Por Victor Hugo Silva

Leia aqui a continuação deste artigo.

Ato 1

“Acompanhando um pouco os nossos números, eu diria que o Brasil está bem”, diz Guilherme Benchimol, economista da XP investimentos, “o pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, a classe alta”. O dia da declaração era 5 de maio — tínhamos 7.321 mortes registradas oficialmente no país.

Ato 2

O presidente Bolsonaro foi a pé ao Supremo Tribunal Federal, acompanhado de potências econômicas como o presidente do setor de brinquedos, passar o seguinte recado: “O efeito colateral do combate ao vírus (salvar vidas) não pode ser mais danoso que a própria doença (o prejuízo para empresas)”. A decisão para essas pessoas é óbvia e o aumento das mortes que acompanha o número de setores essenciais decretados pelo governo federal e a reabertura dos comércios não deve nos deixar dúvidas.

Ato 3

Em Roraima, um general responsável por um campo de refugiados instrui sua tropa: “É como eu digo, vale para mim, vale para vocês. Nós não estamos infectados, nós estamos sendo imunizados para ações futuras. Essa é a visão que temos que ter”.

Entra o coro

Duas perguntas se impõem. Uma terceira a gente tem de criar, e “a gente” são aqueles que aguentarem o caminho do inferno que nos espera. A primeira pergunta tenta dar uma origem à doença mental que justifica o extermínio dos pobres e dos “fracos” nos países em que isso se tornou política de Estado — começando pelo Brasil. Mas o que é isso? A segunda pergunta trata de como essa ideia vem sendo testada e aplicada progressivamente no Brasil, com crescente legitimidade e força. Como é possível? A terceira pergunta… é se existe alguma cura à vista e onde ela pode ser encontrada.

Pergunta número 1

De onde um economista de fundo de investimentos tirou esse conhecimento e autoridade para poder chegar a esse tipo de conclusão? Ou seja: qual é a doença que vem impulsionando e legitimando essa gente a mobilizar pela reabertura da economia do Brasil enquanto as taxas de morte só aumentam? Quem produziu isso? De onde veio? Como se reproduz? A resposta é: estamos lidando com o nazismo do século XXI com verniz de “seleção natural”. O extermínio sistemático como ideologia.

Mas o que é isso?

Vamos começar dando às coisas o seu nome.

Será que estou exagerando ao dizer que gente sorridente e “bonita” (ou pelo menos branca), como Samy Dana e Belchimol, carrega na cabeça uma ideologia de extermínio de gente pobre? João Filho, do Intercept, usou uma expressão muito curiosa para dar nome ao que essa pessoa fez. Chamou de “desastrado”. Na reportagem fica claro que ele não se sustenta estatisticamente, foi comprovado errado pela realidade e pelos seus pares, e também não se sustenta num estudo da doença. Para que ele serviu então? “Com base no modelo de Samy Dana, o governador do Amazonas anunciou um plano para flexibilizar o isolamento a partir de 14 de maio”. Isso logo após um esperançoso resultado de duas vezes mais mortos que no mês anterior. João Filho nos diz que “apesar do estudo não recomendar o fim da quarentena, (…) a ciência do mercado financeiro forneceu um alívio de consciência para os ricos que defendem o fim do isolamento social em nome do salvamento da economia”. Voltemos ao tweet registrado acima. Esse é um dado essencial do estudo de Samy: o pico nas classes médias e altas já passou. Podem ficar tranquilos. Já o pico nas classes pobres será aceitável — enquanto ainda houver força de trabalho para ser explorada. O estudo não foi desastrado. Ele serviu exatamente para o que foi produzido. Para proporcionar tranquilidade aos ricos, sugerir que estão seguros da doença e que podem empurrar os prejuízos da crise para fora, que não vão precisar pagar por nada disso. Podem ficar tranquilos, em casa, deixando morrer quem deve morrer. O nome disso é: legitimação do extermínio. Não é “modelo estatístico”, não é “má ciência”, não é “estudo desastrado”. É de “ciência do mercado financeiro” que estamos falando aqui. De calcular mortes e retirar juros e dividendos. Mas nunca foi tão literal. E agora que está se tornando literal, sistemática e militante — estamos falando de outro nível. Esse outro nível é o nível da consciência política que estou chamando de nazismo do século XXI.

De onde veio isso?

