Ocupação do Seta do Capão Redondo

Invisíveis entrevistam ex-funcionário do Seta

Há três anos, trabalhadores da rede de supermercados Seta Atacadista foram pegos de surpresa com a falência repentina do grupo, que tinha mais de 50 lojas em São Paulo. Com os salários atrasados, prateleiras vazias e algumas demissões, muitos perceberam o que estava por vir e resolveram reagir. Quando viram que o adiantamento do salário também não seria pago, os funcionários da unidade do Capão Redondo fizeram greve e bloquearam a entrada do mercado para convencer os clientes a não fazer compras. No entanto, sem nenhum aviso prévio, na calada da noite, os patrões tentaram desmontar a loja às pressas e levar toda a mercadoria embora, mas foram impedidos pelos trabalhadores mobilizados, que estranharam a movimentação no local e barraram a saída dos caminhões. Daí em diante, eles permaneceram dia e noite fazendo vigília em frente ao mercado para garantir que as mercadorias só seriam retiradas quando todos os funcionários fossem pagos. O movimento se espalhou e trabalhadores de outras unidades também montaram vigílias para impedir que as lojas fossem esvaziadas. Essa estratégia de tomar as mercadorias como “refém” mostrou alguns resultados no início, mas foi perdendo força conforme os produtos iam se deteriorando. Após negociações, os bloqueios foram desfeitos e a mobilização refluiu.

Três anos depois, esses trabalhadores ainda esperam na justiça para receber o dinheiro que os patrões embolsaram. Abaixo, entrevistamos um dos funcionários demitidos da loja do Capão Redondo que nos contou um pouco como se deu essa luta.

Luta no Seta from Passa Palavra on Vimeo.

Invisíveis (IN): Vamos começar te perguntando qual era o tamanho da empresa, como era o trabalho…

Ex-funcionário do Seta (EX): No começo a gente era um dos poucos atacadistas no Capão Redondo. Éramos uns 130 funcionários no Capão e era uma bagunça, uma família, né? Porque todo mundo trabalhava junto, e a gente passava mais tempo na loja do que propriamente em casa…

A base salarial do pessoal era o piso salarial de um operador de hipermercado, mas eles faziam muita hora extra – em época de recesso mesmo, dificilmente eles faziam menos do que 10, 11 horas. Eu muitas vezes abria a loja às cinco da manhã e chegava em casa meia noite. E desvio de função era em excesso, o cara era operador de loja e tinha que carregar entulho, carregar lixo… Não tinha muito essa de função não, tinha que fazer tudo.

IN: E você acha que essas condições se repetem nos outros mercados e atacadistas?

EX: O trabalho, a bem dizer, é sempre o mesmo: você vai se lascar tanto trabalhando num mercadinho de vila quanto num mercado grande, num hiper da vida. Mas a questão é que nos outros é mais organizado. No Seta, quando eu comecei a trabalhar, chegava 10, 12 caminhões por dia. E isso num período de crise no Brasil: enquanto a gente via que as outras lojas não estavam recebendo mercadoria, ele estava recebendo mercadoria em excesso. Tanto é que essa mercadoria que a gente recebia em excesso muitas vezes acabava no lixo. Isso já tava cheirando a algum golpe há um tempo. Parecia que eles estavam comprando em excesso pra depois não pagar o fornecedor.

IN: E como era a relação entre os funcionários? Quando teve o movimento, deu pra perceber que vocês tinham uma liga muito forte entre vocês…

EX: É que a gente estava junto desde a inauguração, a gente pegou o processo desde a obra: carregamos entulho, secamos chuva, água. E eu sou daquela seguinte opinião: só o trauma coletivo traz a união. Então desde o começo passando por isso, a gente tinha uma união legal.

IN: Você pode nos contar como teve início o movimento no Capão?

