Por Leo Vinicius

Na preparação para a greve dos entregadores de aplicativos marcada para 1º de julho, começou a circular no boca a boca que a iFood liberaria 500 cadastros de entregadores OL que estavam na fila de espera, como forma de esvaziar o impacto da greve. Boato ou não, o fato disso estar circulando mostra que os motoboys que trabalham para aplicativos têm conhecimento prático de como o sistema de OL dificulta a mobilização coletiva. Entre os motoboys que participam das mobilizações, a reclamação de que os OL não param nos dias de greve é comum. Aqui apenas trago elementos para se compreender por que os entregadores OL aderem pouco às mobilizações coletivas dos entregadores de aplicativos. Antes de mais nada, cabe explicar o que é um entregador OL para o leitor em geral.

O Nuvem e o OL na iFood

Ao se cadastrar na iFood o trabalhador pode escolher entre dois sistemas de organização do trabalho: o Nuvem ou o OL. O Nuvem é o mais comum, o formato que se tornou o modelo do senso comum de trabalhadores de aplicativos, e que congrega a maioria dos entregadores da iFood. Nele o trabalhador loga e trabalha nos dias, horários e tempo que quiser (pelo menos em tese). Recebe por cada entrega realizada. Se não realizar nenhuma, nada recebe.

Já o entregador OL fica vinculado a um Operador Logístico (por isso a sigla OL). O Operador Logístico é uma espécie de terceirizado da iFood. Mais adiante veremos melhor a função dele no que nos interessa. O entregador OL possui horários específicos a cumprir e tem um dia de folga na semana, acertada com seu Operador Logístico. Portanto, tem a desvantagem evidente de menor flexibilidade de horários. A vantagem evidente fica por conta de receber um valor por cada período que fica à disposição do Operador Logístico, mesmo que não faça entrega alguma, o que pode lhe dar a segurança de receber mais de cem reais por dia. Supõe-se também que aos entregadores OL são direcionadas mais entregas, o que seria outra vantagem.

É trabalhador contra patrão, sem pára-choque

As mediações das lutas entre trabalhadores e patrões têm sido especialmente desmontadas no Brasil na última década, ou têm se tornado simplesmente irrelevantes: sindicato, Ministério do Trabalho, legislação trabalhista…

Nesse contexto político o movimento dos capitalistas de fuga dessas mediações, visando a realização ou maximização de lucros, tem talvez sua forma mais visível nas novas formas de organização em que o trabalho é espalhado para uma multidão sem vínculos de trabalho reconhecidos com a empresa. Esse é o caso das chamadas empresas de aplicativos de entrega. Mas, como aponta o ciclista ex-entregador de aplicativos inglês Callum Cant, esse vazio de legislação trabalhista, que essas empresas buscam, abre ao mesmo tempo espaço para lutas diretas, mais autônomas e mais radicais na sua forma por parte dos trabalhadores. Já não precisam anunciar greves, já não possuem instâncias de negociação e procedimentos a seguir como contrapartida à segurança que uma legislação trabalhista lhes daria. Essa “precarização” das relações de trabalho, portanto, não necessariamente implica em fraqueza dos trabalhadores. Pode abrir espaço para lutas mais contundentes. Cant mostra isso com outros exemplos históricos: os operários da construção e os estivadores ingleses. A ausência de vínculo empregatício e legislação permitia aos estivadores um forte poder de barganha através de suas lutas. O processo histórico para lhes retirar esse poder culminou na incorporação deles como empregados formais de tempo integral das empresas, com salários fixos [1].

O algoritmo apita muito mas é vacilão

Callum Cant deixa claro que para ele e para muitos outros entregadores, trabalhar como entregador da Deliveroo era um trabalho preferível a muitos outros que estão por aí, como, por exemplo, trabalhar num supermercado. Para ele o estresse de pedalar nas ruas era mais ou menos o mesmo de trabalhar cerca de 8 horas num bar ou num supermercado. O fato de não ter um chefe, um supervisor nas costas pedindo para cobrir um horário em cima da hora, ir mais rápido ou fazer isso ou aquilo, era algo que fazia diferença. Na verdade, a primeira coisa que ele reparou quando começou a trabalhar como entregador para a Deliveroo foi que era muito bom não ter um chefe ou supervisor. Havia, nas palavras dele, um senso de autonomia e independência que não era totalmente ilusório [2]. A existência e relação interpessoal com o chefe humano, como ele lembra e é parte da experiência de qualquer trabalhador, é frequentemente uma das piores coisas que os trabalhadores enfrentam.

Cant, analisando sua experiência trabalhando para a Deliveroo, mostra que o algoritmo é a automatização da supervisão. O supervisor é substituído por um “robô”. Não à toa dentro dos escritórios da Deliveroo o algoritmo era chamado de Frank. Um supervisor cujos parâmetros para distribuição dos pedidos e punição são obscuras aos entregadores.

