamente uma relação entre raça e classe.

Contudo, a experiência do Teatro Popular é minimizada e a ela não cabe mais do que meio parágrafo ou uma simples nota de rota pé na literatura acadêmica. Por outro lado, o TPB significou um avanço importante para o debate acerca da questão racial no Brasil, pois, além de compreender a “negritude”, trouxe o debate acerca das relações produção nas quais o negro estava inserido. Em síntese, essa experiência buscava levar o debate sobre o racismo para o negro trabalhador e marginalizado.

Na primeira metade do século XX, o movimento negro começa a se organizar. Contudo, suas mobilizações fugiram do que compreende a militância do movimento negro contemporâneo a respeito desse período. A Frente Negra Brasileira tinha um projeto declaradamente fascista e, mesmo assim, vazio de qualquer (na falta de uma precisão conceitual) “mobilização anticapitalista”.

Posteriormente, os esforços investidos nas ações do Teatro Experimental do Negro mostram-se ineficientes, pois além compreenderem o fim da desigualdade racial a partir da integração do negro na sociedade capitalista, não conseguia fazer chegar as classes mais baixas a “consciência da luta negra”. Por fim, a União dos Homens de Cor e diversas outras organizações assistencialistas foram duramente reprimidas e desarticuladas com o inicio da Ditadura Militar e só voltam a ter alguma organização mais solida a partir dos anos de 1970.

O Movimento Negro na segunda metade do século XX no Brasil

A segunda metade do século XX foi, em certa medida, bastante produtiva para o movimento negro brasileiro. Nesse momento, sobretudo no final dos anos de 1970, começam a surgir diversos coletivos e grupos — com diferentes tendências e perspectivas — de estudos a respeito da questão do negro na sociedade brasileira.

Numa tentativa de convergir as diferentes perspectivas para uma luta comum — ou seja, o combate ao racismo e a desigualdade racial —, surge, na esteira desses movimentos, o Movimento Negro Unificado. A criação desse movimento trazia uma novidade, mesmo que precária, para o debate racial no Brasil: pensar de forma relacionada a questão do racismo e a luta de classes. Dessa forma, a política que conjugava raça e classe atraiu aqueles ativistas que cumpririam um papel decisivo na fundação do Movimento Negro Unificado[6].

É nessa conjuntura que diversas organizações e perspectivas começam a convergir na tentativa de constituir tal movimento. Nesse sentido, vale menção ao grupo trotskista “Convergência Socialista”, que foi fundamentalmente importante para a construção do MNU e, posteriormente, sua integração ao Partido dos Trabalhadores.

É inegável o poderio organizativo do MNU em seus primórdios e como ele conseguiu atrair a juventude negra e setores da classe trabalhadora. Luiz Barcelos, em seu excelente artigo a respeito da mobilização racial no Brasil, observa que “o mais nítido projeto político da mobilização racial contemporânea se materializa com a criação, em 1978, do Movimento Negro Unificado. Dois aspectos são fundamentais no perfil do MNU. O primeiro é a integração das variáveis raça e classe na prática política da organização, o segundo é a tentativa de articular as diversas organizações e grupos atuando naquele momento”[7].

A proposta inicial era a de que o movimento se denominaria “Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial”. Porém, no primeiro congresso realizado em dezembro de 1979 no Rio de Janeiro, a organização passa a se chamar Movimento Negro Unificado.  A adoção de um referencial racial inviabilizou uma aglutinação ampla de diversos segmentos discriminados, como certamente era projeto de alguns dos militantes. Assim, caracterizou-se uma ruptura na qual o “projeto do Núcleo Negro Socialista [de luta] contra o racismo foi reformulado, sendo formada uma organização negra, independente da estrutura e da direção da esquerda, embora o princípio classista para a luta contra o racismo fosse preservado[8].

No entanto, não podemos concordar efetivamente que o MNU manteve sua posição classista e apresentaremos no próximo tópico uma análise mais profunda sobre isso. Fundamentalmente, o MNU esteve, desde sua criação, ligado aos novos partidos de esquerda e de oposição ao regime militar que surgiam naquele contexto. Com base nisso, Leitão e Silva argumentam que devemos analisar o MNU sob a ótica de um “tensionamento institucional”. Segundo eles, “[…] o tensionamento institucional seria o tipo de relação que crescentemente caracterizaria a trajetória do Movimento Negro no Brasil no período estudado. Buscando superar uma leitura simplista que tendeu a associar esta relação a uma ‘cooptação’ do Movimento pelas forças políticas no governo, sustenta-se aqui que o tensionamento institucional, combinando o ativismo institucional de militantes negros com a ação contestatória extrainstitucional é fundamental para explicar, pelo menos em parte, algumas das conquistas obtidas pelo Movimento Negro em termos de políticas de igualdade racial no Brasil pós-redemocratização”[9].