EX: A gente já tinha tido conflito na época do 13º, né?! Quando foi ser paga a primeira parcela eles atrasaram, a gente foi perguntar o porquê e fomos tratados de maneira ríspida, não deram nenhum posicionamento. Aí atrasaram também a segunda parcela e o pagamento, aí em janeiro teve o primeiro corte de funcionários e o fechamento da loja, e então começou o movimento.

Dia 17 eles mandaram 30 funcionários embora, inclusive eu estava nesse meio. Eram dois encarregados, mandaram um e seguraram o outro. Aí nisso já estávamos com o pagamento e o vale atrasado, e mandaram esses 30 funcionários embora. Mas continuaram sem pagar ninguém.

Aí nisso encostou o Sindicato dos Comerciários, UGT (União Geral dos Trabalhadores), que eu tenho o maior desprazer de ter conhecido. E foram para lá, e sugeriram fazer um movimento de greve: parar, cruzar os braços e ninguém atender nada enquanto não fizesse o pagamento ou desse alguma satisfação. Foi um dia parado de greve, o sindicato deu apoio com carro de som e água (só isso também, depois mais nada…). Aí o Seta mandou um encarregado do RH – da loja central – para conversar com o pessoal, afirmando que iam fechar a loja às 18h e no outro dia abrir normalmente e que era pro pessoal ir pra lá na manhã seguinte, que eles iam dar um jeito de acertar os salários. Aí no outro dia eles iam voltar a trabalhar, se não tivesse pagamento eles iam continuar em greve. Porém, ainda naquela noite os patrões decidiram fechar a loja.

IN: No meio da noite? E como vocês ficaram sabendo?

EX: Como era uma loja dentro da comunidade, muitas das pessoas ali moravam perto, né? Então quando foi mais ou menos umas 22h, eu recebi uma ligação informando que tava chegando carros e caminhões para levar a mercadoria que tinha dentro da loja embora. Aí passei pro nosso pessoal, nos grupos de WhatsApp que a gente tinha.

Então o pessoal se organizou e decidiu descer pra loja. Eu até tive uma certa resistência pra descer, mas acabei descendo. Quando a gente chegou lá, eles estavam em treze caminhões e uns 20 carros mais ou menos. Tinha mais de 50 pessoas lá dentro fazendo a desmontagem pra levar embora as mercadorias. Alguns dos funcionários que desceram pra loja chegaram lá ameaçando e eles ficaram com medo e desistiram de fazer a desmontagem. Aí chamaram a polícia.

Uma placa de protesto na loja fechada do Seta em Mauá

IN: E aí, o que rolou?

EX: A polícia conversou com a gente, perguntou o que que a gente queria. A gente falou: “Ah! A gente só quer que eles vão embora e não levem nada”. Aí entrou eu e um colega, a gente revistou caminhão por caminhão. Só dispensamos eles quando garantimos que estavam todos vazios. Mandamos eles embora, eles não levaram nada. Depois disso ficamos vigiando pra não chegar mais ninguém pra levar as mercadorias.

A gente calculou: eles vão esperar a gente dar uma apaziguada e vão vir, vão tentar levar. Então o que a gente decidiu? Vamos ficar aqui durante o dia, a gente já teria que estar trabalhando mesmo, e de noite a gente reveza. Um pessoal fica um tanto, outro pessoal fica outro tanto, pra eles não virem aqui levar. Então não foi bem um movimento de ocupação, mas a gente travou a entrada e segurou a mercadoria por mais de um mês. Durante esse tempo, o pessoal se revezava pra ir pra casa, se revezava pra trazer água, comida pra gente… Dentre os moradores, também.

IN: Então isso aí de segurar a mercadoria era uma pressão, né?

EX: Era uma forma de receber alguma coisa, né? Tanto era uma mercadoria refém, pra ele fazer alguma negociação com a gente, quanto porque se eles não negociassem a gente podia vender aquilo e matar mais da metade da rescisão do pessoal.

IN: E pra além disso, vocês usaram outras táticas pra impedir a retirada da mercadoria?

