Por Priscila Dorella

Juntar-se, esta é a palavra do mundo.
José Martí

A ignorância e a indiferença são privilégios dos poderosos.
Achille Mbembe

O sindicato é uma organização feita por trabalhadores/as que atuam coletivamente em defesa de condições dignas de salário, saúde, segurança, etc. Compartilho uma reflexão sobre a minha experiência de um ano como membro da Diretoria Executiva do sindicato de professores — ASPUV-Sind — da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Sou muito grata pelo aprendizado vivido com professores/as e funcionários/as nesse período. Entrei no sindicato com a vontade de aprender para saber agir em prol dos direitos dos professores/as enquanto trabalhadores/as. Bem, não escolhi a melhor ocasião. Nos últimos tempos, estamos reagindo às perdas de vários direitos constitucionais. Acredito que isso ocorra principalmente desde a Reforma Trabalhista do Governo Temer, que vem produzindo impactos sociais ainda incalculáveis.

Participar do sindicato passou a significar, diante desse cenário político desolador, ir às manifestações cada vez mais esvaziadas, estar em congressos nacionais com professores/as angustiados, atuar em reuniões muito burocratizadas e recheadas de pautas urgentes, lidar com a falta de recursos por conta das decisões arbitrárias e autoritárias do atual governo, presenciar assembleias quase sem quórum e sentir frequentemente a tristeza com as injustiças crescentes geradoras de medo e insegurança.

O efeito disso nos nossos corpos foi perceber como os sentimentos ficaram embotados, ou seja, sem vitalidade efetiva. Indignação e alegria é uma combinação que alimenta a esperança, e foi difícil notar esses sentimentos caminhando unidos no último ano. Tentamos até criar uma festa no dia dos professores cujo tema era: A alegria é também o direito do trabalhador! O resultado não foi nada entusiasmante, porque não havia dinheiro e insistimos por realizar uma festa sem bebida e comida à vontade, como era de costume, e que apostava fundamentalmente no interesse de todos de se reunirem para celebrar a profissão que escolhemos. A verdade foi que a festa, apesar de bonita, não contou com a presença nem de muitos daqueles que sempre estiveram no sindicato. Além disso, não houve um balanço institucional sobre o que se passou. Compreendi assim como é precária a nossa vida em comunidade.

Achei que a minha dificuldade era porque não entendia muito sobre o movimento sindical. Resolvi então, nesse meio tempo, estudar e oferecer uma disciplina sobre “sindicalismo, anarquismo e anarcossindicalismo”. Isso representou um avanço expressivo, porque ampliou os meus horizontes, me permitindo ver melhor como as políticas atuais contribuem para minar a organização da classe trabalhadora e de sua luta democrática por direitos, além de notar como as nossas preocupações no sindicato são orientadas por pensar, em grande medida, acerca dos entraves produzidos pelo Estado e pela oposição, sem muito tempo para imaginarmos de forma ativa o que podemos fazer de diferente pelo coletivo.

Felizmente fomos tomados pelas circunstâncias de uma época que evidencia a importância de enfrentarmos os problemas de classe, raça e gênero, se temos o intuito de corrigir efetivamente determinados rumos escolhidos injustamente pelo mundo do trabalho. Reconhecer isso acontece quando o nosso incômodo com a política de dominação aumenta e passamos a nos preocupar seriamente com a opressão. Compor uma diretoria em que muitos dos envolvidos são sensíveis à importância da conexão do sindicato com movimentos sociais feministas, agroecológicos e antirracistas me pareceu uma bela forma de atuação política, mas não tinha a dimensão prática dos desafios das pautas identitárias, que promovem reflexão, visibilidade, conscientização, e raramente emancipação, quando não relacionadas aos problemas de classe.

Não tinha também a clareza de como a política no Brasil está empobrecida por debates feitos com pessoas que pensam mais ou menos a mesma coisa. O que se passa nas assembleias de muitos sindicatos no Brasil não é muito diferente do que passa nas bolhas das redes sociais. Há uma incapacidade de escutarmos os outros porque estamos imersos em uma cultura política da indiferença, do ódio, da individualização, pouco afeita ao conflito frutífero que a experiência democrática proporciona. Um jeito de escutarmos os outros está vinculado à ideia de estarmos propensos a abrir mão de convicções, renunciarmos se necessário a posições de poder e deixarmos que a experiência possa nos levar até mesmo ao desconhecido. Mas quem está disposto a isso, em uma sociedade cujos laços de confiança estão fragilizados, não é mesmo?

Os nossos laços de confiança estão tão fragilizados que somos capazes de desconfiar até daqueles que estão ao nosso lado. Quem sabe responder: qual é a centralidade da nossa luta sindical? Após tantas batalhas, não sei responder. Claro que todos nós temos as nossas lutas e lutamos com as ferramentas que podemos. Mas qual é a centralidade da luta coletiva? É por uma educação pública, gratuita e de qualidade em que professores vivam com dignidade? Mas o que se entende por educação pública, gratuita e de qualidade não é ponto pacífico, muito menos o que significa a garantia de uma vida digna para cada um dos professores/as com interesses tão diversificados.