Samy Dana não é original. Nos Estados Unidos também houve um intelectual irresponsável e irresponsabilizável, chamado Richard Epstein, que previu no máximo 500 mortes por Covid-19 nos EUA em 16 de março. Sua previsão foi lida pela Casa Branca, divulgada no New York Times e — junto com o artigo excêntrico de um médico fanático chamado David L. Katz, defendendo uma medida que ficou conhecida como isolamento vertical, que não faz nenhum sentido na literatura epidemiológica — atrasou por semanas a resposta governamental à doença. O resultado estamos vendo hoje. Mais de 80 mil mortes, mais de um milhão de infectados. Epstein ainda tentou editar retroativamente sua previsão, adicionando mais zeros, mas ainda assim continuou errando. Ele não se retratou e para quem quiser ver a entrevista que ele deu quando o número estava apenas três casas decimais acima do previsto por seu “modelo lógico”, dá para verificar que não vai haver retratação nunca. Por que não haveria retratação, já que estamos falando de um cientista, de uma pessoa da razão, que a realidade desmentiu? O problema para Epstein, teórico radical libertário do direito, se coloca da seguinte forma: “a questão não é se eu escolhi o número correto, (entrevistador), a questão é se eu tinha o modelo correto”. São modelos mentais que não podem ser abandonados, porque abandoná-los seria abrir mão de interesses vitais. Os resultados, como vemos, podem ser mortíferos. Quando vemos gente perguntando se o custo da quarentena não está alto demais, lembrem disso. Isso foi discutido e posto em prática. Custou milhares de mortes. As pessoas estão discutindo sobre deixar milhares morrerem deliberadamente ou não.

E estão sendo no mundo todo. A retórica do médico neoliberal e do professor de direito “epidemiologista” de que “nem vai morrer tanta gente assim” (morreu) e de que “a cura pode ser pior que a doença” (uma hipótese sem teste) vem provocando vários debates sem fim e atrasando a criação de políticas públicas em vários países. O Brasil é um deles. Tivemos, por exemplo, um amplo debate sobre se devíamos aplicar um isolamento “vertical” (apenas dos grupos de risco) ou “horizontal” (de todos os possíveis infectados). Como se fossem duas táticas de igual validade. Reputados divulgadores científicos como Atila Iamarino deram sua opinião sobre as “opções”. Atila chamou de opinião que não cabia discutir por não ser científica, por não ter teste. Mas gente que conhece a realidade das pessoas pobres e do sistema de saúde brasileiro, como Drauzio Varella entendeu bem do que se tratava: “não foi feito em lugar nenhum por alguma razão, não é verdade”? Infelizmente, Drauzio não coloca os pontos nos ii: não foi feito por se tratar de uma proposta de extermínio dos velhos e dos frágeis. E não era apenas opinião. Era política. Estava sendo posta em prática em um lugar: na Inglaterra.

O verdadeiro nome dessas propostas de isolamento vertical, mitigação, flexibilização parcial, integral, semi-parcial, semi-parcial ou semi-integral, quarentena intermitente e outros inúmeros nomes é imunidade de grupo. Seu nome vai mudando de acordo com o nível de aceitação que a solução de extermínio dos pobres e fracos vai ganhando entre as sociedades afetadas pela crise. Se vocês quiserem um nome bom para essa “estratégia” de combate à pandemia, aqui está um bonito: a Solução Final. Mas de onde veio essa Solução Final reformulada em termos modernos e “aceitáveis”? Como ela se espalhou? Vemos que existe uma interlocução entre os economistas e os gestores de fundos financeiros dos Estados Unidos, do Brasil e da Inglaterra. Se vocês prestarem atenção, até os termos dos debates são muito parecidos. Mas a gênese da ideia foi investigada na Inglaterra — no Reino Unido — e tem um nome… seu nome é Dominic Cummings.

Evolucionismo aplicado

Para quem tem alguma familiaridade com a nova direita populista no mundo, Cummings não é um nome estranho. Ele está junto com Steve Bannon e Olavo de Carvalho no rol de mais importantes articuladores e ideólogos do movimento internacional. Para o resto do mundo, as pessoas normais, é um perfeito desconhecido. Ao contrário do Olavo, tem um estilo discreto. Mas o que ele não tem de visibilidade, tem de influência e espaço nos gabinetes de Johnson. A revista Byline Times fez uma investigação a fundo a respeito disso, que vou trazer para explicar melhor o que significou na prática.