EX: No meio da mobilização, a gente teve a brilhante ideia de sabotar o gerador. Lá no Seta não tinha nem energia da rua, eram dois geradores, a gente ia lá e fazia a transferência de um para o outro. Na luta a gente cortou a energia dos geradores e as mangueiras pra eles não conseguirem fazer esse carregamento de noite por que não ia ter luz. E também sabotamos a chave da empilhadeira [risos].

IN: Nessa época o Seta tinha várias unidades, né? A luta do Capão repercutiu nesses outros lugares?

EX: Sim, através de denúncias do que ocorreu aqui a gente foi recebendo notícias das outras lojas que tavam sendo fechadas e o pessoal tava seguindo o exemplo daqui: ocupando e não deixando levar as mercadorias. Depois que começou a briga no Capão a coisa se espalhou, foi pras outras lojas, foi pra Praia Grande, zona norte, zona leste… meu, eu sei que em umas dez lojas, depois que a gente fechou aqui, o pessoal fez a mesma coisa. Barraram e não deixaram sair a mercadoria. Apesar de que eles não conseguiram segurar tanto tempo que nem a gente segurou. A gente segurou mais de um mês a mercadoria. Nos outros lugares eles seguraram uma semana, duas no máximo e já liberaram.

IN: Como foi esse contato com os trabalhadores das outras lojas?

EX: Antes da luta a gente tinha contato com o pessoal de Interlagos, porque o pessoal daqui treinou lá antes da loja inaugurar. Só que lá não teve mobilização, foi uma das primeiras lojas a serem fechadas: avisaram o pessoal, dispensaram, pegaram um pessoal das outras lojas, foram lá e desmontaram. Mas com as outras lojas, onde os funcionários se organizaram, a gente não tinha contatos. Aí quando começou o movimento começamos a conversar pelo WhatsApp e pelo Facebook – na época a gente criou uma página pra divulgar nosso movimento (O SETA vai ter que pagar).

IN: Pra além desse contato virtual, teve gente de outras lojas que veio até o Capão?

EX: Sim, teve o pessoal que veio da loja de Interlagos porque, como ninguém recebeu nada, eles viram que aqui tava tendo um movimento e tentaram vir pra ver se ia receber alguma coisa. Mas não teve muito sucesso, não. E era pouca gente, não dava 10 pessoas.

Depois não teve, aí a gente começou a ir pras outras lojas, aí sim a gente começou a ter mais contato com o pessoal da Praia Grande, Itaquaquecetuba, Carapicuíba, umas 10 lojas se uniram junto com a gente…

IN: E qual foi a reação do Seta diante desse processo de luta?

EX: Só se escondeu, né? Não pagou nada. As poucas vezes que eles mandaram representantes lá, a maioria era tudo peão que nem a gente, não sabia o que estava acontecendo. Tentaram fazer um acordo de pagamento parcelado, a maioria não aceitou. Depois tentaram levar pro sindicato, e os acordos que foram tentados lá também não deram certo. E na justiça também, pelo que eu fiquei sabendo, os acordos que eles fizeram na justiça também não foram pagos.

IN: Em Itaquaquecetuba, na central do Seta, rolou um protesto grande com gente de várias unidades. Isso pressionou o Seta?

EX: Lá foi a enrolação, né? Na realidade era sempre o mesmo texto decorado que o pessoal do RH passava pra gente. Eu já tinha visto alguns vídeos deles dando depoimento em outras lojas. Chegava lá e era a mesma coisa, sempre a mesma opção de mandar a gente embora, liberar o FGTS e o seguro desemprego (teoricamente, né? Porque o FGTS era descontado mas não era pago, não era contribuído…) e pagar o valor da rescisão parcelado em não sei quantas vezes.

A princípio eram 7 parcelas, depois a passar de 10. Receber parcelado em mais de 10, 15 vezes? Isso é ridículo, não tinha como. Teve gente aí que aceitou parcelar em até 50 vezes, mas entre todo mundo que quis aceitar ou não, não soube de ninguém que recebeu. Parcelado eles pagaram no máximo uma ou duas parcelas. Depois que aquietou o movimento e as lutas, ninguém recebeu mais nada.