Apesar de toda sua capacidade de coleta de dados e distribuição, aumentando a eficiência em certos aspectos, a ausência de um supervisor humano criava ineficiências – do ponto de vista da gestão patronal – em um aspecto fundamental. O supervisor, além de coordenar o processo de trabalho, tem como função disciplinar os trabalhadores. Se o algoritmo coordena o processo de trabalho com grande precisão e eficiência, no entanto ele é um vacilão quanto a disciplinar os trabalhadores.

Numa relação de trabalho assalariado clássica, um contrato de trabalho determina o tempo de trabalho (o tempo de subordinação do trabalhador ao patrão) e o salário que o trabalhador recebe por esse tempo. Mas num contrato de trabalho é impossível constar a quantidade de trabalho que o trabalhador deve realizar nesse tempo. É por isso que os patrões vão se valer de uma série de estratégias para extrair o máximo de trabalho no tempo pago. A essas estratégias se chama “organização do trabalho”, “gestão do trabalho”, “controle do processo de trabalho” ou algo do tipo.

A forma de organização do trabalho dos aplicativos de entrega, pagando por tarefa (e nem pela tarefa toda, mas apenas a partir do momento em que o entregador recolhe o pedido no restaurante até à entrega ao consumidor), é uma forma de extrair o máximo de trabalho pelo menor tempo de trabalho pago possível. Essa disputa entre quantidade de trabalho realizado e tempo pago é o núcleo em torno do qual gira a luta entre trabalhadores e patrões. Quando se paga pelo tempo do trabalhador à disposição do patrão, a função da supervisão é fazer esse valor pago ao trabalhador retornar ao patrão na forma de máximo de trabalho realizado possível. É também por receberem um mínimo por cumprirem um horário à disposição do empregador que os entregadores OL contam com a supervisão (humana) de um Operador Logístico.

O Operador Logístico exerce muito melhor a função de disciplinar o trabalhador em relação ao algoritmo, que a exerce mal e porcamente. Fazer trabalhar, o que significa também, no caso dos OL, cumprir o horário e estar disponível, é realizado com muito mais eficiência com a supervisão humana do Operador Logístico. Entre seres humanos se estabelecem vínculos de lealdade, de constrangimento, de relações de poder carregadas de afeto, que o algoritmo é incapaz de construir. A disciplina é imposta mais efetivamente quando o medo do chefe existe. O medo de ser “demitido” por não cumprir o horário acertado ou simplesmente de um “olhar humano” de reprovação, de ficar mal na fita. O fato dos entregadores OL participarem das mobilizações muito menos que os Nuvem mostra como a organização e o controle do trabalho a que os OL estão submetidos possui muito maior capacidade de disciplinar a força de trabalho. Ao menos na prática, tanto os trabalhadores quanto as empresas de aplicativos de entrega já sabem disso.

Por isso, além dos bloqueios e dos chamados bloqueios brancos utilizados para tentar disciplinar os trabalhadores de aplicativos e inibir greves no curto prazo, é provável que a expansão do sistema OL dentro da iFood, e até para as concorrentes, venha a ser uma resposta dessas empresas caso a organização e as lutas dos entregadores de aplicativos passe a ganhar a força e a continuidade suficientes para conquistarem suas reivindicações (que são hoje principalmente a de melhoria das taxas de pagamento, fim de bloqueios indevidos e melhores condições de trabalho).

Basicamente, o capital dessas empresas de entregas por aplicativos é formado pelo conjunto da multidão de entregadores, de comércios e de consumidores cadastrados e utilizando a sua plataforma. Bater para fissurar um desses três elos que formam esse capital é atacá-las bem no seu coração. Se os explorados por essas empresas descobrirem ou desenvolverem os meios para isso, terão um grande poder de barganha sobre elas, e as respostas que elas já possuem hoje para responder às lutas em curso desses trabalhadores não serão suficientes para mantê-los nas condições de trabalho e renda em que estão hoje.

Notas

[1] Callum Cant. Riding for Deliveroo: Resistance in the New Economy. Cambridge: Polity Press, 2019.
[2] Idem.

Adendo inserido no dia 23/06/2020

Hoje em dia os OL não recebem mais um valor fixo por cumprimento de horário à disposição do iFood, via Operador Logístico. Essa mudança não altera o cerne da questão, que é a tendência de extensão do OL como resposta à luta dos entregadores de aplicativos, por causa da função disciplinar que o supervisor humano cumpre de forma muito melhor do que o algoritmo. Essa mudança no entanto mostra o nível do poder soberano dessas empresas na nossa sociedade: o trabalhador tem que cumprir horário, possui chefe mas não possui direitos trabalhistas e sequer recebe salário.