A ligação transatlântica entre as políticas de Trump e Boris Johnson na política “desastrosa” de enfrentamento à Covid-19 se dá através da figura excêntrica e aparentemente ruim de conta chamada Richard A. Epstein. Cummings é grande admirador desse “pensador”, que, na entrevista que lhe deu a oportunidade de fundamentar sua estimativa de mortes, disse que a humanidade iria se adaptar à Covid-19 sem necessidade de intervenção estatal externa. Essa hipótese era fundamentada em 40 anos de conhecimento de evolucionismo. Epstein faz parte de uma escola de pensamento conhecida como “economia evolucionária”. O próprio Cummings escreveu de sua mão sobre como informação gerenciada por computadores e modelos estatísticos poderia ser usada para que a imunidade de grupo fosse eficazmente utilizada para combater episódios de epidemia ou de bioterrorismo. Essas projeções estatísticas de infecções direcionadas de determinadas populações — uma distorção muito ruim do pensamento de Darwin — serviriam para justificar uma política de austeridade e de cortes de políticas públicas de saúde. A política de bem-estar social, a organização coletiva, seria substituída por estatísticas. Um número razoável de mortes de indivíduos atomizados, enquanto tudo segue normal.

Um discurso excêntrico de pessoas excêntricas? Quantos desastres precisam se acumular para que comecemos a reconhecer um plano?

Assim como nos EUA e no Brasil, também na Inglaterra um jornalista e político chamado Daniel Hannan se aventurou no reino da epidemiologia amadora e projetou 5700 mortes, no máximo, para a Inglaterra, no intuito de combater qualquer medida de isolamento social e políticas públicas de seguridade durante a quarentena. Daniel Hannan é amigo próximo de Cummings e autor de um livro em que defende o desmantelamento do NHS, o sistema de saúde público da Inglaterra.

No final de fevereiro, um mês antes de esse artigo sair, a estratégia do governo de Boris Johnson foi resumida por Cummings, segundo alguém presente no gabinete, nas seguintes palavras: “imunidade de grupo, proteger a economia, e se alguns aposentados morrerem, que pena!” Logo depois, a 3 de março, Boris Johnson declarou em público que “o coronavírus não o impediria de cumprimentar as pessoas com um aperto de mão, acrescentando que ele iria apertando as mãos de todos em um hospital onde pacientes infectados estavam sendo tratados”.

No dia 3 de março, segundo o jornal Telegraph, falando sobre as conclusões a se tirar da diminuição dos juros no Fed (o sistema financeiro central nos Estados Unidos) nas semanas anteriores, Jeremy Warner disse o seguinte:

“(…) improvável que ocorra desta vez (a morte da força de trabalho jovem). Para não exagerar, de uma perspectiva econômica totalmente desinteressada, a Covid-19 pode até se mostrar levemente benéfica a longo prazo ao abater desproporcionalmente dependentes idosos” (tradução livre, grifos meus).

O dia 5 de março foi uma das raras vezes em que Boris Johnson falou publicamente sobre aplicar a imunidade de grupo na Inglaterra. Depois ele fingiu que nunca falou. Mas na época ele disse o seguinte: “Uma das teorias é que talvez você possa pegar esse vírus de frente, levar tudo de uma só vez e permitir que a doença, por assim dizer, se mova pela população, sem tomar tantas medidas draconianas” (em vídeo aqui).

Hoje, quando chegámos já nos vinte mil mortos oficiais na Inglaterra, eles fingem que nunca quiseram saber de imunidade de grupo e que já previam tudo. Uma coisa é certa: desses vinte mil, um número desproporcional de idosos foi abatido em asilos, onde deveriam estar recebendo cuidados — até o dia 18 de abril o registro era de 7500 mortos, de acordo com o mesmo Daily Telegraph.

E aqui no Brasil?

Apesar de termos demorado um pouco para termos um modelo estatístico para disfarçar nosso massacre, tivemos um chutador de estimativas de morte em posição de destaque: Osmar Terra. Sua primeira previsão foi a de que morreriam 2100 pessoas, no máximo, o mesmo que para a H1N1. Quando morreu exatamente o dobro de pessoas e foi interrogado a esse respeito, ele respondeu o seguinte:

 

“Mantenho tudo que disse. Inclusive que estamos no pico da epidemia e que deveremos assistir, a partir de agora, a uma diminuição de internações hospitalares de casos da Covid, como podes ver na curva que faz a coluna azul no gráfico anexo, que é do Ministério da Saúde”.