Trabalhadores do Seta de Lorena protestam contra calote

IN: Mas no Capão vocês conseguiram tirar algo da empresa… Não?

EX: A gente conseguiu um valor de 10 mil reais, que a gente dividiu com o pessoal que tava encostando, porque eram 50 pessoas no começo, depois foi diminuindo, diminuindo… a gente deu uns 500 reais pra cada um dos 20 que tavam mais ativos. No começo da mobilização também conseguimos 120 cestas básicas, e depois foram mais 50, 60 cestas básicas. Tinha gente que estava com aluguel atrasado, sem comida e deu pra ajudar bastante.

IN: Quer dizer… esses 10 mil reais foram uma tentativa de suborno do Seta, na verdade, né? Pra vocês saírem lá da frente.

EX: É, foi sugerido pelo diretor do Seta na época. Ele tentou me chamar de canto, e a princípio eu não fui. Depois não sei como ele arrumou meu telefone, ele entrou em contato comigo e sugeriu me pagar um valor pra eu deixar quieto. Só que eu falei pra ele que o que ele combinasse comigo ele combinava com mais vinte pessoas. Aí ele sugeriu me dar um valor em dinheiro, e eu falei: não, beleza, mas o valor que você der pra mim vai ser dividido em 20 pessoas, que foi o que aconteceu.

IN: E o que ele exigia em troca?

EX: A retirada das mercadorias. Tudo que estava lá dentro, até prateleira… só que a maioria das coisas do perecível estava estragada: carne, frutas, legumes, verduras, frios, pelo fato de ficar mais de um mês parado e sem energia. Mesmo assim a mercadoria não perecível – arroz, feijão, bebida, essas coisas – ainda dava um valor mais ou menos de uns 500 mil reais, ainda dava pra tirar ali. Era o dinheiro que dava pra pagar todo mundo. E essa é a lição principal. Se vai negociar, não arregue. [risos]

IN: Quando rolou isso das cestas básicas, como é que foi a recepção da galera? Você acha que fortaleceu mais o movimento?

EX: Fortaleceu e deu pra gente ver quem era quem, né? Porque a primeira leva de cestas foi na primeira semana da luta, né? Então o pessoal ainda estava bem ativo. Só que mesmo o pessoal bem ativo, dava umas 40, 50 pessoas, numa loja que tinha 130 funcionários, era muito pouco. Quando foi na época da cesta básica, essas 130 pessoas apareceram pra receber a cesta. Mas na hora de brigar não era todo mundo que estava junto, não. Inclusive isso foi um dos pontos principais de a gente ter perdido isso, foi o momento em que a gente se desuniu.

IN: E depois desse tempo, como você avalia a mobilização?

EX: A resistência foi importante, né? O fato de ocupar a frente da loja foi legal, o fato de chegar lá no sindicato e bater de frente, pro pessoal ver que não é assim não, que eles fazem um acordo entre eles e o trabalhador que se lasque. Acho que essa parte foi legal pra eles verem que o trabalhador está se unindo, que quando o trabalhador se une, o patrão dorme com medo.

Mas é que nem eu falei: no começo eram 50, 60 pessoas no movimento. Já depois de um mês tinham 8, 9 pessoas. Então se os caras viessem em 13 caminhões já não dava pra fazer mais nada. A gente não ia conseguir barrar, não ia conseguir segurar. Depois que a gente perdeu a união, a gente perdeu tudo. Então a gente optou por negociar da melhor maneira possível, com valor e mais algumas cestas básicas pra gente distribuir pro pessoal.

IN: O que você pensa que poderia ter sido feito e não foi?