É preciso observar a perspectiva dos autores supracitados por duas diferentes óticas: em primeiro lugar, o MNU não surge completamente institucionalizado, mas, já no seu início, observa-se uma forte tendência à institucionalização, à alternativa político-partidária e a uma perspectiva que tenciona as relações e as lutas pelo viés da politica tradicional.  Em segundo lugar, a ideia de “cooptação” abordada pelos autores não se dá em sua forma completa logo no início do movimento; pelo contrario, ela se gesta e se efetiva ao longo desse processo.

Quando tratamos de “cooptação” não estamos afirmando que o negro ou “os movimentos negros” estiveram sem escolha e por isso utilizaram-se da via institucional; pelo contrário, a força política que o MNU detinha naquele momento podia ter sido voltada para uma luta exterior aos partidos e sindicatos. Então, por que não o fez? Por que optou por associar-se aos partidos que surgiam naquele momento? Em todos os livros e artigos lidos para a redação deste texto, podemos encontrar um denominador comum a respeito dessas questões: o MNU via a política institucional como lugar de representação e, por sua vez, os negros e os movimentos negros precisavam ocupá-la para que fizessem “valer a sua voz”.

A abertura para a criação de novos partidos gerou muitas expectativa nos militantes da esquerda brasileira, muitos deles lideranças de movimentos sociais como o próprio Movimento Negro. Essa oportunidade de acesso à política partidária foi encarada por muitos ativistas e organizações sociais como a possibilidade de disputa concreta de espaços políticos institucionalizados (prefeituras, governos estaduais e cadeiras nos legislativos municipais, estaduais e nacional)[10]. O Partido dos Trabalhadores foi demasiadamente importante nesse processo.

O MNU e as lutas do movimento negro contemporâneo

O atrelamento do MNU ao Partido dos Trabalhadores trouxe a possibilidade de “representação negra”. Nesse sentido, as possibilidades de luta anticapitalista no movimento negro tornaram-se demasiadamente reduzidas. Esse atrelamento gerou inúmeras divergências internas no MNU, pois não concebiam uma luta contra o racismo que estivesse vinculada a um partido politico, sobretudo parte dos militantes da Convergência Socialista e da Liga Operária. Essa perspectiva surgiu por parte da ala trotskista no MNU, que tomava uma posição minimamente anticapitalista. Esses militantes, que haviam militado anteriormente na Convergência Socialista, se viram divididos, pois a sua ampla maioria ingressou no PT.

Na medida em que o PT cresce e alcança cargos nos municípios e nos estados, os quadros do MNU aumentam. Concomitantemente, observa-se ainda uma relação onde cada vez mais os militantes estão inseridos nas dinâmicas institucionais.  No terceiro capítulo de sua dissertação de mestrado, acerca da “elite política negra no Brasil”, Flavia Rios observa que, a partir desse atrelamento do MNU ao PT, uma série de coletivos e organizações do movimento surgem reproduzindo essa mesma dinâmica institucional. No decorrer de sua análise, a autora aponta poucas organizações e períodos de uma luta anticapitalista no movimento negro brasileiro[11].

Após quase trinta anos de institucionalização, o MNU transformou-se numa organização que possui pouca — ou quase nenhuma — inserção no movimento negro. No entanto, a perspectiva de “representação política” continua demasiadamente inserida no movimento negro, talvez por influência do MNU ou da capitalização crescente das lutas, dos símbolos, dos movimentos e da cultura negra[12].

Encontra-se inserida nesse processo a busca por reafirmar o negro na sociedade de classe. Essa luta, por sua vez, apresenta igualmente todos os vícios das organizações negras anteriores, pois reforça o colorismo e se mostra cada vez mais contrária às relações inter-raciais. Para além desse aspecto primário, o movimento negro contemporâneo apresenta diversas outras características que reproduzem as velhas dinâmicas e perspectivas do movimento negro brasileiro.

