Por Raquel Azevedo

No dia em que a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou o impeachment de Donald Trump, Paul Krugman dedicou sua coluna em The New York Times ao que chamou de macroeconomia da série de TV The expanse. Não havendo nada que pudesse fazer pelo destino da república naquele dia, como ele mesmo escreve no início do texto, Krugman se vale dos desdobramentos da colonização do sistema solar -– pano de fundo das quatro temporadas da série -– para falar de uma das marcas mais significativas dos anos 2010: a estagnação secular.

Na Terra de The expanse, metade da população está desempregada em razão do desenvolvimento tecnológico e sua sobrevivência depende da provisão direta de moradia e alimentação pelo governo. Marte, em contraste com a Terra, experimenta, nas três primeiras temporadas, uma situação de pleno emprego em razão dos gastos militares e do processo de terraformação (terraforming) do planeta, isto é, devido às obras de engenharia que buscam torná-lo adequado à vida humana. Quando, porém, os impasses diplomáticos que pressionavam a manutenção de gastos militares elevados encontram uma solução e uma descoberta científica torna viável o acesso a centenas de planetas habitáveis, as duas modalidades de gastos que mantinham o pleno emprego de Marte se perdem. O desemprego cresce e ex-militares se voltam para o crime.

Krugman argumenta que o elevado nível de desemprego em Marte decorrente da desmobilização da guerra fria interplanetária e do fim das obras de terraformação indica que sua causa não é o desenvolvimento tecnológico, mas a estagnação secular. Essa expressão tem sua origem, como conta Monica de Bolle na sua coluna no Estadão, no discurso do presidente da Associação Americana de Economia (American Economic Association), Alvin Hansen, em 1938. “Era o final da Grande Depressão”, escreve Monica, “mas Hansen sugeria que talvez o mundo estivesse à beira de nova era em que o desemprego seria persistentemente mais elevado do que anteriormente e o crescimento econômico permaneceria muito baixo sem alguma outra força que pudesse empurrar a economia de volta aos níveis de emprego que predominaram antes da crise de 1929”.

Depois da crise de 2008, o economista Larry Summers, secretário do Tesouro americano na segunda administração de Bill Clinton e diretor do Nacional Economic Council na primeira administração de Barack Obama, retomou a ideia de estagnação secular para designar as taxas de juros persistentemente baixas nas economias desenvolvidas. Com um passo a mais, chegaríamos ao principal problema com que se ocupa a Modern Money Theory (MMT): o extraordinário aumento da base monetária resultante da política dos bancos centrais ao longo da última década não significou uma elevação do nível de preços da economia, como parece indicar a teoria quantitativa da moeda. A razão, segundo os defensores da MMT, é que a moeda fiduciária (sem lastro) se comporta de modo passivo. O Estado cria recursos financeiros à medida que gasta.

Monica defende que o diagnóstico da estagnação secular também se aplica ao Brasil, visto que os baixos índices de crescimento do país não se devem, como em outros momentos de nossa história, a crises cambiais, bancárias ou fiscais agudas. A saída? Segundo Larry Summers: elevação dos gastos públicos em infraestrutura. “Estradas, pontes, portos”, escreve Krugman, “e, caso você viva num planeta sem ar respirável, terraformação”. A conclusão de Krugman é que “antes do estabelecimento da paz, Marte era uma sociedade saudável porque tinha um grande projeto; quando esse grande projeto se tornou desnecessário, em lugar de liberar recursos para outras atividades, as coisas ficaram piores”.

Duzentos anos nos separam da estagnação secular interplanetária da série The expanse. Nossa história colonial, porém, não nos permite esquecer que a colonização não é um processo que corresponda à mímeses, em que a cópia ganha os poderes do original. O que se passa na colônia explica o funcionamento da metrópole, não o imita. Centro e periferia nascem juntos, não há convergência possível. Mesmo a terraformação é apenas uma cópia fraca em solo marciano. É aqui na Terra que ela deve se tornar um verdadeiro problema.

2 COMENTÁRIOS

  1. olá Raquel, muito proveitoso uma coluna de economia aqui no PP!
    Achei bem interessante a existência dessa tal série, dá para perceber o nível de ansiedade com o futuro que estamos vivendo – não tanto uma ansiedade boa, senão uma ansiedade com efeitos bastante ruins. Todas essas distopias e futurismo debatendo o presente, pensando cenários semi-realistas a partir dos nós que temos que enfrentar no agora…
    Tenho uma pergunta: esse termo, “estagnação secular”, a palavra secular costuma me confundir em seus usos. O que é que você entende dessa palavra nesta expressão?

  2. Oi, dagoberto! Olha, pelo que eu entendo, o secular nessa expressão significa que se trata de uma insuficiência crônica de demanda. Não estaríamos diante de um problema cíclico ou de curto prazo, para o qual se conhecem políticas econômicas que poderiam mitigá-lo. A questão seria estrutural e poderia se estender indefinidamente (Keynes escreve na Teoria geral sobre a tendência de que haja uma lacuna cada vez mais significativa entre produção efetiva e potencial nos países ricos e a coluna da Monica que eu cito no texto nos leva a crer que também seria possível afirmar isso a respeito da economia brasileira).

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