Considero, como afirma a filósofa espanhola Adela Cortina, que em uma forma de organização política democrática, como é o caso do sindicato, temos de lutar pela justiça e não pela felicidade. A felicidade está no âmbito individual e pode se desenvolver de várias formas se existirem boas condições de trabalho para os professores/as, e isso é garantido pela justiça. Mas o que é a justiça? A resposta apenas pode ser dada se conseguirmos construir um projeto de vida em comum, que não exclua os debates conflitantes que promovem aprendizados e relações construtivas. Não podemos acreditar que um sindicato é a soma de interesses de indivíduos atomizados ou vinculados a certos partidos políticos, mas sim uma construção coletiva do bem comum, a partir das relações que vão sendo tecidas pelos próprios professores/as. Para tanto, é preciso que estejamos dispostos a nos comunicarmos e irmos além da polarização política, que diminui a nossa capacidade de empatia e compromete a construção de um projeto comum de justiça e de luta pelos direitos dos trabalhadores/as.

Fiz parte de um sindicato fragmentado, que lutou e perdeu muitas batalhas, uma delas foi a de não conseguir estabelecer um diálogo cordial (razão + coração) com muitos professores/as. Isso ocorreu não porque a diretoria não tivesse boa intenção, todos lutaram com muito esforço e boa intenção. É que o diálogo depende também das condições nas quais ele é estabelecido, sendo preciso que a comunidade de professores queira de verdade se comunicar com presença, sinceridade e inteligibilidade no sindicato para que a luta em comum se torne uma realidade viva. Escutei muitos professores justificando a ausência no sindicato porque não concordavam com a diretoria e por isso não queriam saber de conversar. Vi muitos professores chegando ao final de assembleias apenas para votar e não terem de ouvir o colega que pensava diferente. Se simplesmente acreditamos que a política é somente o terreno da mentira, da paixão, da corrupção, da polarização e da manobra, temos de chegar à conclusão que não há chances para vida em comum.

Escrevo porque ando incomodada com a maneira como estamos tratando o sindicato de professores. Se continuarmos a insistir excessivamente no individualismo/produtivista, vamos perdendo de vista a compreensão de que o que nos torna professores/as é reconhecermos que somos seres relacionais e dependentes uns dos outros. Como afirmou a escritora italiana Nathalia Ginsburg: “Jamais como hoje a sorte dos homens esteve tão estreitamente conectada, umas às outras, de modo que o desastre de um é o desastre de todos”. O sindicato precisa lidar com a nova morfologia do trabalho, pensar sobre as questões específicas do cotidiano dos professores/as e descobrir outro modo de vida em comunidade, para que a luta não seja consertar o inconsertável.

Existem diversos caminhos possíveis para agirmos como coletivo aprimorando a nossa formação política e criando novos horizontes capazes de suportar o nosso descontinuado tempo presente. Existem tantas experiências históricas em que pessoas sem poder podem juntas, apoiar umas às outras, aprender umas com as outras, compreender melhor o mundo, arriscar novas ideias, iniciar belos projetos — e tudo isso é perigoso, como nos lembra Noam Chomsky. Vale conhecer a história sindical para combatermos a amnésia coletiva que impede de valorizar as lutas sociais travadas pelos trabalhadores/as. Uma interessante visão sobre a importância da história foi elaborada pelos índios aymara. Esses índios do altiplano andino nos mostram que o passado não deve ficar para trás, e sim deve estar na nossa frente, porque esta é a única forma de vermos, de nos orientarmos e de nos entendermos. O futuro a gente não vê, apenas vemos o que foi vivido, sonhado e conhecido. Precisamos assim da história do sindicato e de cada um de nós. Que a nossa luta sindical esteja à altura dos nossos desafios! Afinal, se não o sindicato, o que temos como alternativa em defesa dos direitos dos professores/as enquanto trabalhadores/as, não é mesmo?

Este artigo está ilustrado com obras de Juan Genovés (1930-2020).

2 COMENTÁRIOS

  1. Priscilla, acho que parte da apatia relativa à atividade sindical é devida justamente a que os sindicatos muitas vezes são co-responsáveis pela perda de direitos. Não estou falando do caso específico dos e das professoras, mas num nível histórico.
    Acho complicado essencializar os sindicatos como ferramentas únicas, ou explicar a recusa das maiorias em unir-se ao sindicalismo a um “individualismo”. Talvez o mais importante ocorra abaixo do nível do sindicato. Sem pensar isso, nunca ficará claro porque é que em alguns casos um sindicato pode dirigir uma luta autêntica e expressiva, e em outros está abandonado às moscas da bosta dirigente. É sempre mais fácil jogar a culpa naqueles que estão escolhendo não lutar, pois assim conservamos a ideia de que o que estamos fazendo está necessariamente correto, como se o sindicato fosse sempre a resposta que faltasse. E é bem gostoso estar sempre certo, e que os demais estejam errados…

  2. Priscila, o comentário desse sindicalizado reflete bem o momento.
    Militantes implorando a participação de todos e os “apolíticos” dizendo que precisamos de outros caminhos que sejam pelo sindicato pq as diretorias dos sindicatos supostamente estariam a serviço de partidos de esquerda.
    Sem a disposição para o diálogo franco nada mudará na forma de nos organizarmos.
    Compartilho da sua decepção quanto a disposição da maioria em lutar pelo coletivo.
    O individualismo, o egoísmo, a ganância e a validade tem minado nossas relações.
    O discurso do ódio venceu essa batalha. Mas ainda tenho esperanças em um mundo melhor, mais justo, solidário, empático e amoroso.
    Enquanto a união está distante, sigo tentando fazer a minha parte como cidadão e como professor.

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