Dessa forma, as lutas do movimento negro se reduzem apenas a mera luta por “emancipação política”, aquela que serve apenas para emergir ao status de uma nova elite, reproduzindo, assim, as condições de opressão do capitalismo. Nota-se ainda uma íntima relação entre o fascismo e o movimento negro brasileiro. Em diversos momentos, observa-se um apoio declarado ao nazifacismo ou, ainda, diversas práticas e perspectivas fascistas no interior desse movimento.

Portanto, não poderia terminar este texto sem antes deixar o questionamento: é possível construir um movimento negro anticapitalista nas atuais condições?

Notas

[1] BARCELOS, Luiz. Mobilização Racial no Brasil: uma revisão crítica. Afro-Ásia, v.1, n. 17, 1996. p. 196.
[2] DOMINGUES, Petrônio. Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos. Tempo, v. 12, n. 23, 2007. p. 106.
[3] Sobre a ideia de retorno à África, recomendo a leitura da série De volta à África, de Manolo e João Bernardo.
[4] CAMPOS, Daivison M. C. de. O grupo palmares (1971-1978): um movimento negro de subversão e resistência pela construção de um novo espaço social e simbólico. 2006. Dissertação (Mestrado em Historia) — Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006.
[5] BARCELOS, Luiz. Mobilização Racial no Brasil: uma revisão crítica. Afro-Ásia, v. 1, n. 17, 1996. p. 196.
[6] BARCELOS, Luiz. Mobilização Racial no Brasil: uma revisão crítica. Afro-Ásia, v. 1, n. 17, 1996. p. 199.
[7] Ibid., p. 199.
[8] Ibid., p. 199-200. Grifo nosso.
[9] LEITÃO, Leonardo; SILVA, Marcelo. Institucionalização e contestação: as lutas do Movimento Negro no Brasil (1970-1990). Política & Sociedade, Florianópolis, v. 12, n. 17, set./dez. 2017. p. 320.
[10] Ibid., p. 343.
[11] RIOS, Flávia. Elite política negra no Brasil: relação entre movimento social, partidos políticos e Estado. 2014. Tese (Doutorado em Sociologia) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.
[12] É preciso esclarecer, para que não haja equívocos, que para nós essa capitalização faz parte do capitalismo e de sua dinâmica do lucro. Portanto, não se toma essa capitalização como algo desatrelada do capitalismo. Desse modo, superar essa relação implica na ruptura com o capitalismo.

As obras que compõem a ilustração deste artigo são do pintor Sul-africano George Pemba (1912-2001)

 

8 COMENTÁRIOS

  1. Caro Nicolas, seu artigo traz interessantes provocações, que em parte retomam (até explicitamente) intervenções feitas anteriormente no Passa Palavra, por diversos autores. Vejo, porém, uma tensão interna em seu texto: você oscila entre ver/discutir/problematizar UM movimento negro, no singular, e ver/discutir/problematizar VÁRIOS movimentos negros, no plural. Me parece que você incorre, aqui, em uma confusão bastante comum: a de, tomando os nomes de determinas organizações pelo seu valor de face, entender cada uma delas como um “movimento” em si. Ao mesmo tempo, contudo, você se refere, diversas vezes, “ao” movimento negro, de maneira generalizante. Ora, uma coisa é um movimento social enquanto realidade sociopolítica complexa, sendo que, em geral, um movimento social, nesse sentido, abriga e é animado, ao longo dos anos ou das décadas, por várias (ou até mesmo muitas) organizações ou entidades específicas. Essa não é uma questão conceitual de natureza meramente acadêmica, pois as implicações políticas são evidentes. Você está problematizando algumas organizações ou tendências, reconhecendo que nem tudo se resume a elas, ou pretende, de fato, afirmar que o conjunto ou a totalidade do movimento em questão, por heterogêneo que seja, merece as ressalvas e críticas levantadas por você? Se não se trata do conjunto ou da totalidade do movimento, mas sim de apenas uns tantos “movimentos” específicos (= organizações específicas e suas tendências), você estaria a sugerir, então, que, mesmo sendo apenas a parte e não o todo, seria essa parte aquela que teria dado e continuaria dando o tom político-ideológico? Se tampouco você tiver condições de confirmar taxativamente uma tal hegemonia, por que, então, dar a entender justamente isso? A particular visibilidade (conjuntural) de certas organizações nos autoriza a exagerar o alcance de sua mensagem e de sua influência? (No caso do MNU, aliás, você mesmo se refere à sua “pouca — ou quase nenhuma — inserção” no movimento propriamente dito.) Essas e outras questões nos remetem a um problema que é, simultaneamente, de rigor (com as informações de que dispomos, o que é que realmente se pode afirmar a respeito da frequência ou predominância de determinadas posições?) e de comunicação e debate político (se generalizarmos de forma abusiva, mesmo não sendo a nossa intenção, isso colabora para construir um diálogo, se é que de fato almejamos isso?). Para além de quaisquer discordâncias específicas, penso que esse problema pode contribuir para, infelizmente (e com certeza não intencionalmente), se gerar mais calor que luz (o que tem sido típico desse tipo de discussão).

