Por Um trabalhador da universidade

UFG, a mais perfeita normalidade…

… em que 100% dos vigias desarmados serão demitidos?
… em que todos ficam esperando o dia do aviso prévio chegar?
… em que ninguém sabe como e por que podem ser cortados?

“Todo dia que a gente chega fica sabendo de uma pessoa que está de aviso prévio”, conta um vigia desarmado da Guardiã. “No começo do ano, falaram que iam demitir 24 funcionários da limpeza, depois mudaram de ideia e pediram para voltar e ‘rasgar o aviso'”, conta uma colega da limpeza, “Muitos não aceitaram, claro, porque aí já é palhaçada, mas a gente precisa comer, né”? Tinha um senhorzinho que trabalhava aqui há 14 anos. Ele teve um ataque do coração quando recebeu o aviso. Não esperava uma coisa dessas a essa altura da vida. “Toda vez que o chefe chega a gente pergunta se chegou o nosso dia” — outra fala de uma colega terceirizada da Guardiã. “Estão dizendo que vão substituir a gente por bolsistas ou… será que realmente é desnecessário assim? Que não vale nada”?

Trabalhadores que antes se sentiam orgulhosos de fazer parte da comunidade da UFG, apesar das injustiças e problemas, hoje conhecem um sentimento em relação a instituição: o medo, a sensação de ser um nada prestes a ser jogado fora. Essa é a situação de “normalidade” que se instalou na UFG após os bloqueios orçamentários do governo federal no início do ano. Sabemos que a reitoria não é responsável pela falta de dinheiro. Que de fato pegaram o dinheiro da educação para comprar votos na reforma da previdência e outras negociatas. Porém, o governo não mandou a reitoria cortar no lado mais fraco, que são os trabalhadores terceirizados. O governo não mandou a reitoria falar que os vigias desarmados são inúteis e agora só vamos ter câmera e guarda armado. O governo não mandou demitir e des-demitir funcionários da limpeza, criando uma situação vexatória. Não é o governo que disfarça a situação de corte de trabalhadores falando de ‘dificuldade de pagamento de serviços como segurança e limpeza’. Não é serviço de segurança e limpeza. São nossos colegas. Pessoas que são parte da nossa comunidade. Que estão sendo eliminadas da comunidade sem debate, sem transparência, sem respeito.

Existe alternativa? É claro que existe. É possível cortar os intermediários da equação, as empresas terceirizadas, e contratar os funcionários diretamente via Funape via processo seletivo — como é feito com diversos serviços ‘essenciais’ da universidade. Pelo menos com isso se retira um intermediário que só faz pegar 70% do dinheiro que seria investido em funcionários e deixa um salário minimo para seus empregados. É possível jogar a crise para a comunidade ajudar a resolver por meio da mobilização. É possível debater, construir junto, conversar e respeitar a dignidade dos nossos colegas.

O que não é mais possível, que não conseguimos mais tolerar, é que se trate a questão dos nossos colegas terceirizados como uma coisa pequena, uma questão secundária. Não por parte da reitoria. Não por parte dos sindicatos que se dizem preocupados com os trabalhadores. Com os estudantes que dizem se preocupar e fazer uma aliança com ‘a classe trabalhadora’. Sem o limpador não tem universidade. Sem segurança ninguém tem coragem de pisar aqui. Sem um senso mínimo de comunidade, isso aqui não anda. Não admitimos que nos imponham categorias de gente: os descartáveis e os importantes. Nos recusamos a impor a esses colegas aterrorizados que tenham que trabalhar por quatro ou cinco.

Isso não. Precisamos de outra coisa. Qualquer outra coisa. O mínimo, o mínimo é defendermos os que estão do nosso lado e entendermos que estamos tratando aqui de colegas trabalhadores, não de ‘serviços de ‘segurança’, de ‘limpeza’ — como energia e água, mas sim de colegas que estão todo dia ali. E que irão ser eliminados sem debate, sem discussão e talvez nem seja pelos cortes.

Publicado originalmente pelos Invisíveis aqui.

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