 

Ele também se recusou a fazer uma autocrítica do seu modelo: “Em relacão ao número de óbitos, realmente é um cálculo difícil de fazer com muita antecedência, em qualquer epidemia. Fiz essa estimativa muito para mostrar que as previsões catastróficas do virologista Átila Iamarino — de mais de 1 milhão de mortes no Brasil, e que foi amplamente divulgada, inclusive em entrevista no Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo — assim como a previsão publicada no Intercept Brasil, que morreriam exatos 432.000 pessoas, eram absurdas. Certamente a minha margem de erro será muito menor que as deles” (grifos meus). A existência desses chutadores de “esquerda” no Brasil é um elemento importante que vai fazer muita diferença na naturalização da política genocida no Brasil — infelizmente, para muito pior.

Esse primeiro erro não o impediu de continuar criando modelos mentais com projeções. Em conversa entre Terra e Onyx, gravada e vazada pela CNN, Osmar estima “4, no máximo 5 mil mortos”. Na época ele era considerado “uma espécie de consultor de Jair Bolsonaro para assuntos relacionados ao coronavírus” — posição parecida com a de mistificadores análogos em outros países. O Brasil faz parte desse movimento, e uma parte central, onde estas teses estão conseguindo ser aplicadas na sua integralidade.

Vemos então que por trás da aparente incoerência, da loucura e do “desastre” há um pensamento comum de legitimação e naturalização do massacre. Existe um pensamento de grupo coerente, compartilhado e discutido a nível internacional. Mas como ele se realiza? É de uma vez, de forma coerente, como projeto total?

Um recente diálogo entre Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde, e Terra, agora ex-ministro, é revelador desse processo. Rebatendo uma declaração de Terra de que só teriam sido “dez mil mortos” (errado de novo o cálculo, mas o modelo está lá!), Mandetta disse que “eram vidas, não eram só números” e depois disse o seguinte: “Tem economista aí que acha melhor que morra logo todo mundo que tem de morrer para a economia voltar ao normal. Não é assim”.

Será mesmo que não é assim? Então por que Mandetta e todos os empresários que estão de acordo com Bolsonaro estavam lá dentro, debatendo com essa gente que estava aplicando esse programa? Por que até agora deixam essa gente governar, sabendo muito bem que é isso que pensam e estão fazendo? Como isso é possível?

É a pergunta a que tentaremos responder num próximo artigo. Mas o nome do que é que está acontecendo está dado: estamos diante de um massacre pensado e legitimado como tal, de uma Solução Final para esta e para todas as próximas crises que virão de agora em diante. Se deixarmos passar agora, o preço que a história vai cobrar não será pequeno.

Victor Hugo Silva é trabalhador da educação pública, que não quer morrer nem deixar morrer.

3 COMENTÁRIOS

  1. Gostei muito do artigo.
    Fala as coisas pelo que é amarra aquilo que parecem casos isolados numa política pensada e que é internacional.

    Mas na hora que fala de “chutadores de “esquerda”” eu realmente não compreendi. Creio que o autor não viu os videos do Atila Iamarino e está pegando de segunda mão pelo Osmar terra ou outros.

    Primeiro que não foi chute, e segundo que não foi dele. Atila Iamarino apenas transpôs modelos de instituições. Em vídeo de março que ficou mais conhecido ele disse que o modelo (não não lembro de qual instituição) previa que no Brasil poderiam morrer 1 milhão em x tempo (não me recordo quantos meses) SE NADA FOSSE FEITO.

    Num video deste mês com base na taxa de mortalidade do virus e outros dados ele conclui que no Brasil morrerão na faixa de milhão de pessoas, e que a questão era saber em quanto tempo, se em quatro meses ou sessenta meses. Isso não é chute. É previsão com os dados que se tem hoje.

  2. Quanto a mim, prefiro não ter que votar ou descobrir(?) qual das opções futuríveis (sorry, modelos) é menos ruim: esquerda do capital (biopolítica) e direita do capital (necropolítica) são a mesma merda – iguais, com embalagens ideológicas diferentes…

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