  2. O texto do autor vale mais pela provocação do que pela argumentação que, inclusive, tem certos afirmações genéricas que pouco contribuem para a devida compreensão do tema. Em que pese ser parcialmente verdadeira a assertiva de que “as lutas do movimento negro se reduzem apenas a mera luta por ’emancipação política'”, deixa de considerar uma diversidade de discursos e práticas políticas presentes no movimento negro. Tais não se resumem, desde a década de 1970, apenas ao MNU. Acreditar ou sugerir que o MNU seja uma “CUT do movimento negro” é generalizar uma visão de senso comum ainda presente em certas análises açodadas de parte da esquerda. Poderia o texto avançar significativamente se afirmasse, por exemplo, que o MNU é, essencialmente, um movimento urbano e limitado a poucas capitais, com capilaridade reduzida no país, o que reflete na capacidade de atuação concreta e efetiva para parcela relevante da população negra.
    O pior é afirmar que “Em diversos momentos, observa-se um apoio declarado ao nazifacismo ou, ainda, diversas práticas e perspectivas fascistas no interior desse movimento”. No próprio texto, o autor circunscreve ao período dos anos 1930-40, razão pela qual tal afirmativa é contrária à sua própria argumentação.
    Veja que o movimento negro se aproxima, historicamente, mais do PDT do que do PT, em termos de cargos, invertendo-se isso em meados dos anos 1990.
    Por outro lado, o autor sequer faz uma crítica da relação entre partidos de esquerda e movimento negro, o que permitiria aprofundar e compreender os motivos pelos quais há um tensão permanente que trava, de ambos os lados, um debate concreto e honesto sobre raça e classe.
    Por fim, o “identitarismo” é uma tônica de grande parte do movimento negro, contudo não é única perspectiva. E parece que, de acordo com o que texto sugere, não há nada de novo desde o surgimento do MNU…

  3. Caro, Marcelo!

    A proposta do texto era justamente discutir o contexto, as políticas, as perspectivas e os fins dessas três organizações, que são fundamentais para compreender o movimento negro brasileiro e sua luta. Claro, sei que existiram e existem outras organizações que foram fundamentais (Clube dos Homens de Cor, Frente Negra Socialista, Jornal Quilombo, Clarim D’Alvorada, Teatro Popular Brasileira e etc). Mantive o foco nessas três organizações, pois é necessário um debate introdutório: Saber quem são, onde se localizam, o que pensam e como se relacionam com o contexto político. Quando me refiro a determinada organização e sua relação como o “negro” e os outros movimentos, não busco excluir outras organizações, mas focar justamente nessa relação. RELEMBRANDO: o texto traz apenas uma discussão introdutória, que posteriormente vai ser desenvolvida. A respeito do MNU e a sua pouca inserção, deve-se ao fato que, primeiro, ela não abarca quantitativamente o “negro” e nem tem poder para abarcar a longo prazo. em segundo, o MNU distanciou-se de sua base e tornou-se apenas um fantasma do passado, mesmo que embora ainda exista.

    Caro, João!

    Como pode ser observado no meu comentário anterior, esse texto é apenas introdutório. Posteriormente, pretendo promover uma análise mais geral de cada uma das organizações citadas e suas relações com outras organizações do movimento negro brasileiro. Em primeiro lugar, não me recordo de associar o MNU como sendo uma “CUT do movimento negro”, pelo contrário, o processo de construção do MNU é bem mais amplo que isso e mesmo que não tenha aprofundado nessa questão, o texto traz essa perspectiva.