EX: O ponto fraco que acho que a gente vacilou foi ter demorado muito. A gente devia ter segurado a mercadoria menos tempo, no máximo uma semana, duas. Não aquele tempo todo, porque isso acabou desunindo a gente. Se a gente tivesse tido a capacidade de negociar a mercadoria antes, a gente tinha recebido mais coisas. Ou se a gente visse que não tinha solução, a gente ocupava o mercado, fazia um anúncio dentro da comunidade e vendia tudo.

IN: Era uma forma de pagar a rescisão, né? Mas você acha que dava pra fazer?

EX: Dava. Com 40 pessoas, 50 pessoas dava. Se você passar na comunidade falando “ó, preço de 50% em tudo ali”, cliente você vai ter. E se você abre um mercado pra vender a 50% dentro da quebrada, é coisa de duas horas a gente esvaziava aquela loja rapidinho. Aí era questão só de contar o dinheiro e dividir entre o pessoal. Mas ninguém pensa assim, né? Todo mundo só quer visar o seu, só quer ver se você encheu o bolso.

IN: A questão do contato com outras lojas, você acha que tinha que ter fortalecido isso mais cedo?

EX: Seria interessante, mas eu acho que a gente tinha que organizar primeiro no Capão, porque a gente tentou fortificar as outras lojas sem fortificar aqui, então não teve aquela união principal pra gente partir pra cima dos outros. E eu acho que tinha que ter sido transmitido pras outras pessoas de forma mais rápida, mas aqui tinha que ter se fortalecido antes. Aqui a gente tinha que ter resolvido primeiro: barrado a mercadoria, vendido a mercadoria, resolvido a vida de todo mundo aqui, e aí sim daqui a gente partir pras outras lojas.

IN: Você acha que se tivesse tido uma vitória aqui no Capão…

EX: Ah, aí os caras das outras lojas iam saber que se pressionasse mesmo, ia ter um jeito. O problema foi que a gente se largou aqui. Os cara falou: “ah, lá onde seguraram um mês e meio a mercadoria, os caras não pagaram nada, quem vai dizer que vai pagar pro lado de cá?”

IN: E o que você tira dessa luta?

EX: Aprendizado. Só aprendizado. Eu não tive muita vitória nisso daí não, porque eu não ganhei um real. O que eu ganhei foi minha cabeça, minha cabeça mudou de lá para cá. Tanto que eu já trabalhei em outros lugares, quando eu chego no lugar pra trabalhar minha cabeça é outra. Antes de eu entrar pra trabalhar eu já penso de outra forma.

IN: Qual você acha que é a lição dessa luta para situações parecidas com a do Seta?

EX: Quando começar o burburinho de que “ah, tá falindo”, corre atrás, bota no pau, mete na justiça, recebe seus direitos… Porque depois que o negócio tá feito, cara, é difícil no Brasil. O cara vai levar pra justiça pra ser julgado daqui a dois, três anos. Daqui a dois três anos não vai ter nem empresa! Se ela tá abrindo falência, não vai existir! Então, o exemplo é: começou o burburinho, vê o que dá pra fazer. Não teve como resolver? Aconteceu? Então ocupa e vende o material do patrão. É melhor você dar um jeito de tomar o que é do patrão e fazer dinheiro você mesmo. Minha humilde opinião.

Funcionários de várias unidades protestam em Itaquaquecetuba

Cronologia da mobilização

17/01: 32 funcionários são demitidos no Seta do Capão Redondo, 42 continuam trabalhando.

20/01: Pagamento do salário e do vale-alimentação não cai, trabalhadores do Capão começam a planejar greve. Demitidos não recebem rescisão.

24/01: Parte dos funcionários paralisa o trabalho no Capão.

26/01: Como forma de paralisação, os trabalhadores impedem clientes de entrar na loja do Capão. Representantes do RH vão ao mercado para conversar com os funcionários e dispensam todos às 17h, pois sem clientes não fazia sentido permanecer com a loja aberta. Às 23h, chegam 14 caminhões para retirar as mercadorias que restaram nas estantes, e os funcionários que moravam perto do mercado começaram a escutar a movimentação. Trabalhadores vão para a loja e impedem que as mercadorias sejam levadas; caminhões partem vazios.