11 COMENTÁRIOS

  1. não existe mecânica certa nas coisas… eu poderia ter especulado, há uns 5 anos atrás, que a criação de trabalhos com ares de autonomia, onde se poderia logar e deslogar individualmente, trabalhando individualmente, em um horário particular, seria justamente o que esgotaria a força coletiva das lutas nas formas de trabalho coletivo.
    Mas então o que está ocorrendo é o contrário. Ainda que seja apenas num detalhe, as formas mais coletivas de trabalho, mesmo que o coletiva envolva uma hierarquia, estão sendo usadas para obstaculizar a luta dos setores mais autonomizados.
    Leo, você saberia me dizer, se os OL trabalham em grupos sob um mesmo Operador Logístico? Serão grupos anônimos, ou chegam a se conhecer?
    Uma nova hipótese então é que as atuais lutas de entregadores forçará estas empresas a um “novo normal” onde a modalidade puramente autônoma será uma minoria, e a maior parte da mão de obra terá um vínculo mais direto com um ser humano (por tanto mais obviamente vinculado à empresa, independente do status legal vigente). Mais ou menos na linha do que ocorreu com os estivadores ingleses.

  2. Tudo mentira porque os ol não recebem nada igual aos nuvens antigamente recebia agora mais de um ano que não recebe .

  3. na luta,

    As cooperativas que concorrem com os aplicativos que conhecemos sofrem as mesmas limitações de cooperativas em geral na concorrência num mercado em que grandes empresas estão estabelecidas. Empresas como Uber e Rappi trabalham já com prejuízo, e eles podem bancar prejuízo pra sufocar a concorrência. Além disso tem o efeito marca (Uber vc usa em qualquer lugar do mundo sem precisar conhecer outro prestador local, quando estiver viajando, por exemplo), e o efeito de rede. O capital dessas empresas é a multidão de consumidores, estabelecimentos e trabalhadores que usam sua plataforma. Para cooperativas fazerem frente teriam que conseguir isso. E é difícil de imaginar que tenham capital pra isso. Por isso o Callum Cant, que menciono no livro, entre outros, acha mais realístico em termos de resultados favoráveis aos trabalhadores uma espécie de estatização desse tipo de serviço…

    Lucas,

    Os OL em geral conhecem os trabalhadores da mesma equipe do Operador Logístico. Há notícias de que haverá equipe inteira de OL, ou a maioria da equipe, que irá aderir à greve do dia 1 de julho.

    *** *** ***

    João,
    agradeço pela correção. De fato já tinha ouvido que os OL não recebiam mais esse fixo. O que torna a situação ainda pior, afinal tem que cumprir horária como um empregado, possuem chefe como um empregado, mas não possuem salário como um empregado. O que mostra o tremendo poder das empresas..
    Seria bom corrigir o artigo nisso, embora o cerne dele não mude: a expansão do OL como resposta às lutas devido à supervisão a que ele é submetido.

  4. O artigo traz questões muito interessantes. Num tempo em que a maioria da esquerda continua a repetir incessantemente que a luta deve ser por “mais direitos” e por formalização dos vínculos empregatícios, a luta dos trabalhadores de aplicativos começa a recordar os patrões que contrato de trabalho não é um mero “benefício” para os trabalhadores, mas mediação dos conflitos de classe. Resultado das lutas dos trabalhadores, se são conquistas, são ao mesmo tempo derrotas, recuperação desses conflitos, porque enquadram e limitam o poder real dos trabalhadores.
    Sobre a greve do dia 01/07, um ponto que chama muito a atenção é o caráter anti corporativista da pauta pelo fim dos bloqueios. Apesar da categoria ter inchado enormemente no último período, com trabalhadores de diferentes áreas se tornando entregadores (sejam desempregados, trabalhadores sob contrato suspenso, autônomos de várias áreas), e isso ter diminuído os ganhos dos entregadores mais velhos, a pauta defende menos controle e não maior regulação da profissão. Para isso, pareceu importante o elemento aleatório e pouco eficiente desse controle, que é tido como injusto e que é rechaçado pela grande maioria dos entregadores. A esse respeito, tenho dúvidas quanto ao peso que o autor dá ao fator do vínculo pessoal como elemento fundamental de controle. Ele aparece no caso dos OL, mas não me parece imprescindível: se o sistema fosse melhor implementado e tivesse regras mais claras de produtividade e ranqueamento, a categoria poderia estar mais dividida, com parte dos motoboys apoiando um controle no cadastramento para diminuir a concorrência. Me parece possível desenvolver as plataformas num sentido mais eficiente de divisão, aumentando as mediações no interior da própria informalidade, e acho que isso será tentado pelas empresas e o movimento tem que conseguir se antecipar. A pauta, também forte apesar de específica para a Rappi, pelo fim do sistema de pontuações vai nesse sentido. É fundamental que a luta contra as regulamentações em geral, contra o ranqueamento e divisões internas (como a que já existe entre OL e nuvem, apontada pelo autor) se mantenham e se fortaleçam desde já, porque se não forem feitas agora, no momento de efervescência do movimento (em que o cadastramento dos OL escancara seu viés de divisão e controle da categoria, por exemplo) depois não conseguirá ser feita.
    Pelas características do setor e o papel quase inexistente do sindicato na organização da paralisação do dia 01/07, a greve terá pelo jeito bem poucas mediações. Já chovem discussões nos grupos de entregadores sobre como o movimento lidará com os fura greves, e as propostas são variadas e radicais. A força do movimento dependerá da organização e poder real dos próprios trabalhadores; será um momento interessante para essas experimentações. Ao meu ver, há dois grandes desafios para o movimento, que se interligam: extrapolar a categoria de entregadores e carregar o espírito e as táticas dos grandes conflitos urbanos contemporâneos. Mais do que cara de greve sindical, essa greve tem que ter uma cara de revolta popular, ser uma _greve de revolta_ . Um camarada norte-americano fez uma análise interessante sobre as lutas recentes lá, mais ou menos nessas palavras: “no início da pandemia, explodiram greves nos EUA e no mundo todo, muitas delas selvagens, colocando a questão do trabalho no centro do debate. Vejo uma continuidade entre essas greves e a explosão de revolta pela morte de George Floyd (e claro que o desemprego e as mortes pelo Covid tem relação com a revolta), no entanto a ligação não está de fato consolidada, no sentido que a revolta não paralisou o trabalho. O desafio parece, então, ligar o trabalho com a revolta”. Será que o dia 01/07 começa a juntar as duas pontas?