    Gostaria que explicasse novamente essa parte: “O pior é afirmar que “Em diversos momentos, observa-se um apoio declarado ao nazifacismo ou, ainda, diversas práticas e perspectivas fascistas no interior desse movimento”. No próprio texto, o autor circunscreve ao período dos anos 1930-40, razão pela qual tal afirmativa é contrária à sua própria argumentação”, pois não entendo que contradição ela expressa no texto. Pelo contrário, ela coloca de forma clara as relações que a FNB mantinha. Recomendo a leitura da dissertação de André Cortez (2006) que traz de forma profunda essa análise que é demasiadamente ignorada e causa certa ignominia no movimento negro contemporâneo. Para além disso, os textos de Arlindo Veiga dos Santos e de Pedro Barbosa no jornal “A voz da raça” deixam essa questão ainda mais clara, do ponto de vista da própria direção da FNB.

    A respeito disso: “Veja que o movimento negro se aproxima, historicamente, mais do PDT do que do PT, em termos de cargos, invertendo-se isso em meados dos anos 1990.
    Por outro lado, o autor sequer faz uma crítica da relação entre partidos de esquerda e movimento negro, o que permitiria aprofundar e compreender os motivos pelos quais há um tensão permanente que trava, de ambos os lados, um debate concreto e honesto sobre raça e classe”. Concordo que não há menção a isso no texto e de fato houve um erro da minha parte, mas esquecer e ignorar são duas coisas diferentes. No tange a problemática, acho que a relação do MNU com o PT é demasiadamente mais ampla que a relação com o PDT. Exemplo disso é que essa relação dura até hoje e deu outro rumo para o MNU.

  4. Caro Nicolas, mesmo em textos introdutórios, devemos ter cuidado com afirmativas generalizantes. Isso não desconstitui o seu texto que, como te disse, vale mais pelas ótimas provocações – esse é o seu mérito -.
    O MNU como uma “CUT do movimento negro” não consta do seu texto, é verdade, contudo ainda é uma impressão corrente em parte da esquerda. No que se refere à relação do MN com o fascismo, não há dúvidas de que ela existiu, contudo o que eu discordo é de que seja um recorte histórico para além dos anos 1930-1940.
    Por fim, a relação do MNU com o PT é mais ampla, verdade. Por outro lado, o PDT foi nos anos 1980 mais aberto ao movimento negro do que o PT em termos de cargos políticos.

  5. Caro, João!

    Concordo que existe essa perspectiva, mas quando mencionei o fascismo eu me referi – talvez com um recorte maior, pois abarca outros aspectos – aos anos de 1920, 30 e 40. Compreendo que em certa medida a participação do MN nos movimentos fascistas e as suas práticas fascistas foram e são minimizadas nos anos de 1920, mas se observarmos, principalmente, em 1929 parte massiva dos integrantes do movimento patrianovista ajudaram a fundar a FNB. Depois disso, observar-se a relação da FNB com o movimento integralista. Este fato pode ser facilmente constatado nas publicações do A voz da Raça. Para além desse momento, não me referi ao movimento negro como fascista. Atentei para explicar as particularidades dessas três organizações, como me propus.

    Sobre a TEN e o MNU, surge em contextos distintos, com dinâmicas distintas… Concordo que não aprofundei como gostaria na questão da relação entre os partidos políticos e o MNU, mas pretendo corrigir este erro posteriormente.

  6. Não deixa de ser um mérito interessante ver um texto neste passa palavra, assinado, que defenda de forma tão aberta e de forma tão mal feita a tese absurda de que o movimento negro seria nazifacista historicamente no Brasil.

    Mostra que a acusação de ser racista já não é mais sequer motivo de vergonha por aqui, e que o identitarismo da cruzada anti-identitária por aqui já perde a vergonha de mostrar sua face complemente delirante e ressentida – seja lá o motivo do autor querer atacar de forma tão contundente e pouco embasada o movimento negro em geral, vai saber foi chamado de racista na facul ficou muito triste e resolveu revidar.