27/01: Quando voltam para trabalhar no dia seguinte, às 7h, funcionários encontram a loja do Capão fechada. A partir daí, passam a ficar na porta do estabelecimento, fazendo uma vigília para garantir que as mercadorias não fossem levadas.

30/01: Interlagos, Diadema… de todos os lugares, chegam notícias de lojas fechadas ou sem mercadorias. Lojas de Sumaré, Poá e Americana aderem à mobilização.

01/02: Trabalhadores do Capão vão ao sindicato dos comerciários para uma reunião e negociam apenas que o Seta daria baixa nas carteiras de trabalho e pagaria uma cesta básica a cada funcionário. Todos ficam inconformados com a decisão e resolvem continuar em luta.

02/02: Em solidariedade aos trabalhadores acampados, acontece um pequeno ato na porta da loja do Capão Redondo, reunindo pessoas da vizinhança e outros apoiadores, como estudantes secundaristas e o Sindicato dos Metroviários. Nos dias seguintes, mais notícias de lojas se esvaziando e fechando, em Guarulhos e Carapicuíba.

03/02: Na madrugada, carros do Seta chegam na loja do Capão e conseguem tirar os tapumes com que os trabalhadores estavam bloqueando a entrada. Levam embora os geradores, documentos e dinheiro. Capangas do mercado ficam dentro da loja e, dois dias depois, arrancam faixa que os funcionários haviam posto na porta.

06:02: Sindicato convoca 130 funcionários demitidos para fazer homologação no dia seguinte, 07/02, numa tentativa de desmobilizar o movimento. Isso porque os trabalhadores haviam marcado um ato na central de distribuição do Seta, em Itaquaquecetuba, para a mesma data.

07/02: Trabalhadores do Seta do Capão, Poá, Suzano, Santo André, Itaquera e de Praia Grande – que fretaram um ônibus para subir a serra – fazem um grande protesto em frente à sede do Atacadista. Durante o ato, chegam a bloquear as entradas da loja com carrinhos e queimam camisetas do mercado. Representantes da empresa fazem promessas de pagar a prazo o que devem, para tentar acalmar os trabalhadores.

08/02: Seta tenta esvaziar loja de São Mateus, zona leste de São Paulo. Funcionários de lá e de outras unidades se reúnem para tentar impedir.

14/02: A mesma cena se repete no Seta de Praia Grande. Nessa loja, os trabalhadores conseguiram distribuir parte das mercadorias entre eles.

15/02: Loja de Mauá é paralisada por funcionários em protesto contra o atraso de 10 dias no pagamento do salário. Os trabalhadores já haviam feito uma pequena manifestação no dia anterior.

22/02: Funcionários da unidade de Lorena, no interior do estado, cruzam os braços e se recusam a trabalhar sem pagamento. Na capital, entretanto, a mobilização parece perder força, se encaminhando para negociações na Justiça. Enquanto isso, continuam chegando notícias de lojas fechando e de que o Seta teria mudado de nome para Flecha Atacadista, passando a reabrir algumas unidades sob a nova marca.

13/04: Movimento já refluiu, mas o Sindicato dos Comerciários realiza uma manifestação em frente ao Seta de Itaquaquecetuba, exigindo o pagamento das rescisões de contrato. Coincidentemente, o Seta havia liberado todos os funcionários da loja naquele dia.

20/04: Um grupo de trabalhadores convoca uma reunião no centro de São Paulo para pensar os rumos da mobilização e o sindicato envia bate-paus para intimidá-los.

31/05: Justiça bloqueia bens de donos do Seta para garantir o pagamento aos funcionários. Meses depois, ainda chegam notícias de trabalhadores que não sabem quanto (e se) receberão.

Carrinhos bloqueiam entrada da central de distribuição em Itaquaquecetuba

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