  5. continuo com as perguntas, porque tenho quase nula relação com a categoria e menos com a convocatória para esta paralização. Mas eu não vejo imagens de assembleias ou de instâncias de organização coletiva. De fato o que o Leo comenta no artigo, sobre os OL, foi o que mais me aproximou ao cenário conhecido de um grupo de pessoas que integra uma unidade produtiva (neste caso centralizada no Operador Logístico). O setor que trabalha de forma autônoma, como toma decisões coletivas? Será uma rede altamente descentralizada como a dos manifestantes em Hong Kong? O que o João Santos comenta acima soa interessante, mas talvez eu peque de tradicionalista (ou anacrônico) porque eu acho tão estranho e difícil organizar as coisas pelos aplicativos… talvez para ações pontuais funcione bem, mas na minha experiência sempre foram bem problemáticas para a organização cotidiana. Aqui neste site já apareceram textos sobre isso, inclusive.

  6. João Santos,

    Interessante você ter salientado esse caráter de não restringir o acesso a novos trabalhadores (que vocêchamou de anticorporativismo). Nas greves na Inglaterra de que o Callum Cant participou, uma das reivindicações, conquistadas, foi congelar o ingresso de novos trabalhadores no aplicativo, porque isso estava fazendo cair a renda dos que já trabalhavam. Mas isso não tem relação com a pauta do fim dos bloqueios indevidos. Os bloqueios são como uma demissão. O que estão pedindo é o fim de demissões ou suspensões sem justa causa, para falar em termos de legislação trabalhista tradicional.

    Lucas,

    Não sou a melhor pessoa para falar da dinâmica de organização e decisão da greve. Mas sei que a data foi marcada por enquete em grupos de whatsapp em algumas cidades. De resto, lanço como hipótese para melhor compreender a dinâmica que a forma de organização reflete a forma de organização do trabalho dos aplicativos. Não li o livro do Rodrigo Nunes, mas me parece que a questão é entender a organização dessa organização sem estrutura, ou aparentemente sem estrutura.

  7. Tenho uma dúvida e ficarei muito agradecida desde já se alguém puder ajudar.
    Exatamente uma semana atrás foi feito a minha migração de nuvem para OL. Passei todos os dados relevantes para a base e no meu aplicativo apareceu a sigla de OL. Porém não fui escalada no dia seguinte a alteração a resposta do “supervisor” é que meu cadastro não consta na base dele. Fui atrás de todas as bases da minha cidade e não estou em nenhuma delas, o mesmo “supervisor” disse que isso foi um erro do ifood e que eu posso estar em qualquer base de algum estado e que está tentando resolver. Mas não me passa mais nenhuma informação. Pensei em entrar em contato com o suporte do ifood, mas me disseram que isso pode irritar as pessoas da base e eles me bloquearem por ate 90 dias. O que eu queria saber é, alguém ja passou por isso? conseguiu resolver? Posso mesmo ser bloqueada se eu tentar correr atrás de solução, já que eles não fazem nada? Estou desesperada pois no momento essa é minha única fonte de renda.

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