    Neste sentido, destaco o seguinte parágrafo:

    ” Dessa forma, as lutas do movimento negro se reduzem apenas a mera luta por “emancipação política”, aquela que serve apenas para emergir ao status de uma nova elite, reproduzindo, assim, as condições de opressão do capitalismo. Nota-se ainda uma íntima relação entre o fascismo e o movimento negro brasileiro. Em diversos momentos, observa-se um apoio declarado ao nazifacismo ou, ainda, diversas práticas e perspectivas fascistas no interior desse movimento. ”

    O flerte do movimento negro com o fascismo no Brasil se resume a frente negra e ao Garveysmo, ambos movimento cheios de contradições de classe, por exemplo, é conveniente que o autor não mencione a organização dos negros marginalizados, como as empregadas domésticas e os desempregados, que floresceu em suas primeiras luta, sindicatos e associações de forma muito importante dentro da frente negra – e não atoa não tinha espaço em outros campos da esquerda do período. Também é muito conveniente que o autor ao falar da postura discriminatória da frente negra aos imigrantes europeus não mencione que e entrada desses imigrantes no Brasil estava relacionada a teses eugenistas de importação de brancos para clareamento da nação, que a oferta de grande quantidade de vagas de trabalho estava vedada aos negros por essas mesmas teses racistas enquanto eram vagas exclusivas para imigrantes brancos e a própria postura de parcela significativa do movimento sindical desses trabalhadores brancos que se organizavam então também era fortemente marcada pelo racismo.

    Generalizar esse flerte com o nazifascismo é uma tese absurda, que não se sustenta em lugar nenhum da própria bibliografia supostamente mobilizada pelo autor. Consiste apenas em uma generalização tosca, do tipo esses preto são tudo igual, só faz merda, etc.

    Mais grave é a acusação de que todo o movimento negro no Brasil se resumiu a uma perspectiva de emancipação politica e ascensão social de alguns indivíduos negros, que esse tenha sido o resultado final de parte da movimentação é uma triste verdade, que também se aplica ao movimento sindical e mesmo comunista em muitos contextos da nossa história. Agora que se generalize como programa do movimento negro num texto que fala do movimento sem fazer uma única menção aos seus programas, pautas ou lutas concretas (se é que o autor as conhece) é inaceitável e desonesto.

    Por fim outro ponto convenientemente ignorado pelo autor mas que poderia ser uma pista para a questão que ele coloca no fim é a relação do movimento negro com a repressão, a forma como mesmo o movimento negro mais reacionário também foi tratado como caso de polícia, como a luta contra a repressão é absolutamente central em todos os momentos do movimento negro, de forma que mesmo quando este se afirma de forma estritamente identitária rapidamente esbarra ou enfrenta os limites claros da repressão do Estado.

    Portando para a questão final do texto acredito que seria necessário fazer uma pesquisa que faça mais do que juntar argumentos com viés de confirmação das intenções “anti-identitárias” do autor, se quisermos responder “se é possível construir um movimento negro anticapitalista nas atuais condições? ” mais razoável seria olhar para o que realmente tem sido feito historicamente nesse sentido com todos os limites, e não apenas juntar argumentos para uma resposta negativa. Uma pista para uma resposta mais interessante se apresenta talvez em sua forma mais clara justamente analisando as lutas contra a repressão do genocídio e do encarceramento em massa, lutas que carregam um longo legado das experiências organizativas históricas tratadas no texto apesar dele não as mencionar.

  7. fiquei interessado na figura deste Solano Trindade; se a academia pouco fala dele, imagine o resto do povo. Que recomendação se faria para um curioso que precisa mais do que a Wikipedia?

  8. Caro, Gabriel!

    Em primeiro lugar, não sei qual o problema que você tem com o Passa Palavra, afinal de contas eu não sou o PP e acredito que mesmo internamente exista debate e contradições, como qualquer outro movimento. Por causa disso, a sua tentativa de ridicularizar o texto não me parece eficaz.

    Em segundo lugar, você diz que “[…] a acusação de ser racista já não é mais sequer motivo de vergonha por aqui, e que o identitarismo da cruzada anti-identitária por aqui já perde a vergonha de mostrar sua face complemente delirante e ressentida – seja lá o motivo do autor querer atacar de forma tão contundente e pouco embasada o movimento negro em geral, vai saber foi chamado de racista na facul ficou muito triste e resolveu revidar”. Bom, acho belíssima a forma com que você observa que sou “branco” somente pela minha escrita. Ora bolas, como um negro deveria escrever? deveria concordar de todo com o movimento negro? Caso contrário, seria chamado de branco? De passa pano e etc? Não entendi, preciso de algum registo oficial? Onde devo anexar o meu comprovante de negro? O que me parece é a sua tentativa de denunciar o que entende por racismo, nada mais é do racismo.

    Isso me fez lembrar de um artigo publicado por João do Campo no A voz da Raça, n. 17, 15/07/33 p. 4, intitulado “Falsos Negros”, em que diz:

    “[…] Falsos Negros são aqueles que por nada saberem e nada compreenderem vivem fazendo mexericos contra a Frente Negra e contra a raça. Falsos Negros são aqueles que querem saber muito e nada sabem. Nós negros que já estamos identificados com a nossa causa não devemos tolerar com os Falsos Negros. Devemos dar-lhes o mais breve possível o golpe de misericórdia para que eles conheçam a pujança dos negros que só querem o progresso da raça.”

    Posteriormente você utiliza esse paragrafo para por em xeque toda a discussão feita anteriormente, de modo a caracteriza-la como “forma tão mal feita a tese absurda de que o movimento negro seria nazifacista historicamente no Brasil”.

    Bom, não sei se você leu o texto com atenção, mas me refiro a relação entre nazifascismo e movimento negro, no inicio do texto, quando discuto a FNB. Doravante, não menciono essa relação com outras organizações do MN. Pelo contrário, as organizações embora possuem algumas singularidades, não reproduzem o todo daquelas que a precederam.

    Depois disso você acrescenta: “é conveniente que o autor não mencione a organização dos negros marginalizados, como as empregadas domésticas e os desempregados, que floresceu em suas primeiras luta, sindicatos e associações de forma muito importante dentro da frente negra – e não atoa não tinha espaço em outros campos da esquerda do período. Também é muito conveniente que o autor ao falar da postura discriminatória da frente negra aos imigrantes europeus não mencione que e entrada desses imigrantes no Brasil estava relacionada a teses eugenistas de importação de brancos para clareamento da nação, que a oferta de grande quantidade de vagas de trabalho estava vedada aos negros por essas mesmas teses racistas enquanto eram vagas exclusivas para imigrantes brancos e a própria postura de parcela significativa do movimento sindical desses trabalhadores brancos que se organizavam então também era fortemente marcada pelo racismo”.

    Em diversos momentos do texto refiro-me as clubes e a imprensa como organizações e meios extremamente importantes para a FNB. A tese da relação entre FNB e nazifascimo, surge justamente no seio do jornal A voz da Raça. O embrião da FNB, por sua vez, surge nos clubes da “gente negra”. Se conheces a história da FNB tão bem quanto imagino, perceberia que o projeto sindical da FNB surge em meados de 1933 e durante o curto período de existência da FNB, não alcançou expressividade. Para além disso, a proposta sindical, formulada por Arlindo Veiga, tem diversas semelhanças com o sindicalismo católico e a proposta sindical da AIB. Para além disso, os movimentos que pautam-se contra a imigração na Europa e nos Estados Unidos se baseiam justamente nesse argumento: de que os imigrantes retiram trabalho dos trabalhadores locais (coisa que já foi discutida em outro texto publicado no site) e que esses imigrantes trazem consigo culturas e perspectivas que são hostis. Me parece que são “roupas velhas e pele nova”.

    Na sequência você acrescenta que “Agora que se generalize como programa do movimento negro num texto que fala do movimento sem fazer uma única menção aos seus programas, pautas ou lutas concretas (se é que o autor as conhece) é inaceitável e desonesto”. Caro, recomendo que leia os comentários anteriores, onde explico que este texto faz parte de uma série de textos que buscam aprofundar no debate, nas lutas, as organizações e os programas do MN.

    Caro/Cara, Antenágoras!

    Quando iniciei os estudos sobre o movimento negro brasileiro – coisa de dois/três anos atrás – fiquei bastante interessado em Solano Trindade. Na ocasião não podia limitar-me a ele, pois era um trabalho acadêmico voltado para as lutas do movimento pós redemocratização. Procurei algumas coisas de forma independente e acho que a proposta de Trindade é muito importante:

    A principio, recomendo a dissertação de mestrado da Maria do Carmo Gregório, que busca observa o debate entre raça e classe promovido por Trindade e a sua relação com o Teatro Popular Brasileiro – http://objdig.ufrj.br/34/teses/MariaDoCarmoGregorio.pdf

    Mas você pode ler, caso queira, o livro Tem Gente com Fome.

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